Imagine-se fraturando a perna, e sendo internado em uma clínica para recuperar-se, concorde ou não com isso. Também lhe informam que precisará ficar internado por alguns anos, pelo menos, nesse local. Durante todo esse tempo, a única coisa permitida será ficar sentado ou perambulando pelos corredores da clínica. E sempre terá de ficar com o gesso na perna.

É um cenário irreal, mas ilustra o tratamento a que era submetido, no passado, quem padecia de alguma enfermidade mental. E é intuitivo perceber que, nessa situação, o equilíbrio psicológico do paciente só tende a ficar mais comprometido.

 

A protociência ineficiente

Hoje, quando uma pessoa começa a ter profundos conflitos internos ou interpessoais e sofre muito com isso, pode procurar um psicólogo ou psiquiatra. É possível, assim, fazer uso de um atendimento psicoterapêutico baseado em evidências (estudos científicos) para modificar esse quadro de conflito e sofrimento. Pelo menos é o que se espera hoje da psicologia clínica.

Mas a realidade era diferente em meados do século XX, quando o tratamento podia consistir em internação em hospital psiquiátrico, banhos de água gelada, eletrochoque e mesmo lobotomia.

Hospital psiquiátrico em Barcelona — em alguns lugares as condições não mudaram muito desde o século XIX.
Hospital psiquiátrico em Barcelona — em alguns lugares as condições não mudaram muito desde o século XIX.

Nessa época, os tratamentos podiam ter eficácia em alguns casos, mas eram administrados sem método e controle. Muitas teorias de então sobre a gênese das doenças psiquiátricas também estavam, hoje sabemos, incorretas. Isso resultava em tratamentos invasivos, cujos efeitos colaterais muitas vezes deixavam o paciente pior do que estava antes do tratamento.

Também havia, na época, abordagens psiquiátricas que tratavam doenças debilitantes como a esquizofrenia utilizando o método psicanalítico, mas sem qualquer resultado. Ao menos isso é o que sugerem casos como o de John Nash, matemático que inspirou o livro e também filme Uma Mente Brilhante. Segundo sua biógrafa, a melhora no quadro de esquizofrenia de Nash deveu-se a um caso raro de recuperação espontânea, e não às intervenções terapêuticas psicanalíticas ou psiquiátricas a que foi submetido

John Nash não voltou a ser um prodígio na matemática por causa de terapia, mas por uma aparente remissão espontânea do quadro de esquizofrenia.
John Nash não voltou a ser um prodígio na matemática por causa de terapia, mas por uma aparente remissão espontânea do quadro de esquizofrenia.

Nise da Silveira: a expressão e a ressocialização dos pacientes

É nesse cenário que, no Brasil, Rio de Janeiro, surge a psiquiatra Nise da Silveira. A médica era seguidora das teorias de Carl Jung, discípulo de Freud que se afastou do mestre para desenvolver sua própria versão de psicologia dinâmica, a psicologia analítica ou junguiana.

Em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, Nise transformou um espaço miserável em um estúdio repleto de quadros pintados pelos próprios pacientes. Seu trabalho mostrou que um tratamento bem sucedido inclui a ressocialização dos internados, o que em parte pode ser estimulado por técnicas de autoexpressão.

Nise da Silveira e uma de suas pacientes, Adelina.
Nise da Silveira e uma de suas pacientes, Adelina.

É basicamente essa história que Nise: O Coração da Loucura, conta.

Porém, e sem que isso afete o mérito de sua qualidade técnica, o filme reflete o idealismo brasileiro em relação aos transtornos mentais e seu tratamento.

O título em parte já sugere essa visão ingênua. Falar em “coração da loucura” pressupõe que se pode descobrir a essência da loucura, para além de combater seus sintomas.

É possível observar durante todo o filme um ar de “tudo que esses ‘loucos’ necessitam é mais compaixão”. De um lado, estão os psiquiatras, todos de branco, com óculos, olhar e fala distanciados. Eles manipulam os pacientes como se fossem ratos. De outro lado, Nise da Silveira e seu olhar terno, compassivo. Ela é quase uma monja budista inserida num ambiente mundano e hostil.

Essa simplificação da realidade presente no filme é, na verdade, o resultado dos pressupostos da teoria psicanalítica: a ideia de que há, nos pacientes, uma profundidade psíquica que a psicanálise precisa e pode desvendar. Também essa é a razão de psicanalistas criticarem abordagens mais eficientes como a terapia cognitivo-comportamental ou a psiquiatria e seus tratamentos farmacológicos.

O filme, ao adotar tais pressupostos, nada mais faz do que evidenciar o quanto essa visão idealista afetou o típico intelectual brasileiro. Na verdade, parece que os acadêmicos brasileiros da área de humanas foram todos alfabetizados em psicanálise.

 

A intelligentsia tupiniquim no divã

Psicanálise é o nome da disciplina que Freud criou no início do século passado, inspirado pelo material clínico fornecido por seus pacientes. Com base nisso, o neurologista austríaco criou modelos sobre como funcionaria o chamado aparelho psíquico.

E foi a divulgação da psicanálise que tornou popular, no século passado, o conceito de inconsciente, do qual Schopenhauer falava já no século dezenove. E não demorou que esse conceito transbordasse, junto com a psicanálise, do âmbito clínico para desaguar em outras áreas, como a antropologia, a sociologia e a ciência da religião.

Foucault posando de intelectual ou intelectual posando de Foucault?
Foucault posando de intelectual ou intelectual posando de Foucault?

Segundo O Livro Negro da Psicanálisepolêmica obra lançada em 2005 para questionar o legado de Freudo Brasil é um dos países em que a tradição psicanalítica é mais forte, ao lado da Argentina e da França. E como profissional, constato que as modalidades herdeiras da psicanálise, criadas por discípulos ou ex-discípulos de Freud (como Jung), também têm entrada franca por aqui.

Não causa surpresa, portanto, que a intelectualidade brasileira tenha sido influenciada pelo modelo psicanalítico e suas variações.

Sempre que o típico intelectual brasileiro fala de qualquer assunto, acaba invocando, ainda que superficialmente, conceitos psicanalíticos. Essa característica, porém, deixou a intelligentsia brasileira um pouco defasada em relação à intelectualidade de outras culturas, pois há tempos a psicologia foi muito além da psicanálise.

Por exemplo, um dos problemas é que, muitas vezes, no Brasil, somos vítimas de certos clichês, como afirmar que “os transtornos são ficções criadas pela indústria farmacêutica”. Outro lugar comum é afirmar que “pessoas com transtornos são apenas pessoas diferentes e não aceitas pela sociedade”. E essa é a receita para entender errado o tipo de inovação que Nise trouxe para aquele espaço no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro — e foi esse o erro no qual o filme incorreu.

Mas o principal equívoco não é de natureza cinematográfica. A forma como a história de Nise foi tratada apenas torna evidente uma das maiores limitações dos intelectuais e acadêmicos brasileiros — salvo exceções, claro. Essas limitações determinarão o quão defasados estaremos futuramente em relação à outras culturas.

No Brasil, uma quantidade impressionante de estudantes da área de humanas estão hoje reproduzindo estereótipos antigos como se fossem a realidade ainda presente no atendimento clínico. Décadas de novas pesquisas, mudança de conceitos e métodos são ignoradas.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
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  • Mateus Schroeder Silva

    Aquele sincero “Obrigado por avisar”.

  • Delano Aragão

    Felipe, você poderia ter falado também sobre o movimento antipsiquiatria e a Luta Antimanicomial, que estão bem ligados a essa intelligensia à qual você se refere.

    Digo, apesar de terem suas contribuições, essas correntes acabam aumentando o estigma contra os transtornos mentais, a psicologia e a psiquiatria. Ainda há uma visão romântica do funcionamento da mente.

    Sem contar que o debate sobre uma alternativa de tratamento plausível e eficaz, além de cientificamente embasada, é praticamente inexistente nesses nichos. O que importa é fechar hospitais psiquiátricos e demonizar a psicofarmacologia. Como se Foucault, ou até Szas, fossem mais relevantes para o tratamento de distúrbios mentais do que a ciência contemporânea.

    • Exatamente, Delano.

      Ah, sobre abordar isso no texto…eu até pensei, mas minha intenção era fazer um texto mais enxuto. Expandir a questão para esses temas levaria inevitavelmente a um texto longo.

      Quem sabe eu volte, então, a abordar isso numa próxima vez. 🙂

  • Zenio Silva

    Como saber que o autor não teria embarcado na mesma canoa dos que critica?! Vejam que, também ele, superficialmente, está a prontificar sobre supostos avanços ignorados pelos seus colegas, menos por ele, claro!
    O que será que o distingue?! Imaginar-se uma exceção é a coisa mais comum na ciência, não é mesmo?

    • E aí, Zenio.

      De fato o texto pode ter ficado com um ar de “eu estou certo, eles estão errados”. Tenho pra mim que seja o pouco espaço pra escrever. Falando sinceramente: quis me treinar a escrever coisas mais curtas. Tenho o costume de me alongar muito. Enfim, testes mesmo.

      O fato é que a psiquiatria hoje continua tendo seus problemas, alguns novos problemas até. Negar isso está fora de questão.

      Mas o filme acaba assumindo um tom muito maniqueísta. A realidade não é tão preto no branco. Acho que fazer um roteiro assim hoje em dia é apelar pra um estilo que não atrai mais um público mais qualificado.

      Só que esse filme é tudo que a intelectualidade brasileira gostaria de ouvir, entende? Porque o típico intelectual brasileiro tem certo negacionismo em relação à ciência, em relação ao capitalismo, em relação à psiquiatria. Enfim, são muitos clichês.

      • Zenio Silva

        Olá Felipe!
        Não só a psiquiatria tem seus problemas… Não quis entrar no mérito do filme por dois motivos, primeiro por não ser da área, segundo por não tê-lo assistido. Bom, poderás pergunta então: não sendo da área e não tendo assistindo o filme por que te metes?! Veja que só questionei a atitude da excepcionalidade… Pode ser, realmente, que seja por conta do espaço disponível e, como diz a teoria da comunicação, a mensagem é o que o receptor entende, não é isso?!
        Agora, fando em clichês, essa tua última frase (“Porque o típico intelectual brasileiro tem certo negacionismo em relação à ciência, em relação ao capitalismo, em relação à psiquiatria. Enfim, são muitos clichês.”) é emblemática, não achas?! Não estarás tendo um comportamento típico desse intelectual que julgas típico?
        Sds.

        • Por que seria o meu comportamento clichê igual ao do típico intelectual brasileiro, já que to falando coisas opostas ao que eles falam?

          • Zenio Silva

            Desculpe-me, mas apenas perguntei se determinada afirmação tua não estaria indo na linha desse comportamento que identificas nesse tal intelectual típico?!

          • Mas o que levou vc a afirmar isso?

          • Zenio Silva

            Não afirmei nada! De novo, perguntei se uma afirmação tua, aquela que atribui ao típico intelectual brasileiro um ‘negacionismo’ (sic) etc…, não está na linha de comportamento que estás a criticar?!