Em quatro artigos, farei uma análise de quatro filmes de Lars von Trier. Não são críticas ou ponderações cinematográficas, mas abordagens existenciais sobre Ninfomaníaca, Anticristo, Melancolia e Os Idiotas. A temática evidente nos filmes de Lars von Trier é a condição humana, e poucos diretores abordam questões existenciais com tamanha franqueza.

Começo a análise pelo seu último filme, Ninfomaníaca, pois em vários aspectos nessa obra Lars retoma e sintetiza temáticas apresentadas nos outros três filmes. Seguiremos, portanto, o caminho inverso ao da data de produção das quatro obras.

É recomendável aos leitores que assistam aos filmes antes de lerem este e os outros três artigos.

1. NINFOMANÍACA NÃO É SOBRE SEXO

Jamais imaginei que isso aconteceria: um filme do Lars Von Trier virar modinha. Os cinemas estão cheios, comedores de pipoca (não é preconceito, na minha sessão havia uma orquestra de pipocas) e pessoas com gargalhadas nervosas infestam as salas. Durante a exibição do filme nos cinemas circularam até memes brincando com os cartazes de Ninfomaníaca.

Num mundo onde falar de sexo é obrigatório (se você não quer pagar de mal-resolvido ou conservador), ver um badalado filme sobre sexo é um imperativo social. Num país como o Brasil, em que a superexposição da sexualidade é um brochante obstáculo ao exercício da autêntica sensualidade, assistir à obra erótica de um descolado diretor é apenas uma maneira de se sentir incluído.

O problema é que Ninfomaníaca não é um filme erótico. Muito menos um filme que fala sobre sexo.

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Na verdade, o filme mantém a mesma temática já presente nas duas obras anteriores do diretor, Anticristo e Melancolia: a mulher enquanto veículo do caos e da carnalidade – carnalidade essa que ameaça a pretensão masculina de escapar da verdade sobre a condição humana por meio de seu mirrado mundo de ideias, de suas pretensões cartesianas.

É o mesmo embate. Se em Anticristo temos a esposa e o marido diante de uma tragédia familiar, e em Melancolia temos Justine e seu cunhado John diante de uma tragédia de proporções planetárias, em Ninfomaníaca a protagonista Joe narra sua história de devassidões a Seligman, um homem de cultura enciclopédica que nada conhece do mundo carnal, tendo como pano de fundo uma tragédia cujos meandros só iremos conhecer no momento final.

Também há, como em Melancolia e em Anticristo, a associação da mulher com um poder descontrolado e destrutivo, relacionado às bacantes e ninfas da mitologia grega e ao diabo e bruxas da tradição medieval.

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Quando Seligman diz à Joe que divide o mundo entre aqueles que cortam primeiro as unhas da mão esquerda e aqueles que começam com a mão direita, esse parece ser um diálogo bobo, destinado apenas a deixar claro que Joe é alguém cujo problema seria priorizar o prazer em detrimento das obrigações. Mas é possível que Lars esteja retomando (na verdade, sequer abandonou) o universo simbólico com que flertou em Anticristo. Na tradição esotérica ocidental, “caminho da mão direita” e “caminho da mão esquerda” são expressões usuais, sendo que o último está associado com aqueles que escolhem a magia negra ou a associação com figuras demoníacas. Aliás, o Vachamara (em sânscrito, “caminho da mão esquerda”) é uma linha da tradição védica que inclui a prática de sexo tântrico como forma de desenvolvimento espiritual.

Também a associação entre pecado (tema já do primeiro diálogo entre Joe e Seligman) e a figura da mulher está tão presente em Ninfomaníaca quanto em Anticristo. Ainda jovem, Joe entra para um clube de meninas cujos “rituais” ecoam os convens (grupos de feiticeiras) da Idade Média. O lema desse clubinho de adolescentes que se declaram inimigas do amor é, a um só tempo, escracho descarado de uma frase presente na liturgia católica e demonstração do vínculo que o diretor pretende fazer entre o órgão sexual feminino e o pecado original: mea vulva, mea maxima vulva. Aqui ecoa uma das cenas mais violentas de Anticristo, aquela com a tesoura. E o grupo de meninas ainda adota como melodia representativa de suas aspirações um conjunto de notas musicais que Seligman reconhece, imediatamente, como sendo a de um exemplo do paradoxo trítono: notas que eram consideradas “diabólicas” na Idade Média e que costumam ser utilizadas em filmes de terror.

2. A OPRESSÃO PELO HOMEM: A FRUSTRAÇÃO SEXUAL E O EXERCÍCIO DO PODER

Escapando dessa temática “diabólica”, há outros aspectos interessantes a abordar em Ninfomaníaca. No início da trama, Joe aceita ter intercursos sexuais com qualquer homem, mas se recusa a transar com Jerôme, que lhe tirou a virgindade como se fosse um ato mecânico, menos interessante que concertar uma motocicleta. Dessa rejeição surgem duas coisas.

A primeira é a relação de poder: frustrado sexualmente, o sujeito aproveita-se da sua posição de chefe para impor-se a Joe. Isso não deixa de ecoar a ideia de Wilhem Reich, que estabelece uma polarização tensa entre livre manifestação da sexualidade, de um lado, e exercício do poder, de outro. Os obstáculos à manifestação da sexualidade resultam na estratificação social, na criação de sistemas hierárquicos e no exercício impiedoso do poder resultante dessas estruturas.

Tetralogia Tiers - Ninfomaníaca

E Joe escapa dessa imposição do poder hierárquico simplesmente evidenciando o que está por trás dela: um menino assustado, inseguro, inábil em tentar concertar uma motocicleta ou estacionar um carro sem a ajuda da mulher. É percebendo a criança assustada que está por trás do homem ameaçador que Joe desmonta a armadilha. A personagem de Lars von Trier é decididamente “diabólica”: nenhuma tática masculina consegue exercer controle sobre seu espírito – ou melhor, sobre seu desejo.


Aliás, Joe, uma devassa que dá pra qualquer um, recusa-se a atender aos desejos justamente do primeiro homem com quem estabelece uma relação de poder. Lembremos aqui da música Geni e o Zepelim de Chico Buarque, em que a personagem nega favores sexuais justamente para o homem que demonstra todo o seu poder perante uma cidade atormentada.

Mas, na verdade, o primeiro homem com quem Joe estabelece uma relação de poder não é Jerôme, e sim seu pai. Poderíamos aqui desenvolver uma longa especulação freudiana de que, no fundo, Joe é ninfomaníaca porque se recusa a ser afetivamente infiel a seu pai, único homem que decidiu amar – mas não vou trilhar esse caminho pois ele, além de enfadonho, é pouco criativo.

3. A OPRESSÃO PELA MULHER: O AMOR ROMÂNTICO E O AMOR MATERNO

Por outro lado, dessa negativa de manter um intercurso sexual com Jerôme surge outra coisa além da relação de poder: brota o primeiro esboço de relação romântica na vida de Joe. O adiamento da satisfação sexual seria condição para o desenvolvimento do romantismo? É a manifestação sexual reprimida também origem dos ideais de amor romântico? Sabemos que a tradição do amor romântico surgiu nas novelas de cavalaria da Idade Média, curiosamente em um período de forte repressão sexual. Não seria esse amor romântico, presente em todas as novelas e filmes “água-com-açúcar”, irmão gêmeo das relações de poder criadas pelos homens para lidar com a sexualidade feminina?

E aí vai uma questão que talvez renda toda uma teoria, uma série de textos capazes de colocar fogo entre feministas e machistas, embora eu tenha certeza de que não é uma ideia original. O amor romântico talvez seja uma das últimas prisões machistas, destinada a tentar controlar as mulheres. Seria, nesse caso, a prisão mais insidiosa, pois está presente em todo desenvolvimento da mulher desde sua infância, com filmes e novelas martelando esse ideal romântico na mente feminina. Associando o ideal romântico ao casamento, e esse à realização da mulher, ao seu reconhecimento pela sociedade, domestica-se o desejo sexual feminino para que ele esteja apenas disponível segundo determinadas regras do jogo, compreensíveis para os homens, porque manipuláveis. O romantismo seria uma maneira de o homem estabelecer as regras do jogo segundo as quais uma mulher pode/deve estar disponível sexualmente.

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E temos, na personagem “Sra. H”, interpretada por Uma Thurman, a imagem da mulher cuja personalidade foi moldada pelo ideal romântico e pelo coroamento desse ideal, o casamento indissolúvel. Temos na Sra. H uma mulher tão deformada pelo peso do papel que desempenha perante a sociedade que sua figura chega a ser caricata. Se de uma sociedade machista, fundada na contenção do desejo sexual, nasce, do lado dos homens, a figura do poder masculino exercido por meio da estratificação social, essa mesma sociedade faz nascer, do lado das mulheres, uma contraparte a esse exercício abusivo do poder: a mãe que a tudo manipula com a retórica da vitimização – um comportamento aparentemente passivo mas essencialmente agressivo.

Por séculos esse foi o único espaço em que a mulher, quando frustrada sexualmente, conseguia sublimar seu desejo mediante o exercício de algum poder: o poder sobre os filhos é o poder exercido no âmbito da pequena hierarquia familiar. Mas, embora de reduzido tamanho, essa estrutura hierárquica controlada pela mãe está no centro da sociedade tradicional, e manipula os homens do futuro justamente quando são mais suscetíveis de serem impressionados: quando são crianças. Na cadeia da estrutura machista que mantém a mulher aprisionada, há sempre um elo chamado mãe. Curiosamente, no caso de Joe, esse elo era fraco, quase ausente.

4. PREENCHA TODOS OS TEUS BURACOS

Em meio a esses mecanismos que impedem a livre manifestação da sexualidade feminina, surge Joe, “irmã” da Justine de Melancolia, “irmã” daquela mãe sem filhos de Anticristo. Ela é o elemento que traz a desordem, naturalmente criminosa ou pecadora diante não apenas de um sistema religioso que a vê como uma espécie de bruxa medieval, mas diante de toda uma lógica social na qual o poder se alimenta da negativa de satisfação sexual, e o romantismo é utilizado para domesticar as mulheres.


A cena da morte do pai talvez seja um dos momentos principais do filme. A temática não seria a sexualidade, mas o uso da sexualidade como instrumento para abrir um caminho que faz uma curva para a esquerda, na direção dos aspectos obscuros e indesejados de nossa natureza. E esse caminho leva à vivência daquelas verdades um tanto desagradáveis sobre a condição humana: a solidão fundamental que há em todo ser (que Joe experimentou ainda menina) e a finitude inafastável de nossas vidas (que Joe testemunha nos últimos dias de seu pai). Novamente, em preto e branco e citando um conto de degradação e desesperança escrito por Edgar Allan Poe, o filme nos remete à mesma temática presente em Melancolia.

Na segunda parte do filme, temos a confirmação de que Ninfomaníaca não fala essencialmente de sexualidade, mas da condição humana – mais exatamente, da condição daqueles que, como uma árvore naturalmente torta (ou feia e assustadora, como a árvore sem folhas de Anticristo), tem a personalidade naturalmente inclinada para o erro, para prosseguir na direção do lado obscuro da existência. Joe não se identifica com os testemunhos das mulheres que se reúnem para tratar sua compulsão sexual – o seu problema não é essencialmente o sexo, pois a sexualidade é apenas o instrumento mais eficiente que encontrou para, pela disseminação do caos e do sofrimento, abrir seu caminho na direção da total escuridão.

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É por tal razão que Joe decide abandonar esse instrumento, o sexo, e escolher uma arma mais direta – a violência gratuita. Ela se torna uma agressora de aluguel, capaz de infligir sofrimento a estranhos com técnicas sofisticadas e cruéis. E quando ela estabelece um limite, consistente em jamais matar suas vítimas, não é por valorizar a vida humana, mas porque precisa estabelecer um tabu que possa transgredir em algum momento, como etapa ritual para acessar a escuridão profunda.

Não nos enganemos: toda a tragédia emocional que Joe vivencia com sua pupila e seu ex-marido, a grande humilhação de jazer no chão enquanto eles copulam e, por fim, servir de mictório para a mulher que antes amava, são apenas as etapas iniciais desse ritual. E no final desse ritual está a transgressão daquele tabu antes estabelecido – o assassinato.

Quando Joe pratica esse crime, o espectador não vê nada. Ele está, na sala de cinema, na total escuridão. A cada “pecado” e crime praticado durante sua história, Joe foi abrindo caminho na direção de um estado tão arquetípico e demoníaco que Lars von Trier só conseguiu representar dessa forma: mergulhando o espectador no negrume. Durante uma vida tormentosa e repleta de devassidão, Joe descobriu uma forma de curar a sua angústia existencial, aquele vazio que sentiu de forma tão pungente quando seu pai estava agonizando no hospital: ela percebeu que poderia preencher todos os seus buracos com trevas.


Leia mais sobre as obras de Lars Von Trier:

Tetralogia Trier – Melancolia
Tetralogia Trier – Anticristo

escrito por:

Victor Lisboa

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