Tetralogia Trier - Ninfomaníaca

Ninfomaníaca

Em Comportamento por Victor LisboaComentários

Em qua­tro arti­gos, farei uma aná­lise de qua­tro fil­mes de Lars von Trier. Não são crí­ti­cas ou pon­de­ra­ções cine­ma­to­grá­fi­cas, mas abor­da­gens exis­ten­ci­ais sobre Nin­fo­ma­níaca, Anti­cristo, Melan­co­lia e Os Idi­o­tas. A temá­tica evi­dente nos fil­mes de Lars von Trier é a con­di­ção humana, e pou­cos dire­to­res abor­dam ques­tões exis­ten­ci­ais com tama­nha fran­queza.

Começo a aná­lise pelo seu último filme, Nin­fo­ma­níaca, pois em vários aspec­tos nessa obra Lars retoma e sin­te­tiza temá­ti­cas apre­sen­ta­das nos outros três fil­mes. Segui­re­mos, por­tanto, o cami­nho inverso ao da data de pro­du­ção das qua­tro obras.

É reco­men­dá­vel aos lei­to­res que assis­tam aos fil­mes antes de lerem este e os outros três arti­gos.

1. NINFOMANÍACA NÃO É SOBRE SEXO

Jamais ima­gi­nei que isso acon­te­ce­ria: um filme do Lars Von Trier virar modi­nha. Os cine­mas estão cheios, come­do­res de pipoca (não é pre­con­ceito, na minha ses­são havia uma orques­tra de pipo­cas) e pes­soas com gar­ga­lha­das ner­vo­sas infes­tam as salas. Durante a exi­bi­ção do filme nos cine­mas cir­cu­la­ram até memes brin­cando com os car­ta­zes de Nin­fo­ma­níaca.

Num mundo onde falar de sexo é obri­ga­tó­rio (se você não quer pagar de mal-resol­vido ou con­ser­va­dor), ver um bada­lado filme sobre sexo é um impe­ra­tivo social. Num país como o Bra­sil, em que a supe­rex­po­si­ção da sexu­a­li­dade é um bro­chante obs­tá­culo ao exer­cí­cio da autên­tica sen­su­a­li­dade, assis­tir à obra eró­tica de um des­co­lado dire­tor é ape­nas uma maneira de se sen­tir incluído.

O pro­blema é que Nin­fo­ma­níaca não é um filme eró­tico. Muito menos um filme que fala sobre sexo.

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Na ver­dade, o filme man­tém a mesma temá­tica já pre­sente nas duas obras ante­ri­o­res do dire­tor, Anti­cristo e Melan­co­lia: a mulher enquanto veí­culo do caos e da car­na­li­dade — car­na­li­dade essa que ame­aça a pre­ten­são mas­cu­lina de esca­par da ver­dade sobre a con­di­ção humana por meio de seu mir­rado mundo de ideias, de suas pre­ten­sões car­te­si­a­nas.

É o mesmo embate. Se em Anti­cristo temos a esposa e o marido diante de uma tra­gé­dia fami­liar, e em Melan­co­lia temos Jus­tine e seu cunhado John diante de uma tra­gé­dia de pro­por­ções pla­ne­tá­rias, em Nin­fo­ma­níaca a pro­ta­go­nista Joe narra sua his­tó­ria de devas­si­dões a Selig­man, um homem de cul­tura enci­clo­pé­dica que nada conhece do mundo car­nal, tendo como pano de fundo uma tra­gé­dia cujos mean­dros só ire­mos conhe­cer no momento final.

Tam­bém há, como em Melan­co­lia e em Anti­cristo, a asso­ci­a­ção da mulher com um poder des­con­tro­lado e des­tru­tivo, rela­ci­o­nado às bacan­tes e nin­fas da mito­lo­gia grega e ao diabo e bru­xas da tra­di­ção medi­e­val.

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Quando Selig­man diz à Joe que divide o mundo entre aque­les que cor­tam pri­meiro as unhas da mão esquerda e aque­les que come­çam com a mão direita, esse parece ser um diá­logo bobo, des­ti­nado ape­nas a dei­xar claro que Joe é alguém cujo pro­blema seria pri­o­ri­zar o pra­zer em detri­mento das obri­ga­ções. Mas é pos­sí­vel que Lars esteja reto­mando (na ver­dade, sequer aban­do­nou) o uni­verso sim­bó­lico com que fler­tou em Anti­cristo. Na tra­di­ção eso­té­rica oci­den­tal, “cami­nho da mão direita” e “cami­nho da mão esquerda” são expres­sões usu­ais, sendo que o último está asso­ci­ado com aque­les que esco­lhem a magia negra ou a asso­ci­a­ção com figu­ras demo­nía­cas. Aliás, o Vacha­mara (em sâns­crito, “cami­nho da mão esquerda”) é uma linha da tra­di­ção védica que inclui a prá­tica de sexo tân­trico como forma de desen­vol­vi­mento espi­ri­tual.

Tam­bém a asso­ci­a­ção entre pecado (tema já do pri­meiro diá­logo entre Joe e Selig­man) e a figura da mulher está tão pre­sente em Nin­fo­ma­níaca quanto em Anti­cristo. Ainda jovem, Joe entra para um clube de meni­nas cujos “ritu­ais” ecoam os con­vens (gru­pos de fei­ti­cei­ras) da Idade Média. O lema desse clu­bi­nho de ado­les­cen­tes que se decla­ram ini­mi­gas do amor é, a um só tempo, escra­cho des­ca­rado de uma frase pre­sente na litur­gia cató­lica e demons­tra­ção do vín­culo que o dire­tor pre­tende fazer entre o órgão sexual femi­nino e o pecado ori­gi­nal: mea vulva, mea maxima vulva. Aqui ecoa uma das cenas mais vio­len­tas de Anti­cristo, aquela com a tesoura. E o grupo de meni­nas ainda adota como melo­dia repre­sen­ta­tiva de suas aspi­ra­ções um con­junto de notas musi­cais que Selig­man reco­nhece, ime­di­a­ta­mente, como sendo a de um exem­plo do para­doxo trí­tono: notas que eram con­si­de­ra­das “dia­bó­li­cas” na Idade Média e que cos­tu­mam ser uti­li­za­das em fil­mes de ter­ror.

2. A OPRESSÃO PELO HOMEM: A FRUSTRAÇÃO SEXUAL E O EXERCÍCIO DO PODER

Esca­pando dessa temá­tica “dia­bó­lica”, há outros aspec­tos inte­res­san­tes a abor­dar em Nin­fo­ma­níaca. No iní­cio da trama, Joe aceita ter inter­cur­sos sexu­ais com qual­quer homem, mas se recusa a tran­sar com Jerôme, que lhe tirou a vir­gin­dade como se fosse um ato mecâ­nico, menos inte­res­sante que con­cer­tar uma moto­ci­cleta. Dessa rejei­ção sur­gem duas coi­sas.

A pri­meira é a rela­ção de poder: frus­trado sexu­al­mente, o sujeito apro­veita-se da sua posi­ção de chefe para impor-se a Joe. Isso não deixa de ecoar a ideia de Wilhem Reich, que esta­be­lece uma pola­ri­za­ção tensa entre livre mani­fes­ta­ção da sexu­a­li­dade, de um lado, e exer­cí­cio do poder, de outro. Os obs­tá­cu­los à mani­fes­ta­ção da sexu­a­li­dade resul­tam na estra­ti­fi­ca­ção social, na cri­a­ção de sis­te­mas hie­rár­qui­cos e no exer­cí­cio impi­e­doso do poder resul­tante des­sas estru­tu­ras.

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E Joe escapa dessa impo­si­ção do poder hie­rár­quico sim­ples­mente evi­den­ci­ando o que está por trás dela: um menino assus­tado, inse­guro, iná­bil em ten­tar con­cer­tar uma moto­ci­cleta ou esta­ci­o­nar um carro sem a ajuda da mulher. É per­ce­bendo a cri­ança assus­tada que está por trás do homem ame­a­ça­dor que Joe des­monta a arma­di­lha. A per­so­na­gem de Lars von Trier é deci­di­da­mente “dia­bó­lica”: nenhuma tática mas­cu­lina con­se­gue exer­cer con­trole sobre seu espí­rito — ou melhor, sobre seu desejo.

Aliás, Joe, uma devassa que dá pra qual­quer um, recusa-se a aten­der aos dese­jos jus­ta­mente do pri­meiro homem com quem esta­be­lece uma rela­ção de poder. Lem­bre­mos aqui da música Geni e o Zepe­lim de Chico Buar­que, em que a per­so­na­gem nega favo­res sexu­ais jus­ta­mente para o homem que demons­tra todo o seu poder perante uma cidade ator­men­tada.

Mas, na ver­dade, o pri­meiro homem com quem Joe esta­be­lece uma rela­ção de poder não é Jerôme, e sim seu pai. Pode­ría­mos aqui desen­vol­ver uma longa espe­cu­la­ção freu­di­ana de que, no fundo, Joe é nin­fo­ma­níaca por­que se recusa a ser afe­ti­va­mente infiel a seu pai, único homem que deci­diu amar — mas não vou tri­lhar esse cami­nho pois ele, além de enfa­do­nho, é pouco cri­a­tivo.

3. A OPRESSÃO PELA MULHER: O AMOR ROMÂNTICO E O AMOR MATERNO

Por outro lado, dessa nega­tiva de man­ter um inter­curso sexual com Jerôme surge outra coisa além da rela­ção de poder: brota o pri­meiro esboço de rela­ção român­tica na vida de Joe. O adi­a­mento da satis­fa­ção sexual seria con­di­ção para o desen­vol­vi­mento do roman­tismo? É a mani­fes­ta­ção sexual repri­mida tam­bém ori­gem dos ide­ais de amor român­tico? Sabe­mos que a tra­di­ção do amor român­tico sur­giu nas nove­las de cava­la­ria da Idade Média, curi­o­sa­mente em um período de forte repres­são sexual. Não seria esse amor român­tico, pre­sente em todas as nove­las e fil­mes “água-com-açú­car”, irmão gêmeo das rela­ções de poder cri­a­das pelos homens para lidar com a sexu­a­li­dade femi­nina?

E aí vai uma ques­tão que tal­vez renda toda uma teo­ria, uma série de tex­tos capa­zes de colo­car fogo entre femi­nis­tas e machis­tas, embora eu tenha cer­teza de que não é uma ideia ori­gi­nal. O amor român­tico tal­vez seja uma das últi­mas pri­sões machis­tas, des­ti­nada a ten­tar con­tro­lar as mulhe­res. Seria, nesse caso, a pri­são mais insi­di­osa, pois está pre­sente em todo desen­vol­vi­mento da mulher desde sua infân­cia, com fil­mes e nove­las mar­te­lando esse ideal român­tico na mente femi­nina. Asso­ci­ando o ideal român­tico ao casa­mento, e esse à rea­li­za­ção da mulher, ao seu reco­nhe­ci­mento pela soci­e­dade, domes­tica-se o desejo sexual femi­nino para que ele esteja ape­nas dis­po­ní­vel segundo deter­mi­na­das regras do jogo, com­pre­en­sí­veis para os homens, por­que mani­pu­lá­veis. O roman­tismo seria uma maneira de o homem esta­be­le­cer as regras do jogo segundo as quais uma mulher pode/deve estar dis­po­ní­vel sexu­al­mente.

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E temos, na per­so­na­gem “Sra. H”, inter­pre­tada por Uma Thur­man, a ima­gem da mulher cuja per­so­na­li­dade foi mol­dada pelo ideal român­tico e pelo coro­a­mento desse ideal, o casa­mento indis­so­lú­vel. Temos na Sra. H uma mulher tão defor­mada pelo peso do papel que desem­pe­nha perante a soci­e­dade que sua figura chega a ser cari­cata. Se de uma soci­e­dade machista, fun­dada na con­ten­ção do desejo sexual, nasce, do lado dos homens, a figura do poder mas­cu­lino exer­cido por meio da estra­ti­fi­ca­ção social, essa mesma soci­e­dade faz nas­cer, do lado das mulhe­res, uma con­tra­parte a esse exer­cí­cio abu­sivo do poder: a mãe que a tudo mani­pula com a retó­rica da viti­mi­za­ção — um com­por­ta­mento apa­ren­te­mente pas­sivo mas essen­ci­al­mente agres­sivo.

Por sécu­los esse foi o único espaço em que a mulher, quando frus­trada sexu­al­mente, con­se­guia subli­mar seu desejo medi­ante o exer­cí­cio de algum poder: o poder sobre os filhos é o poder exer­cido no âmbito da pequena hie­rar­quia fami­liar. Mas, embora de redu­zido tama­nho, essa estru­tura hie­rár­quica con­tro­lada pela mãe está no cen­tro da soci­e­dade tra­di­ci­o­nal, e mani­pula os homens do futuro jus­ta­mente quando são mais sus­ce­tí­veis de serem impres­si­o­na­dos: quando são cri­an­ças. Na cadeia da estru­tura machista que man­tém a mulher apri­si­o­nada, há sem­pre um elo cha­mado mãe. Curi­o­sa­mente, no caso de Joe, esse elo era fraco, quase ausente.

4. PREENCHA TODOS OS TEUS BURACOS

Em meio a esses meca­nis­mos que impe­dem a livre mani­fes­ta­ção da sexu­a­li­dade femi­nina, surge Joe, “irmã” da Jus­tine de Melan­co­lia, “irmã” daquela mãe sem filhos de Anti­cristo. Ela é o ele­mento que traz a desor­dem, natu­ral­mente cri­mi­nosa ou peca­dora diante não ape­nas de um sis­tema reli­gi­oso que a vê como uma espé­cie de bruxa medi­e­val, mas diante de toda uma lógica social na qual o poder se ali­menta da nega­tiva de satis­fa­ção sexual, e o roman­tismo é uti­li­zado para domes­ti­car as mulhe­res.

A cena da morte do pai tal­vez seja um dos momen­tos prin­ci­pais do filme. A temá­tica não seria a sexu­a­li­dade, mas o uso da sexu­a­li­dade como ins­tru­mento para abrir um cami­nho que faz uma curva para a esquerda, na dire­ção dos aspec­tos obs­cu­ros e inde­se­ja­dos de nossa natu­reza. E esse cami­nho leva à vivên­cia daque­las ver­da­des um tanto desa­gra­dá­veis sobre a con­di­ção humana: a soli­dão fun­da­men­tal que há em todo ser (que Joe expe­ri­men­tou ainda menina) e a fini­tude ina­fas­tá­vel de nos­sas vidas (que Joe tes­te­mu­nha nos últi­mos dias de seu pai). Nova­mente, em preto e branco e citando um conto de degra­da­ção e deses­pe­rança escrito por Edgar Allan Poe, o filme nos remete à mesma temá­tica pre­sente em Melan­co­lia.

Na segunda parte do filme, temos a con­fir­ma­ção de que Nin­fo­ma­níaca não fala essen­ci­al­mente de sexu­a­li­dade, mas da con­di­ção humana — mais exa­ta­mente, da con­di­ção daque­les que, como uma árvore natu­ral­mente torta (ou feia e assus­ta­dora, como a árvore sem folhas de Anti­cristo), tem a per­so­na­li­dade natu­ral­mente incli­nada para o erro, para pros­se­guir na dire­ção do lado obs­curo da exis­tên­cia. Joe não se iden­ti­fica com os tes­te­mu­nhos das mulhe­res que se reú­nem para tra­tar sua com­pul­são sexual — o seu pro­blema não é essen­ci­al­mente o sexo, pois a sexu­a­li­dade é ape­nas o ins­tru­mento mais efi­ci­ente que encon­trou para, pela dis­se­mi­na­ção do caos e do sofri­mento, abrir seu cami­nho na dire­ção da total escu­ri­dão.

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É por tal razão que Joe decide aban­do­nar esse ins­tru­mento, o sexo, e esco­lher uma arma mais direta — a vio­lên­cia gra­tuita. Ela se torna uma agres­sora de alu­guel, capaz de infli­gir sofri­mento a estra­nhos com téc­ni­cas sofis­ti­ca­das e cruéis. E quando ela esta­be­lece um limite, con­sis­tente em jamais matar suas víti­mas, não é por valo­ri­zar a vida humana, mas por­que pre­cisa esta­be­le­cer um tabu que possa trans­gre­dir em algum momento, como etapa ritual para aces­sar a escu­ri­dão pro­funda.

Não nos enga­ne­mos: toda a tra­gé­dia emo­ci­o­nal que Joe viven­cia com sua pupila e seu ex-marido, a grande humi­lha­ção de jazer no chão enquanto eles copu­lam e, por fim, ser­vir de mic­tó­rio para a mulher que antes amava, são ape­nas as eta­pas ini­ci­ais desse ritual. E no final desse ritual está a trans­gres­são daquele tabu antes esta­be­le­cido — o assas­si­nato.

Quando Joe pra­tica esse crime, o espec­ta­dor não vê nada. Ele está, na sala de cinema, na total escu­ri­dão. A cada “pecado” e crime pra­ti­cado durante sua his­tó­ria, Joe foi abrindo cami­nho na dire­ção de um estado tão arque­tí­pico e demo­níaco que Lars von Trier só con­se­guiu repre­sen­tar dessa forma: mer­gu­lhando o espec­ta­dor no negrume. Durante uma vida tor­men­tosa e repleta de devas­si­dão, Joe des­co­briu uma forma de curar a sua angús­tia exis­ten­cial, aquele vazio que sen­tiu de forma tão pun­gente quando seu pai estava ago­ni­zando no hos­pi­tal: ela per­ce­beu que pode­ria pre­en­cher todos os seus bura­cos com tre­vas.


Leia mais sobre as obras de Lars Von Trier:

Tetra­lo­gia Trier — Melan­co­lia
Tetra­lo­gia Trier — Anti­cristo

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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