NEVE NO SAARA | A característica principal dos desertos é serem secos, não necessariamente quentes. De fato, a umidade nos desertos costuma ser tão baixa que a amplitude térmica diária (a diferença entre a temperatura mínima, à noite, e a máxima, após o meio-dia) costuma ser enorme e mesmo no verão as temperaturas em alguns desertos do mundo se aproximam de 0ºC durante as madrugadas. Em alguns desertos, a temperatura é negativa ao dia durante o inverno, embora a paisagem seja ensolarada e seca.

Entretanto, pela primeira vez em 37 anos, nevou na borda norte do Saara, no noroeste da África Setentrional, no intervalo 17-19/12/2016, produzindo imagens espetaculares.

Além disso, desde o início de novembro ocorrem ondas de frio na Sibéria, norte da Europa, Canadá, Japão, Manchúria (nordeste da China) e norte dos EUA. Nevascas fora de época foram relatadas na Suécia (Estocolmo, 10/11/2016, recorde de neve em novembro — 39cm de neve — desde o início das medições, em 1905), Japão (Tóquio, 25/11/2016, 2-6cm de neve, primeira neve em novembro desde 1966), Bélgica, Irã, Colúmbia Britânica (sudoeste do Canadá), etc. Este quadro parece dificultar a tese do Aquecimento Global, pensam alguns leigos.

Abaixo, a deposição de neve no Hemisfério Norte para o dia 19/12/2016. Em laranja, à esquerda, com destaque para o noroeste da África; à direita, a anomalia da deposição de neve para este dia em relação à climatologia: em azul, as regiões onde é incomum nevar neste dia e em vermelho as regiões onde costuma nevar, mas não nevou.

Deposição de neve no dia 19/12. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Deposição de neve no dia 19/12.

Concomitantemente, de outubro a dezembro se verificaram as temperaturas mais elevadas da história no Oceano Ártico durante o fim do outono, chegando a uma anomalia de até 20ºC acima da média climatológica de temperatura para a região.

A extensão do gelo oceânico global é a menor já registrada, chegando a uma perda de área de mar coberta de gelo comparável à área da Índia. Ocorrência incomum, a extensão de gelo oceânico da Antártica apresentou declínio acentuado, resultando em retrações inéditas da área local coberta por gelo.

O gráfico a seguir, oriundo do National Snow and Ice Data Center (NSIDC), apresenta a cobertura total de gelo oceânico do planeta (somando o gelo ártico e o antártico). Cada linha colorida indica a extensão de gelo oceânico global, mês-a-mês, para anos entre 1978 e 2015.

A área cinza representa dois desvios-padrão da média mensal da extensão de gelo de todos estes anos: qualquer valor dentro desta área sombreada é estatisticamente considerado “típico”, “normal”, uma variação compatível com o comportamento anteriormente observado da expansão e retração do gelo oceânico. A linha vermelha solitária é a extensão do gelo oceânico global em 2016, muito menor do que a média e fora da área cinzenta de compatibilidade estatística com a variação observada entre 1978 e 2015.

Cobertura de Gelo Oceânico, mês-a-mês. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Cobertura de Gelo Oceânico, mês-a-mês.

Considerando apenas e tão somente a cobertura de gelo oceânico do Ártico, temos o gráfico abaixo, no qual a linha preta grossa é a média climatológica da extensão de gelo ártico entre 1989 e 2010 e a área cinzenta representa dois desvios-padrão desta climatologia.

As linhas coloridas indicam a extensão de gelo ártico entre os anos de 1978 e 1988 (acima da climatologia 1989-2010!) e a linha vermelha solitária novamente indica a extensão de gelo oceânico no ártico, mês-a-mês, para o ano de 2016: novamente a retração observada no fim da primavera não é compatível com a climatologia.

Cobertura de Gelo Oceânico no Ártico. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Cobertura de Gelo Oceânico no Ártico.

A retração de gelo oceânico incompatível com a climatologia também é observada na Antártica, conforme explícito no gráfico abaixo, em que se compara o ano corrente com a climatologia 1989-2010:

Retração da calota glacial marítima austral. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Retração da calota glacial marítima austral.

Tais dados são alarmantes e sugerem uma anomalia grave no regime glacial circumpolar global que, caso persista nos anos vindouros, confirmará um novo regime climático.

O gelo oceânico depende menos da temperatura do ar e mais da temperatura do mar. Entretanto, a Capacidade Térmica do Oceano é muitíssimo elevada (porque o Calor Específico da água é elevado e a massa de água nos oceanos é gigantesca), o que resulta em grande “inércia térmica”: os oceanos demoram a responder a estímulos de aquecimento ou resfriamento, portanto precisam ser continuamente expostos a forçantes termodinâmicas para mostrarem alguma alteração.

Os oceanos também são o maior reservatório de carbono do planeta, ou seja, há muito dióxido de carbono e metano dissolvido na água e, assim, não disponível à atmosfera. Mas exatamente como um refrigerante, a quantidade de gás que a água suporta depende de sua temperatura: quanto menor a temperatura, mais a água comporta gás dissolvido.

Como um refrigerante, novamente, se a água do mar esquenta ela passa a comportar menos gás dissolvido, então o excesso de gás é expelido. Ou seja, conforme os oceanos esquentam, mais eles liberam gases-estufa, que tornam a atmosfera cada vez mais opaca às radiações eletromagnéticas de onda longa, retendo calor, o que aumenta a temperatura do planeta — isto, por sua vez, eleva a temperatura dos oceanos, que comportam menos gás dissolvido e, assim, exalam ainda mais gases do efeito estufarealimentando o processo de aquecimento.

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Mas como isso se relaciona com ondas de frio e nevascas antecipadas e/ou em locais incomuns?

No Hemisfério Norte não há continente na região polar, então a calota de gelo é relativamente fina e bastante variável. Como se relaciona com o oceano e sua enorme capacidade térmica, em geral as temperaturas do Pólo Norte são mais elevadas do que as do Pólo Sul. Ainda assim, num inverno típico se forma uma enorme massa de ar denso e muito frio ao redor do Pólo Norte, que se mantém naquela área por conta do enorme resfriamento radiativo do gelo circumpolar.

Quando a região circumpolar do Hemisfério Norte está anormalmente quente (como agora) e quando há menor cobertura de gelo oceânico (como agora), este ar muito frio e denso escoa para as “bordas” da região onde ele fica climatologicamente confinado, formando núcleos menores de ar denso e muito frio nas áreas continentais da Sibéria central, norte da Europa e norte e nordeste da América do Norte, resultando em invernos mais rigorosos, nevascas abundantes e fora de época.

Esta área circumpolar de ar denso e frio é “popularmente” chamada de Vórtice Polar. Abaixo, à esquerda, a posição típica do Vórtice Polar num inverno comum (área mais escura), em contraste com um inverno atípico à direita, no qual as temperaturas circumpolares são mais elevadas e o ar denso e frio se acomoda mais a sul, em bolsões isolados sobre os continentes. Assim, a elevação sistemática das temperaturas circumpolares favorece a recorrência de invernos atípicos.

Vórtice Polar num inverno típico, à esquerda. Anomalia, à direita. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Vórtice Polar num inverno típico, à esquerda. Anomalia, à direita.

Além disso, num ano mais quente há maior umidade atmosférica disponível, que condensa e forma neve quando bolsões de ar anormalmente frio se aproximam das áreas costumeiramente mais quentes, o que propicia, por exemplo, neve no Saara.

Ou seja, num ano mais quente há tempo o suficiente para a circulação atmosférica global dispersar umidade até sobre áreas desérticas, possibilitando a ocorrência de neve quando esfria: tipicamente, mesmo com temperaturas baixas, comuns em desertos, não há disponibilidade de umidade para a ocorrência de neve. Neve no deserto é indício de que o ano foi mais quente do que o habitual.

Abaixo, um gráfico interessante. O volumoso relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) de 2013 utilizou diversos modelos numéricos para descrever e prever as anomalias da Temperatura Média Global desde o século XIX até 2020.

A linha escura é a média móvel a intervalos de 5 anos deste enorme intervalo de tempo, com as hachuras representando os porcentis da distribuição estatística dos resultados deste modelo. Sobre este gráfico de 2013 foi inserida a Temperatura Média Global inferida a partir de medições em superfície e por satélite ente janeiro e outubro de 2016 (a linha curta horizontal sendo a média e a linha vertical sendo o desvio-padrão).

O resultado sugere que este modelo computacional específico, que previu uma anomalia de mais de 1ºC na Temperatura Média Global para 2016 três anos atrás, é bastante compatível com os dados observados a posteriori — corroborando a tese de Aquecimento Global Antrópico, sobre a qual este modelo numérico foi projetado.

Anomalia de Temperatura | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Anomalia de Temperatura

Assim, o Aquecimento Global propicia invernos rigorosos no Hemisfério Norte e nevascas intensas, fora de época e em locais incomuns. E o consenso científico acerca do assunto foi suficientemente competente para descrever qualitativa e quantitativamente estas características anos antes delas serem observadas.

Embora seja contra-intuitivo, o frio intenso no início do inverno do Hemisfério Norte e o belo espetáculo da neve no Saara corroboram o Aquecimento Global.

Não é um sorvete gigante. É neve. No Saara. | Neve no Saara corrobora o Aquecimento Global
Não é um sorvete gigante. É neve. No Saara.

Pode dizer sem medo, quando te perguntarem: nevou no Saara porque a Terra está mais quente!


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Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.
  • Flávio Zen

    Complicado usar este indicador…Qual a explicação para a neve ocorrida a 37 anos? E antes disso? Provavelmente a explicação é outra!