Toda questão ética sempre salta aos meus olhos. Quando debato sobre ética, é como se eu entrasse num transe e estivesse raciocinando sobre o que há de mais autocrítico no ser humano: refletir sobre as merdas que faz na vida.

Recentemente, trocando um papo num grupo do Telegram, surgiu o link de um post no Facebook, dizendo simplesmente um grande FODA-SE para a biologia. Para o proclamador de tais chulas e irracionais palavras, a biologia presta um desserviço às questões sociais e políticas, sendo então um desserviço às minorias. Naturalmente, eu que curso filosofia mas que abraço as exatas, me senti no dever de soltar a letra sobre essa bobagem.

Com olhar crítico e atento, vou partir desse fato para tentar provar um ponto: você não precisa negar a biologia pra fazer ética.

É triste, mas verdade: com o advento dos chamados “justiceiros sociais“, coloca-se a ética em confronto com a biologia.

O que essa galera entende é que, pelo estudo biológico já ter servido (e poder servir) a propósitos antiéticos, a biologia tem em si um caráter “repudiável e opressor”, que atenta contra os direitos humanos e de minorias.

Exemplos bem utilizados a favor dessa argumentação dizem respeito ao darwinismo social (como sendo motivador da eugenia e do nazismo) e à frenologia (em que negros eram vistos como inferiores), passando também por noções que deem alguma brecha para categorizar deficientes físicos e mentais como “erros” da natureza.

É a partir dessa perspectiva que criminaliza os estudos biológicos que os justiceiros sociais vêem como falsa a relação entre ética e biologia – some a isso a ideia de que a ciência serve aos “interesses do capital”, como se isso por si só anulasse a validade da mesma, e então perceberá o relativismo científico em que essa galera se afunda.

O PROBLEMA DE NEGAR A BIOLOGIA

A FALSA DICOTOMIA

O problema dessa perspectiva é a ideia de que, para fazer uma boa defesa de direitos humanos, devemos escolher entre a área própria dessa discussão (a ética) e a área a partir da qual (supõe-se) erros antiéticos com caráter determinista possam limitar e definir os seres humanos. Por óbvio, é natural que uma pessoa, com uma visão dualista como essa, conclua que a melhor decisão está em abandonar a biologia para poder fazer ética.

Mas, como já está claro, trata-se aqui de uma falsa dicotomia: uma falácia lógica em que dois pontos alternativos, tidos como contrários ou contraditórios, são tomados como únicas opções possíveis. É o caso da perspectiva que busca contrabalancear ética e biologia como duas fontes inconciliáveis.

Sendo assim, por uma questão de empatia para com a intelectualidade de quem leva o mundo a sério, é necessário mostrar que ética e biologia são não apenas conciliáveis, como também a ética só tem a ganhar quando a biologia serve para afirmá-la.

O CÉREBRO DO HOMEM E DA MULHER

O cérebro do homem e o cérebro da mulher. | Dá pra ser ético sem negar a biologia

Um dos casos mais polêmicos da neurociência diz respeito ao estudo do cérebro humano. Mais especificamente, diz respeito às diferenças entre cérebros de homens e de mulheres.

Esse tipo de estudo é polêmico porque algumas pessoas entendem que ele se compara, em termos gerais, à frenologia, aquela área que aplicava delimitações entre etnias, baseadas no tamanho do crânio de diferentes tipos de seres humanos – o que dava margem para argumentações supremacistas e preconceituosas.

Porém atualmente sabemos: sim, o sexo importa.

Evidências cerebrais sobre identidade de gênero | Dá pra ser ético sem negar a biologia

Superado o tabu, pesquisas já demonstraram que os cérebros masculino e feminino apresentam padrões divergentes de interconectividade estrutural, particularmente entre os hemisférios.

Essas diferenças hoje são cruciais para a aplicação de boas condutas na gestão de medicamentos, por exemplo, como é o caso da descoberta de que o ibuprofeno pode tornar os homens mais emocionais, informação que pode ser usada para ajudar os homens a se abrirem mais sentimentalmente e mesmo demonstrar mais empatia – algo com efeitos éticos práticos na sociedade.

Num estudo sobre percepção da dor, em que foram avaliadas diferenças sexuais na dor relatada sobre mais de 250 doenças e condições, entre mais de 11.000 pacientes – um dos maiores estudos na área -, é demonstrado que mulheres sentem dor mais intensamente do que homens, o que torna a atenção às diferenças sexuais necessária na hora de gestar medicamentos para o tratamento de dor – outro ponto com efeitos éticos práticos, pois evitaria danos desnecessários ao indivíduo.

Ainda outro estudo mostra que drogas psicotrópicas afetam homens e mulheres de formas distintas, deixando claro que analgésicos, antidepressivos e outros medicamentos para o cérebro têm efeitos específicos conforme o gênero.

O que está em jogo aqui é a validade da percepção de que diferentes indivíduos devam ser tratados de forma igual pelos sujeitos. Refutar essa percepção não significa, porém, defender que pessoas com determinadas características devam ser subjugadas por outras, mas que a forma com que tratamos diferentes sujeitos deve seguir à risca suas particularidades. E aí está outro ponto ético importante: o princípio da equidade (tratar os desiguais desigualmente na medida de suas desigualdades), o qual assegura o devido tratamento ao indivíduo, respeitando suas particularidades.

Outra questão essencial, em termos tanto éticos quanto científicos, é a derivada de tudo o mais exposto acima: já que há diferenças intrínsecas a homens e mulheres e devemos, portanto, tratar disso com seriedade, por que drogas para mulheres são testadas exclusivamente em homens?

É fato que a pesquisa sobre medicamentos usualmente é feita em homens. Isso ocorre, infelizmente, porque pesquisadores não querem se irritar com a burocracia de justificar politicamente o motivo de fazer o teste em mulheres, dado que há muitos empecilhos e tabus sobre a existência de diferenças sexuais em nível neurológico, ocasionados pela crença pretendidamente ética de que homens e mulheres são, ao fim das contas, “iguais”.

Mas precisamos aceitar que não há como lutar contra a própria natureza. Enquanto as diferenças existirem, qualquer pretensão ética de um mundo melhor que ignore tais características não estará ajudando os indivíduos – pelo contrário, estará os ceifando de si mesmos em prol de ideologias puras.

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O CASO DA HOMOSSEXUALIDADE

Infelizmente não trata-se apenas de ceifar o indivíduo de si mesmo, é preciso encaixá-lo em determinada conjunção ideológica. Sobre isso me refiro a algo que pode ser considerado um desserviço às questões LGBT: anular a biologia do campo da discussão em função de alguma argumentação do tipo “tudo é construção social”, como propõe a chamada teoria queer.

teoria de gênero | Dá pra ser ético sem negar a biologia
Os mais variados gêneros, constructos sociais segundo a teoria queer.

Para essa teoria, é tida como verdadeira a ideia de que não existem papéis sexuais biologicamente inscritos na natureza humana. Essa perspectiva confronta a biologia evolutiva ao ignorar que somos animais e que dificilmente a seleção natural teria ido apenas até o pescoço, como se características de performatividade de gênero e mesmo de atribuições estéticas não fossem relevantes em termos de procriação e adaptação de nossa espécie ao longo dos milênios (pode-se dizer, creio, que essa teoria é apenas mais uma variação da crítica ao darwinismo social, que torna um estudo sério num grande espantalho e tenta colocar outra perspectiva, desta vez anticientífica, no lugar).

Essa percepção é contestável quando vemos que, por mais diferentes que sejam as mais variadas culturas, não faz sentido aceitar que “sociedades ameríndias e da Oceania, separadas por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais”, como demonstra Eli Vieira, geneticista e divulgador científico. O fato é que papel de gênero não é tudo por trás dos gêneros – há um peso biológico e evolutivo sobre a questão.

Porém não é apenas a negação da biologia para pensar as questões LGBT que as atrasam. Muitas vezes, a negação da ciência acaba condizendo com perspectivas ultraconservadoras, as quais estas mesmas minorias sociais dizem combater.

Tal associação de polos dissonantes é entendida como Teoria da Ferradura, uma teoria da ciência política que preconiza que, quanto mais aos extremos determinadas ideologias estejam, mais parecidas, na prática, elas serão.

Para exemplificar, quando uma pessoa defende que gênero é construção social ela dá margem para que líderes conservadores argumentem que, já que é construção social, então trata-se de uma opção. Da mesma forma, quando nega-se a biologia do sujeito para defender a naturalidade de seus comportamentos, Silas Malafaias da vida se apoiam nessa mentira para afirmarem que “não existe gene gay“.

Portanto, a melhor defesa que a comunidade LGBT pode fazer a si mesma é estudar biologia. É entender o que está por trás de seu comportamento, de seu organismo, de sua vida. É aceitar que não há apenas aspectos psico e sociais no sujeito, mas especialmente há aspectos biológicos, os quais são a base de todos os outros.

"Aqueles que vêem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas." - L. M. Overby. Journal of Homossexuality 2014. | Dá pra ser ético sem negar a biologia
Uma boa noção sobre a existência de características biológicas na homossexualidade é um ponto positivo pelos direitos sociais desta minoria.

Se há, portanto, uma defesa ética para o respeito e a busca de equidade de tratamento e igualdade de direitos para minorias sociais, ela passa pela biologia.

 

O QUE ESTÁ POR TRÁS DA ÉTICA

Ética: certo e errado. | Dá pra ser ético sem negar a biologia

Já demonstrei acima que ética e biologia não se confrontam, pelo contrário: juntas são mais fortes. Agora pretendo fixar o que, ao longo dos anos interessado em éticas das mais variadas (sejam axiológicas, deontológicas ou dos direitos dos animais), boas defesas éticas têm pelo menos duas características: são cumulativas e dizem respeito ao indivíduo.

1 – Cumulativas porque buscam inserir o máximo de seres no escopo ético.

Se na Antiguidade o único ser de direitos, considerado cidadão, era o homem grego acima de 21 anos (em Atenas era assim, sendo mulheres, crianças e escravos como não enquadrados na cidadania e, portanto, sem direitos como ao voto, por exemplo), na Modernidade essa visão passou a ser contestada graças a liberais como John Stuart Mill e Mary Wollstonecraft, fundamentando visões como as que hoje buscam colocar no escopo de direitos mulheres e negros, dentre outras minorias sociais.

Justamente por ser cumulativa é que a ética tem uma natureza de abrangências, em que o maior número de fatores envolvidos para definir o que seja, em termos morais, certo ou errado, terá peso definitivo em nossos julgamentos.

É o caso quando, sobre um mesmo assunto em que buscamos dizer qual é a atitude mais correta a tomarmos, pesamos tanto a dor dos indivíduos envolvidos quanto o custo-benefício social, econômico e ambiental. Já escrevi a respeito em um artigo intitulado Consumismo e Ética Animal, analisando fatores distintos para poder provar um ponto em defesa dos animais.

Portanto, estudar e mesmo defender o estudo da ética passa por defender a necessidade dos fatores somativos que dizem respeito aos indivíduos de direitos. Ontem libertamos escravos, hoje buscamos libertar minorias humanas sociais, amanhã libertaremos os animais. Um dia, quem sabe, passaremos a considerar as plantas – por mais absurdo que isto soe atualmente (pois ter soado absurdo há 300 anos que mulheres pudessem votar não significa que elas realmente não pudessem).

Uma boa ética, portanto, considerará a biologia, uma vez que agregá-la às considerações morais é estar de acordo com a cumulatividade da ética.

2 – Dizem respeito ao indivíduo porque não há sociedade possível, em termos sustentáveis, que negue o indivíduo ou mesmo parte d’ele mesmo.

John Leslie Mackie, um autor que tenho gostado bastante e sobre o qual escreverei em breve aqui no Ano Zero, defende a chamada “Subjetividade de Valores”, uma perspectiva que nega a existência de valores morais absolutos, em termos metafísicos (como poderia querer Immanuel Kant), mas sem negar a objetividade de julgamentos (que ele diz existir em função de “Padrões Avaliativos”), e nesse ínterim acaba mostrando que julgamentos objetivos podem ser totalmente arbitrários.

Porém, segundo Mackie, os melhores julgamentos que possam existir não são meramente arbitrários, mas parcialmente, uma vez que devem considerar o sujeito a ser julgado em suas instâncias mais particulares.

Tome como exemplo um caso de campeonato de cães: um cão que seja premiado em função do gosto do juiz não está sendo justamente premiado, mas um cão que o seja em função da objetividade de sua existência (como sua biologia, levando em consideração sua fisiologia) será melhor julgado e, portanto, haverá mérito de fato no julgamento – o cão, afinal, foi considerado no conjunto de sua obra, e não meramente a partir da ideologia (visão de mundo) do juiz.

Nesse sentido, uma boa defesa ética passa pela consideração plena do indivíduo, o inserindo tal qual ele é em termos biopsicossociais. E boa parte do indivíduo, quer você queira ou não, é sua biologia.


Por outro lado, se tem algo que pode servir muito mais facilmente (e que realmente serve) para atacar minorias são justamente visões éticas. A Sharia e a Lei de Talião são exemplos de éticas aplicadas a determinados contextos que simplesmente destroem o indivíduo em prol de uma visão coletiva sobre o certo e o errado – e, pasme, quando para quem aplica essas éticas é alegado que a biologia fundamenta a existência de homossexuais, eles simplesmente dizem não à biologia, em prol de suas ideologias.

Então não, não dá pra simplesmente anular parte do indivíduo e dizer que se importa com ele. Quem faz isso o está negando, está negando a si mesmo, e isso não é apenas uma ideologia de erros crassos, é também contradição.

Quando aceitarmos nossa condição biopsicossocial, veremos que não há o que sobressaia-se de tal modo que alguma dessas particularidades possa ser chutada para escanteio. A revolução neolítica não veio para transformar nós, primatas, em outros animais, agora tão somente sociais. Dissociar biologia de ética, portanto, é distanciar-se de si mesmo.

Precisamos, por fim, entender duas coisas:

1 – O problema nunca é a coisa em si, mas como a utilizamos. Quando aprendermos isso e deixarmos isso bem fixo em nossas mentes, seremos não apenas mais generosos quanto à interpretação do mundo à nossa volta, veremos também que não é pela possibilidade da biologia ser usada de forma errônea que ela deva ser anulada – e isso serve para qualquer área do conhecimento humano.

2 – As demandas sociais interagem com as ciências naturais. As ciências naturais e as sociais não se excluem mutuamente, portanto quanto maior o conjunto de conhecimentos acerca de um assunto, maior e melhor será a possibilidade de argumentação para transformar essas questões nas instâncias políticas e sociais.

O que eu peço então é simples: sejamos honestos com nós mesmos.

Seja você um justiceiro social, um ultraconservador ou mesmo apenas alguém a quem só interessa uma vida boêmia, bora aceitar que não há nada que possa nos dissociar de nossa própria condição biológica, e que, sim, podemos ser éticos sem mandar longe a nossa biologia.


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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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