Logo após ver Na Natureza Selvagem, diversas questões começaram a saltitar pela minha cabeça. Quem ou o que realmente somos? Quão diferentes seríamos se não compactuássemos com o comodismo das grandes cidades? Viver de forma itinerante é necessariamente o único caminho para quem quer “se encontrar”? De que forma esse abandono diferiria (ou não) do de alguém que decide passar a vida num mosteiro, como monge?

Não acho que eu tenha resposta para todas essas questões, e nem pretendo aqui respondê-las de pronto, pois o que me chamou mais a atenção foi o conflito entre as opiniões de quem assiste esse filme. Alguns louvam Supertramp (Modo como o personagem decide chamar a si mesmo. Curiosamente, monges budistas também recebem novos nomes quando fazem seus votos.) como um vagabundo iluminado (termo que Jack Kerouac aprovaria), outros percebem-no como um covarde hipócrita que resolveu fugir de suas responsabilidades.

Surpreendentemente, o que as pessoas pensam sobre isso parece ter alguma ligação com o que pensam sobre política, seu lugar na sociedade e suas questões existenciais.

Sobre o que trata Na Natureza Selvagem, afinal?

Esse é um dos maiores roadmovies que já fizeram, não só pela qualidade da narrativa, mas porque é baseado numa história real. Tudo começa quando um jovem recém formado chamado Christopher McCandless resolve abandonar a vida como a conhecemos e iniciar uma jornada solitária pela América do Norte.

O jovem rapaz experienciava um vívido e insuportável desprezo pela sociedade americana emergente no século XX. Talvez “vívido” não seja nem o melhor adjetivo, pois a impressão que dá é que ele se sente sem vida, sem andar com as próprias pernas, simplesmente seguindo os passos de uma outra pessoa, um “eu social”. Era preconizado que todos deveriam nascer, consumir, estudar, consumir, arrumar um trabalho, consumir ainda mais, se reproduzir e fazer com que, mais tarde, os filhos seguissem o mesmo padrão.

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Antes de resolver levar uma vida vagabunda (no sentido original do termo, isto é, vagar), ele chega a questionar os pais quando oferecem um novo carro para substituir sua lata velha. O garoto se recusa a deixar sua engenhoca para trás, alegando que ainda servia a seus propósitos. Não era preciso um novo carro, já que o seu cumpria muito bem a funcionalidade original de um carro: se locomover rapidamente. Um novo só serviria como ferramenta de ostentação.

Após mais alguns tocos nas investidas desse grande Mara que é o consumo, Christopher abandona esse mundo condicionado e vira um andarilho que passa sem rumo certo pelas paisagens naturais do continente americano, desembocando no Alasca.

Quando assisti ao filme achei a mensagem um pouco complexa, mas pensei que todos poderiam interpretá-la de modo mais ou menos parecido. Porém o que encontrei foi uma verdadeira miríade de pontos de vista.

O que motivou a viagem do protagonista? Terá sido a vontade de abandonar os padrões da vida em sociedade? Terá sido a perspectiva de descobrir a si mesmo em meio a um ambiente totalmente novo, fazendo emergir um novo Christopher McCandless? Por falar nisso, escapar das teias sociais seria chegar à ausência de condicionamentos? Seria essa ausência total algo impossível? Viver em meio à natureza, como nossos ancestrais, seria estar exposto a novos condicionamentos? Ou homem em meio à natureza seria mais livre?

Um vagabundo vagabundus*  ou um vagabundo apenas?

Vamos deixar de lado a necessidade de buscar respostas o tempo todo e analisar contemplativamente as questões.

Esses não são somente pitacos sobre Na Natureza Selvagem, mas também sobre o que cala mais profundamente em nós, sobre a vida, sobre quem somos e quem podemos ser. Alguns viram Supertramp como um molecão mimado e egoísta, que simplesmente escolheu abandonar tudo ao invés de enfrentar pressões sociais às quais não queria corresponder, além de uma fuga das responsabilidades para consigo mesmo e para com a sociedade (estudar, trabalhar, ajudar outras pessoas etc). Visões como essa existem desde sempre.

Séculos depois da morte de Sócrates, por exemplo, ainda se discutia sobre se o filósofo tinha sido sábio ao beber quase voluntariamente um cálice de cicuta, ou se era apenas um tagarela esperto que preferiu fugir de seus compromissos com Atenas e com mulher e filho. Parece que indivíduos extremos em sua singularidade são sempre vistos na beira de uma ponte que separa a busca pela sabedoria e a covardia.

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Sócrates, o tagarela que foge de suas obrigações sociais ou o sábio que viveu e morreu de acordo com o que acreditava?

Não concordo com isso. De que modo um sujeito que parte para uma vida praticamente ascética está sendo mimado? Em que mundo sair para a natureza selvagem – com escassez de alimento, animais mortais à espreita, exposição às intempéries naturais – é uma melhor opção em relação a permanecer na sociedade – com menos ameaças à vida e oferta segura de alimentos? Seria o mesmo que afirmar que beber veneno seria uma saída ‘esperta’ para os problemas da vida em sociedade. Interrogações desse tipo já bastam para enfraquecer qualquer tipo de interpretação cínica.

Supertramp: rumo ao modo de vida ancestral?

O bom aproveitamento dessa obra depende de que o espectador se dê conta de alguns elementos fundamentais: (1) o filme não é sobre o abandono de uma sociedade tecnológica em troca do mergulho no mundo primitivo de nossos ancestrais pré-históricos; (2) o foco da jornada é a modificação interior; (3) o caminho é o agente modificador, não exatamente o local para onde se vai, nem se você usa alguma ou nenhuma engenhoca tecnológica.

Algumas pessoas parecem ter especial resistência em aceitar essas premissas. Geralmente argumentam que é pura hipocrisia ir para o mato e ao mesmo tempo levar consigo uma arma de fogo, roupas, e ainda usar um ônibus como abrigo. Mas a jornada não se tratou, em nenhum momento, de experienciar a vida pré-tecnológica de nossos ancestrais nativos das savanas africanas.

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Se até Bear Grylls pode usar tecnologia na selva, por que não Supertramp?

Como já foi explicitado, o ponto essencial dessa aventura era a testagem de possibilidades de mudança interior. Claro, isso ocorria por meio de experiências comportamentais, mudança de ambiente e etc. Exigir que ele não levasse alguns “kits de sobrevivência” consigo era o mesmo que demandar habilidades dignas de Bear Grylls, o caçador de aventuras extremas do Discovery Channel, o que não tem nada a ver com buscar auto-conhecimento. Seu dever era providenciar o que fosse suficiente para livrá-lo do antigo Christopher McCandless, para que Supertramp fosse forjado e bem acabado pelos desafios de um mundo desconhecido.

“É comunista mas tem iPhone”

Essa é outra espécie de contra-argumento falacioso envolvendo tecnologia. É engraçado que esse seja o murmúrio tradicional dos críticos das tendências políticas de esquerda. É dito que as tentativas de criticar e modificar o sistema capitalista (seja introduzindo medidas de esquerda ou por meio de um golpe comunista) são contraditórias, pois os opositores não abdicam do uso de iPhones, iPads e outros bens materiais que o mundo capitalista pós-Guerra Fria ofereceu.

Ora, mas quem disse que ser socialista implica na desistência do consumo e de bens tecnológicos? Bom, pelo menos se levarmos em conta, no mínimo, a teoria marxista, socialismo nada tem a ver com isso. Não esqueçamos de que a Corrida Espacial foi travada por EUA e URSS, e que este último por muito tempo esteve na frente do Tio Sam.

Um dos erros essenciais aí tem a ver com uma espécia de projeção identitária que jogam em cima de Supertramp: “Ele é mais um santarrão natureba socialista que fez voto de pobreza.”

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Não tem iPhone, mas tem (ou tinha) o primeiro ser vivo indo ao espaço

Outra das colunas sustentando a falácia é uma espécie de princípio de pureza: se você critica algo, deve se despir completamente desse algo. Ou então, de modo mais concreto, equivaleria a afirmar que um brasileiro não pode ser considerado um mestre em artes marciais japonesas, já que estas se originaram no período feudal japonês. Nós, ocidentais, não podemos ser japoneses nem tampouco podemos viver como se estivéssemos no período feudal, logo, é ridículo que pratiquemos artes marciais.

Obviamente esse raciocínio não tem uma lógica muito límpida, e menos coerente ainda é o conteúdo do argumento, assim como também não tem muito nexo dizer que alguém insatisfeito com a sociedade só pode questioná-la se estiver totalmente de fora dela. E, aliás, esse é um dos argumentos mais usados contra a intervenção em outras culturas, como a islâmica. Não poderíamos, em tese, criticar as mutilações femininas, uso de burcas ou homens-bomba, afinal, somos ocidentais de uma cultura cristã e não estamos habilitados a compreender aquele sistema.

Isto é, é dito que Supertramp deve estar totalmente de fora da sociedade capitalista ocidental para poder criticá-la, mas sobre a intervenção americana no oriente Médio, é dito que o fato de estarem de fora daquela cultura os desautoriza a julgá-la e a intervir nela. Alguns tipos de feminismo, ao contrário, preconizam que nenhum homem pode dar pitaco no feminismo justamente por não serem mulheres, por estarem de fora da situação. Afinal, qual é a posição boa pra julgar, analisar e rever algo? É estar fora ou estar dentro?

Portanto, não há nenhum problema em estar vagando sem destino pelas florestas americanas e registrar fatos importantes num diário, ou ter uma bolsa de utilidades com uma arma (usada somente para caçar e se proteger) e comida enlatada (em caso de escassez de alimentos) ou, ainda, passar a noite dentro da carcaça de um ônibus. Temos de levar em conta que é raríssimo alguém participar de uma jornada como essa e ainda mais raro é que os indivíduos nessa jornada tenham realizado um curso intensivo de como sobreviver num cenário completamente hostil.

Se formos rigorosos assim, invalidaremos os méritos até mesmo da busca de Gautama (Buda) pelo auto-conhecimento. Gautama foi um homem, com esposa e filho, que abdicou de sua vida confortável para mendigar pelas florestas da Índia. O mesmo tipo de sujeito que renega a viagem de Supertramp poderia dizer que foi muito fácil para Buda fugir das responsabilidades familiares e de seu clã para viver às custas dos outros pelas periferias da cidade.

A volta do mito do Bom Selvagem?

Uma crítica que vem à cavalo logo que as anteriores são delineadas, é a do retorno do mito de Rousseau, segundo o qual o homem possui uma natureza pacífica, sendo a sociedade que o corrompe. Assim, fugindo para as florestas, vivendo de modo natureba, estaríamos livres da malícia urbana. É uma espécie de Caminho do Tarzan.

Não acredito que seja essa a mensagem que o filme passa. A ideia ali não é que o personagem ficou benevolente e sem as impurezas sociais graças à escapada do mundo social para a mata. Fugir para a natureza foi um modo de experienciar a vida e a si mesmo longe dos tradicionais condicionamentos da vida organizada socialmente. A pergunta que imagino Christopher querendo responder é: “Quem sou eu longe de todas as expectativas e moldes que a sociedade projeta sobre mim?”.

Seria como reza um famoso koan: “qual é o som de uma só palma?”. Em outras palavras, esse koan pergunta sobre a natureza do som, já que o que ouvimos é mutável, isto é, uma palma batendo na outra produz um som, que por sua vez não é o mesmo da palma batendo numa parede; qual é, então, o som de uma mão só? É como com o nosso “eu”: quem ou como seria nosso eu longe de tudo isso que tradicionalmente está ao nosso redor? Talvez a ideia mais acurada não seja a da ausência de moldes, mas a de diminuição destes, ou da experiência de encaixe em outras experiências condicionantes – se entendermos que algum condicionamento a condições externas sempre vai existir.

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“Hum… qual o som de uma só palma? Qual o som de… de… hã?”

Por isso é importante ressaltar que o verdadeiro catalisador de mudança nessa história é a jornada rumo ao desconhecido, rumo a um cenário em que novos comportamentos tenham que ser forjados, em que sejam produzidos novos modos de compreender a vida e nosso lugar nela. Na realidade o que menos importa é se o sujeito está indo para um lugar inóspito ou para uma rotina altamente ritualizada e distinta de tudo aquilo que já se viveu, como num templo zen-budista no Japão.

 

*do Latim VAGABUNDUS, “pessoa que anda sem destino”, de VAGARE, “errar, andar ao léu”, mais o sufixo -BUNDUS, “propenso a, cheio de” (fonte).

 

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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