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A experiência iluminada em ‘Na Natureza Selvagem’

Em Comportamento, Consciência por Felipe NovaesComentários

Logo após ver Na Natu­reza Sel­va­gem, diver­sas ques­tões come­ça­ram a sal­ti­tar pela minha cabeça. Quem ou o que real­mente somos? Quão dife­ren­tes sería­mos se não com­pac­tuás­se­mos com o como­dismo das gran­des cida­des? Viver de forma iti­ne­rante é neces­sa­ri­a­mente o único cami­nho para quem quer “se encon­trar”? De que forma esse aban­dono dife­ri­ria (ou não) do de alguém que decide pas­sar a vida num mos­teiro, como monge?

Não acho que eu tenha res­posta para todas essas ques­tões, e nem pre­tendo aqui res­pondê-las de pronto, pois o que me cha­mou mais a aten­ção foi o con­flito entre as opi­niões de quem assiste esse filme. Alguns lou­vam Super­tramp (Modo como o per­so­na­gem decide cha­mar a si mesmo. Curi­o­sa­mente, mon­ges budis­tas tam­bém rece­bem novos nomes quando fazem seus votos.) como um vaga­bundo ilu­mi­nado (termo que Jack Kerouac apro­va­ria), outros per­ce­bem-no como um covarde hipó­crita que resol­veu fugir de suas res­pon­sa­bi­li­da­des.

Sur­pre­en­den­te­mente, o que as pes­soas pen­sam sobre isso parece ter alguma liga­ção com o que pen­sam sobre polí­tica, seu lugar na soci­e­dade e suas ques­tões exis­ten­ci­ais.

Sobre o que trata Na Natureza Selvagem, afinal?

Esse é um dos mai­o­res road­mo­vies que já fize­ram, não só pela qua­li­dade da nar­ra­tiva, mas por­que é base­ado numa his­tó­ria real. Tudo começa quando um jovem recém for­mado cha­mado Chris­topher McCan­dless resolve aban­do­nar a vida como a conhe­ce­mos e ini­ciar uma jor­nada soli­tá­ria pela Amé­rica do Norte.

O jovem rapaz expe­ri­en­ci­ava um vívido e insu­por­tá­vel des­prezo pela soci­e­dade ame­ri­cana emer­gente no século XX. Tal­vez “vívido” não seja nem o melhor adje­tivo, pois a impres­são que dá é que ele se sente sem vida, sem andar com as pró­prias per­nas, sim­ples­mente seguindo os pas­sos de uma outra pes­soa, um “eu social”. Era pre­co­ni­zado que todos deve­riam nas­cer, con­su­mir, estu­dar, con­su­mir, arru­mar um tra­ba­lho, con­su­mir ainda mais, se repro­du­zir e fazer com que, mais tarde, os filhos seguis­sem o mesmo padrão.

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Antes de resol­ver levar uma vida vaga­bunda (no sen­tido ori­gi­nal do termo, isto é, vagar), ele chega a ques­ti­o­nar os pais quando ofe­re­cem um novo carro para subs­ti­tuir sua lata velha. O garoto se recusa a dei­xar sua enge­nhoca para trás, ale­gando que ainda ser­via a seus pro­pó­si­tos. Não era pre­ciso um novo carro, já que o seu cum­pria muito bem a fun­ci­o­na­li­dade ori­gi­nal de um carro: se loco­mo­ver rapi­da­mente. Um novo só ser­vi­ria como fer­ra­menta de osten­ta­ção.

Após mais alguns tocos nas inves­ti­das desse grande Mara que é o con­sumo, Chris­topher aban­dona esse mundo con­di­ci­o­nado e vira um anda­ri­lho que passa sem rumo certo pelas pai­sa­gens natu­rais do con­ti­nente ame­ri­cano, desem­bo­cando no Alasca.

Quando assisti ao filme achei a men­sa­gem um pouco com­plexa, mas pen­sei que todos pode­riam inter­pretá-la de modo mais ou menos pare­cido. Porém o que encon­trei foi uma ver­da­deira miríade de pon­tos de vista.

O que moti­vou a via­gem do pro­ta­go­nista? Terá sido a von­tade de aban­do­nar os padrões da vida em soci­e­dade? Terá sido a pers­pec­tiva de des­co­brir a si mesmo em meio a um ambi­ente total­mente novo, fazendo emer­gir um novo Chris­topher McCan­dless? Por falar nisso, esca­par das teias soci­ais seria che­gar à ausên­cia de con­di­ci­o­na­men­tos? Seria essa ausên­cia total algo impos­sí­vel? Viver em meio à natu­reza, como nos­sos ances­trais, seria estar exposto a novos con­di­ci­o­na­men­tos? Ou homem em meio à natu­reza seria mais livre?

Um vagabundo vagabundus*  ou um vagabundo apenas?

Vamos dei­xar de lado a neces­si­dade de bus­car res­pos­tas o tempo todo e ana­li­sar con­tem­pla­ti­va­mente as ques­tões.

Esses não são somente pita­cos sobre Na Natu­reza Sel­va­gem, mas tam­bém sobre o que cala mais pro­fun­da­mente em nós, sobre a vida, sobre quem somos e quem pode­mos ser. Alguns viram Super­tramp como um mole­cão mimado e egoísta, que sim­ples­mente esco­lheu aban­do­nar tudo ao invés de enfren­tar pres­sões soci­ais às quais não que­ria cor­res­pon­der, além de uma fuga das res­pon­sa­bi­li­da­des para con­sigo mesmo e para com a soci­e­dade (estu­dar, tra­ba­lhar, aju­dar outras pes­soas etc). Visões como essa exis­tem desde sem­pre.

Sécu­los depois da morte de Sócra­tes, por exem­plo, ainda se dis­cu­tia sobre se o filó­sofo tinha sido sábio ao beber quase volun­ta­ri­a­mente um cálice de cicuta, ou se era ape­nas um taga­rela esperto que pre­fe­riu fugir de seus com­pro­mis­sos com Ate­nas e com mulher e filho. Parece que indi­ví­duos extre­mos em sua sin­gu­la­ri­dade são sem­pre vis­tos na beira de uma ponte que separa a busca pela sabe­do­ria e a covar­dia.

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Sócra­tes, o taga­rela que foge de suas obri­ga­ções soci­ais ou o sábio que viveu e mor­reu de acordo com o que acre­di­tava?

Não con­cordo com isso. De que modo um sujeito que parte para uma vida pra­ti­ca­mente ascé­tica está sendo mimado? Em que mundo sair para a natu­reza sel­va­gem — com escas­sez de ali­mento, ani­mais mor­tais à espreita, expo­si­ção às intem­pé­ries natu­rais — é uma melhor opção em rela­ção a per­ma­ne­cer na soci­e­dade — com menos ame­a­ças à vida e oferta segura de ali­men­tos? Seria o mesmo que afir­mar que beber veneno seria uma saída ‘esperta’ para os pro­ble­mas da vida em soci­e­dade. Inter­ro­ga­ções desse tipo já bas­tam para enfra­que­cer qual­quer tipo de inter­pre­ta­ção cínica.

Supertramp: rumo ao modo de vida ancestral?

O bom apro­vei­ta­mento dessa obra depende de que o espec­ta­dor se dê conta de alguns ele­men­tos fun­da­men­tais: (1) o filme não é sobre o aban­dono de uma soci­e­dade tec­no­ló­gica em troca do mer­gu­lho no mundo pri­mi­tivo de nos­sos ances­trais pré-his­tó­ri­cos; (2) o foco da jor­nada é a modi­fi­ca­ção inte­rior; (3) o cami­nho é o agente modi­fi­ca­dor, não exa­ta­mente o local para onde se vai, nem se você usa alguma ou nenhuma enge­nhoca tec­no­ló­gica.

Algu­mas pes­soas pare­cem ter espe­cial resis­tên­cia em acei­tar essas pre­mis­sas. Geral­mente argu­men­tam que é pura hipo­cri­sia ir para o mato e ao mesmo tempo levar con­sigo uma arma de fogo, rou­pas, e ainda usar um ôni­bus como abrigo. Mas a jor­nada não se tra­tou, em nenhum momento, de expe­ri­en­ciar a vida pré-tec­no­ló­gica de nos­sos ances­trais nati­vos das sava­nas afri­ca­nas.

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Se até Bear Grylls pode usar tec­no­lo­gia na selva, por que não Super­tramp?

Como já foi expli­ci­tado, o ponto essen­cial dessa aven­tura era a tes­ta­gem de pos­si­bi­li­da­des de mudança inte­rior. Claro, isso ocor­ria por meio de expe­ri­ên­cias com­por­ta­men­tais, mudança de ambi­ente e etc. Exi­gir que ele não levasse alguns “kits de sobre­vi­vên­cia” con­sigo era o mesmo que deman­dar habi­li­da­des dig­nas de Bear Grylls, o caça­dor de aven­tu­ras extre­mas do Dis­co­very Chan­nel, o que não tem nada a ver com bus­car auto-conhe­ci­mento. Seu dever era pro­vi­den­ciar o que fosse sufi­ci­ente para livrá-lo do antigo Chris­topher McCan­dless, para que Super­tramp fosse for­jado e bem aca­bado pelos desa­fios de um mundo des­co­nhe­cido.

É comunista mas tem iPhone”

Essa é outra espé­cie de con­tra-argu­mento fala­ci­oso envol­vendo tec­no­lo­gia. É engra­çado que esse seja o mur­mú­rio tra­di­ci­o­nal dos crí­ti­cos das ten­dên­cias polí­ti­cas de esquerda. É dito que as ten­ta­ti­vas de cri­ti­car e modi­fi­car o sis­tema capi­ta­lista (seja intro­du­zindo medi­das de esquerda ou por meio de um golpe comu­nista) são con­tra­di­tó­rias, pois os opo­si­to­res não abdi­cam do uso de iPho­nes, iPads e outros bens mate­ri­ais que o mundo capi­ta­lista pós-Guerra Fria ofe­re­ceu.

Ora, mas quem disse que ser soci­a­lista implica na desis­tên­cia do con­sumo e de bens tec­no­ló­gi­cos? Bom, pelo menos se levar­mos em conta, no mínimo, a teo­ria mar­xista, soci­a­lismo nada tem a ver com isso. Não esque­ça­mos de que a Cor­rida Espa­cial foi tra­vada por EUA e URSS, e que este último por muito tempo esteve na frente do Tio Sam.

Um dos erros essen­ci­ais aí tem a ver com uma espé­cia de pro­je­ção iden­ti­tá­ria que jogam em cima de Super­tramp: “Ele é mais um san­tar­rão natu­reba soci­a­lista que fez voto de pobreza.”

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Não tem iPhone, mas tem (ou tinha) o pri­meiro ser vivo indo ao espaço

Outra das colu­nas sus­ten­tando a falá­cia é uma espé­cie de prin­cí­pio de pureza: se você cri­tica algo, deve se des­pir com­ple­ta­mente desse algo. Ou então, de modo mais con­creto, equi­va­le­ria a afir­mar que um bra­si­leiro não pode ser con­si­de­rado um mes­tre em artes mar­ci­ais japo­ne­sas, já que estas se ori­gi­na­ram no período feu­dal japo­nês. Nós, oci­den­tais, não pode­mos ser japo­ne­ses nem tam­pouco pode­mos viver como se esti­vés­se­mos no período feu­dal, logo, é ridí­culo que pra­ti­que­mos artes mar­ci­ais.

Obvi­a­mente esse raci­o­cí­nio não tem uma lógica muito lím­pida, e menos coe­rente ainda é o con­teúdo do argu­mento, assim como tam­bém não tem muito nexo dizer que alguém insa­tis­feito com a soci­e­dade só pode ques­ti­oná-la se esti­ver total­mente de fora dela. E, aliás, esse é um dos argu­men­tos mais usa­dos con­tra a inter­ven­ção em outras cul­tu­ras, como a islâ­mica. Não pode­ría­mos, em tese, cri­ti­car as muti­la­ções femi­ni­nas, uso de bur­cas ou homens-bomba, afi­nal, somos oci­den­tais de uma cul­tura cristã e não esta­mos habi­li­ta­dos a com­pre­en­der aquele sis­tema.

Isto é, é dito que Super­tramp deve estar total­mente de fora da soci­e­dade capi­ta­lista oci­den­tal para poder cri­ticá-la, mas sobre a inter­ven­ção ame­ri­cana no ori­ente Médio, é dito que o fato de esta­rem de fora daquela cul­tura os desau­to­riza a julgá-la e a inter­vir nela. Alguns tipos de femi­nismo, ao con­trá­rio, pre­co­ni­zam que nenhum homem pode dar pitaco no femi­nismo jus­ta­mente por não serem mulhe­res, por esta­rem de fora da situ­a­ção. Afi­nal, qual é a posi­ção boa pra jul­gar, ana­li­sar e rever algo? É estar fora ou estar den­tro?

Por­tanto, não há nenhum pro­blema em estar vagando sem des­tino pelas flo­res­tas ame­ri­ca­nas e regis­trar fatos impor­tan­tes num diá­rio, ou ter uma bolsa de uti­li­da­des com uma arma (usada somente para caçar e se pro­te­ger) e comida enla­tada (em caso de escas­sez de ali­men­tos) ou, ainda, pas­sar a noite den­tro da car­caça de um ôni­bus. Temos de levar em conta que é rarís­simo alguém par­ti­ci­par de uma jor­nada como essa e ainda mais raro é que os indi­ví­duos nessa jor­nada tenham rea­li­zado um curso inten­sivo de como sobre­vi­ver num cená­rio com­ple­ta­mente hos­til.

Se for­mos rigo­ro­sos assim, inva­li­da­re­mos os méri­tos até mesmo da busca de Gau­tama (Buda) pelo auto-conhe­ci­mento. Gau­tama foi um homem, com esposa e filho, que abdi­cou de sua vida con­for­tá­vel para men­di­gar pelas flo­res­tas da Índia. O mesmo tipo de sujeito que renega a via­gem de Super­tramp pode­ria dizer que foi muito fácil para Buda fugir das res­pon­sa­bi­li­da­des fami­li­a­res e de seu clã para viver às cus­tas dos outros pelas peri­fe­rias da cidade.

A volta do mito do Bom Selvagem?

Uma crí­tica que vem à cavalo logo que as ante­ri­o­res são deli­ne­a­das, é a do retorno do mito de Rous­seau, segundo o qual o homem pos­sui uma natu­reza pací­fica, sendo a soci­e­dade que o cor­rompe. Assim, fugindo para as flo­res­tas, vivendo de modo natu­reba, esta­ría­mos livres da malí­cia urbana. É uma espé­cie de Cami­nho do Tar­zan.

Não acre­dito que seja essa a men­sa­gem que o filme passa. A ideia ali não é que o per­so­na­gem ficou bene­vo­lente e sem as impu­re­zas soci­ais gra­ças à esca­pada do mundo social para a mata. Fugir para a natu­reza foi um modo de expe­ri­en­ciar a vida e a si mesmo longe dos tra­di­ci­o­nais con­di­ci­o­na­men­tos da vida orga­ni­zada soci­al­mente. A per­gunta que ima­gino Chris­topher que­rendo res­pon­der é: “Quem sou eu longe de todas as expec­ta­ti­vas e mol­des que a soci­e­dade pro­jeta sobre mim?”.

Seria como reza um famoso koan: “qual é o som de uma só palma?”. Em outras pala­vras, esse koan per­gunta sobre a natu­reza do som, já que o que ouvi­mos é mutá­vel, isto é, uma palma batendo na outra pro­duz um som, que por sua vez não é o mesmo da palma batendo numa parede; qual é, então, o som de uma mão só? É como com o nosso “eu”: quem ou como seria nosso eu longe de tudo isso que tra­di­ci­o­nal­mente está ao nosso redor? Tal­vez a ideia mais acu­rada não seja a da ausên­cia de mol­des, mas a de dimi­nui­ção des­tes, ou da expe­ri­ên­cia de encaixe em outras expe­ri­ên­cias con­di­ci­o­nan­tes — se enten­der­mos que algum con­di­ci­o­na­mento a con­di­ções exter­nas sem­pre vai exis­tir.

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Hum… qual o som de uma só palma? Qual o som de… de… hã?”

Por isso é impor­tante res­sal­tar que o ver­da­deiro cata­li­sa­dor de mudança nessa his­tó­ria é a jor­nada rumo ao des­co­nhe­cido, rumo a um cená­rio em que novos com­por­ta­men­tos tenham que ser for­ja­dos, em que sejam pro­du­zi­dos novos modos de com­pre­en­der a vida e nosso lugar nela. Na rea­li­dade o que menos importa é se o sujeito está indo para um lugar inós­pito ou para uma rotina alta­mente ritu­a­li­zada e dis­tinta de tudo aquilo que já se viveu, como num tem­plo zen-budista no Japão.

 

*do Latim VAGABUNDUS, “pes­soa que anda sem des­tino”, de VAGARE, “errar, andar ao léu”, mais o sufixo –BUNDUS, “pro­penso a, cheio de” (fonte).

 

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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