Que “Escutei a chave
Girar na porta uma vez e só uma vez.
Nós pensamos na chave, cada um em sua prisão.
E pensando na chave,
Cada um confirma uma prisão.” – T. S. Eliot

Imagine o leitor um peixe que sempre esteve em cativeiro, criado para o abate. Esse peixe nasceu num tanque e ali viveu toda sua vida. Para ele, o tanque é o mundo, o tanque é tudo, e a existência da água é algo que não percebe pois foi onde nasceu e sempre esteve imerso. Assim, esse peixe não conhece os oceanos e tampouco percebe aqueles que o mantêm no tanque. Se não percebe a água e a natureza de sua prisão, como entenderá os seres que vivem na superfície e o capturaram?

Imagine-se ainda que há outro peixe no tanque, um que nasceu livre nos oceanos e sabe o caminho para escapar do cativeiro pouco antes do abate. O peixe cativo também poderia beneficiar-se desse conhecimento, desde que, antes, entendesse que está preso, que nasceu num tanque e que está destinado a morrer.

Mas como o peixe que nasceu livre poderia apresentar ao seu companheiro essas coisas? Como explicaria ao seu colega de cativeiro o que é água? Como descreveria a natureza do tanque, sua finalidade, e a identidade de quem o aprisiona?

“O ser humano nasce livre, mas por todo o lugar está acorrentado”, disse Rousseau, sem suspeitar do significado mais profundo de suas palavras. O ser humano está cativo em uma prisão que sequer pode conceber, pois toma o cativeiro pelo mundo a seu redor. O prisioneiro ignora o propósito de sua prisão, e a natureza de quem o mantém em tal condição, pois é como o peixe que sequer reconhece a natureza da água.

FAMILIARIDADE COM O DESCONHECIDO

A fábula dos peixes é útil para expor claramente que o desafio é de natureza informacional: o peixe cativo não entende o que é água (e assim ignora seus captores na superfície) e toma o tanque pelo mundo (e assim ignora a prisão e os oceanos).

Quando se tenta transmitir uma informação fundamentalmente contraintuitiva [1]Nota do editor: antes da reforma ortográfica da língua portuguesa de 1990, havia hífen em contraintuitivo (“contra-intuitivo”). Não há mais., o destinatário da mensagem não consegue compreendê-la. Sua mente não encontra nenhuma referência, em seu universo de vivências, para o que lhe foi transmitido. Portanto, ele não sabe como categorizar, e muito menos o que fazer com a informação.

Logo, só é possível superar a barreira pela gradual familiarização com o contraintuitivo, usando recursos que associam o desconhecido ao familiar, empregando-se metáforas, alegorias, parábolas e símbolos. E como chegamos à terceira etapa do processo de aprendizado, a etapa principal e por isso mesmo a mais difícil, todos os recursos à disposição precisam ser usados para familiarizar o ego humano com uma realidade surpreendente.

Por isso foi um notável caso de sincronicidade o fato de o diretor de cinema Darren Aronofsky ter lançado, no exato momento em que se começa esta terceira etapa, um filme de título “Mother!”, que atualiza o mito hebraico da criação do mundo usando situações e personagens que correspondem a história do Jardim do Éden conforme narrada por uma importante heresia judaico-cristã.

Como será exposto, o mito do Jardim do Éden foi, como tantos outros mitos da região da antiga Mesopotâmia, uma das formas de registrar e transmitir às gerações futuras um importante evento histórico, ocorrido ao sudeste da atual Turquia, há doze mil anos, e que revela a natureza da “prisão” em que agora estamos.

Cartão distribuído a críticos na exibição de “Mother!”: um octógono, o símbolo de Peixes e um ponto de exclamação.

Não se pretende afirmar que o autor do filme, Darren Aronofsky, apesar de sua origem judaica (e da influência de mitos bíblicos, da gematria e da cabala em seus trabalhos), tentou conscientemente modernizar a história da criação segundo uma antiga heresia, a fim de informar ao espectador a natureza da prisão cognitiva em que vivemos (embora sua afirmação de que associou a arquitetura à forma octogonal por essa forma “ser a perfeita forma para um cérebro” seja um indício relevante). Isso pouco importa, e a real intenção de Aronofsky é totalmente irrelevante. O fato é que o filme pode ser perfeitamente interpretado conforme mitos da região em que há doze mil anos algo importante aconteceu, o que convém ao processo de aprendizado.

A QUEDA HUMANA

Faz parte da loucura ignorar-se o quão louco se é, faz parte da estupidez subestimar o quanto se ignora. Qualquer ser racional que observar a humanidade a distância concluirá que a raça humana é, a um só tempo, louca e estúpida.

Só a necessidade de dar exemplos desse fato já é um exemplo em si, mas outros não faltam. O filme de Aronofsky, Mother!, mostra uma síntese de todos os horrores perpetrados pela humanidade circunscritos ao cenário de uma casa. Guerras, genocídios, linchamentos, infanticídios, fratricídios, fanatismos, degradação ecológica, histeria coletiva, exaltação do terror: basta abrir os livros de história ou os jornais do dia para ter-se essas e tantas outras provas de que o ser humano não só parece vocacionado à violência e à destruição, mas agride e destrói justificando-se em motivações claramente insanas.

No fundo, todos intuímos isso. No limiar do inconsciente, todos temos a impressão de que algo está errado com o ser humano. Intimamente, sem conseguir explicar porque, sentimos que algo vai mal com o mundo, e há muito tempo.

Algo está fora dos eixos. Desconfiamos em nosso íntimo que o mundo não deveria ser assim, que a humanidade não precisava ser assim, que poderíamos viver de outro modo. Suspeitamos que a humanidade como um todo, e cada ser humano em particular, tem sido e é mais infeliz nesta vida do que precisava ser.

Porém, a mentalidade que herdamos do século XX refuta essa suspeita, e propõe que se trata de uma sensação sem fundamento. Argumenta-se que é mera ilusão, decorrência da eterna insatisfação humana com o momento presente. Mas essa mentalidade reflete um século em que o espírito humano perdeu todo seu ânimo ao tentar realizar a utopia através de ideologias políticas, encontrando sua primeira mais eloquente voz com o pai da psicologia moderna, Sigmund Freud.

Em 1895, Freud afirmou que a função da terapia deveria ser “a troca da miséria neurótica do paciente pela infelicidade comum”, forma “normal e adaptada” de vivermos neste mundo. Para ele, a “infelicidade comum”, ordinária, era o estado natural do ser humano, o melhor que podemos esperar da vida. Tal lógica disseminou-se da psicanálise para todo o espírito do século XX e deixou seu legado à geração atual.

“Ignis natura renovatur integra.”

Mas é fácil demonstrar o quanto a retórica propugnada por Freud e seus filhos é equivocada, já que ignora um dos aspectos fundamentais da evolução e prende-se à superstição de que a história humana é um caminho de constante progresso. Mas nem todos os caminhos da evolução prosperam, e muitos de seus caminhos levam a becos sem saída. E a história humana também, guardadas as devidas proporções, está sujeita a acidentes e erros irreversíveis, até mesmo fatais.

É o que o arqueólogo Ian Hodder, responsável pelas recentes escavações em uma região da Anatólia, expõe ao descrever nosso atual enredamento num mundo que criamos após um erro desastroso cometido há doze mil anos.

Nossa intuição está certa. Há algo errado com o ser humano. Há algo errado com o nosso mundo. Alguma coisa saiu mesmo fora dos eixos em determinado momento, desviou-se mesmo de seu devido caminho e nos colocou aqui, enredados como um peixe capturado pelas redes do pescador.

O sofrimento humano além da proporção do que nosso senso comum considera minimamente suportável sempre esteve presente em toda nossa história registrada e ainda está por toda parte ao nosso redor. Mas esse sofrimento não é uma regra, e sim um acidente recente (na história de nossa evolução, dez mil anos é um minuto). Por muito tempo, o ser humano está enredado em um estado de cegueira involuntária, no qual não pode aspirar a nada melhor do que viver alguns anos de “infelicidade comum”, pontuados por descansos casuais em felicidades transitórias, até que a morte, sempre inexorável, chame seu nome, não sem antes deixar herdeiros para repetir o mesmo ciclo.

Mantida a cegueira involuntária, a melhor opção continua sendo a normalização da angústia. Ao menos a prosperidade da indústria neurofarmacológica, com seus antidepressivos e ansiolíticos, estará assegurada.

Mas se houve um erro em nosso passado, se as coisas nem sempre foram assim, quando, onde e como ele ocorreu?

Para compreender como ele ocorreu, pode ser útil o estudo de uma antiga interpretação herética sobre o mito bíblico da criação do mundo.

O MITO

É provável que um evento ocorrido entre as populações pré-neolíticas que viviam na atual Turquia, e que causou tamanho impacto humanidade até os dias de hoje, tenha sido de algum modo registrado por quem o vivenciou, e assim transmitido às gerações seguintes.

Em um tempo sem escrita, fatos importantes eram registrados na forma de mitos. Assim, é possível que alguns dos mitos da região em que localizado o sítio arqueológico de Göbekli Tepe, onde o evento ocorreu, tratem do grande desvio de curso da humanidade. E Göbekli Tepe está na borda mais noroeste da Mesopotâmia, justo a região de gênese dos primeiros impérios registrados na história e das culturas suméria, babilônica, assíria e hebraica.

Mas que tipo de mito? A própria natureza do erro, como se verá, recomenda que se pesquise entre os mitos que contam a história da criação do mundo, pois o erro está relacionado com aquilo que tomamos, desde então, pelo mundo ao nosso redor.

Portanto, é possível que mitos da região que contam a criação do mundo contenham pistas sobre a natureza do grande desvio de curso da humanidade.

De todos os mitos dessas culturas, adota-se o mito do Jardim do Éden não só por dispensar a apresentação da lenda ao leitor, mas por ser a variação de um mito mais antigo, de origem babilônica.

Relato babilônico do Jardim do Éden.

Além disso, há uma interpretação da história Jardim do Éden que encontra correspondência com a narrativa do filme de Aronofsky e com o assunto principal desta etapa. Essa interpretação tem origem em uma heresia que, por sua vez, nasceu da lenda sobre quatro sábios que visitaram o Éden muito tempo depois de Adão e Eva serem expulsos.

E o que esses quatro sábios lá viram faz com que repensemos aquilo que nossos antepassados chamavam de Paraíso.

O ÉDEN

Diz uma antiga lenda hebraica que apenas quatro sábios visitaram o Jardim do Éden. O primeiro olhou o Éden e morreu, o segundo olhou e ficou louco, o terceiro olhou e blasfemou, e apenas um olhou e voltou em silêncio.

É curioso o Éden dessa lenda. Sempre nos foi dito que o Jardim do Éden era a glória de Deus manifesta em bosques idílicos, lugar de deleite e santidade, em que todos os animais vivem em comunhão. Porém, a lenda dos quatro sábios sugere um local bem diferente, capaz de enlouquecer ou matar de parada cardíaca mesmo um sábio que apenas ouse olhar ao redor. Da perspectiva dessa lenda, o Éden parece menos com um lugar geográfico e mais com uma realidade de nível superior, que pode desafiar os limites da compreensão humana até o limiar de um colapso.

Na primeira etapa desse ciclo de aprendizado, expôs-se a maior descoberta da história, feita no início do século XX. Essa descoberta é sobre a natureza da realidade que está ao nosso redor.

Apesar de sua importância e de estar devidamente documentada, a verdade sobre a realidade é tão contraintuitiva que não a reconhecemos, mesmo estando diante de nossos olhos. Foi preciso décadas para que um cientista, Hugh Everett III, sugerisse a interpretação mais evidente sobre o cenário que havia se descortinado aos olhos dos cientistas em laboratórios por todo o mundo. Bastou a Everett não impor uma limitação arbitrária ao modelo matemático de Erwin Schrödinger, que descreve com perfeição a descoberta, para que a natureza da realidade fosse revelada.

E o cenário que a ciência descobriu foi que vivemos em um lugar em que múltiplas realidades alternativas coexistem e emergem a cada instante diante de nossos olhos. Um lugar em que todos os elementos de cada uma dessas realidades estão entrelaçados entre si, em uma relação de complementaridade fundamental.

Posters de divulgação de “Mother!”. Clique para ampliar.

Por isso não vemos nem percebemos as outras realidades emergentes. Elas não estão entrelaçadas com nossos órgãos sensoriais e com nada que percebemos ao nosso redor no nível macroscópico, nível em que as realidades alternativas são intangíveis umas em relação às outras. Só observando o mundo microscópico das partículas subatômicas é que percebemos a existência do hipercontexto.

Este é o universo do lado de fora, despido de todos os seus véus: um universo em que tudo o que existe está em contínua emergência diante de novas possibilidades de entrelaçamento com tudo a seu redor, criando novas configurações de mundos a cada instante. A riqueza de probabilidades concretizadas desde o início deste universo é inconcebível pela mente humana.

Retomando a história dos quatro sábios, Santo Agostinho talvez explicasse o fato de que alguns deles entraram em colapso ao visitar o Éden atribuindo esse tipo de reação à condenação humana após o Pecado Original. Esses sábios seriam filhos de uma época em que o ser humano acostumou-se tanto com a lama deste mundo, enredou-se tanto nas armadilhas da condenação de Adão e Eva, que um vislumbre do Paraíso pode ser o suficiente para matá-los. Diferente do primeiro casal, as gerações futuras de seres humanos, com a expulsão do Éden, seriam como o cão criado toda vida numa cela escura e pequena, e que entra em surto quando de súbito se vê a céu aberto, no meio da natureza, em um dia ensolarado.

Se for assim, o problema que pode levar à morte ou à loucura não está no Paraíso em si, e sim na mente do ser humano atual, que não suporta sua visão por estar habituado à sua prisão. Essa explicação agostiniana, vista dessa perspectiva, nos daria uma pista importante não só sobre a natureza do Jardim do Éden, mas sobre a natureza da condenação pelo chamado “Pecado Original”.

No filme de Aronofsky, a residência do casal está no que parece ser uma clareira ensolarada e verdejante, cercada por árvores altas e exuberantes. O espaço lá fora parece imenso e iluminado. Contudo, toda a história se passa dentro da casa, um espaço que parece sempre escuro e claustrofóbico.

A casa de “Mother!”

Qualquer ocidental conhece a fábula de como o ser humano teria sido expulso do Paraíso. Mas uma reflexão mais detida faz saltar aos olhos como essa é uma ideia estranha. A própria intuição humana sugere que o Paraíso, como manifestação da glória divina, deveria ser maior, mais amplo, que o lugar miserável em que pecadores são condenados a viver. Além disso, quando alguém é condenado, de regra ocorre justo o contrário: não sai de um lugar no qual não poderá mais entrar, mas entra em um lugar do qual não poderá sair.

O fato de raramente nos causar estranheza a noção de que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso deveria nos dizer alguma coisa. É como se estivéssemos aprisionados em algo que consideramos ser “o” mundo, pois nele nascemos e fomos criados, e nos causa estranheza que alguém possa ser condenado a entrar neste mundo. O mito assim relata pois é a única forma de explicar o inconcebível: fomos expulsos para a prisão.

Mas qual é a natureza dessa prisão que, apesar de nos encerrar, tratamos como “o lado de fora”? Qual é a natureza da casa no filme de Aronofsky? Porque não percebemos que esse lugar é uma prisão?

A antiga lenda que conta a história do Demiurgo, presente no filme de Aronofsky, Mother, tenta dar a resposta com uma linguagem alegórica.

SOFIA E DEMIURGO

No filme de Aronofsky, temos dois personagens principais: o poeta e sua esposa. O poeta está obcecado com a missão de escrever o poema de sua vida, que parece ser inspirado na vida do casal. Mas, paradoxalmente, ele não dá suficiente atenção à mulher, e permite que estranhos disponham do seu lar até construírem um inferno repleto de dor, crime e destruição – um microcosmo que reflete nossa sociedade. O poeta se envaidece facilmente com a admiração de estranhos, e usa literalmente a esposa para tentar construir o mundo perfeito, que jamais se concretiza. Na verdade, parece haver uma identidade mais profunda entre o poema e a própria realidade em que ambos vivem, como a leitura dos versos pela esposa revela.

Já esposa é devota ao marido, e claramente se confunde com a própria casa – a casa é também a esposa, o cenário todo ao redor dos personagens é criado a partir dela e sustentado por ela. “Ela trouxe vida para toda casa”, o poeta afirma, referindo-se à mulher. A esposa diz aos convidados que precisa “terminar a casa”. Ao reclamar ao marido que ele não conclui sua poesia, ela afirma que construiu a casa inteira, “parede por parede” enquanto ele nada escreveu. Em certos momentos, quando conectada com essas mesmas paredes, ela consegue sentir o coração pulsante da casa.

Na verdade, se o filme for interpretado segundo uma antiga heresia sobre a criação e o Jardim do Éden, a esposa não é só a casa, mas todo o cenário ao redor.

Essa heresia tem raízes que remontam às origens do Talmude, numa polêmica e obscura lenda sobre “Dois Poderes nos Céus”. O primeiro herético teria sido o personagem dessa lenda, um rabino de nome Elisha ben Abuyah, também chamado “Archer” (“o outro”).

E quem é Archer? Ele é um dos quatro sábios que teriam visitado o Jardim do Éden. Mais exatamente, aquele que proferiu uma blasfêmia.

Segundo a lenda, ao chegar no Jardim do Éden, Archer viu ali não a Deus, mas a outra entidade, uma segunda força que ele tomou por uma segunda divindade. Assim, Archer teria blasfemado que “há dois poderes no Céu”, e não um só. E ao retornar do Jardim do Éden, ele teria começado a defender entre que os ensinamentos originais da tradição hebraica eram entendidos da forma errada, exortando aos estudantes do Torá que abandonassem seus estudos para dedicarem-se a uma atividade prática mais importante. Qualquer que fosse essa atividade, não ficou registrada oficialmente para a posteridade.

Os fatos por trás dessa lenda resultaram no desenvolvimento de um conjunto de heresias pré-cristãs que propunham uma releitura da narrativa bíblica de criação do mundo. Segundo essa releitura, na criação do mundo haveria dois personagens centrais: o Demiurgo e Sophia.

Sophia era considerada uma espécie de manifestação feminina do “Poder Transcendente” de Deus. Devido a um “erro” de Sophia, dela nasceu o Demiurgo, uma criatura imperfeita, que se ilude e que acredita ser o próprio Deus do Velho Testamento (“Eu sou o que sou”, diz o poeta na cena final do filme de Aronofsky). Preso a esse delírio, o Demiurgo usa a própria Sophia para construir este mundo em que vivemos, aprisionando em cada ser humano uma centelha divina retirada do âmago de Sophia – e, portanto, uma manifestação do verdadeiro Deus.

Portanto, segundo essa antiga tradição, todos nós estamos presos a este mundo, condenados por uma potência que se apresenta a nós como se fosse o Deus verdadeiro, mas que apenas nos mantém separados do verdadeiro Poder Transcendente, do qual somos parte e Sophia é manifestação imediata.

Nossos antepassados, justo por apresentarem a narrativa de eventos históricos com o uso de alegorias, conferiam humanidade aos elementos principais de suas histórias. Que alternativa tinham para descrever eventos que estavam além de sua compreensão?

O “erro” de Sophia não precisa ser considerado como o engano de uma divindade, mas no sentido de um sistema que apresenta uma falha. O “Nascimento” do Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido humanizado de gestação e parto. O sexo de Sophia talvez tenha a ver muito mais com uma representação arquetípica profunda que relaciona mulher à espacialidade e à matéria (talvez por causa da experiência primordial no útero) do que com gêneros biológicos.

E, mais importante, o “mundo” criado por um Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido literal do universo físico que conhecemos. Afinal, hoje sabemos que “o universo físico que conhecemos” é, na verdade, um mundo simulado por nossos cérebros com uma fração dos dados que nossos órgãos sensoriais filtram da realidade exterior.

No filme “Mother”, de Aronofsky, temos também uma mulher que não é uma mulher, mas uma outra coisa, que doa a sua própria essência para que se construa uma casa que não é uma casa, na qual um poeta, que não é um poeta, possa atuar como se fosse Deus, arruinando tudo em virtude de sua delirante vaidade diante de uma poesia que não é uma poesia. A única coisa literal neste filme é que o resultado disso tudo são as guerras, o fanatismo, os genocídios, a degradação ambiental e todo o inferno que nós construímos aqui na Terra.

Mas o que exatamente seriam Sophia e Demiurgo, o que a esposa e o poeta do filme de Aronofsky representam?

O TÚNEL DA CONSCIÊNCIA

Quando o século vinte fez a maior descoberta da humanidade e constatou a existência do hipercontexto, o mistério também passou a ser o funcionamento da mente humana. Macroscopicamente, não percebemos as outras realidades alternativas pois não estão entrelaçadas, e toda e qualquer interação entre dois corpos macroscópicos só ocorre se estiverem entrelaçados na mesma realidade. É o mesmo fenômeno subjacente à gravidade.

Mas ainda assim, se vivemos no hipercontexto, então a vida de cada um de nós é como uma árvore, que ramifica-se em várias versões desde o momento do nascimento, conforme escolhas e acasos fazem emergir novas realidades.

Mas como não percebemos isso? Como sequer suspeitamos dessa ramificação da realidade quando fazemos uma escolha? Como o cérebro e a consciência humana lidam com o hipercontexto? É como se a vida fosse um labirinto no qual adiante de nós há múltiplos caminhos sinuosos, mas por algum motivo quando olhamos para trás vemos só uma estrada reta.

Após pesquisar dezenas de definições sobre o que é a “consciência”, o filósofo Thomas Metzinger surpreendeu-se ao encontrar elementos comuns a todas elas, que podem levar a uma definição simples, embora não intuitiva: consciência é a aparência de um mundo construída pelo cérebro.

Símbolo de Peixes presente no isqueiro oculto nos posters do filme “Mother!”, com o qual a mulher incendeia a casa.

Mas nossos sentidos são limitados e condicionados por razões evolutivas. Portanto, a consciência não é tanto uma imagem da realidade quanto um “túnel” que nossa mente constrói para que “atravessemos” o mundo real, rejeitando a cognição de tudo aquilo que seja desnecessário para nossa sobrevivência.

Há um outro motivo para a consciência construir um modelo de mundo o mais simplificado possível. É que esse processo consome energia, pois é preciso construir e atualizar dinamicamente, a cada fração de segundo, um modelo de mundo tridimensional e detalhado que represente aspectos importantes da realidade circundante. E economia de energia é um fator crítico para qualquer organismo. Portanto, esse mundo virtual, que representa o universo exterior, precisa ser o mais simplificado possível.

A consciência, portanto, pode ser considerada um sistema de informação sofisticado, que tem a função de representar para o organismo um modelo de mundo com o qual pode operar, a fim de assegurar sua sobrevivência. A consciência desempenha esse papel construindo, com as informações que representa, um modelo de mundo coerente, que serve de túnel para o organismo operar adequadamente na realidade circundante. Esse modelo omite todos os aspectos do mundo exterior que não sejam remotamente importantes para a sobrevivência do organismo.

Um conceito importante que o estudo da consciência tomou da arquitetura é a “transparência fenomênica”. A transparência fenomênica ocorre, por exemplo, quando observamos atentos o vôo de um pássaro através de uma janela, e nesse momento a janela desaparece de nosso campo de consciência. Algo semelhante ao que ocorre quando assistimos a um filme e deixamos de perceber os contornos da tela.

A consciência constrói uma “aparência de mundo” que tomamos por realidade, e os elementos estruturantes dessa construção são “fenomenicamente transparentes”. É como esconder nos bastidores, atrás das cortinas do palco, as cordas e estruturas que sustentam o cenário de uma peça. Se não houvesse essa transparência, não confundiríamos esse modelo tridimensional de mundo construído pela consciência com a própria realidade, e tampouco nossos antepassados descreveriam um erro nessa consciência como “a criação mítica do mundo”.

A transparência fenomênica, por fim, também é a chave para explicar porque o ser humano não percebe a natureza de sua prisão.

O mundo construído pela consciência, a realidade virtual sofisticada, é o mundo que o leitor observa ao seu redor nesse momento. Embora você confunda o túnel construído pela sua mente com o mundo real, e seus sentidos lhe passem a percepção de que esse “mundo real” é exatamente aquilo que “está lá fora” (conferindo-lhe espacialidade, perspectiva, tato, cor, forma e som), na verdade o mundo real é uma coisa bem diferente.

Esse túnel ou construção da aparência de um mundo é representada alegoricamente na lenda segundo a qual o Demiurgo fez Sophia construir o universo em que vivemos. Essa é a casa que a mulher do filme Mother!, constrói e sustenta.

A figura mítica de Sophia e a personagem da obra de Aronofsky são a própria consciência humana, construindo um espaço que será representado para o indivíduo como se fosse o próprio mundo, mas que é apenas uma versão simplificada de uma realidade infinitamente mais complexa.

Mas quem é o Demiurgo no mito, quem é o poeta no filme?

UMA VOZ QUE NARRA UMA HISTÓRIA

O cérebro humano precisa construir, através da consciência, um modelo de mundo que seja uma representação de baixa dimensionalidade da realidade exterior, como se esse modelo de mundo fosse uma realidade “virtual”. A finalidade desse modelo é justamente executar duas tarefas importantes para o organismo que o criou. A primeira tarefa é descrever o mundo exterior a fim de identificar potenciais fontes de perigo, alimento ou reprodução (função cognitiva). A segunda é escolher, entre as ações possíveis do organismo, aquela que seja mais adequada ao que está acontecendo no mundo assim descrito (função decisória).

A consciência, portanto, é um sistema cognitivo/decisório. E para desempenhar suas atribuições, ela desenvolve, no centro desse modelo de mundo, um tipo de identidade, uma imagem que a consciência equipara ao próprio organismo a que pertence: é o sujeito de toda a experiência do mundo exterior, o protagonista que decide e age.

Tal sujeito é o ego, e embora Metzinger pareça por vezes confundir a consciência com ego (a ponto de utilizar a expressão “túnel do ego”), tratam-se de coisas distintas. O ego é algo distinto da consciência, e só é definido como “centro da consciência” porque ela própria, a consciência, “escolheu” representar o ego como o protagonista que anda por esse “túnel”. Não há, na verdade, nenhum sujeito no túnel, pois o ego é apenas uma ilusão da consciência, e uma ilusão que está desempenhando uma função que usurpou há doze mil anos atrás.

No mito gnóstico de Sophia e Demiurgo, atualizado para o imaginário contemporâneo na alegoria de Aronofsky, a manifestação feminina do Poder Transcendente é a consciência humana. É a mãe/esposa que constrói um mundo para um poeta que usurpa um lugar e se declara Deus. Um mundo em que ele troca um ambiente vasto e iluminado por um lugar escuro e enclausurado. E isso apenas para que possa escrever a si próprio uma narrativa sobre como será magnífica a vida que não poderá viver, pois sabota esse projeto de vida, enchendo sua consciência de vozes alheias, invasores desconhecidos. O resultado disso tudo é ódio, fanatismo, opressão, guerras, crimes e miséria.

A melhor metáfora para o atual ego humano é a de uma voz que conta uma história para si mesma, e que continuamente repete a palavra “Eu”. Essa voz é como alguém que está em uma biblioteca, consultando um livro, um “manual de como interpretar o mundo exterior e reagir ao que acontece”. Esse livro é composto de memórias do passado e definições sobre quem se é – uma mistura de tudo que o cérebro registrou. Além disso, esse livro possui muitas instruções sobre como reagir a um só determinado tipo de situação. O conteúdo do livro não obedece qualquer ordem, e apresenta informações e instruções contraditórias.

O ego só existe no instante presente, e está continuamente contando uma história para si mesmo sobre quem é e sobre o que está fazendo neste exato momento. Para contar essa história, ele faz contínuas consultas àquele livro, e as páginas e capítulos que escolhe ler é que definem como deve se sentir e agir quando algo ocorre lá fora. A escolha de como faz a consulta é um pouco arbitrária, e baseada em hábitos e condicionamentos: as páginas mais marcadas pelo uso tendem a ser novamente consultadas e servir de guia para o que sente e faz. Mas também é possível que às vezes a escolha do ego seja induzida, ou até mesmo que algo altere sua capacidade de focar em determinados conteúdos, ou mesmo de conhecer todas as linguagens em que esse livro pode ser escrito.

O ego em si não é um mal, o ego em si não é o erro: o problema é que o ego, conforme a lenda do Demiurgo, acha que é Deus. Decifrado-se o mito sobre Sophia e Demiurgo com a desumanização de todos os personagens, parece que a lenda descreve que um módulo do sistema informacional da consciência acabou alocado para uma posição que não lhe é destinada, sendo-lhe atribuídas funções que não tem competência algorítmica para desempenhar. Essa é uma primeira percepção mais definida que temos do erro, mas ainda é incompleta.

No segundo texto, veremos o quanto o poema que o personagem do filme de Aronofsky escreve é a chave para entendermos o grande erro da história humana, e qual a verdadeira natureza do insondável mito do Pecado Original que nos “expulsou” do Éden, prendendo-nos em uma prisão que não enxergamos. Basta lembrar que, no filme de Aronofsky, só após a pedra (fruto proibido) ser “quebrada” pelo casal de visitantes (Adão e Eva) e seus filhos (Caim e Abel) participarem de um crime é que o poeta consegue inspiração para escrever sua história, não tendo escrito uma só linha até aquele momento.

Precisamos, antes, fixar alguns pontos sobre o sistema Sophia/Consciência e Demiurgo/Ego.

CINCO PONTOS

Em outras palavras consciência é um sistema informacional autoconsciente (como diria Descartes, a consciência não apenas sabe – ela sabe que sabe). Esse sistema informacional filtra as informações transmitidas pelos órgãos sensoriais e constrói um modelo de mundo que simula o mundo real em uma versão de baixa dimensionalidade, com atualização dinâmica e transparência fenomênica de sua estrutura. Esse modelo de mundo, ou “túnel”, é o que tomamos por realidade, e em seu centro está o ego humano, cujo protagonismo é mantido por uma narrativa interna obsessiva e que naturalmente resulta em sofrimento e destruição.

Temos, assim, os elementos principais para prosseguir e compreender a origem do maior erro da história humana. E alguns pontos precisam, porém, ser fixados sobre as noções apresentadas a seguir.

O primeiro ponto é que, conforme demonstrado, a consciência é responsável pela construção de um modelo de mundo que, tal como um túnel, ajuda o organismo a passar pelo hipercontexto sem perceber a contínua emergência de novas realidades alternativas. Esse modelo é aquilo que vemos ao nosso redor quando estamos despertos. Essa construção é como uma obra de engenharia da natureza (espontânea e não intencional como todas as edificações da natureza). E obras podem ser executadas de várias maneiras, sendo possível construir vários tipos de túneis, adotar estratégias diferentes de design e tecnologias diferentes de material de construção. Ou seja, a consciência pode construir outros túneis, poderia representar a realidade circundante de outras formas além dessa que vemos. No filme de Aronofsky, a esposa sustentava a casa com sua própria essência para tentar realizar o mundo que o poeta desejava e descrevia em seus versos – em termos literais, a consciência humana está, neste momento, aprisionada em determinada representação da realidade moldada pelo ego.

Projeto da casa de “Mother!”.

O segundo ponto é que, tratando-se de uma obra de engenharia informacional extremamente complexa, o material de construção desse túnel é algo que chamamos de linguagem, entendendo-se como tal não apenas a linguagem verbal, mas qualquer sistema de símbolos que possa representar e transmitir informação complexa. E há várias linguagens possíveis para a construção de um modelo de mundo, sendo a verbal a mais restrita. No filme de Aronofsky, o poeta está obcecado em escrever uma narrativa poética que evoca, na própria consciência, um projeto de mundo que ele mesmo sabota, conduzindo tudo à destruição – e ele precisa sabotar, pois o projeto é inviável. Em termos literais, há um erro na estrutura desse sistema representacional, que resulta no sofrimento do organismo e numa espiral de destruição retroalimentada que se replica também no contexto social em que vivemos.

O terceiro ponto é que a consciência desenvolveu um determinado tipo de protagonista para ser o centro das vivências desse modelo de mundo construído pelo cérebro: o ego, que não tem substância, sendo ele próprio uma simulação dentro de uma simulação, um protagonista criado pela consciência para viver no centro de mundo criado por ela. Tal como Sophia e Demiurgo na lenda, poeta e esposa no filme. Porém, o ego humano, tal como o vivenciamos, é apenas uma dentre tantas outras formas que a consciência poderia escolher para articular a ação do organismo com base no modelo de mundo de baixa dimensionalidade que simula. Em outras palavras, não só o mundo construído pela consciência poderia ser outro, mas também o protagonista no centro desse mundo poderia diferente. No filme de Aronofsky, essa outra possibilidade está representada nas diversas formas com as quais a consciência sugere ao ego qual caminho deve ser tomado para que o erro seja equacionado e corrigido antes que se destrua a própria estrutura da consciência.

Detalhe do poster do filme “Mother!”, revelando a solução simbólica do erro na consciência, que é sabotada pelo poeta.

é que o modelo de mundo em que cada um de nós vive em sua cabeça é, em grande parte, consensual. Como diz Metzinger, é uma realidade virtual que roda em tempo real e online, comunicando-se com outras realidades virtuais. Se não fosse assim, a sobrevivência da espécie seria comprometida pela dificuldade de comunicação entre os membros de um grupo de seres humanos – e, como veremos, a formação de redes de transmissão de informação é um padrão básico na história da evolução. A consciência, enquanto sistema informacional, existe inclusive com a função de tornar mais eficiente a comunicação entre membros de uma tribo que busca coletivamente pela sobrevivência, e tem seu desenvolvimento retroalimentado pelas soluções encontradas pelo grupo para aprimorar essa comunicação. Assim, o erro em um sistema pode rapidamente replicar-se em outros sistemas cognitivos pelas vias de comunicação humanas, que moldam o mundo consensual, como a cultura e a família. Replicações de erro são eventualidades comuns na história da evolução, podendo resultar na extinção de espécies.

O quinto ponto é lembrar que a evolução não segue uma trajetória evolutiva em linha reta na direção ao progresso. A trajetória é tortuosa, pois a evolução ocorre em passos cegos, sem intencionalidade manifesta, e por vezes dá círculos até um ponto sem saída. A natureza ensaia todos os caminhos possíveis da evolução num processo de tentativa e erro, e faz frente aos erros com a força bruta dos números: quanto mais espécies, quanto mais variabilidade de organismos, melhor. Os vestígios de espécies extintas a milhares de anos, como os dinossauros, são testemunhas de quantas foram as vítimas dos erros e acasos da história evolutiva. Porém, na natureza, alguns erros não são fruto do acaso, mas podem ser provocados, induzidos ou facilitados, e até mesmo parasitas podem tirar proveito de más escolhas evolutivas. Do ponto de vista dos lobos selvagens que a humanidade domesticou e manipulou geneticamente até produzir criaturas tão indefesas quanto o chihuahua, tratou-se de um erro provocado pelo mero capricho de uma outra espécie.

O mais importante, o emergencial nesse tipo de situação, não é identificar se o erro foi acidental ou provocado, mas reconhecer que se trata de um erro que produz muito sofrimento entre nós, e que pode levar à destruição da espécie humana. E, a partir disso, tentar identificar qual a natureza do erro original, sua origem e como foi replicado.

Trata-se de uma análise objetiva, que parte de princípios autoevidentes e não se apoia apenas no mito do Jardim do Éden. Embora o erro esteja presente em mitos de criação do mundo tal como aquele modernizado no filme de Aronofsky, ele foi factual, teve data e local para ocorrer. Deixou vestígios arqueológicos tão eloquentes quanto sua primeira e maior consequência.

No mito bíblico, a primeira e maior consequência da Queda do Homem foi um crime, um homicídio entre irmãos. A descrição mítica dessa história descreve claramente o primeiro grande impacto do erro na vida humana, que se reproduz até hoje.

A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA

No filme de Aronofsky, o mito de Adão e Eva é atualizado para nossos tempos, uma forma hábil de sobrepor origem e consequências do Erro Original. Não temos o primeiro casal no auge de sua vida de semideuses no Éden, mas como casal envelhecido, que precisa confrontar a mortalidade humana. A lembrança da morte e da velhice após uma vida de decepções acumuladas está sempre presente. Adão está doente, irá enfrentar em breve o fim da vida. O terror existencial da finitude humana se insere na narrativa, para estabelecer onde está a fratura original do erro que se perpetuou na consciência.

Contrasta-se a origem mítica da humanidade com o resultado final da queda do homem: tem-se um casal típico de classe média, um tanto ridículo, emaranhado em conflitos familiares e tentando buscar alguma transcendência no culto ao poeta. Com a chegada do casal de visitantes, também surge o primeiro sinal de culto e religiosidade: o casal tem a foto do poeta, ambos tratam seu escritório de criação um lugar sagrado, e lá sabem de uma pedra importante, um objeto do qual não podem se aproximar. Essa pedra, essa “coisa” é também objeto de fetiche e culto pelo próprio poeta.

A seguir, após a pedra ser quebrada pelo casal, surgem seus filhos. A discórdia entre os irmãos se acirra até que um mata o outro, em uma clara representação do mito de Caim e Abel. No filme, o irmão homicida parece estar excessivamente preocupado com dinheiro de uma herança, evocando novamente a relação do ser humano com a riqueza material.

Na história bíblica, Caim mata Abel por inveja, já que Deus aceitou sua oferenda na forma do sacrifício de um animal, rejeitando a oferta de Caim, consistente no produto de seu trabalho na agricultura. Como consequência, Caim tornou-se o único filho vivo de Adão e Eva, e pode ser considerado como o ancestral comum de toda a humanidade [2]Segundo a narrativa hebraica, é verdade, Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas. Porém, essa interpretação do mito que o literaliza como uma narrativa sequencial é propriamente do tipo religiosa, ou seja, não é a forma adequada de interpretar os mitos, que devem ser interpretados como uma forma de linguagem ou ferramenta informacional, guardando entre si não uma relação de sequência narrativa, mas de correspondência simbólica. Mais sobre isso será exposto no futuro..

O mistério dessa lenda, a razão pela qual Deus teria rejeitado a oferenda de Caim, produto da agricultura, será analisado com maior atenção na segunda parte desta etapa. De qualquer modo, estudiosos do Torah também sempre discutiram qual a verdadeira natureza do fruto proibido. Tradições mais antigas como o Sefer Ha Yetzirah afirmam que o fruto proibido não era a maçã, mas o trigo. No Talmude Babilônico, Rabbi Yehuda também menciona uma tradição mais antiga segundo a qual o fruto proibido era, na verdade, o trigo. Na verdade, em hebraico, a palavra para trigo (חיטה) tem origem na palavra “pecado” (חט).

É uma ideia estranha, que só é compreendida se decifrarmos o mito do Jardim do Éden. Temos, de qualquer forma, uma associação entre o erro e o trigo, por mais inconsistente que possa parecer neste momento.

Decifrar o mito de Caim e Abel, e desvendar a associação entre trigo e fruto proibido depende de lembrarmos que nossos antepassados viveram por centenas de milhares de anos em pequenos grupos nômades. Esses grupos obtinham seu sustento da caça de animais e, principalmente, da coleta de vegetais que encontravam à livre disposição no meio ambiente.

Em determinado momento (da perspectiva histórica, da noite para o dia), tudo mudou. Foi um evento que ocorreu em vários povos ao redor do planeta sem que houvesse contato entre essas populações. E seu impacto na história humana foi tão profundo que historiadores e arqueólogos o chamam de revolução: a “Revolução Neolítica”.

Modelo de primeira residência no início da “Revolução Neolítica”. O culto religioso era realizado dentro da própria moradia de cada família.

Muitos também chamam a Revolução Neolítica de ” Agrícola” pois sua característica mais notável foi a transição do estilo de vida da caça e coleta para um estilo de vida baseado no cultivo de trigo. Já foi confirmado por sítios arqueológicos como Çatalhöyük que a “domesticação” de trigo selvagem pela agricultura foi a primeira etapa dessa revolução. A transição da caça de animais para a criação e abate de rebanhos foi posterior.

Por muitos anos, historiadores e arqueólogos consideraram a Revolução Neolítica como um “mal necessário”, um pressuposto inevitável de nosso progresso. Ela representaria um passo importante e inevitável no caminho que nos conduziu ao domínio do mundo, ao aumento de nossa inteligência, a uma maior qualidade de vida e ao fim da violência no mundo selvagem. Tratava-se da hipótese acalentada por Hobbes: o estado natural era um estado de brutalidade e privação, e apenas através do sacrifício e concessões recíprocas abandonamos esse estágio primitivo e alcançarmos o progresso humano.

Porém, com o prosseguimento das descobertas arqueológicas, essa noção acabou refutada pelos fatos. Na verdade, a Revolução Neolítica foi um passo em falso, e evidências demonstram que Rousseau tinha, de certa forma, razão: o ser humano havia nascido livre, mas um tipo de contrato escravizou-o e agora estamos, por todos os lados, preso a correntes.

Há cerca de dez mil anos atrás, a humanidade tomou um desvio em sua rota que resultou naquilo que Harari afirma ser “a maior fraude da história”.

Um erro que tornou o cotidiano de cada ser humano mais difícil e menos gratificante, empobreceu nossa dieta, piorou as condições gerais de vida e foi até mesmo contrário à nossa disposição anatômica, representando uma concreta violência para nosso corpo. No sítio arqueológico de Çatalhöyük (sul da Anatólia), em que se descobriu uma das primeiras aglomerações humanas após a Revolução Neolítica, os ossos de adultos tinham lesões próprias de osteoperiostite e osteoartrite, sinal de uma vida sujeita a transporte de muito peso e de trabalho excessivo. Esse tipo de agressão ao próprio corpo era algo sem precedentes no período pré-Neolítico.

Ao lado das desvantagens, essa transformação no nosso estilo de vida não trouxe nenhuma vantagem. Descobertas da equipe do arqueólogo Klaus Schmidt em Gobekli Tepe (no sudeste da Turquia) revelaram como é falaciosa a tese de que a revolução agrícola deixou o ser humano mais inteligente, ou que foi condição necessária ao desenvolvimento da civilização, ciência e tecnologia. Como o historiador Yuval Harari conclui, há qualquer evidência suportando tais crenças. Ao contrário, há evidências de que nossos antepassados que coletavam e caçavam tinham domínio de técnicas sofisticadas, capazes de espantosas proezas arquitetônicas e com um notável conhecimento de astrologia.

Além disso, tampouco essa mudança melhorou nossa dieta, aumentou nossa segurança ou diminuiu a violência entre seres humanos, ao contrário do que supunha Hobbes. Na verdade, há indicativos de que após a Revolução Neolítica a vida humana passou a sujeitar-se maiores riscos, inclusive com o aumento de agressões e hostilidades entre grupos e perpetração sistemática da violência dentro de cada grupo. A escravidão começou com a Revolução Neolítica, e o sacrifício de seres humanos também.

Todos os indicativos apontam hoje para o fato de que a Revolução Neolítica, tal como se deu, não era um passo necessário ao progresso humano. Na verdade, em outras tramas de realidade existentes no hipercontexto, em que a história da humanidade seguiu caminhos diferentes daqueles tomados por nossos antepassados no momento da última singularidade, a evolução da civilização entre os seres humanos ocorreu de outra forma, e inclusive a passos mais largos, sem resultados tão nocivos para a qualidade da vida humana.

Na verdade, além do historiador Yuval Harari, arqueólogos como Ian Hodder e David Lewis-Williams demonstraram que a Revolução Neolítica foi a responsável por uma organização da vida humana que resultou na criação de castas sociais, repressão da mulher, degradação ambiental, instrumentalização da religião como forma de domínio e imposição das principais injustiças humanas registradas na história e ainda presentes no mundo atual.

Como o Pecado Original, a Revolução Neolítica teria sido um erro, um desvio do caminho que ocorreu na singularidade de doze mil anos atrás. Por isso o trigo está associado ao fruto proibido, como um indicativo de onde, no mito bíblico, deve-se procurar a origem do erro.

O fruto proibido porém, não é o trigo, pois o erro cometido pelo homem não começou com a sedentarização de grupos nômades e invenção da agricultura. Como o arqueólogo Jacques Cauvin propôs e as pesquisas de campo de Klaus Schmidt e Ian Hodden confirmaram, o erro cometido pelo ser humano ocorreu não no mundo exterior, mas em primeiro lugar na sua consciência, o local que há doze mil anos foi palco de uma singularidade. Pelo que se descobriu em Göbekli, a Revolução Neolítica, nas palavras de Jacques Cauvin, não começou com uma revolução da agricultura, mas com uma revolução cognitiva.

O UMBIGO DO MUNDO

Em outubro de 1994, um velho pastor curdo, Savak Yildiz, notou algo estranho numa pequena colina próxima a cidade de Sanliurfa. A colina era chamada pela tradição de Göbekli Tepe, ou seja “Colina do Umbigo”, e já havia sido explorada superficialmente pelo arqueólogo Peter Benedict em 1963, que se equivocou ao interpretar o local como um cemitério bizantino sem importância. Mas ao limpar a terra que cobria o objeto que viu, o velho curdo constatou que se tratava de uma grande pedra esculpida de forma curiosa. Yildiz era um simples pastor, mas não um tolo. Ele sabia que não era o tipo de coisa que se esperava encontrar em um cemitério.

Foto real de Savak Yildiz.

No ano seguinte, em 1995, os arqueólogos Harald Hauptmann e Adnan Misir começaram as escavações, e logo o arqueólogo alemão Klaus Schmidt assumiu os trabalhos. As escavações prosseguem até hoje, pois o que o pastor curdo descobriu é esplêndido. Tratava-se da, nas palavras de Lewis-Williams, “do sítio arqueológico mais importante do mundo”.

Em Göbekli Tepe há um complexo de estruturas arquitetônicas de tamanho considerável. Tratam-se de pedras com mais de cinco metros de altura, cada qual pesando mais de quinze toneladas, sempre dispostas ao redor de duas outras pedras com altura e peso semelhantes. Muitas dessas pedras estão repletas de relevos de animais dispostos de formas curiosas, junto a estranhas figuras geométricas. As duas pedras centrais, em particular, possuem relevos que deixam clara a intenção de que representassem figuras humanas.

O que torna Göbekli Tepe extraordinário é uma série de constatações arqueológicas impressionantes.

Em primeiro lugar, as construções ali escavadas foram datadas entre 10.000 e 9.000 A.C., ou seja, justo no início da Revolução Neolítica. Em segundo lugar, os responsáveis por erguer aqueles monumentos ainda eram nômades que viviam da caça de animais e da coleta de alimentos.

Em terceiro, próximo dali descobriu-se a primeira variedade de trigo selvagem domesticado pelo ser humano, ou seja, o trigo que começamos a plantar e que deu origem a todas as espécies de trigo utilizadas pela nossa civilização hoje em dia. Em quarto lugar, tratam-se de estruturas que exigem um sofisticado conhecimento de arquitetura e astronomia, além de uma operosa organização do trabalho. São habilidades que até então não se pensava ser do domínio de nossos antepassados pré-Revolução Neolítica.

Por fim, em quinto lugar tratam-se de construções que não têm qualquer objetivo prático, inexistindo qualquer indício de habitação humana na região. Na verdade, o único propósito das construções ali descobertas era religioso, a serviço de uma casta de sacerdotes. Assim, em Göbekli Tepe está aquilo que se pode chamar de o mais antigo templo da humanidade, construído justamente no momento em que a Revolução Neolítica começou.

Essas constatações levam a conclusões inevitáveis.

Por muito tempo, tentou-se descobrir o que levou a humanidade a abandonar o estilo de vida de coleta e caça para adotar a vida sedentária de um agricultor, com impacto tão negativo na sua qualidade de vida. Predominavam entre os arqueólogos as hipóteses de que uma abrupta mudança climática, crise populacional ou escassez de alimentos teria imposto a nossos antepassados a Revolução Neolítica.

Porém, em Göbekli Tepe há construções erguidas imediatamente antes de a Revolução Neolítica acontecer, e essa Revolução ocorreu exatamente ali, pois a primeira domesticação de trigo selvagem foi feita nas proximidades. Além disso, seu gigantismo deixou claro que a agricultura não era um requisito para a emergência de sociedades complexas. Na verdade, Göbekli Tepe demonstrou que os povos nômades eram muito mais inteligentes e tinham uma cultura muito mais sofisticada do que se supunha, eliminando a presunção de que a revolução agrícola nos tornou mais inteligentes e hábeis.

As descobertas em Göbekli Tepes foram assim reunidas às descobertas por arqueólogos como Ian Hodder (em Çatalhöyük), Jean Perrot (em Ain Mallaha) e Jacques Cauvin (em Mureybit). O cenário formado pela reunião de evidências não deixou dúvidas de que a Revolução Neolítica não foi determinada por pressões climáticas, populacionais ou ambientais, embora esses fatores possam ter colaborado, mas por uma mudança na estrutura da consciência humana.

Nas palavras de Cauvin, a Revolução Neolítica, que tornou a vida humana tão pior sem qualquer razão aparente, é uma “clara demonstração do fato de que o homem não poderia transformar completamente a forma como explora seu ambiente natural sem adotar ao mesmo tempo uma diferente concepção de mundo e de si mesmo enquanto inserido neste mundo”. Houve, antes de tudo, uma mudança na psicologia coletiva que é expressa na emergência de novos mitos.

Portanto, a Revolução Neolítica, antes de ser uma revolução agrícola, foi em primeiro lugar uma Revolução Simbólica. Mais exatamente, uma revolução da consciência – se entendermos por “revolução” algo cujos resultados são desastrosos.

Os sítios arqueológicos em Göbekli, Çayönü e Nevali Çori, todos relacionados ao surgimento da Revolução Neolítica, estavam associados à uma explosão do simbolismo religioso sem precedentes na história humana. Nas palavras do arqueólogo Lewis-Williams, tratou-se de um contrato da consciência afiançado por castas sacerdotais. No termo cunhado por Julian Jaynes, foi o momento da reestruturação do túnel da consciência naquilo que chamou de Mente Bicameral. Como Cauvin disse, foi o momento em que nasceram os deuses em nossas mentes. Como os mitos do Jardim do Éden e do Demiurgo/Sofia, foi a “origem do mundo”.

Porém, há mais um detalhe que os arqueólogos não deixaram passar. O fato é que o complexo religioso encontrado em Göbekli Tepe foi completamente enterrado pela ação humana consciente, e não como resultado de algum evento natural. Na verdade, o que ocorreu em Gobekli Tepe é tão hediondo que em algum momento nossos antepassados tentaram enterrar as memórias dos crimes ali cometidos, embora as consequências já fossem irreversíveis.

Na última parte dessa terceira etapa, será exposto o que é o verdadeiro fruto proibido que nossos antepassados retiraram da árvore do conhecimento em Gobekli, qual a natureza daquilo que Archer viu no Jardim do Éden e qual o motivo de o poeta do filme de Aronofsky jamais expulsar os visitantes de sua casa.

Notas   [ + ]