Não faz sentido separar a arte da vida real: viver-se-ia a arte em si, de modo que é preciso cantar sobre fezes, dores, mal-estares, seu ambíguo sentimento sobre o michê que dá ponto na esquina próxima e a desilusão de ter de optar entre substituir a comida por vodka ou solventes.


Eu estava no primeiro ano de faculdade quando – em meio às descobertas típicas daquele mundo, onde alguns nichos e resquícios eram exatamente iguais àqueles com os quais fantasiava a partir dos enlatados estadunidenses, enquanto outros, bem, esse aposto já durou mais do que deveria – soube por alguma nota, em algum caderno cultural, de algum jornal, da morte de William S. Burroughs (era o glorioso mil novecentos e noventa e sete do nosso senhor, um ano que, em vários sentidos, ainda não acabou).

Dei a importância exclusiva ao fato que eu poderia ter dado à época: pouquíssima. Lembro de ler sobre algumas das peripécias do autor em relação a uma extensa ficha de happenings que volta e meia redundavam em escândalos e (comumente) em implementos da ficha criminal comum a todos os legítimos porra-loucas de sua época. Mas não havia jamais lido qualquer coisa nem sabia de qualquer nesga de relevância que Burroughs poderia ter em relação a uma série de coisas que flutuam para além de um resumido ‘movimento’ literário.

No mesmo ano, tive pela primeira vez, na casa de um amigo, contato com a então recém-lançada obra “Mate-me por favor“, que era tudo o que pós-adolescentes fãs de rodas de pogo em lugares duvidosos de cerveja barata (e duvidosa) ainda não desiludidos com uma vida ‘séria’ que se avizinhava poderiam gostar de ter em mãos: o livro – aos que não sabem – é uma divertidíssima coletânea amontoada de relatos curtos e temáticos e depoimentos dos próprios ‘protagonistas’, organizados por Legs McNeil e Gillian MCain sobre o início de uma profusão artística que dominou Nova Iorque do final dos anos 60 ao final dos anos 70 e que, depois, ganharia cores, tons, tachinhas e uma ducha de catarro nos becos britânicos para, então, se tornar conhecida como “punk rock (na vitrine de uma loja de um shopping acoplado a um supermercado, onde passei, dia desses, carregando cebolas, rúcula, alface americana ‘coração’ e pimentões – em unidades que ajeitei na sacola para simular a bandeira da Lituânia – vi um display que sugeria a ‘tendência’ punk-boutique para a estação. Vida que segue).

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À esquerda, uma das capas da edição brasileira (a pocket) de Mate-me Por Favor, pela L&PM. À direita, a capa da edição original americana.

Tal e qual o adágio de Heráclito, somos com o rio que muda e não encontramos o mesmo livro porque somos pessoa outra: quase vinte anos depois, há alguns dias, finalizei minha segunda leitura de “Mate-me por favor” da vida. Experiência riquíssima, que já deu certo com autores tão díspares quanto Milan Kundera e Stephen King, a releitura de algumas obras com um espaçamento de dez ou quinze anos é um projeto que vou lentamente e selecionadamente realizando com calma. É o retrato mais fiel que se pode angariar da nossa caminhada altiva por esse mundo: há coisas que saltam aos olhos. Outras, deixam de importar (para Noé, Gaspar, o tempo destrói tudo. Para Collor, era o senhor da razão).

No caso da obra em questão, um componente impressionante se soma à nova descoberta do velho texto: obviamente as referências e meu interesse relativo a alguns de meus ídolos (Blondie, encarnada no magnetismo da musa freak Debbie Harry, e, sobretudo e incomparavelmente, os Ramones) seguem sendo meu gancho em relação à obra e ao interesse que ela originariamente desperta, mas é quase óbvia a minha especial atenção justamente ao período histórico coberto pelas narrativas que haviam, antes, menos chamado minha atenção.

Devorei ávido e com mais punch justamente o trecho de texto que se ocupa dos a-heads e speed-freaks, que circulavam em torno de Andy Warhol  e da Factory e do próprio ‘evento’ cult que era o Velvet Underground, até a invasão de Detroit na cena novaiorquina, com o antes  festejado MC5 sendo absolutamente suplantado pelo magnetismo e pela pertinência que havia em Iggy Pop e os Stooges entregando (em alguns casos desagradável e literalmente) o sangue e as tripas no palco. Dizem que nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou. Foi o caso.

Debbie Harry e Richard Hell
Debbie Harry e Richard Hell

Sinceramente, pouco me interessou dessa vez se Dee Dee Ramone brigava pela enésima vez com sua namorada a ponto de ela o ameaçar com garrafas cortadas no meio da rua, muito menos o trecho mais marcado na minha memória na primeira vez em que tive o livro diante de meus olhos (que é aquele em que Dee Dee narra que Sid Vicious, certa vez, precisava de um pico de heroína de tal maneira que não se importou em puxar, com uma seringa, água diretamente de uma privada,em uma festa, para diluir a droga e, logo depois, injetar na veia aquele misto de urina, fezes, vômito, soda e pó de baixíssima qualidade).

Fiquei alucinado, mesmo, com os relatos relativos à formação de um zeitgeist que englobava a performance ‘circence’ bizarra de Iggy (que rolava em cacos de vidro enquanto cantava, a ponto de terminar todas as noites de uma temporada de shows no hospital, com pontos, para repetir a prática no dia seguinte), a poesia suja de Patti Smith, declamada em inferninhos de quinto escalão, o ativismo (e a prisão) de Wayne Kramer, e o caráter ambulante de alguns outros como Lou Reed, que viviam cotidianamente não conforme um modelo cultural, mas em um outro, sendo criado e galvanizado naquele mesmo instante, a golpes de barbitúricos, sexo bruto e descompromissado de gênero e um rock que espelhava justamente o lado negro da era de Aquarius.

William Burroughs (e, no fundo de seu olhar atormentado, o 'ugly spirit').
William Burroughs (e, no fundo de seu olhar atormentado, o ‘ugly spirit’).

A presença, justamente, de Burroughs em vários relatos (e na própria ‘orelha’ da recente edição, confirmando que “estava lá”) é emblemática: veterano da drogadição e da putaria no bas fond americano desde ao menos três décadas antes, Burroughs foi, tranquilamente, um dos primeiros punks,e sua presença em bares como o CBGB’s e seu olhar atento para o que a metade da década de setenta no centro fétido de Manhattan trazia são simbólicos demais. O Burroughs morto em 1997 não era, para mim, o autor de “Junkie ou “Naked Lunch;não era o amigo e conselheiro de Jack Kerouac e Allen Ginsberg. A relação direta entre um sujeito esguio como uma cobra berrando seminu que “queria ser o ‘seu’ cachorro'” e pisoteando a plateia e um velhinho bêbado e pederasta poderia ser outra, se ambos não fossem uma impressionante farinha do mesmo saco. Ambos outsiders confessionais que, pelas tantas, resolveram entregar sua vida em forma de obra e expor suas veias e sua face publicamente – aguardando com a mesma sofreguidão um pico ou uma navalhada, um beijo mordido – de homem, mulher, tanto faz – ou um bofetão.

Os beatniks (a quem, igualmente, demorei para conferir valor genuíno na vida) e sua significativa literatura, foram a encarnação anterior e imediatamente enraizada de uma vertente da cultura do século XX cuja insatisfação existencial se traduzia em um vazio que era aplacado como se a vida fosse uma peça de arte intensa. Não fazia sentido – nem para um beat nem para um punk – uma música, poema, letra ou história que não fosse repleta de sexo, vertigem, morte, pus e ressaca. Não faz sentido separar a arte da vida real: viver-se-ia a arte em si, de modo que é preciso cantar sobre fezes, dores, mal-estares, seu ambíguo sentimento sobre o michê que dá ponto na esquina próxima e a desilusão de ter de optar entre substituir a comida por vodka ou solventes. É preciso viver on the road, do mesmo modo que nenhuma jornada de regresso a Ítaca será completa sem um passeio pelo wild side.

Esqueça o moralismo às avessas deprimente que crianças promovem ao ornar os cabelos com cores absurdas ou mostrar o dedo médio para uma câmera da qual seus gestos parecem depender em simbiose: o convite que tanto os beats como alguns genuínos punks nos fizeram é para uma arrepiante integração da morte com a finitude da existência em um cotidiano que não requer autopiedade. Morre-se não como um evento solene religioso em uma pieguice romântica complacente: morre-se (morria-se), na pista do Max’s, diante de som, fúria, glória, sorrisos. O sangue era real. Os chicotes e dildos no palco eram reais e causavam vergões reais. A podridão era real. Tinha de ser. Nada figurativamente fazia sentido.

CBGB & OMFUG (Country, Bluegrass, and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers), berço do punk rock novaiorquino.
CBGB & OMFUG (Country, Bluegrass, and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers), berço do punk rock novaiorquino.

A conclusão deliciosa da nova leitura da obra me fez pensar em um aspecto inédito (para mim) das possibilidades artísticas do punk – um raro caso de produto cultural onde a vanguarda foi estadunidense, e a pasteurização, europeia (e não o exato oposto): a ‘consciência’ quase mambembe de performance de um artista (sentido amplo) talvez tenha atingido ali, em uma meia dúzia de bares sujos de alguns quarteirões da metrópole americana por excelência, assistida por algumas centenas de pessoas, seu ponto mais crítico e mais brilhante. Alguns conseguiram ser suas letras e poemas como nenhum outro mais. Nunca houve um ponto de contato tão umbilical entre as referências do ‘artista’, sua obra, sua vida e sua mensagem, do que em alguns dias daqueles anos.

Quando Richard Hell apareceu para um show de uma das seminais formações do Television com uma camisa customizada (“faça você mesmo”) onde se lia a mensagem “please, kill me” (e, dizem, quase fora ‘atendido’ em seu pedido por neuróticos admiradores), mal podia (será?) perceber que estava vivenciando o único enredo legitimamente punk: o “Dilema de Sileno” que, segundo Nietzsche, teria sido proferido pelo próprio ao Rei Midas:

” – Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer”.

Silenus e Iggy Pop
Figuras míticas em dança alucinada. À esquerda, Sileno (dizem que o verdadeiro proprietário do CBGB), à direita, Iggy Pop.

Como Irvine Welsh já havia relatado pela boca de um de seus desajustados personagens, a heroína seria a única droga ‘honesta’: não leva a lugar nenhum, fantasioso, colorido ou especial, simplesmente dá um soco e amortece por um pequeno espaço de tempo sem que se deixe ilusoriamente a marginalidade desse mundo cruel e injusto. Não é preciso um arsenal metafórico capaz de tornar público o indizível. É simples. São dois, três acordes. E não há indizível: “heroína, seja minha morte / é a minha ‘esposa’ e minha vida / Porque uma agulha na minha veia / leva ao centro da minha mente / E então eu fico bem, como se estivesse morto / porque quando o ‘smack’ começa a correr / Eu realmente não me importo mais” (é o que diz a música número sete do disco da banana, aquele).

Vivendo sem negar a miséria e pagando tributo à dor e à finitude, agindo artisticamente na vida – e banhando de vida sua arte – o ‘movimento’ (termo contestável) punk recria a tradição do desajuste social dos beats e de tantos outros que se depararam com a ideia de que seria, de fato, melhor não estar pelas bandas deste mundo.

Sem mitificação alguma da vida, sem sacralização alguma do desejo, sem perdão nem culpa – “…Jesus morreu pelos pecados de alguém / mas não os meus”, avisa Patti Smith como num cartão de visitas, nos primeiros versos de seu primeiro álbum, em sua primeira canção.

Uma coisa não mudou e está drasticamente petrificada: seja qual livro esse vai ser para você, será incrível.


Obra citada:
Mate-me por favor – a história sem censura do punk
Legs McNeil e Gillian McCain
L&PM Editores – 2013 (volume único), 461 págs.

escrito por:

Gabriel Divan

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