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Nascidos para morrer

Em Comportamento, Consciência por Gabriel DivanComentário

Não faz sen­tido sepa­rar a arte da vida real: viver-se-ia a arte em si, de modo que é pre­ciso can­tar sobre fezes, dores, mal-esta­res, seu ambí­guo sen­ti­mento sobre o michê que dá ponto na esquina pró­xima e a desi­lu­são de ter de optar entre subs­ti­tuir a comida por vodka ou sol­ven­tes.


Eu estava no pri­meiro ano de facul­dade quando — em meio às des­co­ber­tas típi­cas daquele mundo, onde alguns nichos e resquí­cios eram exa­ta­mente iguais àque­les com os quais fan­ta­si­ava a par­tir dos enla­ta­dos esta­du­ni­den­ses, enquanto outros, bem, esse aposto já durou mais do que deve­ria — soube por alguma nota, em algum caderno cul­tu­ral, de algum jor­nal, da morte de Wil­liam S. Bur­roughs (era o glo­ri­oso mil nove­cen­tos e noventa e sete do nosso senhor, um ano que, em vários sen­ti­dos, ainda não aca­bou).

Dei a impor­tân­cia exclu­siva ao fato que eu pode­ria ter dado à época: pouquís­sima. Lem­bro de ler sobre algu­mas das peri­pé­cias do autor em rela­ção a uma extensa ficha de hap­pe­nings que volta e meia redun­da­vam em escân­da­los e (comu­mente) em imple­men­tos da ficha cri­mi­nal comum a todos os legí­ti­mos porra-lou­cas de sua época. Mas não havia jamais lido qual­quer coisa nem sabia de qual­quer nesga de rele­vân­cia que Bur­roughs pode­ria ter em rela­ção a uma série de coi­sas que flu­tuam para além de um resu­mido ‘movi­mento’ lite­rá­rio.

No mesmo ano, tive pela pri­meira vez, na casa de um amigo, con­tato com a então recém-lan­çada obra “Mate-me por favor”, que era tudo o que pós-ado­les­cen­tes fãs de rodas de pogo em luga­res duvi­do­sos de cer­veja barata (e duvi­dosa) ainda não desi­lu­di­dos com uma vida ‘séria’ que se avi­zi­nhava pode­riam gos­tar de ter em mãos: o livro — aos que não sabem — é uma diver­ti­dís­sima cole­tâ­nea amon­to­ada de rela­tos cur­tos e temá­ti­cos e depoi­men­tos dos pró­prios ‘pro­ta­go­nis­tas’, orga­ni­za­dos por Legs McNeil e Gil­lian MCain sobre o iní­cio de uma pro­fu­são artís­tica que domi­nou Nova Ior­que do final dos anos 60 ao final dos anos 70 e que, depois, ganha­ria cores, tons, tachi­nhas e uma ducha de catarro nos becos bri­tâ­ni­cos para, então, se tor­nar conhe­cida como “punk rock (na vitrine de uma loja de um shop­ping aco­plado a um super­mer­cado, onde pas­sei, dia des­ses, car­re­gando cebo­las, rúcula, alface ame­ri­cana ‘cora­ção’ e pimen­tões — em uni­da­des que ajei­tei na sacola para simu­lar a ban­deira da Lituâ­nia — vi um dis­play que suge­ria a ‘ten­dên­cia’ punk-bou­ti­que para a esta­ção. Vida que segue).

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À esquerda, uma das capas da edi­ção bra­si­leira (a poc­ket) de Mate-me Por Favor, pela L&PM. À direita, a capa da edi­ção ori­gi­nal ame­ri­cana.

Tal e qual o adá­gio de Herá­clito, somos com o rio que muda e não encon­tra­mos o mesmo livro por­que somos pes­soa outra: quase vinte anos depois, há alguns dias, fina­li­zei minha segunda lei­tura de “Mate-me por favor” da vida. Expe­ri­ên­cia riquís­sima, que já deu certo com auto­res tão dís­pa­res quanto Milan Kun­dera e Stephen King, a relei­tura de algu­mas obras com um espa­ça­mento de dez ou quinze anos é um pro­jeto que vou len­ta­mente e sele­ci­o­na­da­mente rea­li­zando com calma. É o retrato mais fiel que se pode anga­riar da nossa cami­nhada altiva por esse mundo: há coi­sas que sal­tam aos olhos. Outras, dei­xam de impor­tar (para Noé, Gas­par, o tempo des­trói tudo. Para Col­lor, era o senhor da razão).

No caso da obra em ques­tão, um com­po­nente impres­si­o­nante se soma à nova des­co­berta do velho texto: obvi­a­mente as refe­rên­cias e meu inte­resse rela­tivo a alguns de meus ído­los (Blon­die, encar­nada no mag­ne­tismo da musa freak Deb­bie Harry, e, sobre­tudo e incom­pa­ra­vel­mente, os Ramo­nes) seguem sendo meu gan­cho em rela­ção à obra e ao inte­resse que ela ori­gi­na­ri­a­mente des­perta, mas é quase óbvia a minha espe­cial aten­ção jus­ta­mente ao período his­tó­rico coberto pelas nar­ra­ti­vas que haviam, antes, menos cha­mado minha aten­ção.

Devo­rei ávido e com mais punch jus­ta­mente o tre­cho de texto que se ocupa dos a-heads e speed-fre­aks, que cir­cu­la­vam em torno de Andy Warhol  e da Fac­tory e do pró­prio ‘evento’ cult que era o Vel­vet Under­ground, até a inva­são de Detroit na cena novai­or­quina, com o antes  fes­te­jado MC5 sendo abso­lu­ta­mente suplan­tado pelo mag­ne­tismo e pela per­ti­nên­cia que havia em Iggy Pop e os Sto­o­ges entre­gando (em alguns casos desa­gra­dá­vel e lite­ral­mente) o san­gue e as tri­pas no palco. Dizem que nada é mais pode­roso do que uma ideia cujo tempo che­gou. Foi o caso.

Debbie Harry e Richard Hell

Deb­bie Harry e Richard Hell

Sin­ce­ra­mente, pouco me inte­res­sou dessa vez se Dee Dee Ramone bri­gava pela ené­sima vez com sua namo­rada a ponto de ela o ame­a­çar com gar­ra­fas cor­ta­das no meio da rua, muito menos o tre­cho mais mar­cado na minha memó­ria na pri­meira vez em que tive o livro diante de meus olhos (que é aquele em que Dee Dee narra que Sid Vici­ous, certa vez, pre­ci­sava de um pico de heroína de tal maneira que não se impor­tou em puxar, com uma seringa, água dire­ta­mente de uma privada,em uma festa, para diluir a droga e, logo depois, inje­tar na veia aquele misto de urina, fezes, vômito, soda e pó de bai­xís­sima qua­li­dade).

Fiquei alu­ci­nado, mesmo, com os rela­tos rela­ti­vos à for­ma­ção de um zeit­geist que englo­bava a per­for­mance ‘cir­cence’ bizarra de Iggy (que rolava em cacos de vidro enquanto can­tava, a ponto de ter­mi­nar todas as noi­tes de uma tem­po­rada de shows no hos­pi­tal, com pon­tos, para repe­tir a prá­tica no dia seguinte), a poe­sia suja de Patti Smith, decla­mada em infer­ni­nhos de quinto esca­lão, o ati­vismo (e a pri­são) de Wayne Kra­mer, e o cará­ter ambu­lante de alguns outros como Lou Reed, que viviam coti­di­a­na­mente não con­forme um modelo cul­tu­ral, mas em um outro, sendo cri­ado e gal­va­ni­zado naquele mesmo ins­tante, a gol­pes de bar­bi­tú­ri­cos, sexo bruto e des­com­pro­mis­sado de gênero e um rock que espe­lhava jus­ta­mente o lado negro da era de Aqua­rius.

William Burroughs (e, no fundo de seu olhar atormentado, o 'ugly spirit').

Wil­liam Bur­roughs (e, no fundo de seu olhar ator­men­tado, o ‘ugly spi­rit’).

A pre­sença, jus­ta­mente, de Bur­roughs em vários rela­tos (e na pró­pria ‘ore­lha’ da recente edi­ção, con­fir­mando que “estava lá”) é emble­má­tica: vete­rano da dro­ga­di­ção e da puta­ria no bas fond ame­ri­cano desde ao menos três déca­das antes, Bur­roughs foi, tran­qui­la­mente, um dos pri­mei­ros punks,e sua pre­sença em bares como o CBGB’s e seu olhar atento para o que a metade da década de setenta no cen­tro fétido de Manhat­tan tra­zia são sim­bó­li­cos demais. O Bur­roughs morto em 1997 não era, para mim, o autor de “Jun­kie ou “Naked Lunch;não era o amigo e con­se­lheiro de Jack Kerouac e Allen Gins­berg. A rela­ção direta entre um sujeito esguio como uma cobra ber­rando seminu que “que­ria ser o ‘seu’ cachorro’” e piso­te­ando a pla­teia e um velhi­nho bêbado e pede­rasta pode­ria ser outra, se ambos não fos­sem uma impres­si­o­nante fari­nha do mesmo saco. Ambos out­si­ders con­fes­si­o­nais que, pelas tan­tas, resol­ve­ram entre­gar sua vida em forma de obra e expor suas veias e sua face publi­ca­mente — aguar­dando com a mesma sofre­gui­dão um pico ou uma nava­lhada, um beijo mor­dido — de homem, mulher, tanto faz — ou um bofe­tão.

Os beat­niks (a quem, igual­mente, demo­rei para con­fe­rir valor genuíno na vida) e sua sig­ni­fi­ca­tiva lite­ra­tura, foram a encar­na­ção ante­rior e ime­di­a­ta­mente enrai­zada de uma ver­tente da cul­tura do século XX cuja insa­tis­fa­ção exis­ten­cial se tra­du­zia em um vazio que era apla­cado como se a vida fosse uma peça de arte intensa. Não fazia sen­tido — nem para um beat nem para um punk - uma música, poema, letra ou his­tó­ria que não fosse repleta de sexo, ver­ti­gem, morte, pus e res­saca. Não faz sen­tido sepa­rar a arte da vida real: viver-se-ia a arte em si, de modo que é pre­ciso can­tar sobre fezes, dores, mal-esta­res, seu ambí­guo sen­ti­mento sobre o michê que dá ponto na esquina pró­xima e a desi­lu­são de ter de optar entre subs­ti­tuir a comida por vodka ou sol­ven­tes. É pre­ciso viver on the road, do mesmo modo que nenhuma jor­nada de regresso a Ítaca será com­pleta sem um pas­seio pelo wild side.

Esqueça o mora­lismo às aves­sas depri­mente que cri­an­ças pro­mo­vem ao ornar os cabe­los com cores absur­das ou mos­trar o dedo médio para uma câmera da qual seus ges­tos pare­cem depen­der em sim­bi­ose: o con­vite que tanto os beats como alguns genuí­nos punks nos fize­ram é para uma arre­pi­ante inte­gra­ção da morte com a fini­tude da exis­tên­cia em um coti­di­ano que não requer auto­pi­e­dade. Morre-se não como um evento solene reli­gi­oso em uma pie­guice român­tica com­pla­cente: morre-se (mor­ria-se), na pista do Max’s, diante de som, fúria, gló­ria, sor­ri­sos. O san­gue era real. Os chi­co­tes e dil­dos no palco eram reais e cau­sa­vam ver­gões reais. A podri­dão era real. Tinha de ser. Nada figu­ra­ti­va­mente fazia sen­tido.

CBGB & OMFUG (Country, Bluegrass, and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers), berço do punk rock novaiorquino.

CBGB & OMFUG (Coun­try, Blu­e­grass, and Blues and Other Music For Uplif­ting Gor­man­di­zers), berço do punk rock novai­or­quino.

A con­clu­são deli­ci­osa da nova lei­tura da obra me fez pen­sar em um aspecto iné­dito (para mim) das pos­si­bi­li­da­des artís­ti­cas do punk — um raro caso de pro­duto cul­tu­ral onde a van­guarda foi esta­du­ni­dense, e a pas­teu­ri­za­ção, euro­peia (e não o exato oposto): a ‘cons­ci­ên­cia’ quase mam­bembe de per­for­mance de um artista (sen­tido amplo) tal­vez tenha atin­gido ali, em uma meia dúzia de bares sujos de alguns quar­tei­rões da metró­pole ame­ri­cana por exce­lên­cia, assis­tida por algu­mas cen­te­nas de pes­soas, seu ponto mais crí­tico e mais bri­lhante. Alguns con­se­gui­ram ser suas letras e poe­mas como nenhum outro mais. Nunca houve um ponto de con­tato tão umbi­li­cal entre as refe­rên­cias do ‘artista’, sua obra, sua vida e sua men­sa­gem, do que em alguns dias daque­les anos.

Quando Richard Hell apa­re­ceu para um show de uma das semi­nais for­ma­ções do Tele­vi­sion com uma camisa cus­to­mi­zada (“faça você mesmo”) onde se lia a men­sa­gem “ple­ase, kill me” (e, dizem, quase fora ‘aten­dido’ em seu pedido por neu­ró­ti­cos admi­ra­do­res), mal podia (será?) per­ce­ber que estava viven­ci­ando o único enredo legi­ti­ma­mente punk: o “Dilema de Sileno” que, segundo Nietzs­che, teria sido pro­fe­rido pelo pró­prio ao Rei Midas:

” — Estirpe mise­rá­vel e efê­mera, filhos do acaso e do tor­mento! Por que me obri­gas a dizer-te o que seria para ti mais salu­tar não ouvir? O melhor de tudo é para ti intei­ra­mente ina­tin­gí­vel: não ter nas­cido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo mor­rer”.

Silenus e Iggy Pop

Figu­ras míti­cas em dança alu­ci­nada. À esquerda, Sileno (dizem que o ver­da­deiro pro­pri­e­tá­rio do CBGB), à direita, Iggy Pop.

Como Irvine Welsh já havia rela­tado pela boca de um de seus desa­jus­ta­dos per­so­na­gens, a heroína seria a única droga ‘honesta’: não leva a lugar nenhum, fan­ta­si­oso, colo­rido ou espe­cial, sim­ples­mente dá um soco e amor­tece por um pequeno espaço de tempo sem que se deixe ilu­so­ri­a­mente a mar­gi­na­li­dade desse mundo cruel e injusto. Não é pre­ciso um arse­nal meta­fó­rico capaz de tor­nar público o indi­zí­vel. É sim­ples. São dois, três acor­des. E não há indi­zí­vel: “heroína, seja minha morte / é a minha ‘esposa’ e minha vida / Por­que uma agu­lha na minha veia / leva ao cen­tro da minha mente / E então eu fico bem, como se esti­vesse morto / por­que quando o ‘smack’ começa a cor­rer / Eu real­mente não me importo mais” (é o que diz a música número sete do disco da banana, aquele).

Vivendo sem negar a misé­ria e pagando tri­buto à dor e à fini­tude, agindo artis­ti­ca­mente na vida — e banhando de vida sua arte — o ‘movi­mento’ (termo con­tes­tá­vel) punk recria a tra­di­ção do desa­juste social dos beats e de tan­tos outros que se depa­ra­ram com a ideia de que seria, de fato, melhor não estar pelas ban­das deste mundo.

Sem miti­fi­ca­ção alguma da vida, sem sacra­li­za­ção alguma do desejo, sem per­dão nem culpa — “…Jesus mor­reu pelos peca­dos de alguém / mas não os meus”, avisa Patti Smith como num car­tão de visi­tas, nos pri­mei­ros ver­sos de seu pri­meiro álbum, em sua pri­meira can­ção.

Uma coisa não mudou e está dras­ti­ca­mente petri­fi­cada: seja qual livro esse vai ser para você, será incrí­vel.


Obra citada:
Mate-me por favor — a his­tó­ria sem cen­sura do punk
Legs McNeil e Gil­lian McCain
L&PM Edi­to­res — 2013 (volume único), 461 págs.

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