Quando assistimos à série Narcos, da Netflix, mesmo as pessoas mais corretas não deixam de sentir certa fascinação inconfessa pela figura de Pablo Escobar. Em parte porque a familiarização com sua intimidade o humaniza, em parte porque no fundo algo em nós simpatiza com os grandes vilões, e em parte porque ele foi, de fato, alguém extremamente ousado e engenhoso. Mas não nos iludamos: Pablo Escobar foi um criminoso, um homicida e um perigo para qualquer sociedade que tolere sua existência.

Porém, ainda assim ele talvez possa ser considerado herói dentro de uma perspectiva que nossa sociedade jamais aceitaria. Dito claramente, do ponto de vista da filosofia de Nietzsche, Pablo Escobar pode ser considerado um exemplo de herói?

Vamos, primeiramente, entender a perspectiva de Nietzsche. Para ele, o ideal de herói estava representado em pessoas como César Bórgia. Filho de um Papa (sim, isso mesmo), César Bórgia foi um duque e cardeal italiano do século XV que tentou criar seu próprio reino por meio da força e da astúcia. Era um sujeito calculista e violento, que não tinha escrúpulos em seu caminho na busca pelo poder. Ele serviu, inclusive, de inspiração a Maquiavel, quando escreveu sua maior obra, O Príncipe.

E como Nietzsche pode considerar alguém maquiavélico e brutal como um exemplo a seguir?

Para Nietzsche, a sociedade humana, independentemente do tipo de sistema político-econômico vigente, sempre se organizaria entre dois polos de relação: os lobos (senhores) de um lado e os cordeiros (escravos) de outro. Por isso, a base da filosofia moral de Nietzsche era a distinção entre dois tipos de moral: a moral dos lobos e a moral dos cordeiros (ou “dos senhores” e “dos escravos”).

Isso seria uma verdade universal, e não importa como arranjássemos as melancias (os indivíduos) na carroça da sociedade: no final do passeio pela estrada pedregosa das relações humanas, algumas poucas melancias estariam por cima, enquanto muitas estariam por baixo. Se no capitalismo temos acima os grandes empresários, no comunismo tivemos os grandes chefes do politiburo.

A partir desse princípio elementar, cada grupo adotava um sistema moral que fosse conveniente com sua situação. Nietzsche entendia que, ao longo da história, os povos dominantes aderiram a sistemas morais que legitimavam seu domínio sob outros povos, enquanto os povos dominados adotavam sistemas morais que justificavam sua submissão e a tornava tolerável. Assim, enquanto os romanos pagãos adoravam deuses guerreiros e libertinos, os judeus do oriente médio adoravam uma divindade severa, que valorizava a humildade e a pobreza.

César Bórgia, modelo de herói para Nietzsche.
César Bórgia, modelo de herói para Nietzsche.

A grande sacada da elite dominante, Nietzsche nos diz, foi quando ela percebeu que era útil apoiar e aderir, na aparência, à moral dos seus escravos, pois ela os deixava dóceis e facilmente manipuláveis. Ao invés de se impor pela força, os dominadores subjugariam os dominados pela astúcia. Isso teria ocorrido quando o Imperador Romano Constantino aderiu ao cristianismo.

Assim, em sua “genealogia” da moral, o filósofo concluiu que todo nosso sistema moral vigente é, na verdade, a “moral dos cordeiros” difundida e apoiada até que esquecêssemos sua origem.

Quando Pablo Escobar nasceu em 1941, em Medellín, ele era o terceiro dos sete filhos de uma família colombiana de classe média baixa. Sob a ótica de Nietzsche, Escobar já nasceu submetido a um sistema moral e legal cuja observância o manteria na mesma situação de humildade e anonimato até sua morte. Como “recompensa”, viveria uma vida tranquila e sem punições.

Sob essa ótica, se Escobar desejasse erguer sua cabeça acima da sua posição de dominado, deveria recusar o sistema moral vigente, renunciar à obediência a qualquer lei humana e criar ele mesmo suas próprias regras.

Observe que aqui não há qualquer lógica de comunidade: o objetivo não é combater os dominadores frontalmente para beneficiar a classe dominada. Não há qualquer preocupação social sobre a injustiça da relação entre “classe oprimida” e “classe opressora”. Há apenas o desejo do indivíduo de combater os dominadores o dissuadi-los de algum modo a que o “herói” nietzscheano também passe a dominar os outros.

Para realizar essa façanha, Escobar precisaria colocar-se acima do bem e do mal. Em outras palavras, segundo Nietzsche ele precisava transcender o sistema moral vigente e, de uma perspectiva superior, perceber que os valores sociais (o que é “bom” e o que é “mal”, o que é “correto” e “incorreto”) não são absolutos, mas foram estabelecidos segundo condicionantes sociais e históricas. Essa operação era o que o filósofo chamava de “transvaloração dos valores“: avaliar os valores impostos a partir de uma perspectiva situada para além desses valores.

Narcos: Escobar x Nietzsche

A lógica imposta a Pablo Escobar, nesse sistema proposto por Nietzsche, era implacável. As regras do jogo foram criadas apenas para os dominados obedecerem e não terem chance de vitória sobre os dominadores. Portanto, como Escobar nasceu entre os dominados, sua única real chance de triunfo era não ter qualquer escrúpulo e desrespeitar toda e qualquer regra dos sistema moral vigente que se interpusesse em seu caminho.

A partir dessa lógica, nenhuma regra moral poderia representar obstáculo. Não haveria motivo para Escobar não explodir um avião de passageiros inocentes apenas para tentar matar um único indivíduo. Não haveria razão para destruir os processos criminais nos quais era o réu manipulando guerrilheiros comunistas e induzindo-os a incendiar o próprio tribunal em que estavam esses processos.

É duvidoso que Pablo Escobar tenha algum dia tomado conhecimento de Nietzsche. Mas embora fosse, ao que tudo indica, um homem de gosto simples e sem grande cultura, ele parece ter intuitivamente chegado às mesmas conclusões do filósofo alemão. É que ambos, o traficante e o filósofo, adotaram (um na filosofia, outro na prática) não só um procedimento revolucionário e imoral de conquista (ignorar as regras sociais e legais vigentes e construir suas próprias regras), mas também concordavam integralmente sobre qual deveria ser o objeto da conquista.

Nietzsche, em sua adolescência, foi um adepto entusiasmado do filósofo Schopenhauer, para o qual a essência de todos os seres é simplesmente a “vontade de ser”. Nietzsche, porém, ao amadurecer seu pensamento concluiu que Schopenhauer estava errado: não era simplesmente a “vontade de ser” que impulsionava todos os organismos terrestres, mas sim a “vontade de poder“. Da bactéria que fagocita bactérias menores e partículas para aumentar seu tamanho ao político que mente para multidões, todo ser vivo é movido pelo anseio de aumentar incessantemente seu poder.

Toda dor seria, em uma última análise, o resultado de uma determinada perda de poder, enquanto toda forma de prazer, entendia Nietzsche, seria o resultado indireto ou direto de um determinado ganho de poder. Nada, nem amor, nem dinheiro, nem realização pessoal, nem felicidade – nada disso seria a verdadeira e última meta humana: apenas o poder, em todas as suas manifestações seria o objetivo fundamental de todo indivíduo.

Em 1982 Pablo Escobar, já um poderoso traficante, tentou seguir a carreira política, entrando pela porta dos fundos do parlamento colombiano como suplente de um deputado que renunciou. Ele esperava ser aceito finalmente pela classe dominante que, como ele, também não obedecia a qualquer regra moral.

Porém, Escobar viu esse caminho vetado. Foi quando ele percebeu que, se o caminho para ampliar seu poder por dentro do Estado estava fechado, a única alternativa seria trilhar um caminho por fora do Estado, que desafiasse esse Estado e a própria legitimação do poder político.

De qualquer modo, Escobar conseguiu realmente uma façanha. Ele não apenas confrontou abertamente o Estado colombiano, desafiando as próprias forças armadas, como tornou-se uma constante dor-de-cabeça para os Estados Unidos. Adorado pelos pobres, que manipulava, temido pelos poderosos, esse sujeito foi muito além do que sua origem humilde nos permitiria prever.

E Escobar apenas foi contido quando alguém agiu também totalmente fora das regras do jogo – inclusive fora das regras que vigiam entre os poderosos narcotraficantes da Colômbia. Somente quando forças paraestatais (ou seja, realmente livres de qualquer vigilância moral da sociedade) passaram a agir abertamente contra Pablo Escobar é que seu poder começou a ruir.

Mas não é certo que Nietzsche endossaria os atos de Pablo Escobar. E esse é o problema de sua filosofia: possivelmente ele subestimava a maldade humana, e não tinha uma compreensão prática, mas apenas teórica, das implicações de algumas de suas proposições mais ousadas. Além disso, é seguro dizer que Nietzsche era voluntariamente assistemático em sua filosofia. Escrevendo preferencialmente na forma de aforismos e muitas vezes inspirado em seu humor pessoal (o qual dependia de estar ou não sujeito a fortes ataques de enxaqueca ou sob o efeito de absinto), ele por vezes se contradiz ao longo de sua obra. E é por essa razão que sua filosofia tem momentos de clara defesa de atos que até hoje consideraríamos criminosos, intercalados com momentos de maior lucidez e sensibilidade. 

Quanto a Pablo Escobar, podemos aprender uma lição importante de sua história: quando criminosos ameaçam a própria estrutura da sociedade, desrespeitando totalmente as regras do jogo (as normas morais e legais vigentes), eles só são vencidos de duas formas.

A primeira é por uma força que também desobedece as regras do jogo, como ocorreu no caso de Escobar. O problema dessa solução é que ela troca um mal por outro, abalando ainda mais a confiança de todos nas regras da sociedade.

A segunda solução, mais eficaz, é simplesmente acabar com o jogo. E no caso de Escobar, como no caso de muitos outros criminosos, acabar com o jogo significa descriminalizar a comercialização de drogas, privando-os da mais formidável forma de financiamento de toda a criminalidade contemporânea.


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escrito por:

Victor Lisboa

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