Narcos: Pablo Escobar x Friedrich Nietzsche.

Narcos: Escobar é o herói de Nietzsche?

Em Comportamento por Victor LisboaComentários

Quando assis­ti­mos à série Nar­cos, da Net­flix, mesmo as pes­soas mais cor­re­tas não dei­xam de sen­tir certa fas­ci­na­ção incon­fessa pela figura de Pablo Esco­bar. Em parte por­que a fami­li­a­ri­za­ção com sua inti­mi­dade o huma­niza, em parte por­que no fundo algo em nós sim­pa­tiza com os gran­des vilões, e em parte por­que ele foi, de fato, alguém extre­ma­mente ousado e enge­nhoso. Mas não nos ilu­da­mos: Pablo Esco­bar foi um cri­mi­noso, um homi­cida e um perigo para qual­quer soci­e­dade que tolere sua exis­tên­cia.

Porém, ainda assim ele tal­vez possa ser con­si­de­rado herói den­tro de uma pers­pec­tiva que nossa soci­e­dade jamais acei­ta­ria. Dito cla­ra­mente, do ponto de vista da filo­so­fia de Nietzs­che, Pablo Esco­bar pode ser con­si­de­rado um exem­plo de herói?

Vamos, pri­mei­ra­mente, enten­der a pers­pec­tiva de Nietzs­che. Para ele, o ideal de herói estava repre­sen­tado em pes­soas como César Bór­gia. Filho de um Papa (sim, isso mesmo), César Bór­gia foi um duque e car­deal ita­li­ano do século XV que ten­tou criar seu pró­prio reino por meio da força e da astú­cia. Era um sujeito cal­cu­lista e vio­lento, que não tinha escrú­pu­los em seu cami­nho na busca pelo poder. Ele ser­viu, inclu­sive, de ins­pi­ra­ção a Maqui­a­vel, quando escre­veu sua maior obra, O Prín­cipe.

E como Nietzs­che pode con­si­de­rar alguém maqui­a­vé­lico e bru­tal como um exem­plo a seguir?

Para Nietzs­che, a soci­e­dade humana, inde­pen­den­te­mente do tipo de sis­tema polí­tico-econô­mico vigente, sem­pre se orga­ni­za­ria entre dois polos de rela­ção: os lobos (senho­res) de um lado e os cor­dei­ros (escra­vos) de outro. Por isso, a base da filo­so­fia moral de Nietzs­che era a dis­tin­ção entre dois tipos de moral: a moral dos lobos e a moral dos cor­dei­ros (ou “dos senho­res” e “dos escra­vos”).

Isso seria uma ver­dade uni­ver­sal, e não importa como arran­jás­se­mos as melan­cias (os indi­ví­duos) na car­roça da soci­e­dade: no final do pas­seio pela estrada pedre­gosa das rela­ções huma­nas, algu­mas pou­cas melan­cias esta­riam por cima, enquanto mui­tas esta­riam por baixo. Se no capi­ta­lismo temos acima os gran­des empre­sá­rios, no comu­nismo tive­mos os gran­des che­fes do poli­ti­buro.

A par­tir desse prin­cí­pio ele­men­tar, cada grupo ado­tava um sis­tema moral que fosse con­ve­ni­ente com sua situ­a­ção. Nietzs­che enten­dia que, ao longo da his­tó­ria, os povos domi­nan­tes ade­ri­ram a sis­te­mas morais que legi­ti­ma­vam seu domí­nio sob outros povos, enquanto os povos domi­na­dos ado­ta­vam sis­te­mas morais que jus­ti­fi­ca­vam sua sub­mis­são e a tor­nava tole­rá­vel. Assim, enquanto os roma­nos pagãos ado­ra­vam deu­ses guer­rei­ros e liber­ti­nos, os judeus do ori­ente médio ado­ra­vam uma divin­dade severa, que valo­ri­zava a humil­dade e a pobreza.

César Bórgia, modelo de herói para Nietzsche.

César Bór­gia, modelo de herói para Nietzs­che.

A grande sacada da elite domi­nante, Nietzs­che nos diz, foi quando ela per­ce­beu que era útil apoiar e ade­rir, na apa­rên­cia, à moral dos seus escra­vos, pois ela os dei­xava dóceis e facil­mente mani­pu­lá­veis. Ao invés de se impor pela força, os domi­na­do­res sub­ju­ga­riam os domi­na­dos pela astú­cia. Isso teria ocor­rido quando o Impe­ra­dor Romano Cons­tan­tino ade­riu ao cris­ti­a­nismo.

Assim, em sua “gene­a­lo­gia” da moral, o filó­sofo con­cluiu que todo nosso sis­tema moral vigente é, na ver­dade, a “moral dos cor­dei­ros” difun­dida e apoi­ada até que esque­cês­se­mos sua ori­gem.

Quando Pablo Esco­bar nas­ceu em 1941, em Medel­lín, ele era o ter­ceiro dos sete filhos de uma famí­lia colom­bi­ana de classe média baixa. Sob a ótica de Nietzs­che, Esco­bar já nas­ceu sub­me­tido a um sis­tema moral e legal cuja obser­vân­cia o man­te­ria na mesma situ­a­ção de humil­dade e ano­ni­mato até sua morte. Como “recom­pensa”, vive­ria uma vida tran­quila e sem puni­ções.

Sob essa ótica, se Esco­bar dese­jasse erguer sua cabeça acima da sua posi­ção de domi­nado, deve­ria recu­sar o sis­tema moral vigente, renun­ciar à obe­di­ên­cia a qual­quer lei humana e criar ele mesmo suas pró­prias regras.

Observe que aqui não há qual­quer lógica de comu­ni­dade: o obje­tivo não é com­ba­ter os domi­na­do­res fron­tal­mente para bene­fi­ciar a classe domi­nada. Não há qual­quer pre­o­cu­pa­ção social sobre a injus­tiça da rela­ção entre “classe opri­mida” e “classe opres­sora”. Há ape­nas o desejo do indi­ví­duo de com­ba­ter os domi­na­do­res o dis­su­adi-los de algum modo a que o “herói” nietzs­che­ano tam­bém passe a domi­nar os outros.

Para rea­li­zar essa faça­nha, Esco­bar pre­ci­sa­ria colo­car-se acima do bem e do mal. Em outras pala­vras, segundo Nietzs­che ele pre­ci­sava trans­cen­der o sis­tema moral vigente e, de uma pers­pec­tiva supe­rior, per­ce­ber que os valo­res soci­ais (o que é “bom” e o que é “mal”, o que é “cor­reto” e “incor­reto”) não são abso­lu­tos, mas foram esta­be­le­ci­dos segundo con­di­ci­o­nan­tes soci­ais e his­tó­ri­cas. Essa ope­ra­ção era o que o filó­sofo cha­mava de “trans­va­lo­ra­ção dos valo­res”: ava­liar os valo­res impos­tos a par­tir de uma pers­pec­tiva situ­ada para além des­ses valo­res.

Narcos: Escobar x Nietzsche

A lógica imposta a Pablo Esco­bar, nesse sis­tema pro­posto por Nietzs­che, era impla­cá­vel. As regras do jogo foram cri­a­das ape­nas para os domi­na­dos obe­de­ce­rem e não terem chance de vitó­ria sobre os domi­na­do­res. Por­tanto, como Esco­bar nas­ceu entre os domi­na­dos, sua única real chance de triunfo era não ter qual­quer escrú­pulo e des­res­pei­tar toda e qual­quer regra dos sis­tema moral vigente que se inter­pu­sesse em seu cami­nho.

A par­tir dessa lógica, nenhuma regra moral pode­ria repre­sen­tar obs­tá­culo. Não have­ria motivo para Esco­bar não explo­dir um avião de pas­sa­gei­ros ino­cen­tes ape­nas para ten­tar matar um único indi­ví­duo. Não have­ria razão para des­truir os pro­ces­sos cri­mi­nais nos quais era o réu mani­pu­lando guer­ri­lhei­ros comu­nis­tas e indu­zindo-os a incen­diar o pró­prio tri­bu­nal em que esta­vam esses pro­ces­sos.

É duvi­doso que Pablo Esco­bar tenha algum dia tomado conhe­ci­mento de Nietzs­che. Mas embora fosse, ao que tudo indica, um homem de gosto sim­ples e sem grande cul­tura, ele parece ter intui­ti­va­mente che­gado às mes­mas con­clu­sões do filó­sofo ale­mão. É que ambos, o tra­fi­cante e o filó­sofo, ado­ta­ram (um na filo­so­fia, outro na prá­tica) não só um pro­ce­di­mento revo­lu­ci­o­ná­rio e imo­ral de con­quista (igno­rar as regras soci­ais e legais vigen­tes e cons­truir suas pró­prias regras), mas tam­bém con­cor­da­vam inte­gral­mente sobre qual deve­ria ser o objeto da con­quista.

Nietzs­che, em sua ado­les­cên­cia, foi um adepto entu­si­as­mado do filó­sofo Scho­pe­nhauer, para o qual a essên­cia de todos os seres é sim­ples­mente a “von­tade de ser”. Nietzs­che, porém, ao ama­du­re­cer seu pen­sa­mento con­cluiu que Scho­pe­nhauer estava errado: não era sim­ples­mente a “von­tade de ser” que impul­si­o­nava todos os orga­nis­mos ter­res­tres, mas sim a “von­tade de poder”. Da bac­té­ria que fago­cita bac­té­rias meno­res e par­tí­cu­las para aumen­tar seu tama­nho ao polí­tico que mente para mul­ti­dões, todo ser vivo é movido pelo anseio de aumen­tar inces­san­te­mente seu poder.

Toda dor seria, em uma última aná­lise, o resul­tado de uma deter­mi­nada perda de poder, enquanto toda forma de pra­zer, enten­dia Nietzs­che, seria o resul­tado indi­reto ou direto de um deter­mi­nado ganho de poder. Nada, nem amor, nem dinheiro, nem rea­li­za­ção pes­soal, nem feli­ci­dade — nada disso seria a ver­da­deira e última meta humana: ape­nas o poder, em todas as suas mani­fes­ta­ções seria o obje­tivo fun­da­men­tal de todo indi­ví­duo.

Em 1982 Pablo Esco­bar, já um pode­roso tra­fi­cante, ten­tou seguir a car­reira polí­tica, entrando pela porta dos fun­dos do par­la­mento colom­bi­ano como suplente de um depu­tado que renun­ciou. Ele espe­rava ser aceito final­mente pela classe domi­nante que, como ele, tam­bém não obe­de­cia a qual­quer regra moral.

Porém, Esco­bar viu esse cami­nho vetado. Foi quando ele per­ce­beu que, se o cami­nho para ampliar seu poder por den­tro do Estado estava fechado, a única alter­na­tiva seria tri­lhar um cami­nho por fora do Estado, que desa­fi­asse esse Estado e a pró­pria legi­ti­ma­ção do poder polí­tico.

De qual­quer modo, Esco­bar con­se­guiu real­mente uma faça­nha. Ele não ape­nas con­fron­tou aber­ta­mente o Estado colom­bi­ano, desa­fi­ando as pró­prias for­ças arma­das, como tor­nou-se uma cons­tante dor-de-cabeça para os Esta­dos Uni­dos. Ado­rado pelos pobres, que mani­pu­lava, temido pelos pode­ro­sos, esse sujeito foi muito além do que sua ori­gem humilde nos per­mi­ti­ria pre­ver.

E Esco­bar ape­nas foi con­tido quando alguém agiu tam­bém total­mente fora das regras do jogo — inclu­sive fora das regras que vigiam entre os pode­ro­sos nar­co­tra­fi­can­tes da Colôm­bia. Somente quando for­ças para­es­ta­tais (ou seja, real­mente livres de qual­quer vigi­lân­cia moral da soci­e­dade) pas­sa­ram a agir aber­ta­mente con­tra Pablo Esco­bar é que seu poder come­çou a ruir.

Mas não é certo que Nietzs­che endos­sa­ria os atos de Pablo Esco­bar. E esse é o pro­blema de sua filo­so­fia: pos­si­vel­mente ele subes­ti­mava a mal­dade humana, e não tinha uma com­pre­en­são prá­tica, mas ape­nas teó­rica, das impli­ca­ções de algu­mas de suas pro­po­si­ções mais ousa­das. Além disso, é seguro dizer que Nietzs­che era volun­ta­ri­a­mente assis­te­má­tico em sua filo­so­fia. Escre­vendo pre­fe­ren­ci­al­mente na forma de afo­ris­mos e mui­tas vezes ins­pi­rado em seu humor pes­soal (o qual depen­dia de estar ou não sujeito a for­tes ata­ques de enxa­queca ou sob o efeito de absinto), ele por vezes se con­tra­diz ao longo de sua obra. E é por essa razão que sua filo­so­fia tem momen­tos de clara defesa de atos que até hoje con­si­de­ra­ría­mos cri­mi­no­sos, inter­ca­la­dos com momen­tos de maior luci­dez e sen­si­bi­li­dade. 

Quanto a Pablo Esco­bar, pode­mos apren­der uma lição impor­tante de sua his­tó­ria: quando cri­mi­no­sos ame­a­çam a pró­pria estru­tura da soci­e­dade, des­res­pei­tando total­mente as regras do jogo (as nor­mas morais e legais vigen­tes), eles só são ven­ci­dos de duas for­mas.

A pri­meira é por uma força que tam­bém deso­be­dece as regras do jogo, como ocor­reu no caso de Esco­bar. O pro­blema dessa solu­ção é que ela troca um mal por outro, aba­lando ainda mais a con­fi­ança de todos nas regras da soci­e­dade.

A segunda solu­ção, mais efi­caz, é sim­ples­mente aca­bar com o jogo. E no caso de Esco­bar, como no caso de mui­tos outros cri­mi­no­sos, aca­bar com o jogo sig­ni­fica des­cri­mi­na­li­zar a comer­ci­a­li­za­ção de dro­gas, pri­vando-os da mais for­mi­dá­vel forma de finan­ci­a­mento de toda a cri­mi­na­li­dade con­tem­po­râ­nea.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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