Nota do Editor: Wagner Pacheco, colaborador de Ano Zero, foi convidado pelo povo Yawanawa (ou Iauanauá) a visitar sua aldeia, situada na floresta amazônica, na Área Indígena Rio Gregório, estado do Acre. No texto a seguir, Wagner apresenta o relato de sua experiência pessoal durante a viagem.

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Um convite de amigos e resolvo fazer uma visita. Após seis horas e meia de avião, sete de carro e mais oito em um barco rio acima, finalmente vejo uma colina, sobre a qual repousa a aldeia indígena Nova Esperança, no estado do Acre. Um verdadeiro paraíso de mata amazônica onde os Yawanawas vivem de modo manso e segundo suas próprias regras. Lá, sou recebido com cordialidade e simpatia, além de uma educação exemplar por parte de todos.

O modo de vida simples me encanta. É como se tivesse finalmente chegado em casa, pois é assim que todos desejavam que eu me sentisse. Vem então a quebra do nosso paradigma de vida. Esse é o primeiro sentimento conforme o tempo passa, vivendo entre o povo Yawanawa. As regras de etiqueta mudam, a forma do trabalho muda, a interações sociais também. Não há como negar a transformação interna que isso causa, renovando todas as bases de nosso pensamento.

Minha rotina comum não passa nem perto do que vivi naqueles 14 dias. Aos 31 anos, moro em Porto Alegre e trabalho na emergência de um grande hospital. Poluição, trânsito, fast-food: esse é meu habitat natural. Mas após meus primeiros contatos com uma cultura ancestral e a medicina indígena, isso gradualmente começou a mudar. Tudo em que eu acreditava e tudo o que desejava passou a ser repensado. Minhas prioridades começam a tomar uma nova forma.

Rio Gregório
Rio Gregório

Por exemplo, nas aldeias do povo Yawanawa que conheci, o trabalho é dividido de forma justa entre as pessoas, e momentos de lazer a ajuda mútua são distribuídos ao longo do dia. Os bens circulam de modo livre, estando à disposição de quem os necessita naquele momento. A música se faz sempre presente: cantos e o som de algum violão vem de várias casas, sempre “alegreando” o ambiente, como eles costumam dizer.

As margens do rio ao lado da aldeia são tomadas de mata amazônica, com aves das mais variadas, tartarugas, répteis, todos ali, livres. O Gregório é um rio relativamente raso, podendo ser atravessado a pé, embora seja um pouco arriscado por conta das arraias. Dele e dos açudes vem a principal base alimentar desse povo: peixes de diversas espécies que são acompanhados de mandioca, farinha, frutas cultivadas e, nos dias de sorte, alguma caça. O açaí, colhido na mata, faz um delicioso café da manhã ou acompanhamento para a refeição, e as bananas eram as mais doces que já provei.

aldeia
Aldeia Yawanawa

Contudo, as provações estavam por vir. As noites eram mais frias do que eu esperava (quem pensa em passar frio na maior floresta tropical do mundo?), e os insetos, mais agressivos do que podia imaginar. O piúm, por exemplo, é um inseto minúsculo, que voa aos milhares e não perdoa ser vivo algum. No meu caso, ele fez jus à sua fama de gostar de carne nova. Sem falar de uma sensibilidade inesperada do meu organismo: longo nos primeiros dias, uma gripe me pegou de rasteira.

Além disso, dormir vários dias numa rede (onde está meu colchão pillow top e meu travesseiro de visco elástico?) pode se tornar bastante desconfortável para uma cervical despreparada. E tomar banho num rio em que há cobras é algo perturbador para um cara da cidade. Mas todas as agruras faziam sentido no momento em que se pode participar de suas rodadas de Uni (ayahuasca) e ouvir seus cantos. Depois de algum tempo, não há inseto ou banho frio que possa tirar essa alegria de você.

pesca
Pesca na aldeia

Conversei com o Cacique Bira, chefe dos Yawanawas. É um homem de visão extraordinária e muito comprometido com o bem estar de seu povo. Explicou-me que sim, existem dificuldades para o seu povo, assim como para outros grupos indígenas. Mas sua visão para o futuro é otimista. Ele mantém escolas na aldeia, incentiva o estudo entre os jovens para que tenham formação em diferentes profissões e sonha em montar um pequeno hospital que atenda tanto ao seu povo quanto às populações ribeirinhas. O Cacique contou que houve um tempo em que sua cultura foi quase extinta por proibições religiosas, mas que foram fortes o suficiente para resistir.

A convite dele, visitei a Aldeia Sagrada, lugar de atmosfera muito intensa, situado em um local ainda mais isolado do que a aldeia Nova Esperança. Lá, segundo me relatou o Cacique, houve o primeiro contato dos Yawanawas conosco. Nessa aldeia, vivem hoje aqueles que estão fazendo alguma dieta espiritual, doentes que estejam sendo tratados pelos Pajés e aprendizes da espiritualidade Yawanawa. É ainda o local onde cultivam suas plantas sagradas e produzem diversos de seus remédios.

Aldeia Sagrada
Aldeia Sagrada

Após minha jornada, iniciando o retorno para casa, fiz o cálculo de meus espólios: 78 picadas de inseto infeccionadas (sim, eu contei!), 8 quilos mais magro (mesmo me alimentando bem lá, o que me faz pensar em mudar meu hábitos por aqui e cortar alguns itens da minha alimentação). E a isso some-se uma infecção intestinal advinda de uma empada: acreditem ou não, toda a alimentação da floresta me fez bem, mas uma empada de frango no aeroporto de Brasília acabou por estragar os meus primeiros dias de retorno a Porto Alegre.

O que realmente posso relatar ao final dessa experiência é que, nos últimos dias da viagem, banho frio já não importava, os piuns já não incomodavam, comer sentado no chão era uma alegria. Conversar de forma simples e estar em paz em meio ao povo Yawanawá me fez encontrar a verdadeira alegria de viver. Dureza mesmo é viver entre carros, emergências de hospital e empadas de má procedência.

escrito por:

Wagner Pacheco