~KenA v1 @ 2/12/2008 @ 4:36 PM~Susan v2 @ 2/13/2008 @ 1:48 PM~KenA v3 @ 2/22/2008 @ 1:26 AM~ryasick v3 @ 2/22/2008 @ 7:39 AM~KenA v4 @ 2/28/2008 @ 8:51 PM~JBasmagy  v5 @ 3/18/2008 @ 8:41 AM~KenA v6 @ 3/20/2008 @ 10:45 PM

Na terra dos Yawanawas

Em Consciência, Sociedade por Wagner PachecoComentário

Nota do Edi­tor: Wag­ner Pacheco, cola­bo­ra­dor de Ano Zero, foi con­vi­dado pelo povo Yawa­nawa (ou Iau­a­nauá) a visi­tar sua aldeia, situ­ada na flo­resta amazô­nica, na Área Indí­gena Rio Gre­gó­rio, estado do Acre. No texto a seguir, Wag­ner apre­senta o relato de sua expe­ri­ên­cia pes­soal durante a via­gem.

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Um con­vite de ami­gos e resolvo fazer uma visita. Após seis horas e meia de avião, sete de carro e mais oito em um barco rio acima, final­mente vejo uma colina, sobre a qual repousa a aldeia indí­gena Nova Espe­rança, no estado do Acre. Um ver­da­deiro paraíso de mata amazô­nica onde os Yawa­nawas vivem de modo manso e segundo suas pró­prias regras. Lá, sou rece­bido com cor­di­a­li­dade e sim­pa­tia, além de uma edu­ca­ção exem­plar por parte de todos.

O modo de vida sim­ples me encanta. É como se tivesse final­mente che­gado em casa, pois é assim que todos dese­ja­vam que eu me sen­tisse. Vem então a que­bra do nosso para­digma de vida. Esse é o pri­meiro sen­ti­mento con­forme o tempo passa, vivendo entre o povo Yawa­nawa. As regras de eti­queta mudam, a forma do tra­ba­lho muda, a inte­ra­ções soci­ais tam­bém. Não há como negar a trans­for­ma­ção interna que isso causa, reno­vando todas as bases de nosso pen­sa­mento.

Minha rotina comum não passa nem perto do que vivi naque­les 14 dias. Aos 31 anos, moro em Porto Ale­gre e tra­ba­lho na emer­gên­cia de um grande hos­pi­tal. Polui­ção, trân­sito, fast-food: esse é meu habi­tat natu­ral. Mas após meus pri­mei­ros con­ta­tos com uma cul­tura ances­tral e a medi­cina indí­gena, isso gra­du­al­mente come­çou a mudar. Tudo em que eu acre­di­tava e tudo o que dese­java pas­sou a ser repen­sado. Minhas pri­o­ri­da­des come­çam a tomar uma nova forma.

Rio Gregório

Rio Gre­gó­rio

Por exem­plo, nas aldeias do povo Yawa­nawa que conheci, o tra­ba­lho é divi­dido de forma justa entre as pes­soas, e momen­tos de lazer a ajuda mútua são dis­tri­buí­dos ao longo do dia. Os bens cir­cu­lam de modo livre, estando à dis­po­si­ção de quem os neces­sita naquele momento. A música se faz sem­pre pre­sente: can­tos e o som de algum vio­lão vem de várias casas, sem­pre “ale­gre­ando” o ambi­ente, como eles cos­tu­mam dizer.

As mar­gens do rio ao lado da aldeia são toma­das de mata amazô­nica, com aves das mais vari­a­das, tar­ta­ru­gas, rép­teis, todos ali, livres. O Gre­gó­rio é um rio rela­ti­va­mente raso, podendo ser atra­ves­sado a pé, embora seja um pouco arris­cado por conta das arraias. Dele e dos açu­des vem a prin­ci­pal base ali­men­tar desse povo: pei­xes de diver­sas espé­cies que são acom­pa­nha­dos de man­di­oca, fari­nha, fru­tas cul­ti­va­das e, nos dias de sorte, alguma caça. O açaí, colhido na mata, faz um deli­ci­oso café da manhã ou acom­pa­nha­mento para a refei­ção, e as bana­nas eram as mais doces que já pro­vei.

aldeia

Aldeia Yawa­nawa

Con­tudo, as pro­va­ções esta­vam por vir. As noi­tes eram mais frias do que eu espe­rava (quem pensa em pas­sar frio na maior flo­resta tro­pi­cal do mundo?), e os inse­tos, mais agres­si­vos do que podia ima­gi­nar. O piúm, por exem­plo, é um inseto minús­culo, que voa aos milha­res e não per­doa ser vivo algum. No meu caso, ele fez jus à sua fama de gos­tar de carne nova. Sem falar de uma sen­si­bi­li­dade ines­pe­rada do meu orga­nismo: longo nos pri­mei­ros dias, uma gripe me pegou de ras­teira.

Além disso, dor­mir vários dias numa rede (onde está meu col­chão pil­low top e meu tra­ves­seiro de visco elás­tico?) pode se tor­nar bas­tante des­con­for­tá­vel para uma cer­vi­cal des­pre­pa­rada. E tomar banho num rio em que há cobras é algo per­tur­ba­dor para um cara da cidade. Mas todas as agru­ras faziam sen­tido no momento em que se pode par­ti­ci­par de suas roda­das de Uni (ayahu­asca) e ouvir seus can­tos. Depois de algum tempo, não há inseto ou banho frio que possa tirar essa ale­gria de você.

pesca

Pesca na aldeia

Con­ver­sei com o Caci­que Bira, chefe dos Yawa­nawas. É um homem de visão extra­or­di­ná­ria e muito com­pro­me­tido com o bem estar de seu povo. Expli­cou-me que sim, exis­tem difi­cul­da­des para o seu povo, assim como para outros gru­pos indí­ge­nas. Mas sua visão para o futuro é oti­mista. Ele man­tém esco­las na aldeia, incen­tiva o estudo entre os jovens para que tenham for­ma­ção em dife­ren­tes pro­fis­sões e sonha em mon­tar um pequeno hos­pi­tal que atenda tanto ao seu povo quanto às popu­la­ções ribei­ri­nhas. O Caci­que con­tou que houve um tempo em que sua cul­tura foi quase extinta por proi­bi­ções reli­gi­o­sas, mas que foram for­tes o sufi­ci­ente para resis­tir.

A con­vite dele, visi­tei a Aldeia Sagrada, lugar de atmos­fera muito intensa, situ­ado em um local ainda mais iso­lado do que a aldeia Nova Espe­rança. Lá, segundo me rela­tou o Caci­que, houve o pri­meiro con­tato dos Yawa­nawas conosco. Nessa aldeia, vivem hoje aque­les que estão fazendo alguma dieta espi­ri­tual, doen­tes que este­jam sendo tra­ta­dos pelos Pajés e apren­di­zes da espi­ri­tu­a­li­dade Yawa­nawa. É ainda o local onde cul­ti­vam suas plan­tas sagra­das e pro­du­zem diver­sos de seus remé­dios.

Aldeia Sagrada

Aldeia Sagrada

Após minha jor­nada, ini­ci­ando o retorno para casa, fiz o cál­culo de meus espó­lios: 78 pica­das de inseto infec­ci­o­na­das (sim, eu con­tei!), 8 qui­los mais magro (mesmo me ali­men­tando bem lá, o que me faz pen­sar em mudar meu hábi­tos por aqui e cor­tar alguns itens da minha ali­men­ta­ção). E a isso some-se uma infec­ção intes­ti­nal advinda de uma empada: acre­di­tem ou não, toda a ali­men­ta­ção da flo­resta me fez bem, mas uma empada de frango no aero­porto de Bra­sí­lia aca­bou por estra­gar os meus pri­mei­ros dias de retorno a Porto Ale­gre.

O que real­mente posso rela­tar ao final dessa expe­ri­ên­cia é que, nos últi­mos dias da via­gem, banho frio já não impor­tava, os piuns já não inco­mo­da­vam, comer sen­tado no chão era uma ale­gria. Con­ver­sar de forma sim­ples e estar em paz em meio ao povo Yawa­nawá me fez encon­trar a ver­da­deira ale­gria de viver. Dureza mesmo é viver entre car­ros, emer­gên­cias de hos­pi­tal e empa­das de má pro­ce­dên­cia.

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