“Policial morto, farda em outro”. Esse pensamento não é uma novidade. Novidade é vê-lo verbalizado por Marcelo Crivella, candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro, com naturalidade e sem qualquer repúdio imediato, tanto por parte da imprensa quanto por parte da maioria das entidades de defesa de Direitos Humanos. E menos ainda pelos demais candidatos presentes na ocasião.

2014 foi um ano que deixou um triste saldo de 306 policiais baleados no Estado do Rio de Janeiro, dentre os quais 87 foram mortos. Do total de policiais na ativa, 170 estavam de serviço e 106 de folga. Uma média de 25 policiais por mês. Cerca de 6 por semana. Em 2013, 111 agentes morreram assassinados.

As mortes de policiais e, também, de militar do exército (foto acima) – que, ocupando favelas, foi levado a atuar em desviada função policial -, assim como as mortes de moradores dessas mesmas favelas “pacificadas”, são faces de uma mesma moeda: a insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”.

Enquanto entidades de Direitos Humanos debaterem temas como o fim dos autos de resistência, o fim das polícias militares e do genocídio da juventude negra, sem tocarem no real motivo da matança, sem reivindicarem o fim da insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”, nada fará sentido. O sofá continuará sendo tirado da sala e haverá muito gelo pra enxugar.

Os jovens negros – que são 77% dos jovens, com idade entre 15 e 24 anos, vítimas, anualmente, de homicídios dolosos no país – e os policiais que tombam em serviço ou fora dele não morrem por acaso. Não há um mal misterioso no ar que tira vidas. A principal causa dessas mortes tem nome: a insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas” (Sim, isso precisa ser repetido. Exaustivamente!).

De acordo com os últimos levantamentos feitos pela Anistia Internacional, 56 mil pessoas foram assassinadas em solo brasileiro em 2012, sendo 30 mil jovens. Destes, 77% eram negros. A polícia do Estado do Rio é a que mais mata e a que mais morre no país.

O racismo está introjetado nos profissionais de segurança pública. Eles são algozes e vítimas de uma mesma engrenagem: a sociedade que enxerga sua população de forma estereotipada e criminalizante. Não à toa isso esteve dentro da formação de policiais no Estado. “Naturalmente”…

drugs war

Bairros são criminalizados; pessoas são marcadas como alvo; e tudo continua intocado – e não dito – nas salas onde as decisões que arbitram sobre vida e morte são tomadas.

Os mortos são sempre os mesmos: de um lado, policiais e agora militar de baixa patente; de outro, apontados “traficantes” de chinelos e bermudas. Todos facilmente “repostos” por seus empregadores. Morrem ainda os tantos inocentes, moradores das favelas – ocupadas ou não -, pegos no fogo cruzado.

Desde a proibição da produção, do comércio e do consumo das drogas arbitrariamente selecionadas e tornadas ilícitas, essa guerra nunca surtiu efeito: morrem mais pessoas; encarceram-se sobreviventes; apreendem-se mais e mais drogas tornadas ilícitas – e essas se tornam cada vez mais potentes, mais diversificadas e mais acessíveis. Qual o sentido da manutenção dessa política? Quem lucra com isso?

Enquanto funcionários da ONU, governantes e legisladores dos Estados que a formam decidem de modo arbitrário, na segurança de seus gabinetes, quais drogas devem ser postas na ilegalidade; enquanto esses funcionários, governantes e legisladores, na segurança de seus gabinetes, ignoram o evidente fracasso de sua destrutiva política, insistindo em aplicar as criminalizadoras convenções internacionais e leis nacionais sobre as substâncias proibidas, soldados enterram seus colegas de farda, mães e pais enterram seus filhos e filhas, pessoas ficam viúvas e nenhuma peça nesse tabuleiro é alterada de posição.

Enquanto a disputa toma contornos de guerra, com vinganças pessoais e até institucionais, nada muda. São sempre os mesmos que morrem. Nessa guerra não há vencedores. Só há perdedores.

“Não somos justiceiros, somos policiais. A resposta que os criminosos precisam virá, mas sem rasgar nossas leis e nossa Constituição”. A frase honrosa é do Coronel Ibis Pereira, Comandandte Interino da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que infelizmente fica no cargo apenas até o início de janeiro. Me pergunto se esse curto tempo de gestão é diretamente proporcional à sua postura humanista e baseada na garantia de direitos. A quem interessa que homens como Ibis sejam passageiros?

Em 14 de dezembro, policiais se reuniram em Copacabana, em frente ao Posto 6, para clamar pelo fim dessas mortes.

Não podemos continuar a contar corpos. Precisamos ampliar o debate. Precisamos falar sobre racismo. Precisamos falar sobre drogas. Precisamos falar sobre formação policial. Precisamos falar sobre Direitos Humanos. Para todos e por todos. Ou não será para ninguém.

escrito por:

Cecília Olliveira

Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil.