Toda a coleção dele hoje cabe em um pendrive.
Toda a coleção dele hoje cabe em um pendrive.

Quando uma música começa a tocar no rádio, você provavelmente se pergunta: “quem tá cantando?”. Alguns segundos depois, talvez ache o solo legal, ou goste muito do refrão porque é empolgante, ou talvez até se emocione com o final e queira ouvir de novo. Mas o que há além disso – ou melhor, o que aconteceu antes desse pedaço de som organizado chegar aos seus ouvidos? É partindo das próximas cinco perguntas que tentaremos responder.

Quantas pessoas trabalharam pra essa música ficar pronta?

Quando um filme acaba, aparece uma lista enorme de créditos que todo mundo, fatalmente, pula. Um CD também tem “créditos” – e sim, todo mundo também pula essa parte.

Faça o seguinte: abra o encarte nas últimas páginas e procure pela ficha técnica. Para você ter ideia, peguei, aqui na minha estante, um álbum de uma banda chamada Muse. São só três integrantes, tocam rock. Só de gente que trabalhou dentro do estúdio com processos de edição do som, contei dez pessoas, entre engenheiros de áudio (sim, isso existe) e produtores. Pessoas altamente qualificadas para um trabalho que deve ser cirúrgico, preciso o suficiente para que o disco soe legal a qualquer ouvido, no seu radinho da sala, no meu microssystem dentro de um quarto, no volume máximo numa festa ou no volume mínimo nos meus fones.

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E você pensando que bastavam só três músicos inspirados.

Então, cof cof, vamos deixar bem claro: a melhor banda do mundo não é nada sem uma boa equipe de áudio (e dinheiro para bons equipamentos). E eu nem vou começar a falar do marketing, da assessoria de imprensa, da publicidade e do pessoal que negocia a música para emplacar nas rádios e TVs.

Aliás, procure saber também se quem canta é quem compôs aquela sua música favorita. É bom saber a quem dar o crédito por aquela sacada poética genial ou aquele pianinho da introdução.

O que o artista teve que fazer para estar tocando no seu rádio?

Pense nos cursos mais disputados no vestibular. Em quantos puder, não precisa ser só a dupla medicina-direito. Música não é sequer o décimo nessa lista, certo? Assim como outras artes. Por um motivo muito simples: arte não dá dinheiro, e dinheiro é um valor poderoso demais. Vá para a Europa e, talvez, se estudar religiosamente, você consiga viver bem tocando flauta numa orquestra filarmônica. Fique no Brasil e… bem, e o quê? É a busca diária dos músicos por aqui.

Se você não é filho do dono da gravadora (como o Cazuza), começar uma carreira musical do zero pode ser um verdadeiro teste de resistência e coragem. O Linkin Park, hoje ídolo pop, teve integrantes dormindo dentro do estúdio em meio ao esforço pra finalizar o primeiro álbum – é como dormir no escritório pra terminar um projeto da sua empresa.

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Pessoal do The Smiths nos tempos de dureza.

Os Smiths, lá na Inglaterra dos anos 80, tiveram que conciliar emprego de vendedor com tempo para compor e ensaiar, além de tirar do próprio bolso para conseguir gravar cassetes e correr atrás de gravadoras. E tem o violonista, compositor e cantor brasileiro Rodrigo Ferreira, que tem um trabalho poético fincado em algumas raízes da música popular brasileira. Só que você nunca deve ter ouvido falar dele, já que, apesar da qualidade da sua música, ele ainda está batalhando pra ser ouvido – assim como muita gente boa por aí, pelo mundo.

Você entendeu a letra? Tem certeza?

Quase ninguém entendeu o Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, quando ele disse “Häagen-Dazs de mangaba” no sucesso da banda chamado “Loirinha Bombril”. É claro que é compreensível, já que são palavras estrangeiras referentes a uma marca de sorvete cara demais pra estar na minha mesa todo mês. Mas esse verso é importante, porque traz em si a essência de tudo o que os caras queriam dizer com essa música: mistura cultural. Afinal, quem poderia imaginar um sorvete famoso mundialmente com sabor de fruta brasileira nordestina?

O significado do que se diz numa música é tão importante que provoca até boatos – geralmente, sobre a vida do compositor. O sucesso de Tim Maia, “Gostava tanto de você”, foi enroscado pelas típicas correntes de e-mail dos primórdios da Internet. A grande revelação: não era música romântica coisa nenhuma, a pessoa de quem se “gostava tanto” era a filha falecida do compositor. Após a corrente ter deixado um rastro de gente enganada nos anos 2000, acabou que o compositor, Edson Trindade, nem filha morta tinha. Tudo não passou de um grande headcanon coletivo.

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Tim Maia: sucesso da carreira foi objeto de boatos.

Às vezes, é fácil esquecer que música é poesia. Aliás, as primeiras formas de poesia popular não eram nem escritas; eram textos cantados, orais. Se alguém resolveu colocar uma letra na música, é porque teve alguns motivos para isso, quer a letra tenha um sentido claro, quer seja uma do Djavan.

Se música também é mensagem, vale a pena maneirar no embromation – aquela preguiça crônica de ler a letra da música estrangeira e saber o que está cantando. Lembro vivamente de um aniversário de 15 anos no qual resolveram que a trilha sonora da sessão fotográfica daquela linda debutante seria uma música dos Backstreet Boys, na época bem estourada nas rádios. Acontece que eu, ainda uma criança na época, gostava de Backstreet Boys (algum problema nisso? Hum, acho bom), pegava as letras pra ler e tinha um mínimo conhecimento de inglês pra sacar que aquela música falava claramente sobre um sentimento profundo de solidão. Apesar de sonoramente agradável, a letra era completamente inadequada. Em vez de curtir o momento família da festa, me senti estranhamente desconfortável e triste.

O artista tem liberdade política pra se expressar?

Em outras palavras, ele pode ser preso ou censurado no país em que vive por dizer algo em suas músicas? Pensamos muito pouco nisso quando vivemos numa democracia, mas é interessante lembrarmos que a atual condição não foi sempre assim – e não está sendo, ainda hoje, em alguns países ou regiões. Mas fomos recentemente lembrados de que liberdade de expressão importa, com o caso Charlie Hebdo.

Não estou querendo dizer que todo artista deve ser super antenado politicamente e compor letras que serão os hinos de novas revoluções sociais (embora isso seja uma ideia bacana, hein?). Mas o fato que pouco se reconhece é que, independente da sua escolha de falar em política ou não, sendo um artista ou não, a política que rege o seu entorno interfere na sua vida. Geraldo Vandré, cantor popular de sucesso nos festivais brasileiros da década de 60, é um dos principais exemplos de gente que foi censurada e exilada do país por escolher… falar.

O refrão de sua canção “Para não dizer que não falei das flores”, de 1968:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

geraldo
Geraldo Vandré

É só lembrarmos que, há cerca de 40 anos – é menos tempo do que parece, se você pensar que ainda tem muita, muita gente viva para nos contar isso – a censura do governo militar brasileiro não precisava de grandes versos engajados ou socialistas para barrar uma letra de música. Bastava você burlar a “moral e os bons costumes” (como cantar sobre sexo, por exemplo). Se a História não serve para nos orgulharmos muito, que sirva para reconhecermos

  1. a) as conquistas e o que temos de bom agora;
  2. b) os erros que nunca mais deveriam ser cometidos.

Quem está realmente lucrando com essa música?

Você já baixou música de graça? Sabe os paranauês de programas P2P e arquivos Torrent como ninguém? Ficou meio triste quando quebraram o site The Pirate Bay? Já se sentiu culpado por piratear? Ou ainda compra CDs físicos? Digitais, talvez?

Não existem respostas certas para essas perguntas, ainda. Fato é que os principais atingidos pelo compartilhamento gratuito de músicas na internet não são os artistas (…surpresa!). São as empresas gravadoras e distribuidoras, que contrataram esses artistas. Há indícios de que a maior disseminação das músicas gratuitamente acaba ajudando o artista a ganhar mais fãs fiéis, que não medirão esforços ou dinheiro para conseguir ir em seus shows e comprar seus produtos.

Membros da banda Motorhead fazendo tudo por comida: alguns músicos andam desesperados.
Membros da banda Motorhead fazendo tudo por comida: alguns músicos andam desesperados.

Shows esses que, oras, também são organizados por empresas. Um caso gritante da diferença entre os interesses do artista e os interesses da indústria foi a luta do Pearl Jam contra a gigante das vendas de ingresso Ticketmaster, em 1994. Os músicos moveram um longo processo para denunciar os abusos da empresa no preço dos ingressos cobrados ao público. O contato mais direto com os fãs e o diálogo foram decisivos para que a banda descobrisse o que estava acontecendo, e logo o Pearl Jam batia o pé e ameaçava cancelar turnês inteiras pelos EUA, além de juntar equipe para organizar seus próprios shows, sem a participação da Ticketmaster. A briga foi tão séria que o então presidente Clinton se manifestou publicamente sobre o assunto. Como era de se esperar, os integrantes da banda perderam na justiça – apesar de estarem certos.

Os tempos agora são outros, e embora sejam cheios de pirataria online gratuita, também são marcados pelo reinado do iTunes. É essa plataforma de venda de músicas online, que permite que qualquer músico independente ganhe seu sustento vendendo o seu trabalho aos fãs, certo?

Mais ou menos. A maior parte dos artistas ainda precisa de uma gravadora, ainda que pequena, para conseguir se lançar e se manter com uma boa gestão. Qual é a real porcentagem que fica com o artista? Bom, vamos à partilha da receita das vendas.

Apple, criadora do iTunes: 30%

Gravadora e custos de produção: 50%

Artista (ou artistas, se for uma banda): 20%, em um cenário otimista.

Resumindo: a Apple leva mais do que o artista na venda das músicas dele.

Portanto, como diz o mestre pop David Byrne, nem sempre vale a pena entrar na moda do iTunes. O músico e produtor, que “apenas” ajudou a inaugurar um estilo musical que agitou os anos 80 – a New Wave eletrônica – também elogia um caso de sucesso de artistas que não se renderam nem às gravadoras, nem à grande maçã.

“Lógico, nem todo mundo é tão esperto quanto esses nerds do Radiohead”, David Byrne afirmou, em um artigo para a revista Wired, em 2007. Isso porque a banda (esse pessoal estranho aqui, lembra?) tomou a decisão histórica de lançar um álbum pela internet, cuidarem eles mesmos da distribuição e, pasme, deixar os fãs escolherem quanto queriam pagar pelo álbum. É claro que o Radiohead já tinha uma base sólida, internacional e apaixonada de fãs desde a década de 90, não foi um tiro no escuro. Mas ninguém faz isso por aí o tempo todo – quer dizer, ainda não.

A cada pergunta, a música deixa de ser uma sequência de sonzinhos no alto-falante da sua casa e passa a ser algo mais. Passa a ser um produto à venda, uma mensagem que diz de múltiplas formas, um exercício de liberdade de expressão, uma paixão pela qual o artista iniciante tenta conciliar dois empregos e tempo em estúdio de gravação, uma junção de arte e tecnologia sofisticada. Da próxima vez que alguma música interessante tocar no rádio, você já sabe o que (se) perguntar – logo depois de “quem tá cantando?”.

escrito por:

Beatriz Felix

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