musica favorita

Sua música favorita é algo muito mais sério do que imagina

Em Arte, Consciência, Tempo de Saber por Beatriz FelixComentários

Toda a coleção dele hoje cabe em um pendrive.

Toda a cole­ção dele hoje cabe em um pen­drive.

Quando uma música começa a tocar no rádio, você pro­va­vel­mente se per­gunta: “quem tá can­tando?”. Alguns segun­dos depois, tal­vez ache o solo legal, ou goste muito do refrão por­que é empol­gante, ou tal­vez até se emo­ci­one com o final e queira ouvir de novo. Mas o que há além disso – ou melhor, o que acon­te­ceu antes desse pedaço de som orga­ni­zado che­gar aos seus ouvi­dos? É par­tindo das pró­xi­mas cinco per­gun­tas que ten­ta­re­mos res­pon­der.

Quantas pessoas trabalharam pra essa música ficar pronta?

Quando um filme acaba, apa­rece uma lista enorme de cré­di­tos que todo mundo, fatal­mente, pula. Um CD tam­bém tem “cré­di­tos” – e sim, todo mundo tam­bém pula essa parte.

Faça o seguinte: abra o encarte nas últi­mas pági­nas e pro­cure pela ficha téc­nica. Para você ter ideia, peguei, aqui na minha estante, um álbum de uma banda cha­mada Muse. São só três inte­gran­tes, tocam rock. Só de gente que tra­ba­lhou den­tro do estú­dio com pro­ces­sos de edi­ção do som, con­tei dez pes­soas, entre enge­nhei­ros de áudio (sim, isso existe) e pro­du­to­res. Pes­soas alta­mente qua­li­fi­ca­das para um tra­ba­lho que deve ser cirúr­gico, pre­ciso o sufi­ci­ente para que o disco soe legal a qual­quer ouvido, no seu radi­nho da sala, no meu micros­sys­tem den­tro de um quarto, no volume máximo numa festa ou no volume mínimo nos meus fones.

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E você pen­sando que bas­ta­vam só três músi­cos ins­pi­ra­dos.

Então, cof cof, vamos dei­xar bem claro: a melhor banda do mundo não é nada sem uma boa equipe de áudio (e dinheiro para bons equi­pa­men­tos). E eu nem vou come­çar a falar do mar­ke­ting, da asses­so­ria de imprensa, da publi­ci­dade e do pes­soal que nego­cia a música para empla­car nas rádios e TVs.

Aliás, pro­cure saber tam­bém se quem canta é quem compôs aquela sua música favo­rita. É bom saber a quem dar o cré­dito por aquela sacada poé­tica genial ou aquele pia­ni­nho da intro­du­ção.

O que o artista teve que fazer para estar tocando no seu rádio?

Pense nos cur­sos mais dis­pu­ta­dos no ves­ti­bu­lar. Em quan­tos puder, não pre­cisa ser só a dupla medi­cina-direito. Música não é sequer o décimo nessa lista, certo? Assim como outras artes. Por um motivo muito sim­ples: arte não dá dinheiro, e dinheiro é um valor pode­roso demais. Vá para a Europa e, tal­vez, se estu­dar reli­gi­o­sa­mente, você con­siga viver bem tocando flauta numa orques­tra filarmô­nica. Fique no Bra­sil e… bem, e o quê? É a busca diá­ria dos músi­cos por aqui.

Se você não é filho do dono da gra­va­dora (como o Cazuza), come­çar uma car­reira musi­cal do zero pode ser um ver­da­deiro teste de resis­tên­cia e cora­gem. O Lin­kin Park, hoje ídolo pop, teve inte­gran­tes dor­mindo den­tro do estú­dio em meio ao esforço pra fina­li­zar o pri­meiro álbum – é como dor­mir no escri­tó­rio pra ter­mi­nar um pro­jeto da sua empresa.

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Pes­soal do The Smiths nos tem­pos de dureza.

Os Smiths, lá na Ingla­terra dos anos 80, tive­ram que con­ci­liar emprego de ven­de­dor com tempo para com­por e ensaiar, além de tirar do pró­prio bolso para con­se­guir gra­var cas­se­tes e cor­rer atrás de gra­va­do­ras. E tem o vio­lo­nista, com­po­si­tor e can­tor bra­si­leiro Rodrigo Fer­reira, que tem um tra­ba­lho poé­tico fin­cado em algu­mas raí­zes da música popu­lar bra­si­leira. Só que você nunca deve ter ouvido falar dele, já que, ape­sar da qua­li­dade da sua música, ele ainda está bata­lhando pra ser ouvido – assim como muita gente boa por aí, pelo mundo.

Você entendeu a letra? Tem certeza?

Quase nin­guém enten­deu o Her­bert Vianna, do Para­la­mas do Sucesso, quando ele disse “Häa­gen-Dazs de man­gaba” no sucesso da banda cha­mado “Loi­ri­nha Bom­bril”. É claro que é com­pre­en­sí­vel, já que são pala­vras estran­gei­ras refe­ren­tes a uma marca de sor­vete cara demais pra estar na minha mesa todo mês. Mas esse verso é impor­tante, por­que traz em si a essên­cia de tudo o que os caras que­riam dizer com essa música: mis­tura cul­tu­ral. Afi­nal, quem pode­ria ima­gi­nar um sor­vete famoso mun­di­al­mente com sabor de fruta bra­si­leira nor­des­tina?

O sig­ni­fi­cado do que se diz numa música é tão impor­tante que pro­voca até boa­tos – geral­mente, sobre a vida do com­po­si­tor. O sucesso de Tim Maia, “Gos­tava tanto de você”, foi enros­cado pelas típi­cas cor­ren­tes de e-mail dos pri­mór­dios da Inter­net. A grande reve­la­ção: não era música român­tica coisa nenhuma, a pes­soa de quem se “gos­tava tanto” era a filha fale­cida do com­po­si­tor. Após a cor­rente ter dei­xado um ras­tro de gente enga­nada nos anos 2000, aca­bou que o com­po­si­tor, Edson Trin­dade, nem filha morta tinha. Tudo não pas­sou de um grande head­ca­non cole­tivo.

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Tim Maia: sucesso da car­reira foi objeto de boa­tos.

Às vezes, é fácil esque­cer que música é poe­sia. Aliás, as pri­mei­ras for­mas de poe­sia popu­lar não eram nem escri­tas; eram tex­tos can­ta­dos, orais. Se alguém resol­veu colo­car uma letra na música, é por­que teve alguns moti­vos para isso, quer a letra tenha um sen­tido claro, quer seja uma do Dja­van.

Se música tam­bém é men­sa­gem, vale a pena manei­rar no embro­ma­tion – aquela pre­guiça crô­nica de ler a letra da música estran­geira e saber o que está can­tando. Lem­bro viva­mente de um ani­ver­sá­rio de 15 anos no qual resol­ve­ram que a tri­lha sonora da ses­são foto­grá­fica daquela linda debu­tante seria uma música dos Backs­treet Boys, na época bem estou­rada nas rádios. Acon­tece que eu, ainda uma cri­ança na época, gos­tava de Backs­treet Boys (algum pro­blema nisso? Hum, acho bom), pegava as letras pra ler e tinha um mínimo conhe­ci­mento de inglês pra sacar que aquela música falava cla­ra­mente sobre um sen­ti­mento pro­fundo de soli­dão. Ape­sar de sono­ra­mente agra­dá­vel, a letra era com­ple­ta­mente ina­de­quada. Em vez de cur­tir o momento famí­lia da festa, me senti estra­nha­mente des­con­for­tá­vel e triste.

O artista tem liberdade política pra se expressar?

Em outras pala­vras, ele pode ser preso ou cen­su­rado no país em que vive por dizer algo em suas músi­cas? Pen­sa­mos muito pouco nisso quando vive­mos numa demo­cra­cia, mas é inte­res­sante lem­brar­mos que a atual con­di­ção não foi sem­pre assim – e não está sendo, ainda hoje, em alguns paí­ses ou regiões. Mas fomos recen­te­mente lem­bra­dos de que liber­dade de expres­são importa, com o caso Char­lie Hebdo.

Não estou que­rendo dizer que todo artista deve ser super ante­nado poli­ti­ca­mente e com­por letras que serão os hinos de novas revo­lu­ções soci­ais (embora isso seja uma ideia bacana, hein?). Mas o fato que pouco se reco­nhece é que, inde­pen­dente da sua esco­lha de falar em polí­tica ou não, sendo um artista ou não, a polí­tica que rege o seu entorno inter­fere na sua vida. Geraldo Van­dré, can­tor popu­lar de sucesso nos fes­ti­vais bra­si­lei­ros da década de 60, é um dos prin­ci­pais exem­plos de gente que foi cen­su­rada e exi­lada do país por esco­lher… falar.

O refrão de sua can­ção “Para não dizer que não falei das flo­res”, de 1968:

Vem, vamos embora
Que espe­rar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acon­te­cer

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Geraldo Van­dré

É só lem­brar­mos que, há cerca de 40 anos – é menos tempo do que parece, se você pen­sar que ainda tem muita, muita gente viva para nos con­tar isso – a cen­sura do governo mili­tar bra­si­leiro não pre­ci­sava de gran­des ver­sos enga­ja­dos ou soci­a­lis­tas para bar­rar uma letra de música. Bas­tava você bur­lar a “moral e os bons cos­tu­mes” (como can­tar sobre sexo, por exem­plo). Se a His­tó­ria não serve para nos orgu­lhar­mos muito, que sirva para reco­nhe­cer­mos

  1. a) as con­quis­tas e o que temos de bom agora;
  2. b) os erros que nunca mais deve­riam ser come­ti­dos.

Quem está realmente lucrando com essa música?

Você já bai­xou música de graça? Sabe os para­nauês de pro­gra­mas P2P e arqui­vos Tor­rent como nin­guém? Ficou meio triste quando que­bra­ram o site The Pirate Bay? Já se sen­tiu cul­pado por pira­tear? Ou ainda com­pra CDs físi­cos? Digi­tais, tal­vez?

Não exis­tem res­pos­tas cer­tas para essas per­gun­tas, ainda. Fato é que os prin­ci­pais atin­gi­dos pelo com­par­ti­lha­mento gra­tuito de músi­cas na inter­net não são os artis­tas (…sur­presa!). São as empre­sas gra­va­do­ras e dis­tri­bui­do­ras, que con­tra­ta­ram esses artis­tas. Há indí­cios de que a maior dis­se­mi­na­ção das músi­cas gra­tui­ta­mente acaba aju­dando o artista a ganhar mais fãs fiéis, que não medi­rão esfor­ços ou dinheiro para con­se­guir ir em seus shows e com­prar seus pro­du­tos.

Membros da banda Motorhead fazendo tudo por comida: alguns músicos andam desesperados.

Mem­bros da banda Motorhead fazendo tudo por comida: alguns músi­cos andam deses­pe­ra­dos.

Shows esses que, oras, tam­bém são orga­ni­za­dos por empre­sas. Um caso gri­tante da dife­rença entre os inte­res­ses do artista e os inte­res­ses da indús­tria foi a luta do Pearl Jam con­tra a gigante das ven­das de ingresso Tic­ket­mas­ter, em 1994. Os músi­cos move­ram um longo pro­cesso para denun­ciar os abu­sos da empresa no preço dos ingres­sos cobra­dos ao público. O con­tato mais direto com os fãs e o diá­logo foram deci­si­vos para que a banda des­co­brisse o que estava acon­te­cendo, e logo o Pearl Jam batia o pé e ame­a­çava can­ce­lar tur­nês intei­ras pelos EUA, além de jun­tar equipe para orga­ni­zar seus pró­prios shows, sem a par­ti­ci­pa­ção da Tic­ket­mas­ter. A briga foi tão séria que o então pre­si­dente Clin­ton se mani­fes­tou publi­ca­mente sobre o assunto. Como era de se espe­rar, os inte­gran­tes da banda per­de­ram na jus­tiça – ape­sar de esta­rem cer­tos.

Os tem­pos agora são outros, e embora sejam cheios de pira­ta­ria online gra­tuita, tam­bém são mar­ca­dos pelo rei­nado do iTu­nes. É essa pla­ta­forma de venda de músi­cas online, que per­mite que qual­quer músico inde­pen­dente ganhe seu sus­tento ven­dendo o seu tra­ba­lho aos fãs, certo?

Mais ou menos. A maior parte dos artis­tas ainda pre­cisa de uma gra­va­dora, ainda que pequena, para con­se­guir se lan­çar e se man­ter com uma boa ges­tão. Qual é a real por­cen­ta­gem que fica com o artista? Bom, vamos à par­ti­lha da receita das ven­das.

Apple, cri­a­dora do iTu­nes: 30%

Gra­va­dora e cus­tos de pro­du­ção: 50%

Artista (ou artis­tas, se for uma banda): 20%, em um cená­rio oti­mista.

Resu­mindo: a Apple leva mais do que o artista na venda das músi­cas dele.

Por­tanto, como diz o mes­tre pop David Byrne, nem sem­pre vale a pena entrar na moda do iTu­nes. O músico e pro­du­tor, que “ape­nas” aju­dou a inau­gu­rar um estilo musi­cal que agi­tou os anos 80 – a New Wave ele­trô­nica – tam­bém elo­gia um caso de sucesso de artis­tas que não se ren­de­ram nem às gra­va­do­ras, nem à grande maçã.

Lógico, nem todo mundo é tão esperto quanto esses nerds do Radi­ohead”, David Byrne afir­mou, em um artigo para a revista Wired, em 2007. Isso por­que a banda (esse pes­soal estra­nho aqui, lem­bra?) tomou a deci­são his­tó­rica de lan­çar um álbum pela inter­net, cui­da­rem eles mes­mos da dis­tri­bui­ção e, pasme, dei­xar os fãs esco­lhe­rem quanto que­riam pagar pelo álbum. É claro que o Radi­ohead já tinha uma base sólida, inter­na­ci­o­nal e apai­xo­nada de fãs desde a década de 90, não foi um tiro no escuro. Mas nin­guém faz isso por aí o tempo todo – quer dizer, ainda não.

A cada per­gunta, a música deixa de ser uma sequên­cia de son­zi­nhos no alto-falante da sua casa e passa a ser algo mais. Passa a ser um pro­duto à venda, uma men­sa­gem que diz de múl­ti­plas for­mas, um exer­cí­cio de liber­dade de expres­são, uma pai­xão pela qual o artista ini­ci­ante tenta con­ci­liar dois empre­gos e tempo em estú­dio de gra­va­ção, uma jun­ção de arte e tec­no­lo­gia sofis­ti­cada. Da pró­xima vez que alguma música inte­res­sante tocar no rádio, você já sabe o que (se) per­gun­tar – logo depois de “quem tá can­tando?”.

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