Múltiplas inteligências: Desenho apontando um cérebro no centro, com diversas habilidades sendo direcionadas a cada ponto de cada lado do cérebro.

A ilusão das múltiplas inteligências

Em Ciência, Comportamento, Consciência por Scott McGrealComentários

Mui­tas pes­soas acham a ideia de que exis­tem dife­ren­tes tipos de inte­li­gên­cia algo muito atra­ente. Howard Gard­ner depre­ciou os tes­tes de QI como tendo pouca rele­vân­cia para a vida real e argu­men­tou que pode haver até oito dife­ren­tes tipos de inte­li­gên­cia que se apli­cam a diver­sas áreas do fun­ci­o­na­mento humano.¹

As rei­vin­di­ca­ções de Gard­ner são muito seme­lhan­tes às que são fei­tas sobre a “inte­li­gên­cia emo­ci­o­nal” ser um tipo espe­cial de inte­li­gên­cia dis­tinto do QI, que pode ser ainda mais impor­tante para o sucesso na vida do que o tra­di­ci­o­nal “inte­li­gên­cia aca­dê­mica”.

Embora as ale­ga­ções de Gard­ner tenham se tor­nado popu­la­res entre os edu­ca­do­res, pouca pes­quisa foi feita para esta­be­le­cer a vali­dade de sua teo­ria. Os pou­cos estu­dos que foram fei­tos, na ver­dade, não apoiam a ideia de que exis­tem mui­tos tipos dife­ren­tes de “inte­li­gên­cia” ope­rando sepa­ra­da­mente uma da outra.

Embora haja cer­ta­mente habi­li­da­des impor­tan­tes que não são medi­das atra­vés de tes­tes de QI, atri­buir cada uma como um tipo espe­cial de “inte­li­gên­cia” tem pouco apoio cien­tí­fico e acaba por criar uma con­fu­são des­ne­ces­sá­ria.

Quadro imagético da teoria das múltiplas inteligências, de Howard Gardner.

Uma teo­ria muito atra­ente, mas será que tem qual­quer subs­tân­cia?

 

Inteligência geral x inteligências múltiplas

De acordo com pes­qui­sas da inte­li­gên­cia “padrão”, existe uma ampla forma de capa­ci­dade men­tal conhe­cida como inte­li­gên­cia “geral” que está sub­ja­cente a uma ampla gama de habi­li­da­des mais estrei­tas, mais espe­cí­fi­cas.

Os tes­tes de QI são des­ti­na­dos a for­ne­cer uma medida dessa ampla capa­ci­dade geral, bem como algu­mas das capa­ci­da­des mais espe­cí­fi­cas.

Howard Gard­ner opôs-se à ideia de inte­li­gên­cia geral, argu­men­tando que os tes­tes de QI, na ver­dade, medem habi­li­da­des aca­dê­mi­cas dis­tin­ta­mente estrei­tas, negando que haja uma única habi­li­dade geral que atra­vesse vários domí­nios dife­ren­tes.

Em vez disso, ele argu­men­tou que exis­tem domí­nios sepa­ra­dos de cer­tas habi­li­da­des que mere­cem ser cha­ma­dos de “inte­li­gên­cias” em seu pró­prio direito, e que a capa­ci­dade de um domi­nar certa habi­li­dade espe­cí­fica não está rela­ci­o­nada com a capa­ci­dade medida pelo teste em outras habi­li­da­des.

Espe­ci­fi­ca­mente, ele argu­men­tou que os tes­tes de QI medem a inte­li­gên­cia nas áreas linguísticas/verbais e lógicas/matemáticas, que aca­bam por ser valo­ri­za­das nas esco­las.

Os outros domí­nios de inte­li­gên­cia, segundo ele, são habi­li­da­des musi­cal, cor­po­ral-cines­té­sica (habi­li­dade no uso do corpo para resol­ver pro­ble­mas), espa­cial, inter­pes­soal (com­pre­en­são de outras pes­soas), intra­pes­soal (capa­ci­dade de com­pre­en­der a si mesmo e regu­lar a vida de forma efi­caz) e natu­ra­lista (reco­nhe­cer dife­ren­tes tipos de plan­tas e ani­mais em um deter­mi­nado ambi­ente).

Infográfico sobre a teoria das múltiplas inteligências, de Howard Gardner, criado por Pictoline e traduzido por Ano Zero.

Info­grá­fico da página Pic­to­line, tra­du­zido pelo AZ.

Ele tam­bém con­si­de­rou, mas rejei­tou a exis­tên­cia de mais dois tipos de inte­li­gên­cia: espi­ri­tual (com­pre­en­são do sagrado) e exis­ten­cial (enten­dendo o seu lugar no uni­verso).

Estes últi­mos dois estão em cri­té­rios bas­tante dis­per­sos para serem con­si­de­ra­dos “inte­li­gên­cia”, ou como ele diz “um poten­cial bio­ló­gico para pro­ces­sar a infor­ma­ção que pode ser ati­vado num cená­rio cul­tu­ral para resol­ver pro­ble­mas ou criar pro­du­tos que são de valor em uma cul­tura”.

É inte­res­sante, mas essa teo­ria tem algum apoio cien­tí­fico?

A ideia de que exis­tem vários tipos inde­pen­den­tes de inte­li­gên­cia apela para um “sen­ti­mento de igual­dade”, por­que implica que qual­quer um pode ser “inte­li­gente” de alguma forma ou de outra, mesmo se a pes­soa não pos­sui um QI alto.

Essa visão igua­li­tá­ria foi expressa em um artigo por Dr. Ber­nard Lus­kin. Ele suge­riu que a teo­ria é aceita pelo movi­mento de auto­es­tima, por­que de acordo com seu ponto de vista nin­guém é real­mente “mais inte­li­gente” do que nin­guém, ape­nas pos­suem dife­ren­tes tipos de inte­li­gên­cia. Isso tudo soa um pouco dis­tor­cido e vago, afi­nal, con­so­lar as pes­soas não é um índice de vali­dade cien­tí­fica.

Seriam todos tão inteligentes quanto Einstein, à sua própria maneira?

Seriam todos tão inte­li­gen­tes quanto Eins­tein, à sua pró­pria maneira?

Dr Lus­kin afirma que os tes­tes de QI são razo­a­vel­mente pre­ci­sos na pre­vi­são de o quão bem uma pes­soa rea­liza deter­mi­na­das dis­ci­pli­nas esco­la­res, mas eles não medem as “habi­li­da­des artís­ti­cas, ambi­en­tais e emo­ci­o­nais” de uma pes­soa.

No entanto, há evi­dên­cias con­si­de­rá­veis de que os tes­tes de QI ava­liam mais do que ape­nas o desem­pe­nho esco­lar, mas vamos dei­xar isso de lado. Onde está seu pro­blema aqui é sua afir­ma­ção incrí­vel de que “hoje, o con­ceito de inte­li­gên­cias múl­ti­plas é ampla­mente reco­nhe­cido.”

Ele faz decla­ra­ções adi­ci­o­nais sobre “o amplo con­senso” acerca da teo­ria das inte­li­gên­cias múl­ti­plas de Gard­ner, e que é “ampla­mente aceita”. Con­tudo, quem reco­nhece, con­corda ou aceita a sua teo­ria não deixa claro o sufi­ci­ente.

Na ver­dade, é justo dizer que entre os estu­di­o­sos aca­dê­mi­cos que estu­dam sobre a inte­li­gên­cia humana, há pouca acei­ta­ção da teo­ria de Gard­ner, devido à falta de evi­dên­cia empí­rica para isso.

Uma ava­li­a­ção crí­tica sobre o tema por Lynn Waterhouse, em 2006, não encon­trou estudo algum publi­cado por aque­les que apoi­a­ram a vali­dade da teo­ria. Mesmo que Gard­ner tenha feito a sua teo­ria em 1983, o pri­meiro estudo empí­rico para testá-la não foi publi­cado até 23 anos mais tarde (Vis­ser, et al., 2006a) — e os resul­ta­dos não foram favo­rá­veis.

A teo­ria de inte­li­gên­cias múl­ti­plas difi­cil­mente pode ser des­crita como cien­ti­fi­ca­mente gene­ra­tiva.

 

Podem as múltiplas inteligências ser testadas?

Dr Lus­kin observa que os dife­ren­tes tipos de “inte­li­gên­cia” pro­pos­tos por Gard­ner são difí­ceis de medir e de ava­liar.

Algu­mas das inte­li­gên­cias pro­pos­tas, como inter­pes­soal e intra­pes­soal, são até mesmo difí­ceis de defi­nir cla­ra­mente. O pró­prio Gard­ner se recu­sou a espe­ci­fi­car o que ele acha que sejam os com­po­nen­tes das várias inte­li­gên­cias ou como essas podem ser medi­das, tendo for­ne­cido ape­nas des­cri­ções nebu­lo­sas acerca delas.

Se nin­guém está real­mente certo sobre o que são essas supos­tas “inte­li­gên­cias”, real­mente fica difí­cil de ava­liá-las, e ainda mais de gerar algum apoio cien­tí­fico.

Isso pode de alguma maneira expli­car a escas­sez de pes­qui­sas empí­ri­cas sobre esse tema. No entanto, estou ciente de pelo menos dois estu­dos que fize­ram ten­ta­ti­vas pre­li­mi­na­res para a cri­a­ção de defi­ni­ções ope­ra­ci­o­nais des­sas inte­li­gên­cias e desen­vol­vi­mento de tes­tes para as ava­liar.

Como vou mos­trar, isso não tem for­ne­cido muito apoio para a teo­ria de Gard­ner.

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Características vs. habilidades

Desde que Gard­ner não pro­veu ori­en­ta­ções sobre como ava­liar suas moda­li­da­des de inte­li­gên­cia pro­pos­tas, os pes­qui­sa­do­res tive­ram que impro­vi­sar para obter res­pos­tas.

Como obser­vado ante­ri­or­mente, os pro­po­nen­tes da “inte­li­gên­cia emo­ci­o­nal” têm afir­mado que é algo dis­tinto de con­cei­tos exis­ten­tes de inte­li­gên­cia geral e real­mente ten­tado desen­vol­ver for­mas de ava­liar a “IE” de uma pes­soa ao invés de seu QI.

Esses méto­dos pos­suem uma abor­da­gem por meio de dois con­cei­tos — de “carac­te­rís­tica” e de “habi­li­dade”. Os dois estu­dos sobre as inte­li­gên­cias múl­ti­plas que vou ana­li­sar ado­ta­ram cada uma des­sas abor­da­gens, res­pec­ti­va­mente.

A abor­da­gem de carac­te­rís­tica baseia-se em pedir às pes­soas para defi­nir suas pró­prias habi­li­da­des de acordo com sua auto-esti­ma­tiva em uma deter­mi­nada área. Isso é base­ado no con­ceito de que as pes­soas em sua mai­o­ria têm uma boa ideia do quão hábil elas real­mente são em mui­tas áreas de sua vida.

Mesmo que isso possa soar um pouco ingê­nuo, veri­fica-se que quando as pes­soas são con­vi­da­das a defi­ni­rem sua pró­pria inte­li­gên­cia de acordo com sua auto-estima, elas cos­tu­mam a dar res­pos­tas razo­a­vel­mente pre­ci­sas.

A abor­da­gem de habi­li­dade, por outro lado, dá tes­tes para as pes­soas res­pon­de­rem com res­pos­tas cer­tas e erra­das, e marca uma pon­tu­a­ção base­ada em seu resul­tado. Os tes­tes de QI tra­di­ci­o­nais usam essa última abor­da­gem.

Desen­vol­ver uma medida de aná­lise da inte­li­gên­cia emo­ci­o­nal coloca desa­fios espe­ci­ais, e eu des­ta­quei alguns des­tes em um post ante­rior. Do mesmo modo, o desen­vol­vi­mento de tes­tes para algu­mas das capa­ci­da­des mal defi­ni­das a que Gard­ner se refere tem os seus pró­prios pro­ble­mas. No entanto, se a ten­ta­tiva não é feita, a teo­ria pode não ser vali­dada.

Um padrão que parece tor­nar-se evi­dente de acordo com a rea­li­za­ção de pes­qui­sas sobre inte­li­gên­cia emo­ci­o­nal é que as medi­das de “carac­te­rís­ti­cas” ten­dem a ser alta­mente cor­re­la­ci­o­na­das com as medi­das exis­ten­tes de tra­ços de per­so­na­li­dade, como o “Big Five”, uma cate­go­ria que refere-se aos cinco fato­res da per­so­na­li­dade.

Leia mais em: Sobre a personalidade de humanos e peixes

Con­tudo, a última abor­da­gem do con­ceito de habi­li­dade tende a ser cor­re­la­ci­o­nada com medi­das de inte­li­gên­cia geral. A última des­co­berta põe em causa a afir­ma­ção de que IE é dis­tinto do QI.

Se “inte­li­gên­cia emo­ci­o­nal” pode ser enten­dida em grande parte em ter­mos de con­cei­tos exis­ten­tes de per­so­na­li­dade e inte­li­gên­cia geral, então é duvi­doso que o con­ceito acres­cente algo de novo para o nosso enten­di­mento.

Um padrão seme­lhante de resul­ta­dos emerge dos dois estu­dos sobre a inte­li­gên­cia múl­ti­pla que vou mos­trar a seguir.

 

Personalidades inteligentes?

Fur­nham exa­mi­nou uma medida de auto-relato de inte­li­gên­cias múl­ti­plas² e seu padrão de cor­re­la­ções com uma medida dos tra­ços do Big Five de per­so­na­li­dade.

Um resul­tado sur­pre­en­dente foi que as oito “inte­li­gên­cias” foram alta­mente rela­ci­o­na­das entre si umas com os outras, ao con­trá­rio da teo­ria de que todas elas supos­ta­mente repre­sen­tam domí­nios sepa­ra­dos e não rela­ci­o­na­dos.

Na ver­dade, cada uma foi posi­ti­va­mente cor­re­la­ci­o­nada com pelo menos qua­tro outras, e a inte­li­gên­cia natu­ra­lista foi cor­re­la­ci­o­nada com todas as outras sete.

Isso sugere que as pes­soas que obti­ve­ram um bom resul­tado em um domí­nio tam­bém ten­dem a mar­car uma pon­tu­a­ção alta em vários outros. Além disso, havia mui­tas cor­re­la­ções entre as oito inte­li­gên­cias e as cinco gran­des carac­te­rís­ti­cas do Big five: todas as oito inte­li­gên­cias foram cor­re­la­ci­o­na­das com pelo menos uma das cate­go­rias do Big Five, que foi cor­re­la­ci­o­nada com dois ou mais pon­tos de inte­li­gên­cia.

A aber­tura para a expe­ri­men­ta­ção e a extro­ver­são, em par­ti­cu­lar, foram cor­re­la­ci­o­na­das com outros cinco tipos de inte­li­gên­cia dife­ren­tes.

É claro que as medi­das de auto-relato têm as suas limi­ta­ções, espe­ci­al­mente para medir habi­li­da­des.

Por exem­plo, a cor­re­la­ção posi­tiva entre extro­ver­são e cinco das “inte­li­gên­cias” pode ser devida ao fato de que as pes­soas extro­ver­ti­das ten­dem a ter uma visão alta­mente posi­tiva de si e, por­tanto, pode­riam pen­sar que são natu­ral­mente boas em mui­tas coi­sas dife­ren­tes — embora seja pos­sí­vel que elas real­mente sejam tão boas como elas dizem ser, mas isso é difí­cil de con­fir­mar sem méto­dos inde­pen­den­tes.

Por outro lado, a aber­tura à expe­ri­ên­cia é posi­ti­va­mente cor­re­la­ci­o­nada com medi­das obje­ti­vas de inte­li­gên­cia geral e de conhe­ci­mento, de modo que as cor­re­la­ções posi­ti­vas entre a aber­tura de expe­ri­men­ta­ção e os cinco tipo de “inte­li­gên­cias” no estudo de Fur­nham façam sen­tido.

 

Separar as habilidades da inteligência geral ou não?

As várias inte­li­gên­cias de Gard­ner deve­riam refle­tir habi­li­da­des espe­cí­fi­cas, então foi desen­vol­vido um con­junto de tes­tes de habi­li­dade, dois para cada uma das oito inte­li­gên­cias pro­pos­tas.

Os auto­res ten­ta­ram ava­liar se essas medi­das de habi­li­dade eram inde­pen­den­tes de alguma medida de inte­li­gên­cia geral.

Gard­ner argu­men­tou que cor­re­la­ções posi­ti­vas apa­ren­tes entre os tes­tes de diver­sas habi­li­da­des men­tais ocor­rem por­que a mai­o­ria des­ses tes­tes são base­a­dos na lin­gua­gem, por isso todos eles envol­vem um núcleo comum da inte­li­gên­cia lin­guís­tica.³

Para supe­rar essa obje­ção, os auto­res uti­li­za­ram medi­das não ver­bais das inte­li­gên­cias não-lin­guís­ti­cas. Se a teo­ria de Gard­ner de que os oito tipos de inte­li­gên­cia são em grande parte inde­pen­den­tes um do outro fosse ver­dade, os resul­ta­dos obti­dos para cada domí­nio não pode­riam ser alta­mente cor­re­la­ci­o­na­dos uns com os outros.

No entanto, esse foi o caso. Mui­tos dos tes­tes, par­ti­cu­lar­mente aque­les que medem alguma forma de capa­ci­dade cog­ni­tiva, foram alta­mente cor­re­la­ci­o­na­dos com algum outro. Além disso, a mai­o­ria dos tes­tes de habi­li­dade tive­ram cor­re­la­ções posi­ti­vas com a inte­li­gên­cia geral.

As exce­ções foram os tes­tes de inte­li­gên­cia musi­cal e cor­po­ral-cines­té­sica, que são habi­li­da­des não-cog­ni­ti­vas, e um dos tes­tes de inte­li­gên­cia intra­pes­soal.

Os auto­res con­cluí­ram que a razão de os tes­tes que envol­vem a capa­ci­dade cog­ni­tiva terem sido posi­ti­va­mente cor­re­la­ci­o­na­dos com a inte­li­gên­cia geral se dá por­que eles com­par­ti­lham um núcleo comum de capa­ci­dade de raci­o­cí­nio.

Por isso, parece haver uma forma geral de capa­ci­dade de raci­o­cí­nio que é apli­cá­vel em uma ampla gama de domí­nios de habi­li­dade, incluindo lin­guís­tica, espa­cial, lógica/matemática, natu­ra­lista e, em menor grau, habi­li­da­des inter­pes­so­ais.

Isso con­tra­diz a afir­ma­ção de Gard­ner de que a capa­ci­dade de cada um des­ses domí­nios seja sepa­rada da capa­ci­dade nos outros. No entanto, é con­sis­tente com a ideia de que uma ampla forma de habi­li­dade men­tal sub­ja­cente de capa­ci­da­des espe­cí­fi­cas existe em um maior ou menor grau.

Os auto­res con­cluí­ram que a teo­ria de Inte­li­gên­cias Múl­ti­plas não parece for­ne­cer qual­quer nova infor­ma­ção além da for­ne­cida por medi­das mais tra­di­ci­o­nais de capa­ci­dade men­tal. Assim, ten­tar incor­po­rar a teo­ria de Gard­ner em con­tex­tos edu­ca­ti­vos parece algo injus­ti­fi­cado.

 

Inteligências ou habilidades?

Esses dois estu­dos de inves­ti­ga­ção não supor­tam as espe­ci­fi­ci­da­des da teo­ria das inte­li­gên­cias múl­ti­plas de Gard­ner. Claro, isso não sig­ni­fica que as habi­li­da­des não-cog­ni­ti­vas além de inte­li­gên­cia geral não são impor­tan­tes.

Há pro­vas abun­dan­tes de que as qua­li­da­des pes­so­ais, tais como moti­va­ção e habi­li­da­des soci­ais, impor­tam muito para o sucesso de qual­quer indi­ví­duo em sua vida, e eu não acho que nin­guém está real­mente dizendo o con­trá­rio.

O que é ques­ti­o­ná­vel, porém, é des­cre­ver algum talento ou habi­li­dade de forma impre­cisa, o con­si­de­rando tão impor­tante como uma “inte­li­gên­cia” dis­tinta.

Nós já usa­mos a pala­vra “habi­li­dade” para des­cre­ver o quão bem uma pes­soa é capaz de apli­car suas habi­li­da­des e conhe­ci­men­tos em uma deter­mi­nada área da vida. A mai­o­ria das pes­soas são capa­zes de desen­vol­ver uma vari­e­dade de habi­li­da­des dife­ren­tes, mas isso não sig­ni­fica neces­sa­ri­a­mente que elas usam um tipo dife­rente de “inte­li­gên­cia” para cada uma des­sas habi­li­da­des — usar o termo dessa forma é sim­ples­mente arbi­trá­rio e con­fuso.

Da mesma forma, a mai­o­ria das pes­soas reco­nhe­cem que podem ser “inte­li­gen­tes”, no sen­tido de exer­cer um bom jul­ga­mento e tomar cer­tos tipos de deci­sões, mesmo se elas não têm um QI par­ti­cu­lar­mente ele­vado.

Ao mesmo tempo, o QI alto de pes­soas pode facil­mente levá-las a tomar deci­sões infe­li­zes, como por exem­plo quando as emo­ções ou o inte­resse-pró­prio atra­pa­lham seu raci­o­cí­nio.

Mais uma vez nós já temos uma pala­vra para essa capa­ci­dade de sabe­do­ria que tenta evi­tar esses acon­te­ci­men­tos: bom senso. No entanto, eu não acho que mui­tas pes­soas con­cor­dam que todos são igual­mente sábios.

Tal­vez haja habi­li­da­des espe­ci­ais que mere­cem ser cha­ma­das de “inte­li­gên­cias” em seu pró­prio direito que ainda não foram iden­ti­fi­ca­das. No entanto, não há nenhuma jus­ti­fi­ca­ção cien­tí­fica para sim­ples­mente inven­tar tipos espe­ci­ais de “inte­li­gên­cia” sem pro­vas, ape­nas para que as pes­soas se sin­tam bem sobre si mes­mas.

Con­cluindo, a teo­ria das inte­li­gên­cias múl­ti­plas de Gard­ner parece ser um con­junto con­fuso e nebu­loso de rei­vin­di­ca­ções que não foram empi­ri­ca­mente vali­da­das. Mui­tas das pro­pos­tas “inte­li­gên­cias” de Gard­ner pare­cem ser expli­cá­veis em ter­mos de con­cei­tos exis­ten­tes de per­so­na­li­dade e inte­li­gên­cia geral, já que a teo­ria em si real­mente não ofe­rece nada de novo.

Além disso, algu­mas das “inte­li­gên­cias” pro­pos­tas são mal defi­ni­das (prin­ci­pal­mente a intra­pes­soal) e outras (por exem­plo musi­cal) podem ser mais úteis pen­sa­das como habi­li­da­des ou talen­tos, dife­ren­te­mente de inte­li­gên­cia.

A popu­la­ri­dade das teo­rias de Gard­ner em con­tex­tos edu­ca­ti­vos pode refle­tir seu apelo sen­ti­men­tal e intui­tivo, mas não se baseia em nenhuma evi­dên­cia cien­tí­fica para a vali­dade do seu con­ceito.


Ensaio tra­du­zido de Psi­cho­logy Today, por Rodrigo Zot­tis, com a auto­ri­za­ção do autor.


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Notas de rodapé:


[1] Gard­ner mudou de ideia várias vezes sobre o número exato de inte­li­gên­cias ao longo dos anos, mas por con­ve­ni­ên­cia con­si­dero oito neste artigo, já que são as úni­cas que têm sido pes­qui­sa­das.

[2] Esta medida foi ori­gi­nal­mente publi­cada em um livro escrito para um público leigo cha­mado Qual é o seu QI?, por Nathan Hasel­brauer, publi­cado pela Bar­nes and Noble Books.

[3] Gard­ner não está cor­reto. Os tes­tes de QI têm incor­po­rado sub­tes­tes não-ver­bais desde 1930.


Refe­rên­cias bibli­o­grá­fi­cas:

  1. Fur­nham, A. (2009). The Vali­dity of a New, Self-report Mea­sure of Mul­ti­ple Intel­li­gence. Cur­rent Psy­cho­logy, 28(4), 225–239. doi: 10.1007/s12144-009‑9064-z
  2. Locke, E. A. (2005). Why emo­ti­o­nal intel­li­gence is an inva­lid con­cept. Jour­nal of Orga­ni­za­ti­o­nal Beha­vior, 26(4), 425–431. doi: 10.1002/job.318
  3. Schulte, M. J., Ree, M. J., & Car­retta, T. R. (2004). Emo­ti­o­nal intel­li­gence: not much more than g and per­so­na­lity. Per­so­na­lity and Indi­vi­dual Dif­fe­ren­ces, 37(5), 1059–1068. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.paid.2003.11.014
  4. Vis­ser, B. A., Ash­ton, M. C., & Ver­non, P. A. (2006a). Beyond g: Put­ting mul­ti­ple intel­li­gen­ces the­ory to the test. Intel­li­gence, 34(5), 487–502. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.intell.2006.02.004
  5. Vis­ser, B. A., Ash­ton, M. C., & Ver­non, P. A. (2006b). g and the mea­su­re­ment of Mul­ti­ple Intel­li­gen­ces: A res­ponse to Gard­ner. Intel­li­gence, 34(5), 507–510. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.intell.2006.04.006
  6. Waterhouse, L. (2006a). Ina­de­quate Evi­dence for Mul­ti­ple Intel­li­gen­ces, Mozart Effect, and Emo­ti­o­nal Intel­li­gence The­o­ries. Edu­ca­ti­o­nal Psy­cho­lo­gist, 41(4), 247–255. doi: 10.1207/s15326985ep4104_5
  7. Waterhouse, L. (2006b). Mul­ti­ple Intel­li­gen­ces, the Mozart Effect, and Emo­ti­o­nal Intel­li­gence: A Cri­ti­cal Review. Edu­ca­ti­o­nal Psy­cho­lo­gist, 41(4), 207–225. doi: 10.1207/s15326985ep4104_1
Scott McGreal
Scott McGreal é psicólogo e pesquisador, com interesse particular em diferenças individuais, especialmente em personalidade e inteligência.

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