Muitas pessoas acham a ideia de que existem diferentes tipos de inteligência algo muito atraente. Howard Gardner depreciou os testes de QI como tendo pouca relevância para a vida real e argumentou que pode haver até oito diferentes tipos de inteligência que se aplicam a diversas áreas do funcionamento humano.¹

As reivindicações de Gardner são muito semelhantes às que são feitas sobre a “inteligência emocional” ser um tipo especial de inteligência distinto do QI, que pode ser ainda mais importante para o sucesso na vida do que o tradicional “inteligência acadêmica”.

Embora as alegações de Gardner tenham se tornado populares entre os educadores, pouca pesquisa foi feita para estabelecer a validade de sua teoria. Os poucos estudos que foram feitos, na verdade, não apoiam a ideia de que existem muitos tipos diferentes de “inteligência” operando separadamente uma da outra.

Embora haja certamente habilidades importantes que não são medidas através de testes de QI, atribuir cada uma como um tipo especial de “inteligência” tem pouco apoio científico e acaba por criar uma confusão desnecessária.

Quadro imagético da teoria das múltiplas inteligências, de Howard Gardner.
Uma teoria muito atraente, mas será que tem qualquer substância?

 

Inteligência geral x inteligências múltiplas

De acordo com pesquisas da inteligência “padrão”, existe uma ampla forma de capacidade mental conhecida como inteligência “geral” que está subjacente a uma ampla gama de habilidades mais estreitas, mais específicas.

Os testes de QI são destinados a fornecer uma medida dessa ampla capacidade geral, bem como algumas das capacidades mais específicas.

Howard Gardner opôs-se à ideia de inteligência geral, argumentando que os testes de QI, na verdade, medem habilidades acadêmicas distintamente estreitas, negando que haja uma única habilidade geral que atravesse vários domínios diferentes.

Em vez disso, ele argumentou que existem domínios separados de certas habilidades que merecem ser chamados de “inteligências” em seu próprio direito, e que a capacidade de um dominar certa habilidade específica não está relacionada com a capacidade medida pelo teste em outras habilidades.

Especificamente, ele argumentou que os testes de QI medem a inteligência nas áreas linguísticas/verbais e lógicas/matemáticas, que acabam por ser valorizadas nas escolas.

Os outros domínios de inteligência, segundo ele, são habilidades musical, corporal-cinestésica (habilidade no uso do corpo para resolver problemas), espacial, interpessoal (compreensão de outras pessoas), intrapessoal (capacidade de compreender a si mesmo e regular a vida de forma eficaz) e naturalista (reconhecer diferentes tipos de plantas e animais em um determinado ambiente).

Infográfico sobre a teoria das múltiplas inteligências, de Howard Gardner, criado por Pictoline e traduzido por Ano Zero.
Infográfico da página Pictoline, traduzido pelo AZ.

Ele também considerou, mas rejeitou a existência de mais dois tipos de inteligência: espiritual (compreensão do sagrado) e existencial (entendendo o seu lugar no universo).

Estes últimos dois estão em critérios bastante dispersos para serem considerados “inteligência”, ou como ele diz “um potencial biológico para processar a informação que pode ser ativado num cenário cultural para resolver problemas ou criar produtos que são de valor em uma cultura”.

É interessante, mas essa teoria tem algum apoio científico?

A ideia de que existem vários tipos independentes de inteligência apela para um “sentimento de igualdade”, porque implica que qualquer um pode ser “inteligente” de alguma forma ou de outra, mesmo se a pessoa não possui um QI alto.

Essa visão igualitária foi expressa em um artigo por Dr. Bernard Luskin. Ele sugeriu que a teoria é aceita pelo movimento de autoestima, porque de acordo com seu ponto de vista ninguém é realmente “mais inteligente” do que ninguém, apenas possuem diferentes tipos de inteligência. Isso tudo soa um pouco distorcido e vago, afinal, consolar as pessoas não é um índice de validade científica.

Seriam todos tão inteligentes quanto Einstein, à sua própria maneira?
Seriam todos tão inteligentes quanto Einstein, à sua própria maneira?

Dr Luskin afirma que os testes de QI são razoavelmente precisos na previsão de o quão bem uma pessoa realiza determinadas disciplinas escolares, mas eles não medem as “habilidades artísticas, ambientais e emocionais” de uma pessoa.

No entanto, há evidências consideráveis de que os testes de QI avaliam mais do que apenas o desempenho escolar, mas vamos deixar isso de lado. Onde está seu problema aqui é sua afirmação incrível de que “hoje, o conceito de inteligências múltiplas é amplamente reconhecido.”

Ele faz declarações adicionais sobre “o amplo consenso” acerca da teoria das inteligências múltiplas de Gardner, e que é “amplamente aceita”. Contudo, quem reconhece, concorda ou aceita a sua teoria não deixa claro o suficiente.

Na verdade, é justo dizer que entre os estudiosos acadêmicos que estudam sobre a inteligência humana, há pouca aceitação da teoria de Gardner, devido à falta de evidência empírica para isso.

Uma avaliação crítica sobre o tema por Lynn Waterhouse, em 2006, não encontrou estudo algum publicado por aqueles que apoiaram a validade da teoria. Mesmo que Gardner tenha feito a sua teoria em 1983, o primeiro estudo empírico para testá-la não foi publicado até 23 anos mais tarde (Visser, et al., 2006a) – e os resultados não foram favoráveis.

A teoria de inteligências múltiplas dificilmente pode ser descrita como cientificamente generativa.

 

Podem as múltiplas inteligências ser testadas?

Dr Luskin observa que os diferentes tipos de “inteligência” propostos por Gardner são difíceis de medir e de avaliar.

Algumas das inteligências propostas, como interpessoal e intrapessoal, são até mesmo difíceis de definir claramente. O próprio Gardner se recusou a especificar o que ele acha que sejam os componentes das várias inteligências ou como essas podem ser medidas, tendo fornecido apenas descrições nebulosas acerca delas.

Se ninguém está realmente certo sobre o que são essas supostas “inteligências”, realmente fica difícil de avaliá-las, e ainda mais de gerar algum apoio científico.

Isso pode de alguma maneira explicar a escassez de pesquisas empíricas sobre esse tema. No entanto, estou ciente de pelo menos dois estudos que fizeram tentativas preliminares para a criação de definições operacionais dessas inteligências e desenvolvimento de testes para as avaliar.

Como vou mostrar, isso não tem fornecido muito apoio para a teoria de Gardner.

[optinform]

Características vs. habilidades

Desde que Gardner não proveu orientações sobre como avaliar suas modalidades de inteligência propostas, os pesquisadores tiveram que improvisar para obter respostas.

Como observado anteriormente, os proponentes da “inteligência emocional” têm afirmado que é algo distinto de conceitos existentes de inteligência geral e realmente tentado desenvolver formas de avaliar a “IE” de uma pessoa ao invés de seu QI.

Esses métodos possuem uma abordagem por meio de dois conceitos – de “característica” e de “habilidade”. Os dois estudos sobre as inteligências múltiplas que vou analisar adotaram cada uma dessas abordagens, respectivamente.

A abordagem de característica baseia-se em pedir às pessoas para definir suas próprias habilidades de acordo com sua auto-estimativa em uma determinada área. Isso é baseado no conceito de que as pessoas em sua maioria têm uma boa ideia do quão hábil elas realmente são em muitas áreas de sua vida.

Mesmo que isso possa soar um pouco ingênuo, verifica-se que quando as pessoas são convidadas a definirem sua própria inteligência de acordo com sua auto-estima, elas costumam a dar respostas razoavelmente precisas.

A abordagem de habilidade, por outro lado, dá testes para as pessoas responderem com respostas certas e erradas, e marca uma pontuação baseada em seu resultado. Os testes de QI tradicionais usam essa última abordagem.

Desenvolver uma medida de análise da inteligência emocional coloca desafios especiais, e eu destaquei alguns destes em um post anterior. Do mesmo modo, o desenvolvimento de testes para algumas das capacidades mal definidas a que Gardner se refere tem os seus próprios problemas. No entanto, se a tentativa não é feita, a teoria pode não ser validada.

Um padrão que parece tornar-se evidente de acordo com a realização de pesquisas sobre inteligência emocional é que as medidas de “características” tendem a ser altamente correlacionadas com as medidas existentes de traços de personalidade, como o “Big Five”, uma categoria que refere-se aos cinco fatores da personalidade.

Leia mais em: Sobre a personalidade de humanos e peixes

Contudo, a última abordagem do conceito de habilidade tende a ser correlacionada com medidas de inteligência geral. A última descoberta põe em causa a afirmação de que IE é distinto do QI.

Se “inteligência emocional” pode ser entendida em grande parte em termos de conceitos existentes de personalidade e inteligência geral, então é duvidoso que o conceito acrescente algo de novo para o nosso entendimento.

Um padrão semelhante de resultados emerge dos dois estudos sobre a inteligência múltipla que vou mostrar a seguir.

 

Personalidades inteligentes?

Furnham examinou uma medida de auto-relato de inteligências múltiplas² e seu padrão de correlações com uma medida dos traços do Big Five de personalidade.

Um resultado surpreendente foi que as oito “inteligências” foram altamente relacionadas entre si umas com os outras, ao contrário da teoria de que todas elas supostamente representam domínios separados e não relacionados.

Na verdade, cada uma foi positivamente correlacionada com pelo menos quatro outras, e a inteligência naturalista foi correlacionada com todas as outras sete.

Isso sugere que as pessoas que obtiveram um bom resultado em um domínio também tendem a marcar uma pontuação alta em vários outros. Além disso, havia muitas correlações entre as oito inteligências e as cinco grandes características do Big five: todas as oito inteligências foram correlacionadas com pelo menos uma das categorias do Big Five, que foi correlacionada com dois ou mais pontos de inteligência.

A abertura para a experimentação e a extroversão, em particular, foram correlacionadas com outros cinco tipos de inteligência diferentes.

É claro que as medidas de auto-relato têm as suas limitações, especialmente para medir habilidades.

Por exemplo, a correlação positiva entre extroversão e cinco das “inteligências” pode ser devida ao fato de que as pessoas extrovertidas tendem a ter uma visão altamente positiva de si e, portanto, poderiam pensar que são naturalmente boas em muitas coisas diferentes – embora seja possível que elas realmente sejam tão boas como elas dizem ser, mas isso é difícil de confirmar sem métodos independentes.

Por outro lado, a abertura à experiência é positivamente correlacionada com medidas objetivas de inteligência geral e de conhecimento, de modo que as correlações positivas entre a abertura de experimentação e os cinco tipo de “inteligências” no estudo de Furnham façam sentido.

 

Separar as habilidades da inteligência geral ou não?

As várias inteligências de Gardner deveriam refletir habilidades específicas, então foi desenvolvido um conjunto de testes de habilidade, dois para cada uma das oito inteligências propostas.

Os autores tentaram avaliar se essas medidas de habilidade eram independentes de alguma medida de inteligência geral.

Gardner argumentou que correlações positivas aparentes entre os testes de diversas habilidades mentais ocorrem porque a maioria desses testes são baseados na linguagem, por isso todos eles envolvem um núcleo comum da inteligência linguística.³

Para superar essa objeção, os autores utilizaram medidas não verbais das inteligências não-linguísticas. Se a teoria de Gardner de que os oito tipos de inteligência são em grande parte independentes um do outro fosse verdade, os resultados obtidos para cada domínio não poderiam ser altamente correlacionados uns com os outros.

No entanto, esse foi o caso. Muitos dos testes, particularmente aqueles que medem alguma forma de capacidade cognitiva, foram altamente correlacionados com algum outro. Além disso, a maioria dos testes de habilidade tiveram correlações positivas com a inteligência geral.

As exceções foram os testes de inteligência musical e corporal-cinestésica, que são habilidades não-cognitivas, e um dos testes de inteligência intrapessoal.

Os autores concluíram que a razão de os testes que envolvem a capacidade cognitiva terem sido positivamente correlacionados com a inteligência geral se dá porque eles compartilham um núcleo comum de capacidade de raciocínio.

Por isso, parece haver uma forma geral de capacidade de raciocínio que é aplicável em uma ampla gama de domínios de habilidade, incluindo linguística, espacial, lógica/matemática, naturalista e, em menor grau, habilidades interpessoais.

Isso contradiz a afirmação de Gardner de que a capacidade de cada um desses domínios seja separada da capacidade nos outros. No entanto, é consistente com a ideia de que uma ampla forma de habilidade mental subjacente de capacidades específicas existe em um maior ou menor grau.

Os autores concluíram que a teoria de Inteligências Múltiplas não parece fornecer qualquer nova informação além da fornecida por medidas mais tradicionais de capacidade mental. Assim, tentar incorporar a teoria de Gardner em contextos educativos parece algo injustificado.

 

Inteligências ou habilidades?

Esses dois estudos de investigação não suportam as especificidades da teoria das inteligências múltiplas de Gardner. Claro, isso não significa que as habilidades não-cognitivas além de inteligência geral não são importantes.

Há provas abundantes de que as qualidades pessoais, tais como motivação e habilidades sociais, importam muito para o sucesso de qualquer indivíduo em sua vida, e eu não acho que ninguém está realmente dizendo o contrário.

O que é questionável, porém, é descrever algum talento ou habilidade de forma imprecisa, o considerando tão importante como uma “inteligência” distinta.

Nós já usamos a palavra “habilidade” para descrever o quão bem uma pessoa é capaz de aplicar suas habilidades e conhecimentos em uma determinada área da vida. A maioria das pessoas são capazes de desenvolver uma variedade de habilidades diferentes, mas isso não significa necessariamente que elas usam um tipo diferente de “inteligência” para cada uma dessas habilidades – usar o termo dessa forma é simplesmente arbitrário e confuso.

Da mesma forma, a maioria das pessoas reconhecem que podem ser “inteligentes”, no sentido de exercer um bom julgamento e tomar certos tipos de decisões, mesmo se elas não têm um QI particularmente elevado.

Ao mesmo tempo, o QI alto de pessoas pode facilmente levá-las a tomar decisões infelizes, como por exemplo quando as emoções ou o interesse-próprio atrapalham seu raciocínio.

Mais uma vez nós já temos uma palavra para essa capacidade de sabedoria que tenta evitar esses acontecimentos: bom senso. No entanto, eu não acho que muitas pessoas concordam que todos são igualmente sábios.

Talvez haja habilidades especiais que merecem ser chamadas de “inteligências” em seu próprio direito que ainda não foram identificadas. No entanto, não há nenhuma justificação científica para simplesmente inventar tipos especiais de “inteligência” sem provas, apenas para que as pessoas se sintam bem sobre si mesmas.

Concluindo, a teoria das inteligências múltiplas de Gardner parece ser um conjunto confuso e nebuloso de reivindicações que não foram empiricamente validadas. Muitas das propostas “inteligências” de Gardner parecem ser explicáveis em termos de conceitos existentes de personalidade e inteligência geral, já que a teoria em si realmente não oferece nada de novo.

Além disso, algumas das “inteligências” propostas são mal definidas (principalmente a intrapessoal) e outras (por exemplo musical) podem ser mais úteis pensadas como habilidades ou talentos, diferentemente de inteligência.

A popularidade das teorias de Gardner em contextos educativos pode refletir seu apelo sentimental e intuitivo, mas não se baseia em nenhuma evidência científica para a validade do seu conceito.


Ensaio traduzido de Psichology Today, por Rodrigo Zottis, com a autorização do autor.


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Notas de rodapé:


[1] Gardner mudou de ideia várias vezes sobre o número exato de inteligências ao longo dos anos, mas por conveniência considero oito neste artigo, já que são as únicas que têm sido pesquisadas.

[2] Esta medida foi originalmente publicada em um livro escrito para um público leigo chamado Qual é o seu QI?, por Nathan Haselbrauer, publicado pela Barnes and Noble Books.

[3] Gardner não está correto. Os testes de QI têm incorporado subtestes não-verbais desde 1930.


Referências bibliográficas:

  1. Furnham, A. (2009). The Validity of a New, Self-report Measure of Multiple Intelligence. Current Psychology, 28(4), 225-239. doi: 10.1007/s12144-009-9064-z
  2. Locke, E. A. (2005). Why emotional intelligence is an invalid concept. Journal of Organizational Behavior, 26(4), 425-431. doi: 10.1002/job.318
  3. Schulte, M. J., Ree, M. J., & Carretta, T. R. (2004). Emotional intelligence: not much more than g and personality. Personality and Individual Differences, 37(5), 1059-1068. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.paid.2003.11.014
  4. Visser, B. A., Ashton, M. C., & Vernon, P. A. (2006a). Beyond g: Putting multiple intelligences theory to the test. Intelligence, 34(5), 487-502. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.intell.2006.02.004
  5. Visser, B. A., Ashton, M. C., & Vernon, P. A. (2006b). g and the measurement of Multiple Intelligences: A response to Gardner. Intelligence, 34(5), 507-510. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.intell.2006.04.006
  6. Waterhouse, L. (2006a). Inadequate Evidence for Multiple Intelligences, Mozart Effect, and Emotional Intelligence Theories. Educational Psychologist, 41(4), 247-255. doi: 10.1207/s15326985ep4104_5
  7. Waterhouse, L. (2006b). Multiple Intelligences, the Mozart Effect, and Emotional Intelligence: A Critical Review. Educational Psychologist, 41(4), 207-225. doi: 10.1207/s15326985ep4104_1
FONTEPsychology Today
Scott McGreal
Scott McGreal é psicólogo e pesquisador, com interesse particular em diferenças individuais, especialmente em personalidade e inteligência.
  • O AZ presta um enorme serviço à população, aos pesquisadores e estudantes traduzindo e postando essa matéria.

    A confusão que a gente vê por aí é enorme quando o tema é inteligência.

    Esse ano assisti a uma palestra bem interessante sobre os melhores modelos atuais sobre a inteligência. Eu não pesquiso inteligência, então acaba que certas atualizações da área passam despercebidas de qualquer pesquisador. Normal.

    Mas me surpreendeu muito, devo destacar, que OS MELHORES MODELOS DE INTELIGÊNCIA SÃO OS MODELOS GERAIS, NÃO OS DAS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS.

    A justificativa pra isso é um tanto psicométrica, mais do que simplesmente teórica, então ficaria difícil de explicar — e chato. Mas, em poucas palavras, é isso mesmo: não existem evidências empíricas de que realmente existam essas inteligências múltiplas.

    Por desconhecimento e pelo enorme apelo político do modelo (puramente teórico, ressalto) do Gardner, a maioria das pessoas, estudantes, profissionais ou leigos, acabam adotando-a sem pestanejar.

    No dia dessa palestra que mencionei, uma estudante se manifestou um tanto emociona — indignada? — quando o pesquisador disse que as habilidades interpessoais não faziam parte dos modelos de inteligência geral. Seus questionamentos soaram com um tom de “mas que absurdo, por que esses modelos não podem ser mais inclusivos, levando em conta essa parte tão importante da dinâmica social humana?”

    O ponto fundamental aqui é:

    – Sim, as habilidades sociais são importantíssimas. Deveríamos aprender a aperfeiçoar nossa sociabilidade e nossas habilidades emocionais desde cedo. Isso cria seres humanos melhores. No entanto, essas são CARACTERÍSTICAS IMPORTANTE, mas não estão englobadas pelos modelos de inteligência. São esferas separadas, mas não menos importantes.

    É justamente por isso que existe relutância em negar e facilidade em aceitar a Teoria das Inteligências Múltiplas do Gardner. Vivemos em tempos de inclusão, queremos que todos sejam contemplados, que não existam pessoas piores ou melhores em algo — muito embora a realidade não aconteça dessa forma cor de rosa e feliz.

  • Dário

    Na minha humilde opinião não comprobatória cientificamente, a ciência é reducionista a partir do momento em que isola certos fatores para desenhar a estrutura de determinada situação e muitas vezes não realizando a ligação do que fora isolado com outras partes, então, acaba tornando-se cega e reducionista. Um exemplo bem prático, alguém diz ter problemas com depressão, diz estar cansado, a atenção diminuída e falta de foco, se tal indivíduo vai a um psicólogo, pode ser sugerido tomar medicamento para aumentar a atenção de tal indivíduo ou outro medicamento com ação neural, daí o indivíduo vai ao psiquiatra e este o receita tal medicamento, agora vem a explicação do reducionismo: tal indivíduo tem apneia do sono, ele ronca a noite e através disto o cérebro recebe pouco oxigênio afetando seu desempenho, o indivíduo nunca dorme bem, além deste fator, há um problema na sua mandíbula que desgasta a cartilagem óssea do maxilar e mais uma vez afeta suas vias respiratórias. Por fim, o indivíduo resolve os últimos problemas citados e melhora sua atenção, foco, cansaço, assim, cortando o uso desnecessário de medicamentos que afetam a parte neural (caso real, e quem deu a solução não tinha nem ensino superior, prossiga a leitura). Usando este exemplo sobre o artigo acima, podemos dizer que a teoria das múltiplas inteligências é expansionista, enquanto o teste de Q.I reducionista e na verdade as múltiplas inteligências não é uma teoria para aumentar a autoestima de ninguém, usar este termo só demonstra por parte do autor arrogância intelectual, se formos avaliar o teste de Q.I tradicional, nele notamos o fator reducionista e regressivo. A ciência não pode se abster da sabedoria e filosofia na sua busca pela expansão de novos ângulos e trazer a luz da consciência as estruturas que compõe a vida, se assim o fizer, a ciência torna-se uma espécie de religião, como usualmente tem sido. Digo isto pelo motivo de que, se apenas através da ciência e suas “comprovações claras” pode-se concluir a existência de uma nova visão, ela torna-se arrogante e começa a usar viseira de cavalo, “somente através da religião se pode isto”, “somente através da filosofia”, “somente através do pensamento científico”, “somente através da sociologia”, e por aí vai… Será que se não formos menos arrogantes, até mesmo em nossos questionamentos, se olharmos com mais profundidade seja qual for o conhecimento e da onde ele venha, não podemos caminhar a passos mais consistentes na busca incessante por novos ângulos sobre a vida e o universo? O quanto temos de visão, pensamento e ações expansionistas? O quanto meu intelecto é arrogante e vaidoso? O quanto eu questiono o mundo ao meu redor mas não questiono minhas próprias questões centrais?

    • E aí, Dário. Beleza?

      Cara, em primeiro lugar, psicólogos não receitam medicamentos.

      Em segundo, hoje qualquer estudo publicado sério mostra que algumas formas de terapia, como a cognitivo-comportamental, tem resultados de iguais a melhores que o de alguns medicamentos, como alguns antidepressivos.

      Sobre sua reflexão, digamos científico-filosófica, concordo, mas até certo ponto. Não devemos ser radicais nunca, nem na ciência nem em qualquer outra coisa, ok.

      Imagino que vc queira dizer que a teoria da inteligência geral só é mais válida do que a das múltiplas inteligências porque os cientistas se recusam a aderir a uma posição teórica diferente.

      Bom, esse não é o caso. Você não adota uma teoria sobre determinado fenômeno psicológico por simplesmente gostar mais de uma teoria do que de outra. É preciso verificar empiricamente se essa teoria em questão dá conta de explicar a variável que se quer explicar. Acontece que os modelos de múltipla inteligência não são passíveis de teste por serem tão genéricos que acabam não explicando coisa alguma. Se vc tem uma teoria que explica tudo, ela é impossível de ser falseada, logo, não pode ser testada.

      A questão mais ampla que envolve a teoria das múltiplas inteligências e dos modelos gerais não é filosófica, é empírica.

      Em outras palavras, não há evidências para essa primeira, somente para a segunda. Mas há uma insistência em adotar a primeira porque ela nos acalenta emocionalmente.

      • Cristhyano de Paula

        Em segundo, hoje qualquer estudo publicado sério mostra que algumas formas de terapia, como a cognitivo-comportamental, tem resultados de iguais a melhores que o de alguns medicamentos, como alguns antidepressivos.

        E como tem. “Feeling Good” do Dr. David Burns é meu livro preferido. Não tenho depressão e sim ansiedade, mas os exercícios do livro são fundamentais.

      • Dário

        Olá Felipe. Tudo bom.

        Felipe diz “Cara, em primeiro lugar, psicólogos não receitam medicamentos”.

        Sugiro que releia o trecho abaixo que eu escrevi:

        “Um exemplo bem prático, alguém diz ter problemas com depressão, diz
        estar cansado, a atenção diminuída e falta de foco, se tal indivíduo vai
        a um psicólogo, pode ser sugerido tomar medicamento para aumentar a
        atenção de tal indivíduo ou outro medicamento com ação neural, daí o
        indivíduo vai ao psiquiatra e este o receita tal medicamento”.

        Sua resposta revela alguns pontos interessantes da sua estrutura cerebral e contato com o mundo, você já veio com uma pré resposta, um script que possivelmente você deva usar em situações similares e provavelmente você deva fazer o mesmo em outros assuntos, isto sugere contato com o mundo através de projeções, atos automáticos, não questionados, irrefletidos. No meu entendimento, lendo sua resposta e expressões emocionais inconscientes veladas, quem busca um acalento emocional não seria você?

        Sugiro a releitura do que eu escrevi anteriormente deixando de lado scripts pré elaborados e se desejar, realize uma reflexão. O que você demonstra é uma arrogância não acha? Defende a ciência e o que fora escrito no artigo como um crente defendendo Deus. Como eu disse, alguns veem a ciência como religião; nos atos mais sutis, realizam transferência de uma coisa para outra, sem questionamentos, alguns transferem a crença da religião ou Deus para ciência, para o capitalismo, para o utópico comunismo, para o niilismo ou qualquer outra coisa…

        • Sobre a história do medicamento, ficou confuso. Deu a impressão que vc disse que psicólogos e psiquiatras receitam medicamentos. mas tá ok.

          Mano, vamos deixar análises pessoais e psicoterapia para um consultório, não acha melhor?

          Abraços

  • Esse assunto é muito bom e muito ruim, e isso tem certas semelhanças com o debate envolvendo a homeopatia.

    Pontos positivos: discutindo a questão da inteligência, podemos aumentar nossa compreensão sobre um fenômeno presente no nosso cotidiano, relacionado com vários setores da vida individual, mas que o discurso do senso comum discute de maneira frouxa e imprecisa. As pessoas deviam agradecer pela oportunidade de ler/ouvir quem estuda o assunto (como ler esse texto, por exemplo).

    Pontos negativos: a maioria de nós está tão ligada a uma militância inclusiva, por um mundo mais igualitário e menor, que se perde a necessidade de realmente entender fenômenos e não legislar moralmente sobre eles. O debate se torna acusativo, extremamente cansativo.

    Essa mesma estrutura acontece quando a gente discute e questiona coisas como homeopatia e psicanálise. Mais numerosamente no primeiro caso, os defensores quase choram ajoelhados, clamando pela tolerância do cientista arrogante a destruir seus sonhos, ou os sonhos das pessoas desesperadas por uma cura. Ou então insistem na tolerância, na convivência de mais de uma verdade — que na verdade não é tolerância, mas uma covarde tentativa de não botar em dúvidas nossa zona de conforto. Nisso se perde muito conteúdo, muito aprendizado, porque todo aprendizado requer a assimilação de novos blocos de conhecimento, mas também a exclusão de vários outros.

    Estamos viciados em incluir, incluir, tolerar. Isso impede a depuração e refinamento do conhecimento.

    ** To falando isso só porque esse é o teor dos comentários que esse texto tem recebido, e isso é meio decepcionante. Ninguém quer se debruçar criticamente sobre esse modelo, só há o desejo de explicar a crítica à proposta das múltiplas inteligências pela arrogância da ciência — o que não é uma crítica à eficácia do modelo, nem um elogio a ele.

  • Emerson Luís

    O autor apresenta pontos interessantes, porém no final de certa forma acaba concordando com o Gardner sem perceber.

    Além disso, quando alguém escreve sobre a teoria das Inteligências Múltiplas e menciona a teoria da Inteligência Emocional, isso evidencia se o sujeito pesquisou e compreendeu ambas antes de discorrer sobre elas; neste caso, a resposta é negativa pela forma como ele as comparou.

    Gardner questionou por que habilidades com linguagem e matemática são chamadas de “inteligência” e um conjunto de outras habilidades não, concluindo que ou (1) chamamos também essas outras habilidades de “inteligência”, ou (2) evitamos a palavra “inteligência” e chamamos todas elas de “habilidades”; daí ele propôs o seu modelo com critérios objetos (incluindo neurológicos) para diferenciar habilidades de inteligências e prevenir que ficassem inventando arbitrariamente tipos de inteligência.

    Eu prefiro a segunda alternativa: evitar a palavra “inteligência”, substituindo-a conforme o contexto e com o que se quer comunicar.

    * * *

    • Cara, o problema de toda a abordagem do Gardner é que ele não apresenta evidência alguma pra fundamentar o que ele propõe. Ele deveria mostrar evidências psicométricas de que as habilidades emocionais se encaixam no modelo de inteligência — o que não acontece nas tentativas já realizadas — e não simplesmente dizer que tudo é habilidade pura e simplesmente. Os estudos feitos sugerem que as “habilidades” dentro do que é chamado inteligência, e outras habilidades como a inteligência, não são comportadas pelo mesmo modelo, então não faz sentido dizer que todas são inteligências ou que todas são habilidades, entende?

      Os estudos empíricos não corroboram o que a teoria e a discussão conceitual do Gardner propõe.

      • Leonardo Souza

        Felipe, retome seu próprio pensamento e responda:

        Quem definiu o que é ou não inteligência usou abordagem científica ou filosófica ?

        Acho que isso é o suficiente para te fazer entender que Gardner tratou de um problema com pura filosofia! Uma criança que sofre de dislexia não possuí inteligência ou apenas não se enquadra nos aspectos aguardados por aqueles que o avaliam ?

        • A elaboração inicial de qualquer conceito tem alguma base filosófica, isto é, tem origem na discussão conceitual propriamente dita, algo meio socrático. No entanto, os conceitos que usamos na ciência — que são chamados construtos — devem ser necessariamente operacionais, não apenas conceituais, definições puras. É isso que permite que testemos teorias (formadas pelo encadeamento desses construtos, digamos assim). Sacou?

          Tá, digamos, agora, que o Gardner tenha querido tratar a inteligência com pura filosofia, isto é, como uma pura discussão conceitual sobre a definição de inteligência.

          Isso entra em contradição com o fato de ele dizer que existem evidências das inteligências múltiplas. Se é uma discussão filosófica, então não tem muito sentido tentar refutar a ideia de inteligência geral com a das inteligências múltiplas.

          Bom, eu não sei responder à sua pergunta sobre dislexia. Não entendo muito dessa condição. A dislexia é um problema com a habilidade de escrever, entender a escrita, falando por alto. Isso por si só não diz se a pessoa vai ter uma alta inteligência geral ou não, mas o desenvolvimento de habilidades linguísticas é um dos fatores que impacta sobre a inteligência geral sim.

          Mas nada impede que uma pessoa com dislexia não seja uma ótima de uma pintora, por exemplo. Mas isso não significa que ela tem outro tipo de inteligência — tá, ok falar isso no cotidiano, mas tecnicamente não tá certo.

          • Wilson Santos

            Boa noite!
            Gostaria de contribuir com a “discussão” recomendando a consulta sobre a pesquisa da Profa. Dra. Nádia Silveira. Existe, também, um livro publicado com o título “Jogos e Dinâmicas Estimuladoras de Inteligências: uma metodologia de sala de aula”.