Setas par baixo e para cima. | Devemos reconhecer que um evento tem múltiplas causas.

Devemos reconhecer que eventos únicos têm múltiplas causas

Em Comportamento, Consciência, Filosofia, Política, Religião, Sociedade por Joe BoswellComentário

Pou­cos anos atrás, eu fiquei um pouco louco. Uma rela­ção em que investi pro­fun­da­mente tinha aca­bado de che­gar a um impasse escor­re­ga­dio, e eu estava deses­pe­rado para enten­der o porquê. Foi minha culpa? Foi dela? O que, pre­ci­sa­mente, tinha sido a causa?

Que­brando a cabeça em busca de algum tipo de res­posta coe­rente, me encon­trei per­dido pen­sando em cená­rios do tipo ‘E se…?’ E se eu tivesse sido um ouvinte melhor? E se ela nunca conhe­ceu aquele outro cara? E se tivés­se­mos um col­chão mais con­for­tá­vel e não nos sen­tís­se­mos can­sa­dos o tempo todo — pode­ria ter sido isso?

Eu me tor­tu­rei ten­tando ir dos fato­res tri­vi­ais para os mais pro­fun­das — mas quanto mais eu ten­tava, mais o ‘e ses’ pare­ciam se pro­li­fe­rar.

Even­tu­al­mente, con­se­gui um pouco de paz reco­nhe­cendo que tal­vez estas con­tas não têm de ser con­ci­li­a­das de qual­quer forma linear. É claro que um único evento — como um rela­ci­o­na­mento, ou o seu desa­pa­re­ci­mento — pode ter várias cau­sas.

A noção de múl­ti­plas cau­sas encon­tra uma expres­são vari­ada na his­tó­ria da filo­so­fia. Em Um Sis­tema de Lógica (1843), John Stu­art Mill se deses­pera com a impos­si­bi­li­dade de esco­lher uma única “causa” do fundo das “con­di­ções” de um evento.

Aqui pode­mos ima­gi­nar uma bola voando atra­vés de um pai­nel de vidro. Qual foi a causa da rup­tura? Tal­vez o ati­ra­dor? Tal­vez a bola? Tal­vez a vul­ne­ra­bi­li­dade do vidro? Tal­vez o efeito da gra­vi­dade?

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Cada uma des­sas pos­si­bi­li­da­des conta como uma con­di­ção, mas esco­lher qual­quer con­di­ção par­ti­cu­lar como sendo a única causa parece sim­ples­mente arbi­trá­rio.

Em seu ensaio “Sobre a noção de causa” (1912–1913), Ber­trand Rus­sell cons­tata igual­mente que o pro­gresso da ciên­cia con­siste em reco­nhe­cer “um cír­culo con­tí­nuo mais amplo de ante­ce­den­tes”, como algo neces­sá­rio para o cál­culo pre­ciso de qual­quer evento.

Para Rus­sell, no entanto, a busca cien­tí­fica por exa­ti­dão encosta bre­ve­mente na ciên­cia “madura” da física, segundo a qual as equa­ções dife­ren­ci­ais espe­ci­fi­cam as mudan­ças na posi­ção e velo­ci­dade das par­tí­cu­las fun­da­men­tais, e “cau­sas” não desem­pe­nham qual­quer papel em tudo.

Mas para recuar a par­tir de con­clu­são de Rus­sell, é pre­ciso sali­en­tar que em todas as outras áreas da ciên­cia — desde bio­lo­gia, psi­co­lo­gia e soci­o­lo­gia — a ques­tão cau­sal per­ma­nece viva e bem. Nin­guém nunca parou de olhar para as cau­sas do can­cro, ou da Pri­meira Guerra Mun­dial, por causa da física de par­tí­cu­las.

A meu ver, essa rup­tura entre a física e todo o resto é melhor expli­cada por teo­rias ‘agen­tes’ de cau­sa­li­dade, segundo a qual os seres huma­nos defi­nem cau­sas em ter­mos de “alças” para mani­pu­lar even­tos.

Da pers­pec­tiva do uni­verso em bloco dos físi­cos, em que toda ati­vi­dade humana encon­tra-se espa­lhado ao mesmo tempo, não pode haver nenhuma des­sas alças para a mudança. Da nossa pers­pec­tiva, no entanto, a noção de cau­sa­li­dade con­ti­nua a flo­res­cer enquanto empur­ra­mos e puxa­mos e pro­du­zi­mos para o mundo, em busca de regu­la­ri­da­des explo­rá­veis.

A teo­ria da agên­cia de cau­sa­li­dade tam­bém for­nece uma solu­ção ele­gante para o dilema de Mill; o que separa “cau­sas” de meras “con­di­ções” é a nossa capa­ci­dade de con­trolá-las.

Retor­nando à bola voando pelo pai­nel de vidro, é fácil ver que algu­mas das suas con­di­ções são mais sus­ce­tí­veis à influên­cia humana do que outras.

Bola de baseball quebrando janela. | São múltiplas causas e condições para a quebra do vidro

Se qui­ser­mos evi­tar a que­bra, pode­mos deci­dir não jogar a bola, ou usar uma bola mais macia, ou ins­ta­lar jane­las gros­sas. Nós não pode­mos, no entanto, mani­pu­lar a força da gra­vi­dade.

As con­di­ções ante­ri­o­res são cau­sais num sen­tido em que não são em outro. Estas são as ‘alças’ da teo­ria da agên­cia. Con­tra Mill, no entanto, não pre­ci­sa­mos exi­gir que essas alças sejam sin­gu­la­res. Há sem­pre vários meios de obtê-las.

O reco­nhe­ci­mento de múl­ti­plas alças cau­sais — de uma esco­lha sobre onde colo­ca­mos a fonte dos nos­sos pro­ble­mas — tem o resul­tado agra­dá­vel de der­ra­mar água fria sobre os “fun­da­men­ta­lis­tas do fator único” que domi­nam o dis­curso polí­tico.

Qual foi a causa do aci­dente de 2008? Des­re­gu­la­men­ta­ção desen­fre­ada!, dizem os soci­a­lis­tas. Excesso de regu­la­men­ta­ção impru­dente!, dizem os liber­tá­rios. Qual é a causa de qual­quer pres­são sobre os ser­vi­ços públi­cos? Falta de gas­tos do governo!, diz a esquerda. Imi­gra­ção!, diz a direita. E assim por diante.

Dando um passo para trás de tais con­tro­vér­sias, deve­ria ser óbvio que fenô­me­nos soci­ais com­ple­xos sem­pre têm várias cau­sas, e deve­mos sus­pei­tar de qual­quer um que afirme o con­trá­rio.

Não estou, no entanto, pro­mo­vendo que fique­mos em cima do muro — nada disso. Na ver­dade, eu acre­dito que a mudança de pers­pec­tiva que toma cau­sas em ter­mos de alças ofe­rece até duas heu­rís­ti­cas prá­ti­cas para nave­gar nas dis­pu­tas cau­sais.

Pri­meiro, quando é evi­dente que existe uma esco­lha de alças cau­sais, os defen­so­res de uma alça em espe­cial devem ir além da mera demons­tra­ção de que ela existe. Eles são for­ça­dos a dizer por que sua esco­lha é mais justa, ou de outra forma mais dese­já­vel, a incli­na­rem-se sobre ela.

E em segundo lugar, os defen­so­res de um deter­mi­nado iden­ti­fi­ca­dor cau­sal são for­ça­dos a falar de aspec­tos prá­ti­cos. Se a causa não é tra­tá­vel, então não é, estri­ta­mente falando, uma causa em tudo.

Pela pri­meira heu­rís­tica, con­si­dere a dis­puta entre con­ser­va­do­res e femi­nis­tas sobre as cau­sas da agres­são sexual.

Um con­ser­va­dor pode con­ten­tar-se com uma situ­a­ção con­tra­fac­tual, tais como: ‘Se as mulhe­res se ves­tis­sem apro­pri­a­da­mente, have­ria menos agres­sões sexu­ais -, por­tanto, a roupa é a causa.’ Pode ou não haver alguma base fac­tual para essa ale­ga­ção, mas pelas luzes do meu argu­mento, fatos rasos estão fora de ques­tão.

As femi­nis­tas têm um con­tra­fac­tual igual­mente con­vin­cente (“Se os meni­nos forem ensi­na­dos a tra­tar as mulhe­res com res­peito, have­ria menos agres­sões sexu­ais”), além de um adi­ci­o­nal argu­mento sobre por que é mais justo colo­car o fardo da res­pon­sa­bi­li­dade onde colo­cam.

Isso deve ser sufi­ci­ente para que­brar o impasse — ou pelo menos para negar o fator único fun­da­men­ta­lista de sua retó­rica de obje­ti­vi­dade.

Quanto à segunda heu­rís­tica, tenho em mente a demanda cada vez mais cla­mo­rosa de que os líde­res polí­ti­cos nomeiam o ‘Islam’ (ou ‘isla­mismo radi­cal’) como a causa de tan­tos males geo­po­lí­ti­cos.

Eu não nego que a reli­gião seja cla­ra­mente uma con­di­ção de ter­ro­rismo reli­gi­oso — mas é real­mente uma causa?

É tão fácil fazer valer o con­tra­fac­tual: “Se não fosse pela reli­gião, não have­ria ter­ro­rismo reli­gi­oso” — mas uma vez que não existe nenhuma maneira sim­ples de eli­mi­nar a reli­gião de uma pes­soa, muito menos de bilhões, o hipo­té­tico é pro­ces­sado como cau­sal­mente impo­tente.

A alter­na­tiva pro­gres­siva — para tra­tar o fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso como um efeito da geo­po­lí­tica — serve para loca­li­zar a causa em que for­mu­la­do­res de polí­ti­cas podem man­ter alguma tra­ção. Isto pode pare­cer puro prag­ma­tismo, mas, como tal, esgota a raci­o­na­li­dade da pro­cura por cau­sas.

O que pode ser dito, então, sobre minha sepa­ra­ção amo­rosa? Se cada um dos meus ‘E se…?” aponta para uma con­di­ção do rela­ci­o­na­mento, então tal­vez algum sub­con­junto pode­ria ter sido de alças cau­sais.

Se eu sou­besse com que alças lidar para com­pre­en­der, a fim de nos man­ter jun­tos, eu teria puxado com toda minha força. Mas é claro que havia dois de nós nos con­tro­les, e nem toda mano­bra estava livre para ser feita por mim.

Eu pode­ria cul­par a mim ou à minha ex de qual­quer um des­ses movi­men­tos que não con­se­gui­mos fazer — mas ao con­trá­rio dos con­fli­tos polí­ti­cos, e onde uma esco­lha entre as cau­sas é fun­da­men­tal para a tomada de deci­sões prá­tica, meu rela­ci­o­na­mento estava morto há muito tempo.
Eu posso saber que sua morte teve múl­ti­plas cau­sas, mas não pre­ciso esco­lher entre elas agora. Não há alças para o pas­sado.

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Joe Boswell
Joe Boswell é um escritor especializado em ciência e filosofia, cujo trabalho tem aparecido em Scientia Salon e This View of Life, entre outras publicações. Ele escreve no AdamOpticks.wordpress.com, e está atualmente produzindo uma série de filmes para o Bristol Centre for Science and Philosophy.

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