Não sei se você já reparou, mas a grande maioria dos heróis são tão coloridos quanto borboletas e alguns pássaros. Tudo bem, o cinema vem investindo na ‘descolorização’ dos personagens, mas ainda assim tenho certeza que não seria menos esquisito passar por um Wolverine de macacão de couro preto inteiriço, ao invés de um com um belo de um collant amarelo.

Pra ter a sensação, basta dar uma folheada nas primeiras páginas do arco de histórias do X-Men conhecido por A Era do Apocalipse. Parece que aquilo foi desenhado por algum carnavalesco carioca. Mas isso não é uma crítica negativa. Nos quadrinhos, funciona muitíssimo bem – mas eu daria um abraço em quem resolveu adaptar os uniformes nos cinemas de forma menos…esteticamente apoteótico.

Aparentemente, não existe nenhum motivo especial para tais trajes espalhafatosos. Alguém pode simplesmente ter desenhado um primeiro e os desenhistas posteriores copiaram o estilo. No entanto, vou especular sobre um motivo mais profundo para tal escolha.

A pergunta certa que devemos fazer é: seria por mero acaso que sujeitos altamente poderosos, com fator de dominação ‘testosterônico’, ombros largos e queixos quadrados sejam retratados como seres coloridos e chamativos? Pode ser que o velho Charles Darwin e alguns pavões tenham algumas lições a nos ensinar sobre isso.

Uma questão de custo e benefício

Como é de conhecimento comum, Darwin documentou todas as evidências e interpretações que o levaram a criar a teoria da evolução por seleção natural em A Origem das Espécies, de 1859. De acordo com a seleção natural, as características que mais proporcionassem vantagens para os organismos em termos de sobrevivência e reprodução seriam as naturalmente selecionadas. Na época, Darwin ainda não sabia, mas hoje sabemos que essas “características” das quais falava eram produtos da genética.

Darwin, mais tarde, publicou outro livro, The Decent of Man and Selection in Relation to Sex, que trata da seleção sexual. Esse é o termo para a competição que existe entre machos e fêmeas para atrair o sexo oposto e, assim, viabilizar a reprodução. E as características determinantes na seleção sexual podem ser comportamentais ou anatômicas.

Pavão ostentação.
Pavão ostentação.

Veja, por exemplo, os pavões. O macho possui uma baita de uma cauda comprida e colorida. Certamente ela representa um estorvo para o bicho, pois é pesada e o torna menos ágil. As cores chamativas podem atrair predadores mais facilmente, e as dimensões desse carro alegórico traseiro podem tornar mais complicada uma ágil fuga.

Entretanto, por mais estranho que seja, são essas mesmas dificuldades, quando conduzidas com maestria, que atraem as fêmeas. Um macho só se sai bem se for altamente saudável, e saúde constantemente está ligada à fertilidade, e só um macho saudável consegue lidar com os custos desse rabo.

Portanto, a equação é simples: (i) caudas de pavão são custosas, (ii) podem representar a ruína vital e reprodutiva, mas (iii) ser capaz de arcar com esses custos se torna uma grande vantagem; como esses machos mais saudáveis que conseguem sustentar adereços custosos são os mais frequentemente escolhidos para acasalar, (iv) eles produzem filhos igualmente eficientes. Mas isso gera uma corrida armamentista, pois as (v) fêmeas vão cada vez mais elevando seu critério de seleção, ao mesmo tempo em que os (vi) machos vão se tornando cada vez mais eficientes na arte de se exibir, deixando os menos hábeis para a extinção.

Caramanchão
Uns ostentam a cauda, outros, uma bela capacidade de fazer um ninho de amor.

Uma espécie de pássaro chamada bowerbird também é hábil na arte da ostentação. Mas o que diferencia essas aves dos pavões é que um importante estágio desse ritual não é a exibição de atributos anatômicos, mas de habilidades comportamentais.

Para atrair as fêmeas, os bowerbirds constroem intrincados e complexos ninhos, espécies de caramanchões não construídos por mãos humanas. Eles podem utilizar dúzias de materiais para deixar os ninhos cada vez mais coloridos, e capricham na simetria da arquitetura de ninho de amor.

O julgamento das fêmeas passa por diversos estágios. Primeiro, elas analisam os caramanchões como um todo, eliminando os que são assimétricos demais, com poucos adereços. A partir daí, o critério se torna cada vez mais complexo. Os pássaros que fazem ninhos com objetos azuis, saem na frente na disputa, mas o critério final mesmo é uma performance musical que o macho faz na frente da fêmea. Ele canta e faz uma exótica dança, andando ligeiramente para frente e para trás, pulando. O que se sair melhor, ganha o privilégio de acasalar.

Roupa de marca falsificada não pode

Pavões e bowerbirds são claros exemplos do que o biólogo Zahavi chamou de teoria da sinalização custosa, nos anos 1970, que ajudou a elucidar um mistério evolutivo para a época: por que a seleção natural favoreceria o surgimento de características custosas e aparentemente inúteis (e muitas vezes prejudiciais)? O embrião da resposta já podia ser encontrado na proposta da seleção sexual, mas Zahavi trouxe maior nível de detalhe e sofisticação à ideia, através do insight de que as características não deveriam ser apenas custosas, mas legitimamente custosas.

Isso fica evidente na escolha das fêmeas bowebirds. Selecionar os machos que simplesmente têm os ninhos mais azulados não é suficiente porque esse não é um critério ‘infalsificável’. Os objetos azuis num ninho podem ter sido simplesmente roubados, o que faz com que o macho não tenha gastado realmente uma gota de suor para buscá-los, ou seja, isso não prova necessariamente que ele é saudável o bastante para empreender uma caça às coisas azuis. O que está sendo ostentado deve seguramente indicar seu custo, por isso, a fêmea toma sua decisão final se baseando numa performance ao vivo (o canto e a dança), impossíveis de serem falsificados como sinais de saúde e fertilidade. O mesmo acontece com a cauda do pavão, que dificilmente poderia ser “falsificada”. Ou o pavão arca com os custos da cauda, ou não arca e morre. Não tem como enganar.

Darwin, traga minha capa

supercueca
Percorri todo esse caminho para lhe preparar para uma analogia (
especulativa, ok?) bem ambiciosa sobre a causa por trás das escolhas dos modelitos dos super-heróis: talvez elas não sejam simplesmente arbitrárias, mas tenham alguma lógica evolutiva operando por trás dos panos, assim como no comportamento das aves mencionadas.

A despeito das características claramente sinalizadoras de testosterona (queixos quadrados, ombros largos, músculos proeminentes, estatura média ou alta, sobrancelhas baixas), os heróis dos quadrinhos exibem outras características de peso, evolutivamente falando. Quando saem às ruas para combater o crime, não fazem isso simplesmente sendo eficientes, mas sendo bem barrocos – se não pelos atos, então pela aparência.

O próprio Super-Homem é um exemplo arquetípico disso. O uniforme do sujeito é azul, com uma cueca e uma capa bem vermelhas. Esse caso é bem ilustrativo porque o kryptoniano é quase um deus vivo na Terra, portanto, ele claramente é capaz de arcar com os custos de sua aparência.

A capa é especialmente custosa, pois (i) faz barulho quando o herói voa, (ii) diminui sua aerodinâmica e (iii) aumenta a resistência do ar durante o voo. É praticamente como se um nadador resolvesse participar das olimpíadas nadando com uma prancha amarrada ao corpo, ou mesmo um pedaço de pano qualquer. Se com todas essas dificuldades ele ainda ganhasse a competição, seu poder e habilidades seriam mais que extraordinários.

A lógica é válida para o Homem de Aço e para outros heróis de capa, mas não para o Batman, por exemplo. O Homem Morcego usa sua capa como uma ferramenta, servindo para planar ao saltar de um prédio. Portanto, a capa nesse caso não é uma mera ostentação de algo custoso, mas um elemento claramente funcional. Por outro lado, a capa do Super não serve para nada, só para, teoricamente, atrasá-lo.

magneto
“Aí, coroa, vai sair em qual escola?”

Veja, por exemplo, o Magneto, como mostrado nos quadrinhos. O mutante inimigo dos X-men usa um uniforme todo trabalhado no vermelho, roxo e no violeta (eu acho, porque cores intermediárias sempre serão um mistério pra mim), com direito a capa e tudo. Não satisfeito, ele se locomove voando e com um escudo magnético amarelo e às vezes azul claro (depende do desenhista) girando ao seu redor. Magneto se comporta praticamente como um vagalume, só que toda sua pomposidade luminescente e altamente difícil de falsificar (quem mais tem poder de manipular campos magnéticos?) acaba tendo um efeito cobra coral, cuja lógica implícita é sinalizar bem claramente o quão perigoso é. No reino animal, animais muito coloridos geralmente são muito venenosos, ou pelo menos estão se fingindo de animais muito perigosos, como a falsa cobra coral e a borboleta cujas asas imitam os olhos de um grande felino.

Assim, o reino animal parece ter suas próprias estratégias involuntárias de sinalizar a saúde e a fertilidade, o que, por consequência, também pode ser também um indício de perigo. O importante é que esses sinais sejam custosos, chamativos e difíceis de falsificar. Seres humanos, como também pertencentes ao reino animal estão sujeitos a muitas das mesmas configurações moldadas pela seleção natural, e isso não se manifesta só no modo como agimos na vida real, na maneira como as culturas se apresentam, mas também na maneira como pensamos a fantasia.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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