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Muito além da cueca por cima da calça: sobre capas, pavões e Darwin

Em Ciência, Consciência por Felipe NovaesComentário

Não sei se você já repa­rou, mas a grande mai­o­ria dos heróis são tão colo­ri­dos quanto bor­bo­le­tas e alguns pás­sa­ros. Tudo bem, o cinema vem inves­tindo na ‘des­co­lo­ri­za­ção’ dos per­so­na­gens, mas ainda assim tenho cer­teza que não seria menos esqui­sito pas­sar por um Wol­ve­rine de maca­cão de couro preto intei­riço, ao invés de um com um belo de um col­lant ama­relo.

Pra ter a sen­sa­ção, basta dar uma folhe­ada nas pri­mei­ras pági­nas do arco de his­tó­rias do X-Men conhe­cido por A Era do Apo­ca­lipse. Parece que aquilo foi dese­nhado por algum car­na­va­lesco cari­oca. Mas isso não é uma crí­tica nega­tiva. Nos qua­dri­nhos, fun­ci­ona mui­tís­simo bem — mas eu daria um abraço em quem resol­veu adap­tar os uni­for­mes nos cine­mas de forma menos…esteticamente apo­teó­tico.

Apa­ren­te­mente, não existe nenhum motivo espe­cial para tais tra­jes espa­lha­fa­to­sos. Alguém pode sim­ples­mente ter dese­nhado um pri­meiro e os dese­nhis­tas pos­te­ri­o­res copi­a­ram o estilo. No entanto, vou espe­cu­lar sobre um motivo mais pro­fundo para tal esco­lha.

A per­gunta certa que deve­mos fazer é: seria por mero acaso que sujei­tos alta­mente pode­ro­sos, com fator de domi­na­ção ‘tes­tos­terô­nico’, ombros lar­gos e quei­xos qua­dra­dos sejam retra­ta­dos como seres colo­ri­dos e cha­ma­ti­vos? Pode ser que o velho Char­les Darwin e alguns pavões tenham algu­mas lições a nos ensi­nar sobre isso.

Uma questão de custo e benefício

Como é de conhe­ci­mento comum, Darwin docu­men­tou todas as evi­dên­cias e inter­pre­ta­ções que o leva­ram a criar a teo­ria da evo­lu­ção por sele­ção natu­ral em A Ori­gem das Espé­cies, de 1859. De acordo com a sele­ção natu­ral, as carac­te­rís­ti­cas que mais pro­por­ci­o­nas­sem van­ta­gens para os orga­nis­mos em ter­mos de sobre­vi­vên­cia e repro­du­ção seriam as natu­ral­mente sele­ci­o­na­das. Na época, Darwin ainda não sabia, mas hoje sabe­mos que essas “carac­te­rís­ti­cas” das quais falava eram pro­du­tos da gené­tica.

Darwin, mais tarde, publi­cou outro livro, The Decent of Man and Selec­tion in Rela­tion to Sex, que trata da sele­ção sexual. Esse é o termo para a com­pe­ti­ção que existe entre machos e fêmeas para atrair o sexo oposto e, assim, via­bi­li­zar a repro­du­ção. E as carac­te­rís­ti­cas deter­mi­nan­tes na sele­ção sexual podem ser com­por­ta­men­tais ou anatô­mi­cas.

Pavão ostentação.

Pavão osten­ta­ção.

Veja, por exem­plo, os pavões. O macho pos­sui uma baita de uma cauda com­prida e colo­rida. Cer­ta­mente ela repre­senta um estorvo para o bicho, pois é pesada e o torna menos ágil. As cores cha­ma­ti­vas podem atrair pre­da­do­res mais facil­mente, e as dimen­sões desse carro ale­gó­rico tra­seiro podem tor­nar mais com­pli­cada uma ágil fuga.

Entre­tanto, por mais estra­nho que seja, são essas mes­mas difi­cul­da­des, quando con­du­zi­das com maes­tria, que atraem as fêmeas. Um macho só se sai bem se for alta­mente sau­dá­vel, e saúde cons­tan­te­mente está ligada à fer­ti­li­dade, e só um macho sau­dá­vel con­se­gue lidar com os cus­tos desse rabo.

Por­tanto, a equa­ção é sim­ples: (i) cau­das de pavão são cus­to­sas, (ii) podem repre­sen­tar a ruína vital e repro­du­tiva, mas (iii) ser capaz de arcar com esses cus­tos se torna uma grande van­ta­gem; como esses machos mais sau­dá­veis que con­se­guem sus­ten­tar ade­re­ços cus­to­sos são os mais fre­quen­te­mente esco­lhi­dos para aca­sa­lar, (iv) eles pro­du­zem filhos igual­mente efi­ci­en­tes. Mas isso gera uma cor­rida arma­men­tista, pois as (v) fêmeas vão cada vez mais ele­vando seu cri­té­rio de sele­ção, ao mesmo tempo em que os (vi) machos vão se tor­nando cada vez mais efi­ci­en­tes na arte de se exi­bir, dei­xando os menos hábeis para a extin­ção.

Caramanchão

Uns osten­tam a cauda, outros, uma bela capa­ci­dade de fazer um ninho de amor.

Uma espé­cie de pás­saro cha­mada bower­bird tam­bém é hábil na arte da osten­ta­ção. Mas o que dife­ren­cia essas aves dos pavões é que um impor­tante está­gio desse ritual não é a exi­bi­ção de atri­bu­tos anatô­mi­cos, mas de habi­li­da­des com­por­ta­men­tais.

Para atrair as fêmeas, os bower­birds cons­troem intrin­ca­dos e com­ple­xos ninhos, espé­cies de cara­man­chões não cons­truí­dos por mãos huma­nas. Eles podem uti­li­zar dúzias de mate­ri­ais para dei­xar os ninhos cada vez mais colo­ri­dos, e capri­cham na sime­tria da arqui­te­tura de ninho de amor.

O jul­ga­mento das fêmeas passa por diver­sos está­gios. Pri­meiro, elas ana­li­sam os cara­man­chões como um todo, eli­mi­nando os que são assi­mé­tri­cos demais, com pou­cos ade­re­ços. A par­tir daí, o cri­té­rio se torna cada vez mais com­plexo. Os pás­sa­ros que fazem ninhos com obje­tos azuis, saem na frente na dis­puta, mas o cri­té­rio final mesmo é uma per­for­mance musi­cal que o macho faz na frente da fêmea. Ele canta e faz uma exó­tica dança, andando ligei­ra­mente para frente e para trás, pulando. O que se sair melhor, ganha o pri­vi­lé­gio de aca­sa­lar.

Roupa de marca falsificada não pode

Pavões e bower­birds são cla­ros exem­plos do que o bió­logo Zahavi cha­mou de teo­ria da sina­li­za­ção cus­tosa, nos anos 1970, que aju­dou a elu­ci­dar um mis­té­rio evo­lu­tivo para a época: por que a sele­ção natu­ral favo­re­ce­ria o sur­gi­mento de carac­te­rís­ti­cas cus­to­sas e apa­ren­te­mente inú­teis (e mui­tas vezes pre­ju­di­ci­ais)? O embrião da res­posta já podia ser encon­trado na pro­posta da sele­ção sexual, mas Zahavi trouxe maior nível de deta­lhe e sofis­ti­ca­ção à ideia, atra­vés do insight de que as carac­te­rís­ti­cas não deve­riam ser ape­nas cus­to­sas, mas legi­ti­ma­mente cus­to­sas.

Isso fica evi­dente na esco­lha das fêmeas bowe­birds. Sele­ci­o­nar os machos que sim­ples­mente têm os ninhos mais azu­la­dos não é sufi­ci­ente por­que esse não é um cri­té­rio ‘infal­si­fi­cá­vel’. Os obje­tos azuis num ninho podem ter sido sim­ples­mente rou­ba­dos, o que faz com que o macho não tenha gas­tado real­mente uma gota de suor para buscá-los, ou seja, isso não prova neces­sa­ri­a­mente que ele é sau­dá­vel o bas­tante para empre­en­der uma caça às coi­sas azuis. O que está sendo osten­tado deve segu­ra­mente indi­car seu custo, por isso, a fêmea toma sua deci­são final se base­ando numa per­for­mance ao vivo (o canto e a dança), impos­sí­veis de serem fal­si­fi­ca­dos como sinais de saúde e fer­ti­li­dade. O mesmo acon­tece com a cauda do pavão, que difi­cil­mente pode­ria ser “fal­si­fi­cada”. Ou o pavão arca com os cus­tos da cauda, ou não arca e morre. Não tem como enga­nar.

Darwin, traga minha capa

supercueca
Per­corri todo esse cami­nho para lhe pre­pa­rar para uma ana­lo­gia (
espe­cu­la­tiva, ok?) bem ambi­ci­osa sobre a causa por trás das esco­lhas dos mode­li­tos dos super-heróis: tal­vez elas não sejam sim­ples­mente arbi­trá­rias, mas tenham alguma lógica evo­lu­tiva ope­rando por trás dos panos, assim como no com­por­ta­mento das aves men­ci­o­na­das.

A des­peito das carac­te­rís­ti­cas cla­ra­mente sina­li­za­do­ras de tes­tos­te­rona (quei­xos qua­dra­dos, ombros lar­gos, mús­cu­los pro­e­mi­nen­tes, esta­tura média ou alta, sobran­ce­lhas bai­xas), os heróis dos qua­dri­nhos exi­bem outras carac­te­rís­ti­cas de peso, evo­lu­ti­va­mente falando. Quando saem às ruas para com­ba­ter o crime, não fazem isso sim­ples­mente sendo efi­ci­en­tes, mas sendo bem bar­ro­cos — se não pelos atos, então pela apa­rên­cia.

O pró­prio Super-Homem é um exem­plo arque­tí­pico disso. O uni­forme do sujeito é azul, com uma cueca e uma capa bem ver­me­lhas. Esse caso é bem ilus­tra­tivo por­que o kryp­to­ni­ano é quase um deus vivo na Terra, por­tanto, ele cla­ra­mente é capaz de arcar com os cus­tos de sua apa­rên­cia.

A capa é espe­ci­al­mente cus­tosa, pois (i) faz baru­lho quando o herói voa, (ii) dimi­nui sua aero­di­nâ­mica e (iii) aumenta a resis­tên­cia do ar durante o voo. É pra­ti­ca­mente como se um nada­dor resol­vesse par­ti­ci­par das olim­pía­das nadando com uma pran­cha amar­rada ao corpo, ou mesmo um pedaço de pano qual­quer. Se com todas essas difi­cul­da­des ele ainda ganhasse a com­pe­ti­ção, seu poder e habi­li­da­des seriam mais que extra­or­di­ná­rios.

A lógica é válida para o Homem de Aço e para outros heróis de capa, mas não para o Bat­man, por exem­plo. O Homem Mor­cego usa sua capa como uma fer­ra­menta, ser­vindo para pla­nar ao sal­tar de um pré­dio. Por­tanto, a capa nesse caso não é uma mera osten­ta­ção de algo cus­toso, mas um ele­mento cla­ra­mente fun­ci­o­nal. Por outro lado, a capa do Super não serve para nada, só para, teo­ri­ca­mente, atrasá-lo.

magneto

Aí, coroa, vai sair em qual escola?”

Veja, por exem­plo, o Mag­neto, como mos­trado nos qua­dri­nhos. O mutante ini­migo dos X-men usa um uni­forme todo tra­ba­lhado no ver­me­lho, roxo e no vio­leta (eu acho, por­que cores inter­me­diá­rias sem­pre serão um mis­té­rio pra mim), com direito a capa e tudo. Não satis­feito, ele se loco­move voando e com um escudo mag­né­tico ama­relo e às vezes azul claro (depende do dese­nhista) girando ao seu redor. Mag­neto se com­porta pra­ti­ca­mente como um vaga­lume, só que toda sua pom­po­si­dade lumi­nes­cente e alta­mente difí­cil de fal­si­fi­car (quem mais tem poder de mani­pu­lar cam­pos mag­né­ti­cos?) acaba tendo um efeito cobra coral, cuja lógica implí­cita é sina­li­zar bem cla­ra­mente o quão peri­goso é. No reino ani­mal, ani­mais muito colo­ri­dos geral­mente são muito vene­no­sos, ou pelo menos estão se fin­gindo de ani­mais muito peri­go­sos, como a falsa cobra coral e a bor­bo­leta cujas asas imi­tam os olhos de um grande felino.

Assim, o reino ani­mal parece ter suas pró­prias estra­té­gias invo­lun­tá­rias de sina­li­zar a saúde e a fer­ti­li­dade, o que, por con­sequên­cia, tam­bém pode ser tam­bém um indí­cio de perigo. O impor­tante é que esses sinais sejam cus­to­sos, cha­ma­ti­vos e difí­ceis de fal­si­fi­car. Seres huma­nos, como tam­bém per­ten­cen­tes ao reino ani­mal estão sujei­tos a mui­tas das mes­mas con­fi­gu­ra­ções mol­da­das pela sele­ção natu­ral, e isso não se mani­festa só no modo como agi­mos na vida real, na maneira como as cul­tu­ras se apre­sen­tam, mas tam­bém na maneira como pen­sa­mos a fan­ta­sia.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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