Capa do artigo exibindo Mr Robot.

Mr. Robot e como caminhamos para o fim

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Luan VeroneComentários

Há muito sobre nossa pró­pria con­di­ção em Mr Robot.


Parte de escre­ver sobre qual­quer série ou filme neces­sita da cor­te­sia do aviso sobre spoi­lers, e este artigo não lhe dará nenhum, mas há um porém: é impos­sí­vel falar sobre algo sem sequer enten­der o con­texto, então se você não quer saber abso­lu­ta­mente nada sobre a série é hora de parar por aqui, mas se você já andou pelas redes soci­ais, é óbvio que o con­texto da série está mais que defi­nido pra você. E se você estava em dúvida sobre assis­tir ou não a série, este artigo com cer­teza lhe fará deci­dir, mas não espere uma aná­lise aqui, meu papel não é ana­li­sar a série, e sim ao que a série se refere. E, claro, vamos aos fatos…

 

FUCK SOCIETY!

Imagem de Mr. Robot: FUCK SOCIETY!

Uma pequena frase que resume per­fei­ta­mente a série, basta dizer que você será imerso no mundo hac­ker, sem gla­mour, sem hollywood, tudo fun­ci­ona como no mundo real. Elliot é o pro­ta­go­nista, vici­ado, antis­so­cial, boas inten­ções e louco. Ao pas­sar dos epi­só­dios suas face­tas serão exi­bi­das cada vez mais para fazer você, espec­ta­dor, enten­der em que soci­e­dade vive­mos. Tudo é cons­truído não para te colo­car em um mundo cri­ado, mas para te tirar dele, o fazer pen­sar, criar pos­si­bi­li­da­des para­le­las pos­sí­veis se você ou alguém fizesse algo como o que acon­tece nesta “semi-fic­ção”.

Tire­mos de lado as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias apre­sen­ta­das, já que você irá se depa­rar com elas logo na pri­meira frase da série: “Existe um grupo de pes­soas pode­ro­sas que secre­ta­mente coman­dam o mundo, os caras que nin­guém conhece… o top 1% do top 1%.”

Tal­vez exista alguma ver­dade em supor que pode­mos estar sendo “gover­na­dos” por algo assim, afi­nal você já parou para pes­qui­sar quanto as gran­des cor­po­ra­ções detém? Con­su­mi­mos itens que mui­tas vezes pare­cem ser dis­tin­tos entre si, acre­di­ta­mos estar esco­lhendo algo entre milhões de coi­sas, e dando pre­fe­rên­cia àquilo que acha­mos com­pe­lir com nos­sos gos­tos. Acha­mos muito, sabe­mos pouco, essa é a ver­dade, e esse é o pri­meiro ponto. Mas este artigo será divi­dido em três par­tes, e esta pri­meira tem a ver com o quão frá­geis nos tor­na­mos em escala glo­bal e não como esta­mos assim indi­vi­du­al­mente.

 

EU LHE ENTREGO: PARANOIA!

Citação de Elliot Alderson: Estamos todos vivendo as paranoias uns dos outros.

Esta­mos todos vivendo nas para­noias uns dos outros.”

Pronto para ficar para­noico? Come­ce­mos, então.

Esta­mos cada vez mais imer­sos em um mundo que não é real, e se exis­tia algo que Jobs sabia era disso. Nós e os devi­ces nos tor­na­mos um só, a inter­net colo­cou o mundo em nos­sas mãos mas, prin­ci­pal­mente, nos deu algo que nunca tive­mos: o cen­tro das aten­ções. Ela nos ligou ao mundo, dando-nos impor­tân­cia, rele­vân­cia, alcance e a maior das dro­gas: a per­so­na­li­dade per­feita.

Mas quem é essa per­so­na­li­dade per­feita? Ela é você. Bom… não exa­ta­mente você, mas seu alter ego, aquele que você quer ser, ou que quer que os outros pen­sem que você é. E a psi­co­lo­gia sabe bem expli­car o porquê disso: lhes apre­sento…

A Caixa de Skinner

Você deve se per­gun­tar às vezes por que o Face­book atin­giu um sucesso tão maior do que as outras redes, e a res­posta é sim­ples: o Like.

Bur­rhus Fre­de­ric Skin­ner, cri­a­dor do expe­ri­mento, disse que as con­sequên­cias de uma ação podem lhe influ­en­ciar a repeti-las ou não. E é exa­ta­mente aí que esta o gap de toda a geni­a­li­dade: tal­vez você não saiba, mas Mark Zuc­ker­berg não é só aquele geek da pro­gra­ma­ção, ele tam­bém é for­mado em psi­co­lo­gia por Har­vard, e mesmo que um dia ele negasse por sua vida que em nada isso lhe influ­en­ciou, ainda colo­ca­ria em risco tudo para afir­mar o con­trá­rio, que sua maior des­co­berta foi per­ce­ber que a cada dia esta­mos mais dis­tan­tes da rea­li­dade e cada vez mais caren­tes de algo que já pos­suía­mos, a auto­con­fi­ança.

O método “like” de agir se sucede desta maneira: todo usuá­rio está online para ter aten­ção, para que seja cada vez mais visto e apro­vado. O like fun­ci­ona como a medida de aten­ção que você recebe, ou o quão certo você está sobre algo — quanto maior a quan­ti­dade de likes maior a chance da ação se repe­tir, pois com um reforço posi­tivo o resul­tado emo­ci­o­nal é posi­tivo tam­bém. Mas se não rece­ber­mos mui­tos likes, a busca con­ti­nua, por­que na nossa psi­que não fomos repro­va­dos, só não fomos apro­va­dos - não há sen­ti­mento de desâ­nimo, lem­bre-se que somos seres em busca de apro­va­ção em uma época onde esta­mos mais caren­tes, e não à toa não há o botão dis­like.

Democracia e Mr. Robot.

Este é o gap do milê­nio, e se não hou­ver gran­des ano­ma­lias soci­ais ele tende a se man­ter o mesmo. A impor­tân­cia em enten­der isso serve para enten­der o porquê de nos­sas vidas intei­ras esta­rem conec­ta­das à inter­net, nos fazendo sen­tir parte deste mundo vir­tual e fazendo com que tudo que nos seja pes­soal vá parar nela — não só senhas do car­tão do banco ou núme­ros de docu­men­tos pes­so­ais, mas tam­bém onde você vai, quem são as pes­soas ao seu lado, o que você faz e suas pre­fe­rên­cias. Não à toa hoje pri­meiro stal­ke­a­mos alguém antes de puxar assunto.

Para enten­der só mais um pouco do quanto fomos longe, um estudo publi­cou que temos somente 5 ami­gos de ver­dade nas redes soci­ais. E em quanto está a con­ta­gem deles para você? Exis­tem alguns núme­ros que mos­tram que mais de 28 milhões de pes­soas se divor­ci­a­ram citando o Face­book, enquanto outros falam que pelo menos 66% dos divór­cios têm a rede social como causa pri­má­ria — dados que são de alguns anos atrás.

Assim é que começa a para­noia: até que ponto você acre­dita estar seguro online?

Achar que suas infor­ma­ções per­ten­cem só a você vai além da ino­cên­cia, a quan­ti­dade de vaza­mento de dados só vem aumen­tando, por dois moti­vos: existe cada vez mais infor­ma­ção sobre qual­quer coisa online e os hac­kers são cada vez mais capa­zes de aces­sar essas infor­ma­ções. Se alguém lhe diz o con­trá­rio, sobre como você está seguro e suas infor­ma­ções estão crip­to­gra­fa­das, esqueça — a segu­rança aumenta, mas a capa­ci­dade para burlá-la tam­bém.

Quer uns exem­plos? 50 milhões de dados pes­so­ais, cha­ma­das de call-cen­ter, 167 milhões de con­tas no lin­ke­din, panamá papers, dados ban­cá­rios, site de rela­ci­o­na­men­tos extra­con­ju­gais entre tan­tos outros que não cabe­riam por aqui.

O poder online é quase digno de qua­dri­nhos de super-vilões, e posso lis­tar abaixo alguns des­tes pode­res:

  • Explo­dir a bate­ria do seu Mac­book. Apa­ren­te­mente a apple não achou neces­sá­rio uma pro­te­ção maior para os chips que con­tro­lam a bate­ria, dei­xando senhas iguais para todos os Macs e o pro­cesso para inva­são é bem sim­ples.
  • Con­tro­lar o freio do seu carro. Aliás, seu carro todo, se você tem um des­ses car­ros com com­pu­ta­dor de bordo que pos­sua wi-fi, ou que esteja ligado à rádio até que um sim­ples vírus advindo de uma música bai­xada na inter­net possa infec­tar todo o veí­culo, ou mesmo pelo blu­e­to­oth. Acre­dite, se alguém qui­ser invadi-lo ele poderá.
  • Aces­sar sua web­cam. Se você tem uma câmera apon­tada para você neste momento ela facil­mente pode estar ligada e você fazer parte de um rea­lity som­brio de um hac­ker psi­có­tico.

 

Quer “noiar” um pouco mais, assista ao vídeo abaixo, e depois ire­mos à con­clu­são.

Os hackers são os “videntes” da era moderna.

Nesta via de mão dupla, onde o acesso é fácil, cer­ta­mente não esta­mos segu­ros. E mais que isso, o nosso com­por­ta­mento no pre­sente não tem aju­dado.

É acon­se­lhá­vel refle­tir sobre o quanto e como esta­mos nos colo­cando online e quais podem ser as con­sequên­cias disto. Não é pre­ciso enten­der de psi­co­lo­gia, nem de esta­tís­ti­cas, é pre­ciso enten­der de nós, de como somos, algo que parece cada vez ter menos expli­ca­ção e menos aten­ção — pas­sa­mos a viver além de nós e colo­ca­mos cada vez mais más­ca­ras para nos trans­for­mar. Cri­a­mos uma densa névoa entre o pes­soal e o público, pouco colo­ca­mos limi­tes entre um e outro, e assim damos liber­dade para que nada esteja defi­nido, tanto para nós quanto a qual­quer um.

Bem, no iní­cio eu disse que tal­vez você qui­sesse assis­tir ou não à série, e se você se intri­gou pelo assunto saiba que este é ape­nas um deles a ser des­ti­lado pelo pro­grama.

Já apro­veito para falar de outras duas con­ti­nu­a­ções: a parte dois retra­tará de outra faceta, aquela bre­ve­mente des­crita nos pri­mei­ros pará­gra­fos, a nossa com­pul­são con­su­mista. E a ter­ceira parte é o ato prin­ci­pal, o clí­max da his­tó­ria, onde a soci­e­dade chega à sua ine­vi­tá­vel queda.

Como espero que você já tenha assis­tido à série até lá, este último ato ine­vi­ta­vel­mente con­terá spoi­lers. Espero que você tenha se inte­res­sado e que não espere nem mais um minuto para come­çar a assis­tir, pois há muito o que falar sobre este mundo pos­sí­vel. Nos vemos em breve!


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Refe­rên­cias bibli­o­grá­fi­cas:

  1. http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2016/04/turquia-investiga-vazamento-de-dados-de-50-milhoes-de-pessoas.html
  2. http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2016/03/vazamentos-expoem-milhoes-de-chamadas-de-call-center.html
  3. https://tecnoblog.net/195811/invasao-linkedin-senhas/
  4. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/03/politica/1459714116_802121.html
  5. http://olhardigital.uol.com.br/fique_seguro/noticia/plugin-de-seguranca-dos-bancos-permite-vazamento-de-dados-dos-internautas/58113
  6. https://tecnoblog.net/184013/ashley-madison-consequencias-vazamento/
  7. http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3598643/How-friends-really-People-capable-maintaining-just-FIVE-close-friends-despite-use-social-media.html
  8. http://rsif.royalsocietypublishing.org/content/13/118/20160044.full
  9. http://www.dn.pt/portugal/interior/numero-de-divorcios-causados-pelo-facebook-ja-chega-aos-28-milhoes–1765521.html
  10. http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0„ERT191732-16353,00.html
  11. http://revistagalileu.globo.com/Tecnologia/Internet/noticia/2014/08/hackeamento-de-webcam-e-mais-comum-do-que-imaginam-diz-analista.html
  12. http://scienceblogs.com.br/psicologico/2008/10/skinner-e-a-descoberta-do-condicionamento-operante/

Luan Verone
Inquisidor de dogmas, vive em uma realidade paralela onde não acredita em problemas insolúveis. Publicitário e astrônomo, também flertou com cursos de ética, fotografia, filosofia e sociologia. Acredita que currículos não descrevem ninguém, mas sempre deixa claro que fez Harvard... Sua divindade é Einstein, seu guia para a vida passa pela A Origem das espécies e Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Sua religião é a ciência e não se incomoda de ser um pregador.

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