18 de junho de 2013. Nesse dia, iniciaram-se protestos em todo Brasil, tendo seu estopim em Porto Alegre, cidade onde moro, contra o aumento do preço das tarifas de ônibus. Diversos grêmios estudantis de colégios públicos e diretórios acadêmicos de universidades federais se mobilizaram para participar dessas manifestações, atraindo os estudantes. Foi dessa forma que tive meu primeiro contato com um dos diversos movimentos sociais de que participaria nos anos seguintes, e dos quais me decepcionei e me afastei.

Durante algumas semanas, os protestos “dos 20 centavos” (como foi popularizado) tomaram proporções alarmantes, espalhando-se para outras capitais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte, tendo em sua composição as diferentes classes, desde classe baixa até a média alta. Não era algo que o país estava acostumado a vivenciar, pois os assuntos dos movimentos sociais sempre eram restringidos a uma classe econômica ou ideologias específicas.

Em pouco tempo, os protestos acumulavam uma quantidade absurda de pessoas, que ultrapassaram o número de manifestantes do “Diretas Já” de 1984 – uma das maiores manifestações na história do Brasil até então.

Devido ao fato de ser um protesto de grandes proporções e com manifestantes de diversas origens, as reivindicações também eram múltiplas, não se restringindo ao motivo original dos 20 centavos. Alguns demandavam mais investimentos na educação, outros acesso à moradia, reforma agrária, fim da corrupção e outras medidas. Contudo, certos “manifestantes”, já nos primeiros protestos, começaram a se aproveitar do caos das ruas e começaram a furtar estabelecimentos comerciais ou a simplesmente depredar residências, o que resultou numa brutal repressão policial, com uso de balas de borracha, gás lacrimogêneo, e granada flashbang (perdi meu tímpano e fiquei sem audição durante 2 semanas devido a uma dessas granadas).

Mas isso não foi o suficiente para reprimir o movimento. Dois dias depois, outra passeata já estava marcada, em repúdio à violência da polícia, reunindo milhares de pessoas. Esse novo protesto acabou da mesma forma, com repressão policial mais intensa do que a anterior, e aos poucos o movimento tornou-se apenas barulho, revolta, algo meramente simbólico, sem pauta definida.

Contudo, todas aquelas milhares de pessoas reunidas significavam uma coisa. Estavam insatisfeitas com seu país e queriam tornar isso visível. E conseguiram. Brasília começou a perceber que a insatisfação não era brincadeira quando o Congresso Nacional foi ocupado pelos manifestantes.

protestos movimentos sociais

Eu e muitos céticos da época ficávamos bastante atônitos com as oportunidades e consequências daqueles protestos, que se repetiram pela terceira e quarta vez, com pouquíssimos dias de intervalo entre si. Esses eventos foram noticiados em manchetes de jornais e capas de revistas, apareciam nos noticiários de outros países e até mesmo resultaram em um pronunciamento da Presidente Dilma no mesmo mês.

Mas como canalizar aquela energia em melhorias para a sociedade?

Ninguém sabia.

Será que tudo que estava acontecendo era apenas barulho sem direção? O país veria o maior movimento social de sua história surgir e se esvair, sem resultar em melhorias ao país?

Por um lado, o preço das tarifas de ônibus baixaram (mas subiram meses depois), alguns projetos polêmicos foram banidos do Congresso por pressão popular, como foi o caso da “Cura Gay” (Decreto Legislativo 234/1) e a PEC 37 (que visava proibir investigações pelo Ministério Público).

O efetivo das forças policias atuante nos protestos aumentou, em alguns momentos somando mais policiais que manifestantes. Devido à pauta abrangente e generalista, ao constante medo da repressão policial e à depredação urbana, o movimento começou a se deteriorar.

Contudo, mesmo com as manifestações sufocadas, a vontade da população de mudar a realidade do país se intensificou, fortalecendo as aspirações de setores progressistas, implicando o surgimento de diversos coletivos e grupos sociais com suas próprias reivindicações.

Eu mesmo participei da “fundação” de um coletivo apartidário e politicamente independente. Tínhamos como pauta o fim da Policia Militar, denunciar os assassinatos cometidos contra jovens em periferias, criticar os gastos excessivos do atual governo brasileiro para a próxima Copa do Mundo (2014) e buscar a conscientização geral da população sobre temas econômicos e políticos com debates em lugares públicos. Muitas vezes realizávamos passeatas no centro da cidade com a finalidade meramente “simbólica” de divulgar algumas das causas que defendíamos. Encontrávamos muitos interessados em nos escutar, de todas as idades, que aos poucos se somavam ao nosso movimento.

Parecia ser um mundo repleto de liberdade e pluralidade, o que levaria a sociedade a um patamar de progresso e igualdade. Queríamos de fato uma revolução no mundo e nos hábitos das pessoas ao nosso redor.

Mas não foi isso que aconteceu. Como dizia Pirerre Vergniaud, morto na guilhotina na revolução francesa, em 1793:

movimentos sociais: Pierre Vergniaud
“A revolução é como Cronos: devora seus próprios filhos.” – Pierre Vergniaud

CRIA-SE O BEM E O MAL

Por mais válida que tenha sido a criação desses coletivos como forma de canalizar o anseio por mudanças, todos eles foram afetados pelo mesmo vírus que tomou conta de grande parte dos movimentos sociais e impediu qualquer tipo de ação que implicasse uma melhoria concreta: pregava-se uma solução única e salvadora para todo o Brasil e dividia-se a população entre dominantes e dominados, com uma simples categorização econômica, étnica ou ideológica, que variava de grupo para grupo.

Alguns movimentos sociais possuíam inconsistência lógica e prática em suas reivindicações. Muitos jogavam os pobres contra a classe média, pregavam a taxação e o fim das fortunas de empresários e o direcionamento desses valores para as classes mais baixas.

Muitos coletivos feministas, além de sua exclusividade participativa (o que é válido, sim), começaram a pregar um ódio exacerbado contra todo e qualquer homem. Lembro-me até hoje de um protesto no centro de Porto Alegre em que muitas manifestantes alegavam que todos os homens deveriam ser punidos e, se possível, era necessário evitar o nascimento de outros membros do sexo masculino, pois todos eram potenciais estupradores.

movimentos sociais: homem lixo

Enquanto isso, comecei a notar que essa “doença” estava se espalhando dentro do próprio coletivo que eu integrava. O vírus vinha sempre acompanhado de um discurso emotivo, simplista e superficial, visando a combater um único “inimigo”, gerador de todo o mal no planeta.

Aos poucos, não estávamos mais realizando debates em parques públicos, ou eventos independentes de música ou arte em praças, mas sim quebrando ônibus, janelas da prefeitura ou jogando rojões em policiais.

movimentos sociais: carro vandalizado

Eu não queria participar disso, não conseguia ver nenhuma melhora verdadeira sendo alcançada por esses atos.

O ápice do extremismo dos movimentos sociais foi a invasão de propriedades. Os invasores, na verdade, eram em sua maioria pessoas que possuíam lugar para morar, mas se estabeleceram em outras propriedades com a finalidade de “reivindicar o uso da propriedade para fins culturais”. Tratavam-se das famosas “ocupações”.

Claro que vivenciei casos individuais, e não posso atribuir esses mesmos conceitos a todas ocupações e movimentos sociais do mundo. Contudo, nenhum dos motivos declarados realmente servia de justificativa para aqueles atos de divisão da sociedade, depredação e invasão.

Estou falando especificamente de uma doença que segrega e contamina os discursos com emoção e raiva:

AS IDEOLOGIAS

Um dia, a religião foi usada como argumento para praticar as mais diversas atrocidades e espalhar ignorância. Hoje são as ideologias. Poder é poder, ele se reinventa, e pena de quem acredita nos argumentos daqueles que estão no poder ou buscam alcançá-lo.

Aos poucos, os partidos políticos começaram a enxergar oportunidades naqueles movimentos sociais, e assim estenderam seus tentáculos com o intuito de controlá-los e usá-los como massa de manobra, pois viram que o alcance desses grupos militantes era significativo, principalmente entre os jovens.

Movimentos sociais como o Juntos, filiados ao partido Socialismo e Liberdade, ou a UNE, atualmente regida pelo Partido Comunista do Brasil, tomaram suas maiores dimensões em 2013 com a mesma receita de bolo: eleger um único inimigo a ser combatido – o “Mercado”, o “Grande Capital”, a “classe dominante”, o “empresariado”.

Esses movimentos sociais encontram seu principal campo de atuação nas universidades, principalmente públicas. Os partidos lançavam seus candidatos que concorriam a eleições de diretórios acadêmicos (predominantemente em cursos de humanas), com o intuito de dar mais oportunidade política a seus integrantes para concorrerem nas próximas eleições a vereadores em suas cidades, e, a longo prazo, consolidar o poder do partido na região.

Outro exemplo muito claro de movimento social contaminado pelo jogo partidário, foram as manifestações pró-impeachment da presidente Dilma, influenciados pelo Movimento Brasil Livre. Os próprios organizadores do movimento foram afetados pelo vírus ideológico, enxergando o PT como o único mal do País e entendendo o impeachment como o único obstáculo ao futuro prósperoVictor Lisboa ilustra especificamente esse movimento no artigo “O Idiota do Impeachment”.

Movimentos sociais: Kim Kataguiri é um dos fundadores do MBL.
Kim Kataguiri é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre.

Fizemos todo esse trajeto de 2013 até hoje para compreender a situação dos movimentos sociais atuais, que são massa de manobra para eleger candidatos de partidos (e manter partidos no poder) e responsabilizam uma só classe econômica, etnia ou partido por todas as mazelas dos cerca de 200 milhões de brasileiros.

Aprimorados e oportunistas, esses movimentos sociais de hoje em dia não estão mais nas ruas ou universidades. Estão nas redes sociais, mostrando seu pior lado, pois a internet é como um portão que protege qualquer cachorro, mesmo os menores, permitindo que até o menor chihuahua possa latir como um cão feroz.

Assim, inicia-se a luta do branco versus o negro, do motorista versus o ciclista, do hétero versus o gay, do homem versus a mulher, dos petitas versus os tucanos. Lutas em que ambos os lados pregam o fim do outro, em vez de propor diálogos construtivos e mobilizações que implementem mudanças práticas e efetivas.

Para muitos, apenas suas soluções previsíveis de uma revolução armada socialista imediata ou de um impeachment seguido de intervenção militar podem trazer progresso.

OS TEMPOS PÓS-MODERNOS

Desse ambiente virtual pós-modernista extremamente fértil de irracionalidade e ódio, surgem conceitos e teorias deficientes em sua coesão lógica, tratando de um mundo imaginário, em que esses “movimentos” ganham significado cada vez mais limitante.

Um exemplo é o conceito de apropriação cultural, que inicialmente buscava acabar com os esteriótipos dos padrões de beleza, principalmente aqueles que atribuíam menor valor à estética cultural das populações negras. Mas, ao invés de combater essa forma de racismo, combatendo os preconceitos e estereótipos com o uso da lógica e da argumentação racional, o “movimento” mudou, e agora busca o fim do uso de diversas vestimentas e penteados por pessoas de etnia branca, alegando que turbantes e dreads são de uso exclusivo de afrodescendentes.

A solução, aparentemente, é segregar pessoas em espaços físicos ou virtuais não só segundo a cor da pele, mas também de acordo com o gênero. Trata-se dos famosos “safe spacesou “lugares de fala”, situação semelhante ao que acontecia em alguns locais públicos dos Estados Unidos na metade do século XX.

movimentos sociais: Esse ser humano conseguiu “problematizar” um gato.
Esse ser humano conseguiu “problematizar” um gato.

VOCÊ NÃO PODE OPINAR NO QUE NÃO É SUA REALIDADE

A argumentação com base na lógica, princípio que a partir do século XV libertou a mentalidade ocidental do fundamentalismo, tornou-se novamente uma aptidão inexistente para muitos indivíduos. Essa alienação não acontece por ausência de meios para buscar conhecimento, como antigamente, mas sim por escolha do indivíduo e devido ao famoso “efeito manada”. Ou em outras palavras, aquela enorme “militância” que está em todos os lugares e parece repetir os mesmos argumentos e acusações, independente de a quem ou a que situação se refira. Discordar dessas ideias significa ter sua imagem pública bastante manchada.

Dessa forma, surge a justificativa de que “tal acontecimento não é sua realidade, então todas suas palavras são inválidas.” Nem mesmo a razão pode quebrar esses argumentos, pois sua opinião só poderá ser levada em consideração se você estiver em uma condição social semelhante a quem emitiu a mensagem.

Em uma conversa casual num bar, comecei a considerar o quão esse conceito pode afetar gravemente a mentalidade das pessoas, principalmente das mais jovens, quando ouvi por parte de um interlocutor que “existem certos pontos em que a lógica não pode chegar.”

Não havia mais nada que eu pudesse dizer.

Enquanto prevalecer a visão de que existem “portadores da razão, acima de qualquer julgamento” e determinados “meios e ações” que devem ser seguidos em vez de objetivos que devem ser alcançados para atingir uma sociedade mais próspera, haverá censura e preconceito. E assim pessoas com os mesmos objetivos tratarão umas às outras como inimigas.

Infelizmente é necessário que transitemos por essa época de raciocínio paleolítico, para servir de exemplo às futuras gerações que qualquer tipo de ideia fundamentalista pode tomar proporções alarmantes. Aguardemos que no futuro a lógica prevaleça, e os movimentos sociais tanto nas ruas quanto na internet sejam uma ferramenta para reivindicar direitos e buscar meios de atingir objetivos.


Leia mais sobre o assunto em Ano Zero:

1 – As virtudes esquecidas de um bom debate intelectual
2 – O pós-modernismo e as falácias da internet
3 – Cala a boca, você é branco!
4 – Carta ao idiota do Impeachment
5 – Os valentões da justiça social
6 – Você é uma raposa ou um porco-espinho?
7 – A Tragédia dos Comuns

escrito por:

Rodrigo Zottis

Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.


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