Lendo os livros de André Chevitarese, um pesquisador brasileiro que estuda as formas plurais do cristianismo primitivo, aprendi que o Cristianismo já nasceu e continua sendo uma religião plural. Com Joseph Campbell, autor de O Herói de Mil Faces, famoso mitólogo admirador de Star Wars, percebi que isso vale para todas as religiões. Mesmo consolidadas numa visão mais comum e autorizada, ainda assim as concepções e práticas religiosas fluem dinamicamente.

Uma das evidências disso são os textos com diversas tonalidades teológicas que nascem nos primeiros séculos cristãos. As múltiplas correntes gnósticas, durante séculos, tiveram mais fiéis do que a ortodoxia que sobreviveu aos dias atuais. Alguns acreditavam na existência de milhões de deuses, algo à la hinduísmo; outras, que a divindade do Novo Testamento, Sophia, era a verdadeira criadora, enquanto o deus do Antigo Testamento era um Demiurgo caído, que teria originado o mundo material essencialmente imperfeito como é, algo bem à la Platão.

Havia também Gênesis diferentes, e também dezenas de outros evangelhos. Algumas cosmogonias tardias contavam que a Serpente era a mocinha da história, que queria levar a gnose (conhecimento) aos humanos. Sobre os evangelhos, sabemos que os nomes de autoria para cada evangelho não são reais, mas maneiras de autores anônimos darem prestígio ao seu manuscrito, fazendo-o circular pelas comunidades. Por muito tempo isso foi uma prática comum. Existiam, assim, além dos evangelhos hoje presentes na Bíblia, os de Maria Madalena e até de Judas, além de dezenas mais.

Sendo assim, o que Aronofsky faz em Mãe! (Mother!) lembra muito a fluidez de versões da narrativa cristã. O diretor reconta o mito cristão de maneira diferente. Se na Idade Média circulavam relatos do ministério de Jesus contados supostamente do ponto de vista de vários pontos de vista, Aronofsky nos dá uma narrativa contada do ponto de vista de Maria, de Maria Madalena, da Mãe Natureza e de uma suposta contraparte feminina de Deus.

Mãe! começa como um filme cult de suspense. O espectador é apresentado a uma esposa amável e dedicada ao lar, que permanece à procura do marido, emocional e fisicamente. Ele parece sempre dedicado ao trabalho, voltado ao seu mundo interior, à procura da ideia perfeita. É um poeta que sofre de bloqueio criativo.

A casa é do marido, e parece estar sendo aos poucos reconstruída pela esposa. Foi destruída em circunstâncias misteriosas por um incêndio no passado. Ele guarda em seu escritório inviolável a única relíquia do incidente, uma espécie de cristal.

Ele parece disperso e a ignora. Parece precisar dela apenas para fins práticos, apesar de dizer amá-la. Não seria surpresa se o filme nos conduzisse para um acúmulo de tensão entre os dois, com a esposa começando a cobrar atenção e o homem explodindo num surto psicótico agressivo. Mesmo assim, há certa brandura no ar. Ele não parece ser um vilão.

Tudo parece piorar com a chegada de um convidado inesperado. O sujeito aos poucos se revela doente. Numa cena estranha, fica visível um terrível ferimento na região das costelas, que o marido tenta esconder da esposa. Mais uma pista que indicaria o futuro sangrento do roteiro?

No dia seguinte, chega a mulher do hóspede. Ambos parecem não ter o mínimo bom senso. A esposa do poeta se torna a governanta da casa, notada apenas para as funções típicas de uma serviçal. A relação entre os convivas no casarão pode ser uma crítica aos papéis sociais, às representações sociais que homens e mulheres têm na sociedade. Pode ser mais uma das críticas ao funcionamento de sociedades machistas?

A estrela ali é o artista. Os convidados parecem ter ido à casa apenas para conhecê-lo. E de fato o poeta parece autorizar qualquer absurdo vindo de seus fãs. A casa se torna praticamente dos hóspedes. Eles exploram cômodos, mesmo os secretos, estragam coisas, mudam a arrumação, fazem sugestões pelas quais ninguém perguntou. Aronofsky estaria querendo criticar a personalidade narcisista que artistas e intelectuais em geral parecem ter? Seria uma reflexão sobre a relação entre o autor e seus admiradores? Ou à respeito do caos que a vida pessoal e relacional dessas pessoas com frequência se torna?

A invasão de privacidade, o assalto ao lar se agrava com a inesperada chegada dos filhos do casal. Os dois irmãos parecem tratar a casa como se fosse deles, ou de seus pais, enquanto a esposa do poeta assiste a tudo atônita. Agora, pai, mãe e os dois filhos estão ali para um acerto de contas, e os dois irmãos enfurecidos brigam até chegar às últimas consequências. O marido, por outro lado, está nos andares de cima, mais preocupado com seus próprios assuntos, como se o circo nonsense que tomou conta de seu lar não fosse seu próprio assunto também. A tragédia se concretiza com o assassinato de um irmão por outro.

Após esse ápice, os acontecimentos que se seguem dão a entender que vai haver reconciliação. A gravidez da mulher dá novo vigor para que surja a maior criação do poeta. Mas, então, começa tudo de novo. Ele parece ser extremamente dependente dos aplausos de um público cada vez mais extenso, que desvia de novo sua atenção e aos poucos invade sua casa. Seus olhos, antes voltados apenas para sua criação, agora se voltam para o prestígio. O ciclo se repete, mas agora em proporções mais intensas. A invasão dos fãs culmina na concepção da criança, que logo vira objeto de culto da multidão ensandecida.

Em uma sequência totalmente nonsense, a criança é despedaçada e distribuída como alimento pela multidão. Guerras tomam conta do terreno, talvez pelo acontecido. Grupos revoltados com o que aconteceu à criança, outros grupos preocupados em assumir o lugar como quem detém o poema verdadeiro do poeta. E, nisso, a casa cai aos frangalhos.

Esse momento serve como uma chave que decodifica os mistérios que o espectador poderia estar tendo dificuldade de costurar em um tecido coeso, em algo que fizesse sentido. Aronofsky está fazendo uma crítica às religiões, ao modo como elas são formadas, a como seus seguidores vão se ramificando em uma pluralidade de grupos que entendem diferentemente uma mensagem original, até que ninguém mais saiba qual diabos era a tal mensagem original – assim como não nos é revelado qual é o poema tão genial que o poeta escreve. Sabemos apenas que, nesse processo, o lar foi destruído, a esposa sofre, e o artista está com seu ego inflamado, com todas aquelas pessoas disputando sua atenção, admirando seus grandes feitos.

Esse absurdo precipita a raiva da esposa, que destrói a casa. Nas chamas, tudo se destrói, menos o próprio poeta. Das cinzas e da carne queimada, a esposa pergunta quem é ele, por que não foi afetado por aquele terror – apenas pela adoração de seus fãs. Ele diz algo como “Eu sou o que sou”.

Mãe! é uma releitura crítica do mito judaico-cristão. Não que releituras sejam algo novo. Como mencionado, o cristianismo (e o judaísmo também) já nasceu plural. Isso significa que mesmo certos elementos tidos como essenciais hoje, não foram verdadeiros desde sempre. É o caso da própria noção de monoteísmo, que as massas volta e meia corrompem, adotando politeísmos disfarçados ou mais leves (santos católicos, correntes gnósticas dualistas ou politeístas, ou culto de YHWH misturado ao de divindades canaanitas e egípcias entre judeus no passado).

Há também a mudança do ponto de vista. Dessa vez, temos os acontecimentos do ponto de vista feminino. Algumas horas temos Jennifer Lawrence como a própria Natureza (que pode ser lida como um reflexo da racionalidade humana, do entendimento científico sobre o mundo) que não parece entender os propósitos e aspirações divinos, por ambos serem essencialmente separados, distintos, apesar de estarem juntos num casamento. Há também o papel como Maria, a mulher que, como uma aia, parece ter sua importância resumida ao papel da origem do Filho, que dá um novo sopro à criatividade divina. Talvez Aronofsky também tenha querida retomar discussões primitivas do Cristianismo e questionar o suposto monoteísmo, colocando uma figura feminina desde o início ao lado da divindade supostamente única.

A crítica ambiental também é clara. A espécie humana é caracterizada pela capacidade de criar nichos que facilitam sua sobrevivência na natureza. A agricultura é o primeiro grande exemplo disso, e aquele que pode ter dado origem a todas as grandes modificações do mundo natural. Mas, antes disso, o Homo sapiens já extinguia espécies por onde passasse, ao longo das muitas migrações do gênero Homo pelo globo.

Estudando por alto a construção do Cristianismo ao longo da Idade Média, nunca me pareceram claras as tentativas de respostas a uma pergunta essencial. Por que Deus supostamente teria criado os seres humanos, se YHWH seria único, autossuficiente? Aronofsky, milhares de anos depois dessas primeiras tentativas de resposta, do judaísmo ao cristianismo (e ao islamismo?), parece ter dado uma resposta que parece crível para o ser humano ocidental do século XXI.

Talvez o ser humano seja a imagem e semelhança de Deus, mas não qualquer ser humano. A grande ironia é que Deus poderia ser essencialmente uma artista, que para ficar satisfeito consigo mesmo, com suas criações, dependeria do reconhecimento externo da sua genialidade. Qual a graça de pintar um quadro e deixá-lo escondido para sempre num porão? O desejo de reconhecimento pode ser transformar num verdadeiro desejo de adoração, quando se tem basicamente um ego de proporções divinas para satisfazer. Pelo menos essa parece ser a visão de Aronofsky.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
  • ALBN

    Lembrei de Preacher ao ver esse diálogo final entre o poeta e a mãe.

    • Taí uma saga dos quadrinhos que quero continuar a ver. Vou comprar um box.

  • Laine

    Maravilhoso texto Felipe. Esse filme proporciona uma aula sobre as metáforas ali encontradas. Logo após assistir minhas impressões ficaram em torno da visão de desenvolvimento psicológico do ser humano, ali representado na Jennifer (Mãe). Foi durante o final da gravidez que me veio a concepção judaico-cristã.
    A casa como o corpo e vida da Jennifer dominaram minhas analogias durante o filme. A invasão dos outros (inevitável) na nossa história, o primeiro ‘amor ao pai’, a limpeza do sangue e dos fragmentos deixados em nós por meio dos nossos encontros.
    Gostei do aspecto que citou a possibilidade da discussão sobre o monoteísmo e da figura feminina desde o início ao lado da divindade supostamente única. Ampliou mais ainda a interpretação desse filme.

    • Interessante. Não tinha pensado sobre o filme ser uma metáfora sobre o desenvolvimento psicológico não. To aqui matutando rs.