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Morte, o segredo desta vida

Em Consciência, O MELHOR DO AZ por Victor LisboaComentários

Na madru­gada do último domingo tive um sonho. Estava numa espé­cie de cidade grega, incrus­tada no már­more de uma falé­sia diante da praia. Nessa cidade quase ver­ti­cal, com esca­da­rias unindo locais que pare­ciam tem­plos gre­gos, eu cami­nhava. Entrei em um dos tem­plos. Não  me per­gunte a razão, afi­nal era um sonho.

Lá den­tro, uma mulher estava sen­tada diante de uma mesa com uma caixa ao cen­tro. A caixa tinha uma mani­vela do lado esquerdo e uma fenda acima. A mulher usava um ves­tido ama­relo e cabe­los muito com­pri­dos. Mal me apro­xi­mei e ela expli­cou que, com aquela caixa, podia se comu­ni­car com qual­quer ser ou força do uni­verso, que se expres­sa­ria de uma forma ou de outra por uma men­sa­gem. Pre­ve­niu-me que a res­posta podia não ser do meu agrado, embora sem­pre ver­da­deira, e eu deve­ria tomar muito cui­dado na esco­lha de quem invo­ca­ria.

No sonho, che­guei a pen­sar em con­ver­sar com Deus, mas isso me pare­ceu de uma ousa­dia enorme. Sha­kes­pe­are, para per­gun­tar o segredo da escrita, seria cômico. Todo ser e força do uni­verso? Que se foda. Decidi pedir por um recado da Morte.

A mulher, com fei­ções impas­si­vas diante do pedido, come­çou a girar a mani­vela, falando uma lín­gua que eu não conhe­cia. Essas coi­sas de sonho. Da fenda come­çou a sair um papel branco. Ela parou de girar, dobrou o papel e me entre­gou.

Des­do­brei o papel e li a men­sa­gem da Morte. E per­cebi que naquela men­sa­gem estava, como dizia Raul Sei­xas em uma música quase mís­tica, o segredo da vida.

Este texto não foi ins­pi­rado nesse sonho. Ao con­trá­rio, o sonho nas­ceu do texto, diga­mos assim. É que na noite em que o tive eu estava escre­vendo o esboço de um texto sobre um livro intri­gante. Fiquei impres­si­o­nado, é isso.

Em 1973, um sujeito escre­veu um livro que o pro­je­tou do ano­ni­mato à súbita cele­bri­dade em pouco tempo. A obra tor­nou-se um ins­tan­tâ­neo e acla­mado sucesso de ven­das. Em 1974, ape­nas um ano após sua publi­ca­ção, ganhou o Prê­mio Pulit­zer. O curi­oso é que seu autor a escre­veu pouco tempo antes de mor­rer, pois tinha cân­cer. O Pulit­zer, inclu­sive, foi dado dois meses após seu fale­ci­mento. Trata-se de uma aná­lise atenta e raci­o­nal sobre uma expe­ri­ên­cia que ele ante­via em seu futuro e que só pode­mos des­cre­ver como “enorme demais para ser com­pre­en­dida”: a morte.

O título do livro é A Nega­ção da Morte, e a pro­posta básica de seu autor, o antro­pó­logo Ernest Bec­ker, tinha a enge­nho­si­dade e eloquên­cia das gran­des ver­da­des. Você nunca ter­mina de ler esse livro sendo a mesma pes­soa que era quando come­çou. Tenho uma amiga que não con­se­guiu ler até o fim por­que pas­sava mal. O bizarro é que ela pas­sava mal com um livro muito pouco emo­ci­o­nal e minu­ci­o­sa­mente obje­tivo. Esse são os efei­tos das gran­des ver­da­des. 

O Curioso Livro de Becker 

Em A Nega­ção da Morte, Ernest Bec­ker demons­tra, uti­li­zando dados his­tó­ri­cos e regis­tros de filó­so­fos como Kier­ke­ga­ard, polí­ma­tas como Ortega y Gas­set e psi­có­lo­gos como Otto Rank, que a força por trás de quase todas as neu­ro­ses huma­nas, assim como a força que molda os prin­ci­pais aspec­tos de qual­quer cul­tura, reli­gião e civi­li­za­ção é uma só: a ten­ta­tiva humana de negar a rea­li­dade da morte.

Basta obser­var os ani­mais. Eles pare­cem viver num estado de eterno pre­sente. Porém, no pas­sado remoto, a evo­lu­ção garan­tiu a certo ani­mal uma van­ta­gem com­pe­ti­tiva em rela­ção aos outros na luta pela sobre­vi­vên­cia. Se tigre desen­vol­veu lon­gos den­tes, o bicho homem desen­vol­veu um neo­cor­tex cere­bral avan­ta­jado, e disso sur­giu uma cons­ci­ên­cia maior, com a qual ele podia criar armas e cons­truir arma­di­lhas para cap­tu­rar suas pre­sas. Não demo­rou para ser o fodão das sava­nas.

Só que esse hipe­ra­tro­fi­a­mento da cons­ci­ên­cia, se por um lado repre­sen­tava uma van­ta­gem com­pe­ti­tiva na luta do mundo sel­va­gem, teve um efeito cola­te­ral inde­se­já­vel. Dife­rente dos outros ani­mais, já não vive­mos no eterno pre­sente. Se por um lado per­ce­ber o futuro nos per­mite pla­ne­jar e pre­ve­nir ame­a­ças, isso tam­bém nos faz enten­der que, assim como todos os outros ani­mais, um dia tam­bém mor­re­re­mos.

Essa per­cep­ção é into­le­rante, e o bicho homem só con­se­guiu pros­se­guir gra­ças a uma estra­té­gia em que negava sua futura morte. Na essên­cia, Bec­ker pro­põe que somos fun­da­men­tal­mente deso­nes­tos com nós pró­prios acerca da ver­da­deira natu­reza da rea­li­dade pois assim não pre­ci­sa­mos pen­sar na morte. E per­sis­ti­re­mos nessa deso­nes­ti­dade ainda que seja recor­rendo a uma força trans­cen­dente, como a fé numa reli­gião ou o com­pro­misso com uma ide­o­lo­gia. Tudo o que for neces­sá­rio para esque­cer de que ire­mos mor­rer é válido.

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Essa deso­nes­ti­dade é uma tática de sobre­vi­vên­cia, e ela fun­ci­ona mais ou menos bem na maior parte do tempo. Porém, no fundo há sem­pre uma ansi­e­dade básica em todo ser humano, ine­rente à cons­ci­ên­cia e ori­gi­ná­ria de nossa per­cep­ção ini­cial da rea­li­dade.

Para Ernest Bec­ker, essa é a essên­cia da con­di­ção humana, o fun­da­mento de toda nossa aven­tura aqui no pla­neta Terra: somos dota­dos de um cére­bro capaz de con­ce­ber a eter­ni­dade, o infi­nito, mas esta­mos apri­si­o­na­dos em um corpo orgâ­nico, frá­gil, sujeito a des­trui­ção por inú­me­ros aci­den­tes — e, pior ainda, pro­gra­mado a decair e encon­trar a morte, ine­xo­ra­vel­mente.

A esse res­peito, existe uma antiga lenda hebraica que conta que o motivo da revolta do anjo Lúci­fer foi o fato de Deus, durante a cri­a­ção de nosso mundo, e após ter dado vida a todos os outros ani­mais, deci­dir criar uma cri­a­tura com uma curi­osa carac­te­rís­tica: nesse ani­mal, ele mis­tu­ra­ria o mundo orgâ­nico com uma cen­te­lha espi­ri­tual. Lúci­fer e seus par­ti­dá­rios teriam se revol­tado, alar­ma­dos, pois acha­vam inad­mis­sí­vel que maté­ria e espí­rito se con­fun­dis­sem numa mesma cri­a­tura sem que isso resul­tas­sem em tra­gé­dia. Tal cri­a­tura, argu­men­tava, não supor­ta­ria o peso dessa situ­a­ção e seria um desas­tre ambu­lante, um erro cós­mico. Deus, diante dessa afronta a sua von­tade, expul­sou Lúci­fer e os outros anjos revol­ta­dos, sendo que a par­tir de então o obje­tivo do anjo caído seria demons­trar a Deus que estava certo, que nós somos mesmo cri­a­tu­ras des­ti­na­das ao desas­tre.

Essa lenda é uma inte­res­sante metá­fora da con­di­ção humana retra­tada por Bec­ker. O con­flito entre as aspi­ra­ções espi­ri­tu­ais de nossa mente e a cons­ta­ta­ção dos limi­tes de nossa orga­ni­ci­dade. Trata-se de um dilema fun­da­men­tal que, para o filó­sofo Kier­ke­ga­ard, divide todo ser humano em dois: a mesma cons­ci­ên­cia capaz de con­ce­ber a eter­ni­dade é aquela capaz de pro­je­tar no futuro a sua morte. Temos uma mente capaz de sonhar com deu­ses e anjos, mas que depende do corpo de um ani­mal para viver. 

O livro de A Nega­ção da Morte foi tão impac­tante que até hoje um grupo de pes­qui­sa­do­res se dedica a com­pro­var, com base cien­tí­fica de natu­reza esta­tís­tica, que Bec­ker tinha razão. Os esfor­ços bem-suce­di­dos des­ses pes­qui­sa­do­res foram regis­tra­dos no docu­men­tá­rio Flight From Death — The Quest for Immor­ta­lity.

 

OS FANTOCHES DA SOCIEDADE ACOVARDADA

Segundo Bec­ker, todas as nos­sas neu­ro­ses, os trans­tor­nos obses­si­vos, os fana­tis­mos reli­gi­o­sos e polí­ti­cos, nos­sos vícios, até a forma como nos enre­da­mos em pro­ble­mas mes­qui­nhos — tudo isso seriam defe­sas psí­qui­cas para não pen­sar­mos deti­da­mente naquilo que nos aguarda no futuro. Eis o motivo pelo qual é tão difí­cil sair­mos de pro­ble­mas e de rela­ções doen­tias em nos­sas vidas, quando para quem observa do lado de fora parece que nada nos impede: se essas dis­tra­ções que con­so­mem nossa aten­ção aca­ba­rem, não tere­mos mais nada a pen­sar senão o óbvio — a fini­tude de nos­sas vidas.

O cida­dão medi­ano, aquele que vive sem ques­ti­o­nar as con­di­ções de sua exis­tên­cia, só con­se­gue fazer isso por ter eri­gido em torno de si uma mura­lha de repres­sões que o afas­tam de enxer­gar sua con­di­ção finita. Esse cida­dão mer­gu­lha agra­de­cido nas ocu­pa­ções do mundo (seu tra­ba­lho, sua famí­lia, seus com­pro­mis­sos, a troca do carro, a casa pró­pria, a ascen­são na car­reira pro­fis­si­o­nal) para esque­cer da per­cep­ção fun­da­men­tal da rea­li­dade de sua morte.

Mas a única segu­rança que o cida­dão medi­ano pos­sui é aquela que inventa e dra­ma­tiza para si mesmo, pro­cu­rando con­fir­ma­ção nos olhos de seus con­tem­po­râ­neos. A vida social é um tea­tro da legi­ti­ma­ção recí­proca, nos quais con­fir­ma­mos uns aos outros que as toli­ces e vai­da­des com que nos dis­traí­mos são sim impor­tan­tes.

Já que a prin­ci­pal fun­ção de cada cul­tura é retra­tar a jor­nada humana como heróica e capaz de trans­cen­der a morte, diz Bec­ker, cada civi­li­za­ção deve pro­vi­den­ciar aos seus mem­bros um sim­bo­lismo intrin­cado e dis­far­ça­da­mente reli­gi­oso. Surge, então, em toda soci­e­dade um pacto tácito entre seus mem­bros, no qual todos devem con­fir­mar e refor­çar a suposta infa­li­bi­li­dade da força trans­cen­dente (em geral, espi­ri­tual) em que a comu­ni­dade cons­trói sua deso­nes­ti­dade fun­da­men­tal a res­peito da natu­reza da rea­li­dade. 

socrates

A morte de Sócra­tes: con­de­nado por desa­fiar o pacto social pela deso­nes­ti­dade.

Temos então, soci­e­da­des dota­das de dis­po­si­ti­vos cul­tu­rais, reli­gi­o­sos e ide­o­ló­gi­cos que são aci­o­na­dos sem­pre que é neces­sá­rio refor­çar em cada indi­ví­duo a nega­ção de sua mor­ta­li­dade, o que pode ocor­rer por vezes de minuto a minuto. O impor­tante é man­ter todos sem­pre dis­traí­dos. E se Bec­ker tiver razão, pode­ría­mos nos per­gun­tar quais são os dis­po­si­ti­vos que a soci­e­dade moderna inven­tou: seria o con­su­mismo desen­fre­ado um dis­po­si­tivo? e os con­fli­tos ter­ri­to­ri­ais que arre­gi­men­tam nações, pode­riam ser dis­po­si­ti­vos de emer­gên­cia, quando todos os outros estão falhando?

Como é fácil con­cluir, esses dis­po­si­ti­vos aca­bam se tor­nando uma exce­lente forma de con­trole social. Assim, para Bec­ker, o medo da morte é algo que a soci­e­dade cria e ao mesmo tempo usa con­tra os indi­ví­duos para mantê-los sub­mis­sos. É que existe uma máxima na psi­co­lo­gia que os fatos com­pro­vam: aquilo que não reco­nhe­ce­mos em nossa pró­pria natu­reza e repri­mi­mos, per­ma­nece incons­ci­ente e nos torna sus­ce­tí­veis de ser­mos ilu­di­dos ou mani­pu­la­dos por outras pes­soas ou for­ças.

Seja o heroismo hollywo­o­di­ano que hip­no­tiza a civi­li­za­ção oci­den­tal, a devo­ção do guer­reiro jiha­dista do Islã ou a crença na pureza da raça ari­ana dos nazis, todos os con­fli­tos ide­o­ló­gi­cos entre cul­tu­ras são, essen­ci­al­mente, bata­lhas entre pro­je­tos de imor­ta­li­dade, expõe Bec­ker. Se Freud estava errado, e a mais forte pul­são humana não seria o desejo sexual, mas o medo da morte, então as popu­la­ções são muito mais facil­mente mani­pu­lá­veis quando alguém puxa as cor­das desse medo. Bem, cons­ta­ta­mos que isso é o que ocorre quando reli­giões e ide­o­lo­gias moti­vam popu­la­ções a decre­tar guerra con­tra outras popu­la­ções, matá-las ou escra­vizá-las: em nome do Deus de nos­sos pais, em nome da ide­o­lo­gia de nos­sos irmãos.

Em nossa sociedade, não é educado falar sobre a morte.

Em nossa soci­e­dade, não é edu­cado falar sobre a morte.

O livro de Bec­ker explica o meca­nismo em que nos tor­na­mos quase zum­bis, seres mano­brá­veis. Em uma soci­e­dade em que o fun­da­mento é a nega­ção da morte, como ensi­na­ría­mos nos­sas cri­an­ças a se liber­tar? Não parece haver muita chance. Nas­cida em uma cul­tura que esti­mula a covar­dia fun­da­men­tal diante da vida a cri­ança desde cedo cons­trói estra­té­gias e téc­ni­cas para pre­ser­var sua cons­ci­ên­cia da total com­pre­en­são da rea­li­dade (com­pre­en­são na qual se insere a per­cep­ção de sua mor­ta­li­dade). Essas téc­ni­cas tor­nam-se uma arma­dura que a envolve a medida em que cresce, sufo­cando seu pra­zer de viver. Quando a cri­ança se torna adulta, já se encon­tra total­mente apri­si­o­nada na sua pró­pria arma­dura, mani­pu­lá­vel como um fan­to­che. Eis o cida­dão medi­ano.

Por isso pes­soas com com­por­ta­mento des­vi­ante, com ati­tu­des que desa­fiam esse acordo tácito do homem medi­ano, são rejei­ta­das pela soci­e­dade. O gênio, o cri­mi­noso, o artista, o herege: não se trata só de alguém que desa­fia os cos­tu­mes de uma época, que ques­ti­ona a tra­di­ção moral, mas de alguém que, sem­pre sem que­rer, levanta o véu desse tea­tro cri­ado para todos se dis­trai­rem da rea­li­dade da morte. A manu­ten­ção do sta­tus quo é neces­sá­ria para a garan­tir a pre­ser­va­ção da tra­paça cole­tiva sem a qual não sabe­ría­mos como viver — e isso por­que nos­sos ante­pas­sa­dos sequer ten­ta­ram criar um cami­nho não de nega­ção, mas de cora­joso enfren­ta­mento daquela rea­li­dade. Somos depo­si­tá­rios de sua cul­tura aco­var­dada e fun­dada na igno­rân­cia. Tal­vez jamais tenham con­vi­da­dos os gênios e artis­tas para a reu­nião em que tra­ta­ría­mos da morte.

O MEDO DA VIDA

Lá pelo meio do livro de Ernest Bec­ker per­ce­be­mos que ele já não está mais falando ape­nas do medo da morte. A coisa é bem mais com­pli­cada: o que teme­mos é tam­bém a pró­pria vida tal como ela real­mente é. 

Essas duas coi­sas pare­cem indis­so­ciá­veis: negar a exis­tên­cia da morte e negar o espe­tá­culo mara­vi­lhoso que é estar vivo são exa­ta­mente a cara e coroa da mesma moeda. Você não pode ter um sem ter o outro. Por­tanto, para viver ple­na­mente, para­do­xal­mente pre­ci­sa­mos admi­tir a fata­li­dade da morte.

Bec­ker cita Otto Rank, psi­ca­na­lista que rapi­da­mente apar­tou-se de seu mes­tre Freud, falava do mys­te­rium tre­men­dum et fas­ci­no­sum (mis­té­rio ter­rí­vel e fas­ci­nante) que o pró­prio mundo é. O sim­ples­mente ato de você estar neste momento vivo, lei­tor, res­pi­rando enquanto lê essas pala­vras, cer­cado por todos os lados por um uni­verso des­co­mu­nal no qual você tran­sita mon­tado num pedaço insig­ni­fi­cante de rocha cha­mado Terra, é uma ideia sublime demais para ser assi­mi­lada pela mente sem que ela seja pos­suída por um tre­mendo espanto.

Por isso para Otto Rank toda cri­ança seria uma “covarde nata”: ao come­çar a cres­cer e tomar cons­ci­ên­cia do mundo que a cerca, ela não é capaz de tole­rar a gran­di­o­si­dade de tudo, do uni­verso ao seu redor, e por­tanto ela pre­cisa fechar sua mente para poder con­ti­nuar a lidar com as coi­sas de forma obje­tiva.

Que tenhamos uma relação mais saudável com nossa finitude.

Que tenha­mos uma rela­ção mais sau­dá­vel com nossa fini­tude.

O ser humano surge neste mundo e não sabe quem é, por­que existe, o que está fazendo neste pla­neta, o que a vida espera que ele faça e o que ele pode espe­rar da vida. Assim, nós emo­ci­o­nal­mente nos fecha­mos à gran­di­o­si­dade da vida por­que pre­ci­sa­mos nos movi­men­tar e sobre­vi­ver no mundo com algum tipo de obje­ti­vi­dade e fir­meza. Não pode­mos ficar con­ti­nu­a­mente com o cora­ção quase pulando da gar­ganta e os olhos arre­ga­la­dos diante de todas as mara­vi­lhas e ter­ro­res da exis­tên­cia, ainda mais em uma soci­e­dade que exige tra­ba­lha­do­res pro­du­ti­vos e con­su­mi­do­res ávi­dos.

Nova­mente, sur­gem dis­po­si­ti­vos soci­ais des­ti­na­dos a pro­pi­ciar uma expe­ri­ên­cia nar­co­ti­zante da rea­li­dade, uma expe­ri­ên­cia fil­trada em que todo o espe­tá­culo da vida fica do lado de fora da nossa per­cep­ção diá­ria. Não é sem motivo que a maior parte da edu­ca­ção infan­til con­siste em man­ter as cri­an­ças encai­xo­ta­das em salas de aula sem cor e sem vida, apren­dendo polinô­mios e equa­ções loga­ríi­ti­mas — não são os polinô­mios e equa­ções loga­ri­ti­mas que impor­tam, mas ades­trar a mente a não pen­sar na vida extra­or­di­ná­ria lá fora. A fil­tra­gem do mundo real começa desde cedo. Mais tarde, o tédio do tra­ba­lho e a rotina mas­si­fi­cante se encar­re­gam de man­ter os seres huma­nos nar­co­ti­za­dos como zum­bis em um coti­di­ano mor­ti­fi­cante. O tra­ba­lho está feito.

O melhor sím­bolo de como fun­ci­ona essa nega­ção da rea­li­dade são os labi­rin­tos. Nós cons­truí­mos o labi­rinto cheio de tri­lhas intrin­ca­das e cami­nhos sinu­o­sos, feito pelas con­ven­ções soci­ais, neu­ro­ses comu­ni­tá­rias e pre­o­cu­pa­ções coti­di­a­nas, pois assim pode­mos fal­sear a rea­li­dade diante de nos­sos olhos. Suas pare­des nos impe­dem de obser­var o con­tí­nuo mila­gre que é estar­mos vivo, nos afunda num coti­di­ano tedi­oso e nos soterra em neu­ro­ses. Cons­truí­mos um labi­rinto onde nenhum labi­rinto seria neces­sá­rio, pois a outra opção seria olhar para os lados e ver o hori­zonte mag­ní­fico que nos cerca, ou olhar para a frente e ver a morte nos aguar­dando.

Per­ce­be­mos, assim, que a nega­ção da morte tem, como coro­lá­rio, a nega­ção da pró­pria gran­di­o­si­dade da vida. Em algum momento, nossa soci­e­dade deci­diu seguir o con­se­lho des­cui­dado de Bal­zac: “a morte é ine­vi­tá­vel, por­tanto vamos esquecê-la”. E ao seguir­mos esse con­se­lho mer­gu­lha­mos em um mundo de ilu­sões e medi­o­cri­dade, des­per­di­çando nossa vida em coi­sas mes­qui­nhas, como se ela durar para sem­pre.

Um sonho, um exercício

Relendo tre­chos do livro A Nega­ção da Morte para escre­ver este ensaio é que tive aquele sonho com a mulher de ves­tido ama­relo e a caixa com mani­vela. Desde a semana pas­sada, quando come­cei a esbo­çar este texto, fui mer­gu­lhando pro­gres­si­va­mente no seguinte dilema, de impor­tân­cia fun­da­men­tal na teo­ria de Bec­ker:

Já que a ine­vi­ta­bi­li­dade da morte é uma ideia impos­sí­vel de acei­tar­mos total­mente, mas ao mesmo tempo sua nega­ção nos torna mani­pu­lá­veis, aco­var­da­dos e impos­si­bi­li­ta­dos de viver uma vida plena, como deve­mos agir?

Mas tal­vez um antro­pó­logo e aca­dê­mico como Bec­ker não nos baste para a res­posta. Ele viveu pro­te­gido entre os muros das uni­ver­si­da­des e só enfren­tou a ques­tão da morte real­mente ao fim de sua vida. Muita teo­ria, mas pouca prá­tica sobre o assunto.

Tal­vez seja reco­men­dá­vel incluir nessa con­versa homens nem um pouco teó­ri­cos,  cujo ofí­cio era matar e expor-se a morte todos os dias, com pro­fis­si­o­na­lismo. Como eles lida­vam com a ideia da morte?

A tra­di­ção diz que os samu­rais deve­riam, todos os dias ao acor­dar, lem­brar que aquele podia ser o dia em que mor­re­riam. Na obra Haga­kure, cha­mada O Livro do Samu­rai, Yama­moto Tsu­ne­tomo acon­se­lha que a medi­ta­ção sobre a ine­vi­ta­bi­li­dade da morte seja feita todos os dias por um guer­reiro. Ele insiste demais em sua obra a res­peito disso, pois essa seria a única forma de viver inten­sa­mente e ver­da­dei­ra­mente, sem apego e sem dei­xar-se levar pelas vai­da­des do ego.

samurais

Os samu­rais são uma auto­ri­dade no assunto.

Isso parece depri­mente para um típico oci­den­tal. O cida­dão medi­ano de nossa soci­e­dade acha que pen­sar na pró­pria morte deixa a pes­soa depri­mida e des­mo­ti­vada de viver. Preso em sua pró­pria cul­tura, ele não enxerga além do seu umbigo, e não entende que numa outra cul­tura o ato de pen­sar na pró­pria morte é con­si­de­rado o segredo para viver­mos ple­na­mente.

Mas pro­po­nho um exer­cí­cio que per­mite demons­trar como dei­xar de negar a rea­li­dade da morte pode ser uma forma de ter­mos uma vida sig­ni­fi­ca­tiva e rea­li­zada. Feche os olhos e ima­gine que um anjo visita você esta noite. Ele é cor­dial, mas tem uma notí­cia séria e grave: sua vida aca­bou, esta é sua última noite sobre a terra, este foi seu último dia neste pla­neta. Sua morte che­gou.

Sinta isso como ver­dade e ima­gine como se sen­ti­ria se este fosse seu último momento de vida, e se per­gunte:

Você mor­rerá frus­tado por não ter feito as coi­sas que gos­ta­ria de fazer? Ou rea­li­zado, por ter dado o melhor por seus sonhos a cada momento?

Você mor­rerá arre­pen­dido, com remorso pelas mes­qui­nha­rias e dis­tra­ções nas quais per­deu tanto tempo? Ou satis­feito por ter sem­pre pri­o­ri­zado aquilo que real­mente importa?

Você mor­rerá ver­go­nhado pelas ape­que­na­do­ras mal­da­des que come­teu no seu coti­di­ano? Ou orgu­lhoso de ter sido cora­joso o sufi­ci­ente para viver cada ins­tante leve e de cora­ção aberto?

Você mor­rerá amar­gu­rado por não ter expres­sado a todos que ama o quanto os amas? Ou agra­de­cido por ter apro­vei­tado cada opor­tu­ni­dade que teve para ins­pirá-los e for­ta­lecê-los com seu amor?

Você cul­pado pelas peque­nas men­ti­ras que disse para os outros e a si mesmo? Ou feliz por ter expresso a auten­ti­ci­dade do seu cora­ção atra­vés de pala­vras públi­cas e pen­sa­men­tos ínti­mos? 

E se um anjo o visitasse hoje?

E se um anjo o visi­tasse hoje? Seu cora­ção esta­ria leve e cheio de amor?

Esse pequeno exer­cí­cio, um sim­ples con­tato com a mera ideia da morte, já é capaz de lan­çar uma luz total­mente dife­rente sobre nossa vida. As coi­sas assu­mem outra pro­por­ção, temos uma pequena ante­ci­pa­ção daquilo que pode­re­mos sen­tir na real hora de nossa morte, e isso serve para ava­liar nosso com­por­ta­mento e rea­jus­tas nos­sas pri­o­ri­da­des pes­so­ais. 

É nesse con­texto de com­pre­en­são que, pre­pa­rando este ensaio, fui dor­mir e tive aquele sonho, em que uma mulher ves­tida de ama­relo me entrega uma men­sa­gem escrita pela pró­pria Morte.

A mensagem 

No sonho, abri o papel e li duas pala­vras apa­ren­te­mente sim­ples, óbvia, mas de impli­ca­ções tre­men­das:

Respeitem-me.

Sei que parece uma men­sa­gem nada impac­tante, mas ape­sar de sua sin­ge­leza, ela é no fundo a res­posta àquela minha inda­ga­ção.

Na soci­e­dade moderna, não res­pei­ta­mos a morte, e faze­mos isso da pior maneira pos­sí­vel, pois a pior forma de fal­tar com o res­peito é igno­rar a exis­tên­cia de algo. Agi­mos no dia-a-dia como se a morte não exis­tisse. E, quando ela surge, sen­ti­mos um medo que deses­pera nos­sos sen­ti­dos.

Essa falta de res­peito com a morte é desas­tro­sas para nós mes­mos, pois ao evi­tar­mos pen­sar sobre ela tam­bém afas­ta­mos de nós as per­gun­tas mais impor­tan­tes que pre­ci­sa­mos fazer: quanto tempo temos para amar e ser­mos ama­dos? quanto tempo temos para arris­car nos­sos sonhos? sobra tempo para gas­tar­mos em peque­nas boba­gens, pre­o­cu­pa­ções e ódios mes­qui­nhos? esta­mos des­per­di­çando a vida, fin­gindo que ela vai durar pra sem­pre?

Então, para res­pei­tar a morte, deve­mos em pri­meiro lugar parar de fin­gir que ela não existe. Ao con­trá­rio, temos que ter sem­pre em mente a sua rea­li­dade, e usar isso como farol para guiar nos­sos pas­sos, de modo que faça­mos as melho­res esco­lhas pos­sí­veis e nos tor­ne­mos a melhor ver­são de nós mes­mos que con­se­gui­mos nos tor­nar, antes que seja tarde demais.

Quando nega­mos a morte, no fundo sen­ti­mos tanto medo que sacri­fi­ca­mos uma vida autên­tica por um simu­la­cro de vida exces­si­va­mente segura, tão segura que nos mata por den­tro. Pro­cu­rando pre­ser­var ao máximo nos­sas exis­tên­cias, per­de­mos a vida.

Mas o res­peito pela morte tem uma outra dimen­são, e aqui está um aspecto impor­tante da ques­tão. Dei­xar­mos de negar a exis­tên­cia da morte não sig­ni­fica parar­mos de temê-la, pois só um per­feito idi­ota não teme a morte.

Mas há uma enorme dife­rença entre temer e sen­tir medo.

Em O Sétimo Selo, o protagonista engana a Morte e salva uma família.

Em O Sétimo Selo, o pro­ta­go­nista engana a Morte e salva uma famí­lia.

O medo nos para­lisa, o medo nos deixa aco­var­da­dos, o medo nos enfra­quece e faz com que feche­mos os olhos. Já o temor inclui o res­peito, e não é a toa que os reli­gi­o­sos dizem que deve­mos “temer a Deus”, e não que deve­mos “ter medo de Deus”. O temor tem algo de reve­ren­cial, tem um aspecto de res­peito, de dig­ni­fi­ca­ção de algo pode­roso. O temor não para­lisa, o temor não nos impede de agir — ao con­trá­rio, faz com que nos­sas ações sejam ade­qua­das.

A morte, não nos dei­xe­mos enga­nar e sedu­zir, é nossa ini­miga. Mas, ridi­cu­la­mente, cre­mos que negando a sua exis­tên­cia ela irá dei­xar de estar pre­sente, agindo como cri­an­ças que acre­di­tam que as coi­sas do mundo todo desa­pa­re­cem quando elas fecham os olhos. Mas a morte não desa­pa­rece. Ela está sem­pre lá no futuro, um ini­migo pode­roso que um dia com­ba­te­re­mos de perto e que irá sim nos der­ro­tar. Essa der­rota, porém, não é motivo para que nos entre­gue­mos ao medo para­li­sante, ao medo que nos faz fugir da pró­pria vida. Essa der­rota é motivo para apren­der­mos a res­peitá-la e a com­batê-la com temor e dig­ni­dade, como se fôs­se­mos capaz de vencê-la sem negar sua exis­tên­cia.

Como alguém trans­cende a si mesmo, Bec­ker per­gunta, como alguém se abre a uma nova pos­si­bi­li­dade? Reco­nhe­cendo a ver­dade sobre sua con­di­ção, ele res­ponde, rejei­tando a men­tira que é ine­rente a sua per­so­na­li­dade, que­brando em seu espí­rito a pri­são dos con­di­ci­o­na­men­tos. 

Enca­rar a morte é o mesmo que enfren­tar a vida. Nosso res­peito pela rea­li­dade da morte reflete em nosso res­peito pela ple­ni­tude da vida. A qua­li­dade de nossa rela­ção com a ideia da morte reflete na qua­li­dade de nossa vida. Como o filó­sofo espa­nhol José Ortega y Gas­set disse, o homem lúcido é aquele que se liber­tou das ilu­sões sobre a rea­li­dade e olha a vida nos olhos, per­ce­bendo que tudo na vida é pro­ble­má­tico, e que ele está aban­do­nado com as pró­prias for­ças. E é a per­cep­ção e acei­ta­ção desse estado de aban­dono que o faz ter a força para cons­truir o pró­prio cami­nho.

Des­perto, o homem lúcido per­cebe que as cons­tru­ções cri­a­das pelas pes­soas ao seu redor são men­ti­ras, diz Bec­ker, são uma nega­ção da ver­dade — uma ver­dade que em geral revela a con­di­ção humana com mais ple­ni­tude do que a mai­o­ria dos homens expe­ri­menta. Mas aquele que se livrou das ilu­sões com­pre­ende que seu ver­da­deiro poder está na capa­ci­dade de criar. A pes­soa cri­a­tiva torna-se, então, na lite­ra­tura, na arte e na reli­gião, o medi­a­dor do ter­ror natu­ral e o indi­ca­dor de uma nova forma de triun­far sobre esse ter­ror. A pes­soa cri­a­tiva revela a escu­ri­dão da con­di­ção humana e fabrica uma nova trans­cen­dên­cia sim­bó­lica para superá-la. Essa tem sido a fun­ção cri­a­tiva dos des­vi­an­tes, dos sha­mans a Sha­kes­pe­are. 

Per­ce­be­mos então, o que sig­ni­fica res­pei­tar ver­da­dei­ra­mente a morte. É reco­nhe­cer que sua exis­tên­cia, mas não sen­tir medo dela ao ponto de nos fechar­mos para a pró­pria vida. É lem­brar que ela é ine­vi­tá­vel e usar essa lem­brança como medida dos nos­sos atos neste mundo. É temer a morte como um guer­reiro teme um ini­migo pode­roso que jamais ven­cerá: esse ini­migo será enfren­tado com o guer­reiro dando o seu melhor até o final da luta, não importa o resul­tado. É usar a cri­a­ti­vi­dade como arma, para for­jar o trans­cen­dente diante da morte, como um artista e mago que invoca um inter­me­diá­rio entre este mundo e um supe­rior.


 

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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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