Na madrugada do último domingo tive um sonho. Estava numa espécie de cidade grega, incrustada no mármore de uma falésia diante da praia. Nessa cidade quase vertical, com escadarias unindo locais que pareciam templos gregos, eu caminhava. Entrei em um dos templos. Não  me pergunte a razão, afinal era um sonho.

Lá dentro, uma mulher estava sentada diante de uma mesa com uma caixa ao centro. A caixa tinha uma manivela do lado esquerdo e uma fenda acima. A mulher usava um vestido amarelo e cabelos muito compridos. Mal me aproximei e ela explicou que, com aquela caixa, podia se comunicar com qualquer ser ou força do universo, que se expressaria de uma forma ou de outra por uma mensagem. Preveniu-me que a resposta podia não ser do meu agrado, embora sempre verdadeira, e eu deveria tomar muito cuidado na escolha de quem invocaria.

No sonho, cheguei a pensar em conversar com Deus, mas isso me pareceu de uma ousadia enorme. Shakespeare, para perguntar o segredo da escrita, seria cômico. Todo ser e força do universo? Que se foda. Decidi pedir por um recado da Morte.

A mulher, com feições impassivas diante do pedido, começou a girar a manivela, falando uma língua que eu não conhecia. Essas coisas de sonho. Da fenda começou a sair um papel branco. Ela parou de girar, dobrou o papel e me entregou.

Desdobrei o papel e li a mensagem da Morte. E percebi que naquela mensagem estava, como dizia Raul Seixas em uma música quase mística, o segredo da vida.

Este texto não foi inspirado nesse sonho. Ao contrário, o sonho nasceu do texto, digamos assim. É que na noite em que o tive eu estava escrevendo o esboço de um texto sobre um livro intrigante. Fiquei impressionado, é isso.

Em 1973, um sujeito escreveu um livro que o projetou do anonimato à súbita celebridade em pouco tempo. A obra tornou-se um instantâneo e aclamado sucesso de vendas. Em 1974, apenas um ano após sua publicação, ganhou o Prêmio Pulitzer. O curioso é que seu autor a escreveu pouco tempo antes de morrer, pois tinha câncer. O Pulitzer, inclusive, foi dado dois meses após seu falecimento. Trata-se de uma análise atenta e racional sobre uma experiência que ele antevia em seu futuro e que só podemos descrever como “enorme demais para ser compreendida”: a morte.

O título do livro é A Negação da Morte, e a proposta básica de seu autor, o antropólogo Ernest Becker, tinha a engenhosidade e eloquência das grandes verdades. Você nunca termina de ler esse livro sendo a mesma pessoa que era quando começou. Tenho uma amiga que não conseguiu ler até o fim porque passava mal. O bizarro é que ela passava mal com um livro muito pouco emocional e minuciosamente objetivo. Esse são os efeitos das grandes verdades. 

O Curioso Livro de Becker 

Em A Negação da Morte, Ernest Becker demonstra, utilizando dados históricos e registros de filósofos como Kierkegaard, polímatas como Ortega y Gasset e psicólogos como Otto Rank, que a força por trás de quase todas as neuroses humanas, assim como a força que molda os principais aspectos de qualquer cultura, religião e civilização é uma só: a tentativa humana de negar a realidade da morte.

Basta observar os animais. Eles parecem viver num estado de eterno presente. Porém, no passado remoto, a evolução garantiu a certo animal uma vantagem competitiva em relação aos outros na luta pela sobrevivência. Se tigre desenvolveu longos dentes, o bicho homem desenvolveu um neocortex cerebral avantajado, e disso surgiu uma consciência maior, com a qual ele podia criar armas e construir armadilhas para capturar suas presas. Não demorou para ser o fodão das savanas.

Só que esse hiperatrofiamento da consciência, se por um lado representava uma vantagem competitiva na luta do mundo selvagem, teve um efeito colateral indesejável. Diferente dos outros animais, já não vivemos no eterno presente. Se por um lado perceber o futuro nos permite planejar e prevenir ameaças, isso também nos faz entender que, assim como todos os outros animais, um dia também morreremos.

Essa percepção é intolerante, e o bicho homem só conseguiu prosseguir graças a uma estratégia em que negava sua futura morte. Na essência, Becker propõe que somos fundamentalmente desonestos com nós próprios acerca da verdadeira natureza da realidade pois assim não precisamos pensar na morte. E persistiremos nessa desonestidade ainda que seja recorrendo a uma força transcendente, como a fé numa religião ou o compromisso com uma ideologia. Tudo o que for necessário para esquecer de que iremos morrer é válido.

livro

Essa desonestidade é uma tática de sobrevivência, e ela funciona mais ou menos bem na maior parte do tempo. Porém, no fundo há sempre uma ansiedade básica em todo ser humano, inerente à consciência e originária de nossa percepção inicial da realidade.

Para Ernest Becker, essa é a essência da condição humana, o fundamento de toda nossa aventura aqui no planeta Terra: somos dotados de um cérebro capaz de conceber a eternidade, o infinito, mas estamos aprisionados em um corpo orgânico, frágil, sujeito a destruição por inúmeros acidentes – e, pior ainda, programado a decair e encontrar a morte, inexoravelmente.

A esse respeito, existe uma antiga lenda hebraica que conta que o motivo da revolta do anjo Lúcifer foi o fato de Deus, durante a criação de nosso mundo, e após ter dado vida a todos os outros animais, decidir criar uma criatura com uma curiosa característica: nesse animal, ele misturaria o mundo orgânico com uma centelha espiritual. Lúcifer e seus partidários teriam se revoltado, alarmados, pois achavam inadmissível que matéria e espírito se confundissem numa mesma criatura sem que isso resultassem em tragédia. Tal criatura, argumentava, não suportaria o peso dessa situação e seria um desastre ambulante, um erro cósmico. Deus, diante dessa afronta a sua vontade, expulsou Lúcifer e os outros anjos revoltados, sendo que a partir de então o objetivo do anjo caído seria demonstrar a Deus que estava certo, que nós somos mesmo criaturas destinadas ao desastre.

Essa lenda é uma interessante metáfora da condição humana retratada por Becker. O conflito entre as aspirações espirituais de nossa mente e a constatação dos limites de nossa organicidade. Trata-se de um dilema fundamental que, para o filósofo Kierkegaard, divide todo ser humano em dois: a mesma consciência capaz de conceber a eternidade é aquela capaz de projetar no futuro a sua morte. Temos uma mente capaz de sonhar com deuses e anjos, mas que depende do corpo de um animal para viver. 

O livro de A Negação da Morte foi tão impactante que até hoje um grupo de pesquisadores se dedica a comprovar, com base científica de natureza estatística, que Becker tinha razão. Os esforços bem-sucedidos desses pesquisadores foram registrados no documentário Flight From Death – The Quest for Immortality.

 

OS FANTOCHES DA SOCIEDADE ACOVARDADA

Segundo Becker, todas as nossas neuroses, os transtornos obsessivos, os fanatismos religiosos e políticos, nossos vícios, até a forma como nos enredamos em problemas mesquinhos – tudo isso seriam defesas psíquicas para não pensarmos detidamente naquilo que nos aguarda no futuro. Eis o motivo pelo qual é tão difícil sairmos de problemas e de relações doentias em nossas vidas, quando para quem observa do lado de fora parece que nada nos impede: se essas distrações que consomem nossa atenção acabarem, não teremos mais nada a pensar senão o óbvio – a finitude de nossas vidas.

O cidadão mediano, aquele que vive sem questionar as condições de sua existência, só consegue fazer isso por ter erigido em torno de si uma muralha de repressões que o afastam de enxergar sua condição finita. Esse cidadão mergulha agradecido nas ocupações do mundo (seu trabalho, sua família, seus compromissos, a troca do carro, a casa própria, a ascensão na carreira profissional) para esquecer da percepção fundamental da realidade de sua morte.

Mas a única segurança que o cidadão mediano possui é aquela que inventa e dramatiza para si mesmo, procurando confirmação nos olhos de seus contemporâneos. A vida social é um teatro da legitimação recíproca, nos quais confirmamos uns aos outros que as tolices e vaidades com que nos distraímos são sim importantes.

Já que a principal função de cada cultura é retratar a jornada humana como heróica e capaz de transcender a morte, diz Becker, cada civilização deve providenciar aos seus membros um simbolismo intrincado e disfarçadamente religioso. Surge, então, em toda sociedade um pacto tácito entre seus membros, no qual todos devem confirmar e reforçar a suposta infalibilidade da força transcendente (em geral, espiritual) em que a comunidade constrói sua desonestidade fundamental a respeito da natureza da realidade. 

socrates
A morte de Sócrates: condenado por desafiar o pacto social pela desonestidade.

Temos então, sociedades dotadas de dispositivos culturais, religiosos e ideológicos que são acionados sempre que é necessário reforçar em cada indivíduo a negação de sua mortalidade, o que pode ocorrer por vezes de minuto a minuto. O importante é manter todos sempre distraídos. E se Becker tiver razão, poderíamos nos perguntar quais são os dispositivos que a sociedade moderna inventou: seria o consumismo desenfreado um dispositivo? e os conflitos territoriais que arregimentam nações, poderiam ser dispositivos de emergência, quando todos os outros estão falhando?

Como é fácil concluir, esses dispositivos acabam se tornando uma excelente forma de controle social. Assim, para Becker, o medo da morte é algo que a sociedade cria e ao mesmo tempo usa contra os indivíduos para mantê-los submissos. É que existe uma máxima na psicologia que os fatos comprovam: aquilo que não reconhecemos em nossa própria natureza e reprimimos, permanece inconsciente e nos torna suscetíveis de sermos iludidos ou manipulados por outras pessoas ou forças.

Seja o heroismo hollywoodiano que hipnotiza a civilização ocidental, a devoção do guerreiro jihadista do Islã ou a crença na pureza da raça ariana dos nazis, todos os conflitos ideológicos entre culturas são, essencialmente, batalhas entre projetos de imortalidade, expõe Becker. Se Freud estava errado, e a mais forte pulsão humana não seria o desejo sexual, mas o medo da morte, então as populações são muito mais facilmente manipuláveis quando alguém puxa as cordas desse medo. Bem, constatamos que isso é o que ocorre quando religiões e ideologias motivam populações a decretar guerra contra outras populações, matá-las ou escravizá-las: em nome do Deus de nossos pais, em nome da ideologia de nossos irmãos.

Em nossa sociedade, não é educado falar sobre a morte.
Em nossa sociedade, não é educado falar sobre a morte.

O livro de Becker explica o mecanismo em que nos tornamos quase zumbis, seres manobráveis. Em uma sociedade em que o fundamento é a negação da morte, como ensinaríamos nossas crianças a se libertar? Não parece haver muita chance. Nascida em uma cultura que estimula a covardia fundamental diante da vida a criança desde cedo constrói estratégias e técnicas para preservar sua consciência da total compreensão da realidade (compreensão na qual se insere a percepção de sua mortalidade). Essas técnicas tornam-se uma armadura que a envolve a medida em que cresce, sufocando seu prazer de viver. Quando a criança se torna adulta, já se encontra totalmente aprisionada na sua própria armadura, manipulável como um fantoche. Eis o cidadão mediano.

Por isso pessoas com comportamento desviante, com atitudes que desafiam esse acordo tácito do homem mediano, são rejeitadas pela sociedade. O gênio, o criminoso, o artista, o herege: não se trata só de alguém que desafia os costumes de uma época, que questiona a tradição moral, mas de alguém que, sempre sem querer, levanta o véu desse teatro criado para todos se distrairem da realidade da morte. A manutenção do status quo é necessária para a garantir a preservação da trapaça coletiva sem a qual não saberíamos como viver – e isso porque nossos antepassados sequer tentaram criar um caminho não de negação, mas de corajoso enfrentamento daquela realidade. Somos depositários de sua cultura acovardada e fundada na ignorância. Talvez jamais tenham convidados os gênios e artistas para a reunião em que trataríamos da morte.

O MEDO DA VIDA

Lá pelo meio do livro de Ernest Becker percebemos que ele já não está mais falando apenas do medo da morte. A coisa é bem mais complicada: o que tememos é também a própria vida tal como ela realmente é. 

Essas duas coisas parecem indissociáveis: negar a existência da morte e negar o espetáculo maravilhoso que é estar vivo são exatamente a cara e coroa da mesma moeda. Você não pode ter um sem ter o outro. Portanto, para viver plenamente, paradoxalmente precisamos admitir a fatalidade da morte.

Becker cita Otto Rank, psicanalista que rapidamente apartou-se de seu mestre Freud, falava do mysterium tremendum et fascinosum (mistério terrível e fascinante) que o próprio mundo é. O simplesmente ato de você estar neste momento vivo, leitor, respirando enquanto lê essas palavras, cercado por todos os lados por um universo descomunal no qual você transita montado num pedaço insignificante de rocha chamado Terra, é uma ideia sublime demais para ser assimilada pela mente sem que ela seja possuída por um tremendo espanto.

Por isso para Otto Rank toda criança seria uma “covarde nata”: ao começar a crescer e tomar consciência do mundo que a cerca, ela não é capaz de tolerar a grandiosidade de tudo, do universo ao seu redor, e portanto ela precisa fechar sua mente para poder continuar a lidar com as coisas de forma objetiva.

Que tenhamos uma relação mais saudável com nossa finitude.
Que tenhamos uma relação mais saudável com nossa finitude.

O ser humano surge neste mundo e não sabe quem é, porque existe, o que está fazendo neste planeta, o que a vida espera que ele faça e o que ele pode esperar da vida. Assim, nós emocionalmente nos fechamos à grandiosidade da vida porque precisamos nos movimentar e sobreviver no mundo com algum tipo de objetividade e firmeza. Não podemos ficar continuamente com o coração quase pulando da garganta e os olhos arregalados diante de todas as maravilhas e terrores da existência, ainda mais em uma sociedade que exige trabalhadores produtivos e consumidores ávidos.

Novamente, surgem dispositivos sociais destinados a propiciar uma experiência narcotizante da realidade, uma experiência filtrada em que todo o espetáculo da vida fica do lado de fora da nossa percepção diária. Não é sem motivo que a maior parte da educação infantil consiste em manter as crianças encaixotadas em salas de aula sem cor e sem vida, aprendendo polinômios e equações logaríitimas – não são os polinômios e equações logaritimas que importam, mas adestrar a mente a não pensar na vida extraordinária lá fora. A filtragem do mundo real começa desde cedo. Mais tarde, o tédio do trabalho e a rotina massificante se encarregam de manter os seres humanos narcotizados como zumbis em um cotidiano mortificante. O trabalho está feito.

O melhor símbolo de como funciona essa negação da realidade são os labirintos. Nós construímos o labirinto cheio de trilhas intrincadas e caminhos sinuosos, feito pelas convenções sociais, neuroses comunitárias e preocupações cotidianas, pois assim podemos falsear a realidade diante de nossos olhos. Suas paredes nos impedem de observar o contínuo milagre que é estarmos vivo, nos afunda num cotidiano tedioso e nos soterra em neuroses. Construímos um labirinto onde nenhum labirinto seria necessário, pois a outra opção seria olhar para os lados e ver o horizonte magnífico que nos cerca, ou olhar para a frente e ver a morte nos aguardando.

Percebemos, assim, que a negação da morte tem, como corolário, a negação da própria grandiosidade da vida. Em algum momento, nossa sociedade decidiu seguir o conselho descuidado de Balzac: “a morte é inevitável, portanto vamos esquecê-la”. E ao seguirmos esse conselho mergulhamos em um mundo de ilusões e mediocridade, desperdiçando nossa vida em coisas mesquinhas, como se ela durar para sempre.

Um sonho, um exercício

Relendo trechos do livro A Negação da Morte para escrever este ensaio é que tive aquele sonho com a mulher de vestido amarelo e a caixa com manivela. Desde a semana passada, quando comecei a esboçar este texto, fui mergulhando progressivamente no seguinte dilema, de importância fundamental na teoria de Becker:

Já que a inevitabilidade da morte é uma ideia impossível de aceitarmos totalmente, mas ao mesmo tempo sua negação nos torna manipuláveis, acovardados e impossibilitados de viver uma vida plena, como devemos agir?

Mas talvez um antropólogo e acadêmico como Becker não nos baste para a resposta. Ele viveu protegido entre os muros das universidades e só enfrentou a questão da morte realmente ao fim de sua vida. Muita teoria, mas pouca prática sobre o assunto.

Talvez seja recomendável incluir nessa conversa homens nem um pouco teóricos,  cujo ofício era matar e expor-se a morte todos os dias, com profissionalismo. Como eles lidavam com a ideia da morte?

A tradição diz que os samurais deveriam, todos os dias ao acordar, lembrar que aquele podia ser o dia em que morreriam. Na obra Hagakure, chamada O Livro do Samurai, Yamamoto Tsunetomo aconselha que a meditação sobre a inevitabilidade da morte seja feita todos os dias por um guerreiro. Ele insiste demais em sua obra a respeito disso, pois essa seria a única forma de viver intensamente e verdadeiramente, sem apego e sem deixar-se levar pelas vaidades do ego.

samurais
Os samurais são uma autoridade no assunto.

Isso parece deprimente para um típico ocidental. O cidadão mediano de nossa sociedade acha que pensar na própria morte deixa a pessoa deprimida e desmotivada de viver. Preso em sua própria cultura, ele não enxerga além do seu umbigo, e não entende que numa outra cultura o ato de pensar na própria morte é considerado o segredo para vivermos plenamente.

Mas proponho um exercício que permite demonstrar como deixar de negar a realidade da morte pode ser uma forma de termos uma vida significativa e realizada. Feche os olhos e imagine que um anjo visita você esta noite. Ele é cordial, mas tem uma notícia séria e grave: sua vida acabou, esta é sua última noite sobre a terra, este foi seu último dia neste planeta. Sua morte chegou.

Sinta isso como verdade e imagine como se sentiria se este fosse seu último momento de vida, e se pergunte:

Você morrerá frustado por não ter feito as coisas que gostaria de fazer? Ou realizado, por ter dado o melhor por seus sonhos a cada momento?

Você morrerá arrependido, com remorso pelas mesquinharias e distrações nas quais perdeu tanto tempo? Ou satisfeito por ter sempre priorizado aquilo que realmente importa?

Você morrerá vergonhado pelas apequenadoras maldades que cometeu no seu cotidiano? Ou orgulhoso de ter sido corajoso o suficiente para viver cada instante leve e de coração aberto?

Você morrerá amargurado por não ter expressado a todos que ama o quanto os amas? Ou agradecido por ter aproveitado cada oportunidade que teve para inspirá-los e fortalecê-los com seu amor?

Você culpado pelas pequenas mentiras que disse para os outros e a si mesmo? Ou feliz por ter expresso a autenticidade do seu coração através de palavras públicas e pensamentos íntimos? 

E se um anjo o visitasse hoje?
E se um anjo o visitasse hoje? Seu coração estaria leve e cheio de amor?

Esse pequeno exercício, um simples contato com a mera ideia da morte, já é capaz de lançar uma luz totalmente diferente sobre nossa vida. As coisas assumem outra proporção, temos uma pequena antecipação daquilo que poderemos sentir na real hora de nossa morte, e isso serve para avaliar nosso comportamento e reajustas nossas prioridades pessoais. 

É nesse contexto de compreensão que, preparando este ensaio, fui dormir e tive aquele sonho, em que uma mulher vestida de amarelo me entrega uma mensagem escrita pela própria Morte.

A mensagem 

No sonho, abri o papel e li duas palavras aparentemente simples, óbvia, mas de implicações tremendas:

Respeitem-me.

Sei que parece uma mensagem nada impactante, mas apesar de sua singeleza, ela é no fundo a resposta àquela minha indagação.

Na sociedade moderna, não respeitamos a morte, e fazemos isso da pior maneira possível, pois a pior forma de faltar com o respeito é ignorar a existência de algo. Agimos no dia-a-dia como se a morte não existisse. E, quando ela surge, sentimos um medo que desespera nossos sentidos.

Essa falta de respeito com a morte é desastrosas para nós mesmos, pois ao evitarmos pensar sobre ela também afastamos de nós as perguntas mais importantes que precisamos fazer: quanto tempo temos para amar e sermos amados? quanto tempo temos para arriscar nossos sonhos? sobra tempo para gastarmos em pequenas bobagens, preocupações e ódios mesquinhos? estamos desperdiçando a vida, fingindo que ela vai durar pra sempre?

Então, para respeitar a morte, devemos em primeiro lugar parar de fingir que ela não existe. Ao contrário, temos que ter sempre em mente a sua realidade, e usar isso como farol para guiar nossos passos, de modo que façamos as melhores escolhas possíveis e nos tornemos a melhor versão de nós mesmos que conseguimos nos tornar, antes que seja tarde demais.

Quando negamos a morte, no fundo sentimos tanto medo que sacrificamos uma vida autêntica por um simulacro de vida excessivamente segura, tão segura que nos mata por dentro. Procurando preservar ao máximo nossas existências, perdemos a vida.

Mas o respeito pela morte tem uma outra dimensão, e aqui está um aspecto importante da questão. Deixarmos de negar a existência da morte não significa pararmos de temê-la, pois só um perfeito idiota não teme a morte.

Mas há uma enorme diferença entre temer e sentir medo.

Em O Sétimo Selo, o protagonista engana a Morte e salva uma família.
Em O Sétimo Selo, o protagonista engana a Morte e salva uma família.

O medo nos paralisa, o medo nos deixa acovardados, o medo nos enfraquece e faz com que fechemos os olhos. Já o temor inclui o respeito, e não é a toa que os religiosos dizem que devemos “temer a Deus”, e não que devemos “ter medo de Deus”. O temor tem algo de reverencial, tem um aspecto de respeito, de dignificação de algo poderoso. O temor não paralisa, o temor não nos impede de agir – ao contrário, faz com que nossas ações sejam adequadas.

A morte, não nos deixemos enganar e seduzir, é nossa inimiga. Mas, ridiculamente, cremos que negando a sua existência ela irá deixar de estar presente, agindo como crianças que acreditam que as coisas do mundo todo desaparecem quando elas fecham os olhos. Mas a morte não desaparece. Ela está sempre lá no futuro, um inimigo poderoso que um dia combateremos de perto e que irá sim nos derrotar. Essa derrota, porém, não é motivo para que nos entreguemos ao medo paralisante, ao medo que nos faz fugir da própria vida. Essa derrota é motivo para aprendermos a respeitá-la e a combatê-la com temor e dignidade, como se fôssemos capaz de vencê-la sem negar sua existência.

Como alguém transcende a si mesmo, Becker pergunta, como alguém se abre a uma nova possibilidade? Reconhecendo a verdade sobre sua condição, ele responde, rejeitando a mentira que é inerente a sua personalidade, quebrando em seu espírito a prisão dos condicionamentos. 

Encarar a morte é o mesmo que enfrentar a vida. Nosso respeito pela realidade da morte reflete em nosso respeito pela plenitude da vida. A qualidade de nossa relação com a ideia da morte reflete na qualidade de nossa vida. Como o filósofo espanhol José Ortega y Gasset disse, o homem lúcido é aquele que se libertou das ilusões sobre a realidade e olha a vida nos olhos, percebendo que tudo na vida é problemático, e que ele está abandonado com as próprias forças. E é a percepção e aceitação desse estado de abandono que o faz ter a força para construir o próprio caminho.

Desperto, o homem lúcido percebe que as construções criadas pelas pessoas ao seu redor são mentiras, diz Becker, são uma negação da verdade – uma verdade que em geral revela a condição humana com mais plenitude do que a maioria dos homens experimenta. Mas aquele que se livrou das ilusões compreende que seu verdadeiro poder está na capacidade de criar. A pessoa criativa torna-se, então, na literatura, na arte e na religião, o mediador do terror natural e o indicador de uma nova forma de triunfar sobre esse terror. A pessoa criativa revela a escuridão da condição humana e fabrica uma nova transcendência simbólica para superá-la. Essa tem sido a função criativa dos desviantes, dos shamans a Shakespeare. 

Percebemos então, o que significa respeitar verdadeiramente a morte. É reconhecer que sua existência, mas não sentir medo dela ao ponto de nos fecharmos para a própria vida. É lembrar que ela é inevitável e usar essa lembrança como medida dos nossos atos neste mundo. É temer a morte como um guerreiro teme um inimigo poderoso que jamais vencerá: esse inimigo será enfrentado com o guerreiro dando o seu melhor até o final da luta, não importa o resultado. É usar a criatividade como arma, para forjar o transcendente diante da morte, como um artista e mago que invoca um intermediário entre este mundo e um superior.


 

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escrito por:

Victor Lisboa