Recebi o convite para escrever para o site Ano Zero uns tempos atrás. Como não conhecia ainda o site, naturalmente, a primeira coisa que fiz foi ir lá, visitá-lo. Achei bastante interessante a divisão do site em três áreas e pensei comigo sobre a importância da inclusão destas três áreas nas nossas vidas.
 

Sobre o Tempo de Amor:

 
Você ama a sua vida? Ama o seu trabalho? Ama a si mesma? Quando falamos em amor, quase sempre pensamos em nosso “amor pelo filho/marido/companheiro(a)”. Dificilmente pensamos em “amor pela vida” e – aff! “amor próprio”.

De acordo com a psicologia budista, temos três sentimentos básicos: apego (“eu gosto”, “eu quero”), aversão (“eu não gosto”, “eu não quero”) e indiferença (“não estou nem aí”).

Geralmente, não percebemos que, sem amar a nós mesmos, não vamos conseguir amar verdadeiramente uma outra pessoa, o nosso trabalho ou a nossa própria vida.

E, mesmo que talvez cuidamos do nosso amor próprio, se não amamos a nossa vida, o amor que possamos sentir pelas outras pessoas ou atividades será contaminada por uma certa amargura causada pela indiferença ou desgosto (que seria tratado como aversão) pela vida.

Então, o que podemos fazer?

Que tal experimentar a prática de gratidão? É uma prática incrivelmente poderosa para transformar a vida.

Ao acordar de manhã, agradeça este novo dia. Ao tomar o seu banho, agradeça o seu corpo, a água. Ao comer, agradeça a todos os seres envolvidos na produção e transporte de seus alimentos. Ao ir para o trabalho, agradeça aos meios de transporte, às ruas, aos outros motoristas – até àquele que te dá uma fechada, te dando uma oportunidade para treinar a paciência e compaixão.

Mas será que faz sentido agradecer ao motorista que te deu uma fechada? Não seria um tanto masoquista? Faz sentido sim, apesar de parecer um tanto contra-intuitivo – e não será masoquista se for feito corretamente.

Quer dizer, agradecer às dificuldades, agradecer os contra-tempos, agradecer aos problemas pode ser uma prática libertadora, abrindo um espaço na mente e no coração para enxergar a vida e os seus desafios de uma outra forma.

No Budismo, temos um ensinamento que nos orienta a enxergar todos os acontecimentos da vida como Portais do Darma* – como oportunidades de crescimento e aprendizagem. Também temos ensinamentos para enxergar todas as pessoas como manifestações de Kannon, a personificação da Compaixão – como alguém que está ali para nos ensinar alguma coisa. Às vezes, aquela pessoa que está na nossa frente está nos ensinando a compaixão ou amorosidade; outras vezes, está nos ensinando a ter firmeza na nossa colocação de limites. As situações e as pessoas sempre podem nos ensinar alguma coisa.

Então, para cultivar o Amor à Vida, vamos experimentar treinar o sentimento de gratidão, agradecendo todos os acontecimentos, todas as pessoas. Vamos agradecer o dia de chuva e o dia de Sol, agradecer o canto do pássaro e o som da decolagem do avião – enfim, agradecer simplesmente por agradecer.

Vamos viver um caso de amor com a Vida!


*Darma geralmente significa os ensinamentos budistas, mas também refere-se às Leis Universais

escrito por:

Monja Isshin