Um exemplo de como as bolhas ideológicas e o viés de confirmação têm impedido que se discutam certos temas com a mínima nuance está rolando aqui nos EUA, com referência aos argumentos de Mark Lilla sobre as eleições do ano passado. Vou tentar apresentar a pendenga com a maior quantidade de informação relevante.

O liberalismo e o progressismo se enfrentam hoje com uma tarefa, que é explicar a vitória de Trump. Como foi possível que um sujeito evidentemente mentiroso e despreparado, cheio de esqueletos no armário e sem o apoio do seu próprio partido, possa ter derrotado uma das candidatas mais experientes da história das eleições presidenciais, correligionária de um presidente que saía com 59% de aprovação?

A explicação dominante passa por alguma atribuição de causalidade ao racismo, o que coloca o cético em uma posição muito complicada: o racismo é realidade onipresente nos EUA – como o é em toda sociedade ex-escravocrata, claro, ele é onipresente no Brasil também – e fica difícil negar-lhe poder explicativo sem negar sua existência, mas é isso exatamente que deve ser feito.

Se é fato que Trump mobilizou um discurso racista, também é fato que a eleição foi decidida por eleitores que votaram em Obama em 2008, votaram em Obama em 2012, e em 2016 não ficaram com o Partido Democrata, pularam para Trump. Explicar esse movimento pelo racismo é patentemente absurdo. O voto declaradamente racista já tinha sido de McCain em 2008 e Romney 2012, mas não tinha sido suficiente.

Daí o progressismo pula de explicação e encontra no sexismo o motor do câmbio, o que no caso pareceria fazer mais sentido. É indiscutível que, na enorme taxa de reprovação de Hillary Clinton, a misoginia cumpre seu papel, especialmente no sentido de fazer mais raivosa uma rejeição que pode até estar fundamentada em projetos, práticas e posições políticas.

Mas, a não ser que voto dado com mais raiva valha por dois, força um pouco a barra explicar a eleição por aí, posto que ela foi decidida por um eleitorado em que Elizabeth Warren e Bernie Sanders são muito populares e Hillary e Bill Clinton muito impopulares. Quando você considera que esse eleitorado perdeu empregos por causa do NAFTA – obra dos Clinton –, faz muito mais sentido entender esse voto como um voto de classe. Há violenta misoginia no voto anti-Hillary, mas ela vem de eleitores que nunca votariam no candidato Democrata de qualquer forma, por ele(a) ser pró-escolha na questão do aborto. Não foi esse voto – o evangélico fundamentalista de Alabama ou o dono de armas em Montana, digamos – que decidiu a eleição. Foi trabalhador desempregado em Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia.

Daí entra Mark Lilla com uma grande heresia, um texto [nota do editor: este texto foi traduzido e publicado no AZ e pode ser lido aqui] que sugere que as políticas identitárias, ou a forma como a campanha de Hillary resolveu dar um tom identitário aos seus discursos – chamando grupo por grupo: mulheres, afro-americanos, LGBTs, latinos etc. –, cumpriram seu papel na alienação do voto que decidiu a eleição, o da classe trabalhadora branca, de homens e mulheres, das regiões industriais do meio-oeste (pra quem não sabe, Trump bateu Hillary quase 2 x 1 entre mulheres sem diploma).

E as reações a esse talvez certo, talvez errado argumento – mas certamente um argumento razoável – têm tomado a forma de surtos de indignados com muito pouca contra-argumentação. Chamam Lilla de David Brooks, de ultra-direita, até de neonazi. Discutir o ponto que é bom, necas. Este comentário no próprio New York Times, que começa dizendo que o argumento é “ofensivo para qualquer um que não seja homem branco cisgênero heterossexual” exemplifica o tipo de bolha ao qual Lilla atribui – parcialmente – a perda da eleição.

O texto de Lilla em nenhum momento nega que o racismo seja realidade onipresente vivida pelos negros, ou que as mulheres sejam discriminadas em local de trabalho, ou que falte muito para a plena cidadania de LBGTs, ou que o Black Lives Matter seja um movimento necessário. Ele apenas sugere que uma campanha para presidente que decide enfocar seu discurso nas pautas de identidade sem atender o grupo demográfico que decidiu, e tende a decidir, a eleição – a classe trabalhadora industrial – acabou alienando também a possibilidade de vitória. Emblema disso é a célebre cena em que uma apoiadora de Hillary, professora negra em Columbia, com um salário provavelmente de uns 200 mil dólares, palestra a um branco de Michigan, desempregado e ex-operário com salário de 35 mil dólares, para que ele “reveja seus privilégios”. Mais tiro no pé, impossível.

O progressismo insiste em tentar ganhar eleição com a coalizão minorias étnicas + liberais, homens e mulheres, de diplomas, das duas costas, e a matemática não fecha. O argumento certamente nada tem a ver com “Lila está culpando as minorias pela vitória de Trump”, mas é exatamente assim que o progressismo escolheu lê-lo – o progressismo branco, diga-se. Até agora não vi negros se incomodarem muito com o argumento, pelo contrário: até amigos e amigas do Black Lives Matter viram nele uma preocupação que tem sentido.

Perdi a conta de quantos colegas, professores universitários, postaram indignados com algum xingamento o texto de Lilla e, depois interpelados por mim, disseram que o faziam por automatismo, por terem sido “triggered” pelo argumento, ou pelo simples medo de desagradar. Mas que não tinham realmente contra-argumentos ao texto. Em todo caso, eu fico sempre, estou sempre, com quem tem coragem de pensar, mesmo que incomode. Pena que até gente que é paga pra isso esteja renunciando à parada.

Idelber Avelar
Leciono literatura,escrevo ensaios. Editei o Biscoito Fino http://idelberavelar.com . Torcedor do Galo e membro do MPII (Minorias com Projetos Ideológicos Irreais)
  • Helisa Kahanni

    adoro ler textos racionais como esse, esses sim nos levam a algum lugar.