(Esta é a tradução autorizada do artigo original, escrito por Mark Manson em seu site. Se você quer acompanhar os novos artigos em língua inglesa, clique aqui e assine a newsletter de Mark)


Isso é tudo o que tenho: um MacBook Pro, um iPad, um iPhone desbloqueado, sete camisetas, dois pares de jeans, duas jaquetas, um casaco, um suéter, dois pares de sapato, uma mala, uma mochila, algumas bermudas de ginástica, coisas de banheiro, meias e cuecas. Só isso. Tudo o que possuo pode ser facilmente empacotado em uma pequena mala e transportado dentro de 30 minutos. Não há nada que eu deseje e que já não possua. E isso apesar de ser proprietário de um negócio na internet com faturamento de seis dígitos.

Em Clube da Luta, Tyler Durden faz uma ousada declaração: “As coisas que você possui, acabam possuindo você”. Embora eu ache que isso é verdade, não serei um zelote aqui e não tentarei convencer você a jogar fora todas as suas coisas para viver numa montanha ou algo do gênero. Obviamente, você tem uma vida, uma casa (talvez uma família) e suas necessidades, e uma mudança radical de estilo de vida não possível para muitas pessoas. Estou em um novo país a cada três meses, controlo toda minha vida a partir do meu notebook e alugo apartamentos mobiliados onde quer que eu vá. Reconheço que isso não é um luxo típico.

Mas o que vou tentar lhe convencer é que você não precisa de tantas coisas quanto supõe, e que se livrar de algumas de suas posses pode ser surpreendentemente libertador, além de tornar você mais feliz.

Em 2007 eu estava sem grana após ter me formado. Para lidar com isso, vendi a maior parte das minhas posses e me mudei para o sofá de um amigo temporariamente. Naquela época, isso foi doloroso. Minha cama, minha mesa, um monte de livros e CDs, quadros e tudo o mais. Lembro de me sentir agonizando. Mas apesar da minha percepção de estar “vendendo tudo”, eu ainda assim me movi para o apartamento do meu amigo com duas grandes caixas de tranqueira, uma mala cheia de roupas, computador de mesa, cadeira de escritório, rack para TV (não pergunte) e outras coisas. Por seis meses vivi naquele sofá, com 75% do que eu possuía metido naquelas caixas, intocado.

No ano seguinte, com um negócio online ainda lutando para crescer, sem dinheiro e nenhum lugar para ir, mudei novamente e fui morar com minha mãe por um tempo. Já que transportar uma caixa cheia de coisas de Boston para Texas custaria 100 dólares naquele tempo, e isso era 100 dólares a mais do que eu podia gastar, eu me livrei de mais coisa ainda. No Craiglist, tudo se foi: adeus bicicleta, mochila, o conjunto de fichas de pôquer que ganhei em um campeonato, halteres, tapete de yoga, bola de basquete, Playstation 2 e games. Doeu. É engraçado agora, mas olhando em retrospectiva me senti realmente um fracasso porque estava vendendo todas as minhas posses para manter de pé meu negócio online. Como se fosse um gigante sacrifício. Com exceção de minhas roupas e mala, tudo o que mantive foi minha guitarra e uma pequena caixa de livros.

clubedaluta

Seis meses depois, comecei minha incursão no estilo de vida nômade que inspirou Tim Ferriss. Visitei o Brasil e me mudei para Buenos Aires. Levei uma grande mala comigo e havia passado horas dos dias que antecederam a viagem pensando em como caberia nela tudo o que eu “precisava” para os vindouros 3 a 6 meses. Que ferramentas levaria? Que casaco de chuva eu levaria? Suplementos alimentares, hardrives externos, par extra de tênis de corrida, ferro de passar e temperos: todas essas coisas me pareciam importantes.

Desnecessário dizer que não usei metade das coisas que levei para a Argentina, e desde então eu me livrei de todas as coisas que não precise usar com certa regularidade. Neste momento eu vivo com uma mala menor do que aquela que a maior parte das pessoas levaria numas viagem de quatro dias para a praia, mais uma pequena mochila para meu notebook. A maioria do que possuo é caro, mas foi comprado com o propósito de propiciar eficiência e utilidade, não para entretenimento, status ou capricho.

Isso pode soar um pouco radical para alguns de vocês. E é. Mas (e esse é um grande mas, e por isso vou colocar em itálico) a cada passo ao longo do caminho, livrar-me daquilo de que eu não preciso foi muito doloroso, mas em nenhum momento senti falta de coisa nenhuma depois ter me livrado dela. Nunca.

A única exceção foi minha guitarra, que deixei na casa da minha mãe porque não queria viajar com ela. Com exceção disso, sequer me lembro da maior parte das porcarias que eu possuía, e muito menos sinto falta delas. Sem puxar muito, muito pela memória, eu não conseguiria dizer o que estava pendurado na minha parede, qual era a cor do meu sofá, onde comprei minha televisão e que games eu tinha.

De fato, eu não só não sinto falta de nada daquilo de que me livrei, mas também a ideia de gastar dinheiro em mais daquelas mesmas posses ao invés de vivenciar experiências e relacionamentos com outros me parece absolutamente insano agora.

INVESTIMENTO NA IDENTIDADE E AVERSÃO A PERDA

Há dois fatores psicológicos envolvidos em possuir um monte de coisas e acho que ambos reduzem a qualidade de vida: investimento na identidade e aversão a perda.

Investimento na identidade é sobre o que trata Clube da Luta quando faz piada da necessidade de ter um monte de coisas legais, particularmente na cultura americana. Americanos são incrivelmente materialistas, frequentemente sem nem mesmo perceber isso. Um amigo meu recentemente me disse que quando ele era um jovem profissional gastava um tempo enorme arrumando seu apartamento para ser o lugar perfeito para receber pessoas – comprando o mobiliário certo para representar sua identidade, decorando e redecorando. A ironia é que ele colocou todo o seu tempo e esforço em tornar seu apartamento o lugar perfeito para receber pessoas ao invés de, você sabe, ir lá fora encontrar pessoas para trazer ao seu apartamento. Ele descreve esse período de sua vida como depressivo e miserável.

Esse tipo de investimento em identidade através de posses é empurrado para nós através da publicidade e funciona bem. Pessoas se tornam apegadas a companhias que fazem carros ou caminhonetes, a seus computadores, a suas roupas, a seus aparelhos, etc. Elas gastam meses economizando para comprar um item, gastam um monte de energia mental escolhendo que item as “representa” melhor, e assim se identificam como o “Cara da Ford”, ou o “Usuário do Mac” ou algo do gênero.

Não importa o quão pequeno, cada uma dessas posses se torna parte da identidade que você apresenta para os outros em sua vida. E se você aprendeu alguma coisa do que eu digo, é que investir sua identidade em fatores exteriores a você mesmo (interações sexuais, o que as pessoas pensam de você, quanto dinheiro você ganha, coisas que possui) não é saudável e reduz sua auto-estima.

identidade

O segundo fator, aversão à perda, é um triste fato da vida.

A psicologia mostrou que seres humanos sentem a dor de perder algo muito mais intensamente do que sentem o prazer de obter algo. Isso é verdade para tudo – relacionamentos, possessões, competições – e é algo inerente a nossa natureza. Isso vale para todos nós. Então aquele conjunto de fichas de pôquer que ganhei jurando que guardaria e que me deixou arrasado ao ter de passar adiante é, na verdade, algo sobre o qual eu não pensei mais e nem senti falta após descartar.

Aversão à perda nos motiva a gastar mais energia mantendo as coisas que já temos do que o prazer de as possuir justifica. Para pensar em termos numéricos, uma coisa pode nos dar 5 pontos de prazer, mas a aversão à perda produz 15 pontos de prazer se nós a perdemos. Então, ao invés de investirmos 5 pontos de esforço para manter tal coisa, investimos 15 pontos de esforço em algo que nos dá 5 pontos de prazer.

Essa é a maldição da aversão à perda. E esse é o benefício de ser apegado ao mínimo de coisas possível.

Estudos sobre a felicidade consistentemente apresentam um par de descobertas: 1) que nós obtemos muito mais felicidade das experiências do que das posses, e que 2) é melhor investir nossa energia em relacionamentos nas coisas que possuímos.

Livrar-se de posses desnecessárias pode, portanto, indiretamente melhorar sua qualidade de vida das seguintes formas:

1) Libera mais dinheiro e tempo para usar em vivências e relacionamentos.

2) Força você a investir em sua identidade mais através de seu comportamento e atitudes do que através dos objetos ao seu redor.

3) Remove o estresse da aversão à perda da tentativa de manter aquilo que já se possui.

4) Economiza dinheiro (sempre um redutor de estresse).

Tenho certeza de que um dia terei o meu imóvel e precisarei mobiliar um pequeno apartamento, mas quando voltar a ter posses permanentes, certamente não me envolverei com isso como costumava me envolver e da forma como a maior parte das pessoas se envolve.

DO QUE VOCÊ PODE SE LIVRAR HOJE?

Agora vem a parte divertida. Vamos falar sobre as bugigangas inúteis das quais você precisa se livrar hoje. Começarei com objetos mais fáceis de colocar no lixo e passarei aos mais difíceis.

1) 90% do que está no seu armário de armazenamento, garagem ou sótão. Essa é a parte fácil, a parte da limpeza de primavera. Aquelas velhas chuteiras que você nunca usará, a caixa de ferramentas enferrujada, a velha caixa de jogos de tabuleiro, a bomba de bicicleta para a bicicleta que você não tem mais, os velhos brinquedos de piscina, os pôsteres da época da faculdade, e por aí vai. Essas são as coisas que você deveria ter jogado fora há eras atrás se você não tivesse dito para si mesmo “bem, nunca se sabe” ou porque elas lhe trouxeram uma ou duas lembranças realmente boas. Olha, se você não usou uma coisa nos três últimos meses e não acha provável que vai usar nos próximos três meses, jogue fora. Nem pense a respeito. Não se remoa. Só jogue fora. Você não vai sentir falta. Eu prometo.

2) CDs. Estamos em 2015. Atualize-se e coloque todas as suas músicas no seu computador. Alguns anos atrás vendi minha coleção de CDs por quinhentos dólares. Isso pagou uma passagem de avião para o Panamá. Não é preciso ser um gênio.

3) Videogames. Cerca de metade dos meus leitores engasgaram quando leram isso. Sim, games são divertidos, e é legal queimar algumas calorias com eles de vez em quando. Mas a maioria dos homens, principalmente os mais jovens, jogam demais. Games não só massivos consumidores de tempo, mas são também um desperdício de dinheiro e assassinos de vida social. Pergunte a si mesmo: se você tivesse gasto com livros e socialização metade do tempo que desperdiçou jogando videogame nos últimos cinco anos, como sua vida estaria agora? Há uma chance de que você tenha engolido em seco assim que pensou a respeito. Se foi esse o caso, então é chegada a hora de colocar o seu Xbox e seu PS3 no Mercado Livre. Delete o Diablo 3 de seu hd. Vá viver.

4) Televisão. Sim, há alguns shows de TV bem legais, mas você pode assisti-loas em seu computador de graça sempre que quiser. Esqueça a televisão. Possuir uma tv apenas estimula você a ser sugado por um monte de porcaria inútil. Gosta de esportes? Vá olhar seu jogo predileto num bar. Assistir partidas com outras pessoas é dez vezes melhor, mesmo que sejam completos desconhecidos.

5) Livros. Sou um devorador de livros e amos o cheiro do papel tanto quanto qualquer um. Mas compre um Kindle ou iPad e comece a baixar seus livros. Isso me causou um bocado de dor e resisti por um longo tempo. Mas estou grato por ter feito isso.

6) Roupas. Tudo o que você precisa: 3 ou 4 camisas, 3 ou 4 camisetas, 2 pares de jeans, um par legal de calças, algumas bermudas, tênis de exercício, talvez um suéter, meias e roupas de baixo. É provável que você tenha mais do que isso, e também é provável que você não use mais do que isso. A maior parte das pessoas não usa 75% do que está em seu armário mais do que uma vez por mês. Porque não vender e simplificar as coisa? Ou melhor, doe essas roupas.

7) Móveis. Agora a coisa está ficando séria: aquela bela cadeira na qual você nunca se senta, a sala de jantar que você toca uma vez por ano, a estante que guardava os livros que você acaba de vender. Quando você se livra dos seus móveis desnecessários, é provável de que você ache que precisa de um apartamento ou casa com metade do tamanho do seu atual imóvel. Essa pode ser uma descoberta traumática para você, mas se puder lidar com isso, então poderá usar o dinheiro que ganha agora para viver em um lugar menor e mais bem localizado. Lembre-se, vivências trazem felicidade, e não posses. Então o que fará você viver melhor, o futon que vovó deu a você como presente de formatura ou viver numa rua próxima a sua casa de shows favorita?

8) Carro. E se você vive numa localização melhor, e vive numa cidade com bom transporte público, é provável que não precise mais de um carro. Eu não tenho carro faz 9 anos e penso que é improvável que vá ter um novamente. Meus amigos acham que sou louco, mas eles nunca viveram em uma cidade com transporte público de qualidade. Se você não possui muitas coisas, pode viver no melhor lugar da cidade e então usar ônibus ou metro para chegar onde precisa chegar. Não só isso é mais barato, mas conveniente e mais agradável, como também deixa uma pegada menor de produção de carbono. A única situação em que eu consideraria a possibilidade de desejar ter um carro novamente é se um dia eu acabar com quatro crianças e precisar levar e trazer essa turma das aulas de futebol. Mas vamos terminar esse artigo antes que eu comece a imaginar minha futura esposa dançarina com uma clareza excessiva.

escrito por:

Mark Manson

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