derrota

Meu candidato perdeu. E agora?

Em Consciência, Política por Douglas DoninComentário

(NOTA: o texto a seguir foi escrito antes do resul­tado das elei­ções pre­si­den­ci­ais, e não é diri­gido a nenhum can­di­dato ou par­tido em espe­cí­fico.)


Uma das lições que a matu­ri­dade nos força a apren­der é que não se pode ter tudo a toda hora. Uma hora é neces­sá­rio ceder, para que os outros tam­bém tenham sua vez. Nes­tas elei­ções, tal­vez você tenha a sorte de ter elei­tos todos os seus can­di­da­tos esco­lhi­dos mas, a jul­gar pelos núme­ros, é bem pro­vá­vel que em pelo menos um dos plei­tos você tenha ficado do lado der­ro­tado.

É dolo­roso? Cer­ta­mente. Mas é uma chance para refle­tir, rea­va­liar posi­ções e, prin­ci­pal­mente, defen­der e soli­di­fi­car a demo­cra­cia. Pas­sa­mos por um des­tes momen­tos de divi­são neste domingo, onde pre­si­dente e gover­na­do­res foram esco­lhi­dos. Os pró­xi­mos dias, de festa, tris­teza ou per­ple­xi­dade, podem tra­zer tris­teza a quem viu algum can­di­dato seu ser der­ro­tado. Por isso ela­bo­ra­mos este pequeno guia de socorro, em cinco sim­ples pas­sos, para ten­tar paci­fi­car a alma mais inqui­eta. Tal­vez você esteja deso­lado, incon­so­lá­vel, tal­vez você esteja ape­nas desa­gra­dado ou sem espe­ran­ças. Tal­vez você esteja ques­ti­o­nando a pró­pria demo­cra­cia. Seja como for, quem sabe parar um pouco, res­pi­rar e ava­liar os cinco pas­sos a seguir não aju­dam a reco­lo­car a cabeça ou o cora­ção no lugar?

1° Passo: aceite a realidade.

Vamos come­çar com o básico: pare de se belis­car, acon­te­ceu e pronto. Não há fraude elei­to­ral. Não há uma grande cons­pi­ra­ção do mal. Não há mani­pu­la­ção da mídia, não há hac­king das urnas. O povo votou, deu sua opi­nião e uma deci­são foi tomada. Quanto mais cedo você colo­car isso na cabeça, mais cedo poderá seguir em frente.

Nosso pro­cesso elei­to­ral é seguro, absur­da­mente fis­ca­li­zado por órgãos de con­trole, obser­va­do­res exter­nos e inter­nos, imprensa e pela pró­pria popu­la­ção, que par­ti­cipa do ser­viço elei­to­ral com sur­pre­en­dente espí­rito cívico. Ape­sar de ser pos­sí­vel hac­kear uma urna, tendo acesso físico a ela (é pos­sí­vel hac­kear qual­quer coisa tendo acesso físico), elas não são liga­das em rede. Não há como alguém, de longe, inter­fe­rir no resul­tado.

aceite

Pode ter ocor­rido com­pra de votos? Pode, cer­ta­mente. Aliás, seria pouco razoá­vel supor que NÃO houve com­pra de votos, boca-de-urna ou qual­quer outra vio­la­ção da lei elei­to­ral em algum lugar. Mas estes são fenô­me­nos que, pela imensa quan­ti­dade de fis­ca­li­za­ção, só podem ser rea­li­za­dos de forma pon­tual, em minús­cula escala, e são inca­pa­zes de deci­dir o pleito. Além disso, aban­do­nando-se visões mani­queís­tas, onde ape­nas um lado tra­pa­ceia, o razoá­vel é acre­di­tar que estas peque­nas ano­ma­lias devem ter bene­fi­ci­ado os can­di­da­tos em igual medida, e de maneira igual­mente irre­le­vante.

Então pare de fazer cir­cu­lar teo­rias cons­pi­ra­tó­rias mira­bo­lan­tes, que cer­ta­mente sur­gi­rão. Repas­sando-as você só está demons­trando que tem pro­ble­mas em acei­tar a rea­li­dade dos fatos.

2° Passo: tire imediatamente da cabeça a tentação do autoritarismo

Mas não basta acei­tar a rea­li­dade: mesmo tendo total acei­ta­ção do fato de que sim, as pes­soas foram lá e esco­lhe­ram outro can­di­dato, den­tro da regra do jogo, exis­tem alguns demo­ni­o­zi­nhos que podem come­çar a soprar solu­ções fáceis nos ouvi­dos dos mais incon­so­lá­veis. Estes peque­nos dia­bi­nhos falam de diver­sas for­mas, mas suas suges­tões podem ser resu­mi­das em uma mali­ci­osa afir­ma­ção: “ei, os outros foram lá e esco­lhe­ram, real­mente, den­tro da regra do jogo… mas você não é obri­gado a res­pei­tar o jogo”.

Olhando o tabu­leiro de um modo que não que­rem, pes­soas come­ça­rão a que­rer der­ru­bar a mesa. Alguns fala­rão em inter­ven­ção mili­tar, alguns fala­rão que “demo­cra­cia não se faz nas urnas”, alguns irão pro­por seces­são. Isso é certo. A pre­ci­o­si­dade da demo­cra­cia não é ainda clara para algu­mas pes­soas.

militar

Se alguém está falando que a força é a melhor solu­ção, seja a força mili­tar ou a bru­ta­li­dade das ruas, é uma boa chance de ilu­mi­nar esta pes­soa com alguns pen­sa­men­tos que ela tal­vez ainda não teve: pri­meiro, quando se ini­cia o uso da força, aban­dona-se qual­quer garan­tia: força é lote­ria. Se um dos lados aca­bou de demons­trar ser mino­ria numé­rica, o que o faria acre­di­tar que não seria der­ro­tado tam­bém no uso da força? E mais: o que o faria acre­di­tar que, uma vez sus­pen­sas as regras, o resul­tado do con­flito seria res­pei­tado?

Por uma razão pro­fi­lá­tica, de higi­ene polí­tica, temos o dever de aba­far tais ten­ta­ti­vas de des­trui­ção do jogo demo­crá­tico. Ele gera insa­tis­fa­ções? Com cer­teza. Mas é o que temos de mais pre­ci­oso.

3° Passo: analise as causas da derrota

causas

Tal­vez a mai­o­ria das pes­soas, com maior faci­li­dade de acei­tar a demo­cra­cia e seus per­cal­ços, comece por aqui. Tal­vez você tenha que ter pas­sado pelos pas­sos ante­ri­o­res. De qual­quer forma, aqui todos já colo­ca­ram a cabeça no lugar, acei­ta­ram o pas­sado, e come­çam a olhar para o futuro.

O adver­sá­rio não ven­ceu por acaso. Não foi uma sim­ples moeda jogada para o alto que deci­diu a elei­ção: o adver­sá­rio ven­ceu por mérito, que, na demo­cra­cia, sig­ni­fica capa­ci­dade de iden­ti­fi­car deman­das popu­la­res e apre­sen­tar pro­pos­tas que satis­fa­çam as pes­soas. Se um dos lados ven­ceu, é por­que defi­ni­ti­va­mente foi melhor nisso. Será que a sua posi­ção não pode­ria apren­der com o ven­ce­dor?


Iden­ti­fi­que o que fal­tou no seu can­di­dato, o dife­ren­cial que o adver­sá­rio teve, e tente ver se não há como pro­por um pro­jeto mais amplo da pró­xima vez. Ideias popu­la­res, na polí­tica, não devem ter patente ou marca regis­trada: devem se espa­lhar. Os par­ti­dos aju­dam a qua­li­fi­car a polí­tica quando come­çam a se diri­gir a todo o público, não a somente empi­lhar uma mon­ta­nha de elei­to­res com inte­res­ses seto­ri­ais para ficar mais alta do que a mon­ta­nha do par­tido adver­sá­rio. Ajude o seu par­tido a encon­trar este dis­curso mais amplo.

4° Passo: ajude

Exis­tem duas manei­ras de ven­cer a pró­xima elei­ção: sendo melhor que seu adver­sá­rio, ou for­çando-o a ser pior. A dife­rença é que em um des­tes meios toda a popu­la­ção se bene­fi­cia, no outro, todos saem pre­ju­di­ca­dos.

Eli­mine do seu cora­ção a pos­tura egoísta de fazer opo­si­ção rai­vosa, incon­di­ci­o­nal. Isso não ajuda nin­guém. Não fique con­tra bons pro­je­tos, para que o adver­sá­rio não leve o mérito. Não sabote. Não cruze os bra­ços. Ajude quando sua ajuda for soli­ci­tada, e aplauda o que merece aplauso. E, enquanto isso, tra­ba­lhe em uma opo­si­ção honesta, sólida e coe­rente.ajude

A impor­tân­cia da opo­si­ção em um país demo­crá­tico é fun­da­men­tal: sem opo­si­ção não se man­tém uma linha cen­tral, com pre­do­mí­nio des­ba­lan­ce­ado de ape­nas um dos lados da soci­e­dade. Mas a opo­si­ção rai­vosa não ajuda em nada: ela não equi­li­bra coisa alguma, ape­nas trans­fere mais força ao lado mais intran­si­gente da soci­e­dade. Como ela fre­quen­te­mente é com­ba­tida, por sua vez, com mais intran­si­gên­cia, ape­nas ajuda as coi­sas a caí­rem em uma espi­ral de irra­ci­o­na­li­dade.

A opo­si­ção rai­vosa é sin­toma de que a demo­cra­cia não está sendo bem enten­dida: está se tomando o jogo demo­crá­tico como algo mera­mente for­mal, uma mera briga pelo poder. Demo­cra­cia não serve só para deci­dir quem terá o poder: serve para deci­dir qual dos pro­je­tos será o colo­cado em prá­tica para pro­mo­ver o bem-estar de todos. E nisso todos, situ­a­ção ou opo­si­ção, devem se focar.

5° Passo: esteja pronto para começar de novo, caso tudo dê errado mais uma vez

Nada garante, no entanto, que no pró­ximo pleito você tam­bém seja der­ro­tado em uma ou outra esco­lha. Aliás, dados os vários car­gos em jogo, é extre­ma­mente impro­vá­vel que você esco­lha todos os ven­ce­do­res com exa­ti­dão.

Neste momento você reforça seu com­pro­misso com a demo­cra­cia mais uma vez. A demo­cra­cia é um pro­jeto con­tí­nuo, de longo prazo. O seu papel nela não é ganhar algum dia, mas par­ti­ci­par sem­pre, sendo o ven­ce­dor ou o ven­cido. Não é um monó­logo, mas um diá­logo, que pre­cisa sem­pre da sua voz.

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Há polí­ti­cos impor­tan­tís­si­mos e muito influ­en­tes no Bra­sil nunca ganha­ram uma elei­ção de grande porte. Mas eles esta­vam lá, sem­pre, usando a opor­tu­ni­dade única, que só a demo­cra­cia pro­por­ci­ona, de dar voz às mino­rias. Acos­tume-se a par­ti­ci­par, a com­ba­ter na arena demo­crá­tica de forma sadia e legí­tima. A real demo­cra­cia é o diá­logo entre as for­ças, não a vitó­ria de uma sobre a outra.

Se ama­du­re­cer envolve real­mente apren­der a ceder, res­pei­tar e reco­nhe­cer, então a demo­cra­cia con­firma que é o mais maduro dos sis­te­mas polí­ti­cos. Disso surge uma con­clu­são ime­di­ata: os povos se mos­tram mais madu­ros à medida em que reco­nhe­cem com maior sere­ni­dade o pro­cesso demo­crá­tico, e que o mais maduro cida­dão é o que con­vive com a von­tade dos demais em tem­pos de vitó­ria ou der­rota.



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Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".

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