(NOTA: o texto a seguir foi escrito antes do resultado das eleições presidenciais, e não é dirigido a nenhum candidato ou partido em específico.)


Uma das lições que a maturidade nos força a aprender é que não se pode ter tudo a toda hora. Uma hora é necessário ceder, para que os outros também tenham sua vez. Nestas eleições, talvez você tenha a sorte de ter eleitos todos os seus candidatos escolhidos mas, a julgar pelos números, é bem provável que em pelo menos um dos pleitos você tenha ficado do lado derrotado.

É doloroso? Certamente. Mas é uma chance para refletir, reavaliar posições e, principalmente, defender e solidificar a democracia. Passamos por um destes momentos de divisão neste domingo, onde presidente e governadores foram escolhidos. Os próximos dias, de festa, tristeza ou perplexidade, podem trazer tristeza a quem viu algum candidato seu ser derrotado. Por isso elaboramos este pequeno guia de socorro, em cinco simples passos, para tentar pacificar a alma mais inquieta. Talvez você esteja desolado, inconsolável, talvez você esteja apenas desagradado ou sem esperanças. Talvez você esteja questionando a própria democracia. Seja como for, quem sabe parar um pouco, respirar e avaliar os cinco passos a seguir não ajudam a recolocar a cabeça ou o coração no lugar?

1° Passo: aceite a realidade.

Vamos começar com o básico: pare de se beliscar, aconteceu e pronto. Não há fraude eleitoral. Não há uma grande conspiração do mal. Não há manipulação da mídia, não há hacking das urnas. O povo votou, deu sua opinião e uma decisão foi tomada. Quanto mais cedo você colocar isso na cabeça, mais cedo poderá seguir em frente.

Nosso processo eleitoral é seguro, absurdamente fiscalizado por órgãos de controle, observadores externos e internos, imprensa e pela própria população, que participa do serviço eleitoral com surpreendente espírito cívico. Apesar de ser possível hackear uma urna, tendo acesso físico a ela (é possível hackear qualquer coisa tendo acesso físico), elas não são ligadas em rede. Não há como alguém, de longe, interferir no resultado.

aceite

Pode ter ocorrido compra de votos? Pode, certamente. Aliás, seria pouco razoável supor que NÃO houve compra de votos, boca-de-urna ou qualquer outra violação da lei eleitoral em algum lugar. Mas estes são fenômenos que, pela imensa quantidade de fiscalização, só podem ser realizados de forma pontual, em minúscula escala, e são incapazes de decidir o pleito. Além disso, abandonando-se visões maniqueístas, onde apenas um lado trapaceia, o razoável é acreditar que estas pequenas anomalias devem ter beneficiado os candidatos em igual medida, e de maneira igualmente irrelevante.

Então pare de fazer circular teorias conspiratórias mirabolantes, que certamente surgirão. Repassando-as você só está demonstrando que tem problemas em aceitar a realidade dos fatos.

2° Passo: tire imediatamente da cabeça a tentação do autoritarismo

Mas não basta aceitar a realidade: mesmo tendo total aceitação do fato de que sim, as pessoas foram lá e escolheram outro candidato, dentro da regra do jogo, existem alguns demoniozinhos que podem começar a soprar soluções fáceis nos ouvidos dos mais inconsoláveis. Estes pequenos diabinhos falam de diversas formas, mas suas sugestões podem ser resumidas em uma maliciosa afirmação: “ei, os outros foram lá e escolheram, realmente, dentro da regra do jogo… mas você não é obrigado a respeitar o jogo”.

Olhando o tabuleiro de um modo que não querem, pessoas começarão a querer derrubar a mesa. Alguns falarão em intervenção militar, alguns falarão que “democracia não se faz nas urnas”, alguns irão propor secessão. Isso é certo. A preciosidade da democracia não é ainda clara para algumas pessoas.

militar

Se alguém está falando que a força é a melhor solução, seja a força militar ou a brutalidade das ruas, é uma boa chance de iluminar esta pessoa com alguns pensamentos que ela talvez ainda não teve: primeiro, quando se inicia o uso da força, abandona-se qualquer garantia: força é loteria. Se um dos lados acabou de demonstrar ser minoria numérica, o que o faria acreditar que não seria derrotado também no uso da força? E mais: o que o faria acreditar que, uma vez suspensas as regras, o resultado do conflito seria respeitado?

Por uma razão profilática, de higiene política, temos o dever de abafar tais tentativas de destruição do jogo democrático. Ele gera insatisfações? Com certeza. Mas é o que temos de mais precioso.

3° Passo: analise as causas da derrota

causas

Talvez a maioria das pessoas, com maior facilidade de aceitar a democracia e seus percalços, comece por aqui. Talvez você tenha que ter passado pelos passos anteriores. De qualquer forma, aqui todos já colocaram a cabeça no lugar, aceitaram o passado, e começam a olhar para o futuro.

O adversário não venceu por acaso. Não foi uma simples moeda jogada para o alto que decidiu a eleição: o adversário venceu por mérito, que, na democracia, significa capacidade de identificar demandas populares e apresentar propostas que satisfaçam as pessoas. Se um dos lados venceu, é porque definitivamente foi melhor nisso. Será que a sua posição não poderia aprender com o vencedor?


Identifique o que faltou no seu candidato, o diferencial que o adversário teve, e tente ver se não há como propor um projeto mais amplo da próxima vez. Ideias populares, na política, não devem ter patente ou marca registrada: devem se espalhar. Os partidos ajudam a qualificar a política quando começam a se dirigir a todo o público, não a somente empilhar uma montanha de eleitores com interesses setoriais para ficar mais alta do que a montanha do partido adversário. Ajude o seu partido a encontrar este discurso mais amplo.

4° Passo: ajude

Existem duas maneiras de vencer a próxima eleição: sendo melhor que seu adversário, ou forçando-o a ser pior. A diferença é que em um destes meios toda a população se beneficia, no outro, todos saem prejudicados.

Elimine do seu coração a postura egoísta de fazer oposição raivosa, incondicional. Isso não ajuda ninguém. Não fique contra bons projetos, para que o adversário não leve o mérito. Não sabote. Não cruze os braços. Ajude quando sua ajuda for solicitada, e aplauda o que merece aplauso. E, enquanto isso, trabalhe em uma oposição honesta, sólida e coerente.ajude

A importância da oposição em um país democrático é fundamental: sem oposição não se mantém uma linha central, com predomínio desbalanceado de apenas um dos lados da sociedade. Mas a oposição raivosa não ajuda em nada: ela não equilibra coisa alguma, apenas transfere mais força ao lado mais intransigente da sociedade. Como ela frequentemente é combatida, por sua vez, com mais intransigência, apenas ajuda as coisas a caírem em uma espiral de irracionalidade.

A oposição raivosa é sintoma de que a democracia não está sendo bem entendida: está se tomando o jogo democrático como algo meramente formal, uma mera briga pelo poder. Democracia não serve só para decidir quem terá o poder: serve para decidir qual dos projetos será o colocado em prática para promover o bem-estar de todos. E nisso todos, situação ou oposição, devem se focar.

5° Passo: esteja pronto para começar de novo, caso tudo dê errado mais uma vez

Nada garante, no entanto, que no próximo pleito você também seja derrotado em uma ou outra escolha. Aliás, dados os vários cargos em jogo, é extremamente improvável que você escolha todos os vencedores com exatidão.

Neste momento você reforça seu compromisso com a democracia mais uma vez. A democracia é um projeto contínuo, de longo prazo. O seu papel nela não é ganhar algum dia, mas participar sempre, sendo o vencedor ou o vencido. Não é um monólogo, mas um diálogo, que precisa sempre da sua voz.

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Há políticos importantíssimos e muito influentes no Brasil nunca ganharam uma eleição de grande porte. Mas eles estavam lá, sempre, usando a oportunidade única, que só a democracia proporciona, de dar voz às minorias. Acostume-se a participar, a combater na arena democrática de forma sadia e legítima. A real democracia é o diálogo entre as forças, não a vitória de uma sobre a outra.

Se amadurecer envolve realmente aprender a ceder, respeitar e reconhecer, então a democracia confirma que é o mais maduro dos sistemas políticos. Disso surge uma conclusão imediata: os povos se mostram mais maduros à medida em que reconhecem com maior serenidade o processo democrático, e que o mais maduro cidadão é o que convive com a vontade dos demais em tempos de vitória ou derrota.



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escrito por:

Douglas Donin

Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site “Duvido”.


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