capacriancaaz

Menino Ano Zero

Em Comportamento, Consciência por Victor LisboaComentário

Quando o músico Zia Has­san tocou a cam­pai­nha da casa, não pre­ten­dia entrar. Ele estava naquela casa ape­nas para ver sua noiva, que tra­ba­lhava como babá. Como ela não podia sair e os pais das cri­an­ças esta­vam atra­sa­dos, ele deci­diu pas­sar ali ape­nas para dar um “oi”. Mas quando abriu a porta, sua noiva disse: “Deixe que eu te apre­sente as cri­an­ças!”. Eram três, as mais novas com 2 e 7 anos. Mas a figura mais curi­osa estava ajo­e­lhada no pátio da casa, des­calço e cer­cado de for­mi­gas: o filho mais velho, com nove anos (os pais, que auto­ri­za­ram a publi­ca­ção do vídeo, deci­di­ram não expor o nome da cri­ança).

A namo­rada de Zia, após apre­sen­tar o menino, falou “ele gosta de cos­mo­lo­gia”. Zia, um tanto irô­nico e incré­dulo, per­gun­tou ao garoto qual sua opi­nião sobre a maté­ria escura. Quando o menino come­çou a res­pon­der, Zia pen­sou “Eu pre­ciso gra­var isso”, e assim fez um famoso vídeo no You­tube, com mais de dois milhões de aces­sos, que nós do Ano Zero tra­du­zi­mos a seguir.

Somos, em mui­tos aspec­tos, her­dei­ros de nos­sos ante­pas­sa­dos. Nos­sos acer­tos, mas tam­bém nos­sos pro­ble­mas e muito daquilo que com­pro­mete a evo­lu­ção da huma­ni­dade hoje, advém das gera­ções pre­té­ri­tas. E eles erra­ram bas­tante, de forma que seus erros ecoam nas limi­ta­ções e entra­ves com os quais hoje nos depa­ra­mos.

Mas quem pode cul­par nos­sos ante­pas­sa­dos? Um dia, a cons­ci­ên­cia deles foi des­per­tada e olha­ram ao seu redor, e per­ce­be­ram um mundo imenso, assus­ta­dor e sublime. Como eles podiam expli­car tudo o que enxer­ga­vam? Não pos­suíam a ciên­cia, mas ape­nas a sua ima­gi­na­ção. Logo, se alguém lhes dis­sesse que na ver­dade aquele mundo enorme era ape­nas uma rocha minús­cula flu­tu­ando no nada ao redor de uma bola de fogo rela­ti­va­mente pequena em um uni­verso de zilhões de bolas de fogo, e que seus cor­pos e tudo que os rode­ava era com­posto de pon­tos minús­cu­los que esta­vam sepa­ra­dos entre si por gran­des dis­tân­cias, de forma que todas as coi­sas eram com­pos­tas prin­ci­pal­mente de espa­ços vazios, e que nada era certo e tudo podia não ter sen­tido nenhum, nos­sos pas­sa­dos ririam incré­du­los. Mas se alguém lhes con­tasse que aquele lugar em que esta­vam era um lugar espe­cial e o cen­tro de tudo, e que um Grande Pai ou uma Grande Mãe ou um Grande Pás­saro havia cri­ado todas as coi­sas, inclu­sive os seres huma­nos, com um deter­mi­nado pro­pó­sito, isso sim era crí­vel, pois os nos­sos ante­pas­sa­dos conhe­ciam pais, e mães e pás­sa­ros e coi­sas com pro­pó­sito — e o lugar em que esta­vam pare­cia ser mesmo o cen­tro de tudo.

Nos­sos ante­pas­sa­dos, assus­ta­dos com um mundo que para eles era incom­pre­en­sí­vel e ame­a­ça­dor, esco­lhe­ram as expli­ca­ções que fos­sem mais recon­for­tan­tes. Afi­nal, pre­ci­sa­vam caçar, e pre­ci­sa­vam se aque­cer, e pre­ci­sa­vam fugir de pre­da­do­res — viver em um mundo con­cei­tual em que o futuro podia ser con­tro­lado atra­vés de bar­ga­nhas com pode­res divi­nos, com ritu­ais e sacri­fí­cios. Nos­sos ante­pas­sa­dos esco­lhe­ram o cami­nho mais recon­for­tante, menos assus­ta­dor para eles, no qual tudo era cer­teza, e fé, e segu­rança.

Her­dei­ros das gera­ções ante­ri­o­res, nos habi­tu­a­mos desde a infân­cia à noção deles de que o uni­verso é com­pre­en­sí­vel, pre­vi­sí­vel, certo e seguro. De que a vida tem um sen­tido e as coi­sas estão mais ou menos pre­des­ti­na­das. Fica­mos bas­tante assus­ta­dos quando nos depa­ra­mos com a ideia de que o uni­verso pode ser incom­pre­en­sí­vel, impre­vi­sí­vel e cheio de incer­te­zas. Mais ainda, fica­mos apa­vo­ra­dos e até depri­mi­dos com a ideia de que, no final das con­tas e de uma maior pers­pec­tiva, não somos muito dife­ren­tes das for­mi­gas. Nosso medo afasta de nós a humil­dade.

Mas não há nada de ine­ren­te­mente pavo­roso ou depri­mido nessa visão da rea­li­dade. É ape­nas a forma como fomos con­di­ci­o­na­dos pelas tra­di­ções e legado de nos­sos ante­pas­sa­dos que faz com que, por com­pa­ra­ção, sin­ta­mos muito des­con­forto no momento da tran­si­ção de uma rea­li­dade ilu­só­ria cri­ada pelas tra­di­ções cul­tu­rais e reli­gi­o­sas e a rea­li­dade tal como ela é cons­ta­tada pela ciên­cia.

E esse menino mos­tra exa­ta­mente isso: que pode­mos, com natu­ra­li­dade e espí­rito sereno, per­ce­ber o mundo como algo incerto e gigan­tesco, e nossa rea­li­dade como algo equi­pa­rá­vel à rea­li­dade das for­mi­gas, e o des­tino como um grande desa­fio impre­vi­sí­vel, e o sen­tido da vida como algo que pre­ci­sa­mos criar e cons­truir, e prin­ci­pal­mente que todas as nos­sas opi­niões sobre tudo isso tal­vez jamais encon­trem uma cer­teza, e que no final de tudo sem­pre pre­ci­sa­re­mos acres­cen­tar um “não sei, tal­vez eu esteja errado sobre tudo”, e pros­se­guir com a vida assim.

Somos adul­tos con­di­ci­o­na­dos cul­tu­ral­mente à uma per­cep­ção da rea­li­dade na qual sen­ti­mos des­con­forto diante da incer­teza e da ver­da­deira men­su­ra­ção de nossa exis­tên­cia diante de todo o uni­verso cir­cun­dante. É natu­ral, tal­vez seja um com­por­ta­mento ani­mal ten­tar pro­te­ger-se assim. Mas isso nos fez criar reli­giões into­le­ran­tes, fana­tis­mos, sec­ta­ris­mos e supers­ti­ções. Nem todas as expres­sões reli­gi­o­sas são into­le­ran­tes e sec­tá­rias, claro, mas há mui­tas for­mas de reli­gi­o­si­dade que cer­ceiam o espí­rito humano. Por outro lado, não só reli­giões fun­da­men­ta­lis­tas são o pro­duto dessa nossa aver­são ao des­con­forto de per­ce­ber a rea­li­dade tal como ela é: toda ten­ta­tiva de encai­xar o mundo e a soci­e­dade em um único sis­tema de expli­ca­ção teó­rico, pre­ten­sa­mente irre­fu­tá­vel e que tente for­ne­cer uma cos­mo­vi­são coesa, é no final das con­tas uma expres­são de nosso medo mais inato, e um fator limi­ta­tivo do espí­rito humano. Curi­o­sa­mente, a ciên­cia é sem­pre pro­vi­só­ria em suas teo­rias, e sem­pre frag­men­tada, e sujeita à cons­tante refu­ta­ção.

Nós, seres huma­nos, pode­mos mais. E esse menino é a demons­tra­ção de que pode­mos criar as pró­xi­mas gera­ções den­tro de uma visão mais franca, mais rea­lista e ao mesmo tempo mais serena, sobre nos­sas vidas e sobre o uni­verso que nos cerca. É o que basta para viver­mos em um mundo um pouco menos com­pli­cado.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe