Quando o músico Zia Hassan tocou a campainha da casa, não pretendia entrar. Ele estava naquela casa apenas para ver sua noiva, que trabalhava como babá. Como ela não podia sair e os pais das crianças estavam atrasados, ele decidiu passar ali apenas para dar um “oi”. Mas quando abriu a porta, sua noiva disse: “Deixe que eu te apresente as crianças!”. Eram três, as mais novas com 2 e 7 anos. Mas a figura mais curiosa estava ajoelhada no pátio da casa, descalço e cercado de formigas: o filho mais velho, com nove anos (os pais, que autorizaram a publicação do vídeo, decidiram não expor o nome da criança).

A namorada de Zia, após apresentar o menino, falou “ele gosta de cosmologia”. Zia, um tanto irônico e incrédulo, perguntou ao garoto qual sua opinião sobre a matéria escura. Quando o menino começou a responder, Zia pensou “Eu preciso gravar isso”, e assim fez um famoso vídeo no Youtube, com mais de dois milhões de acessos, que nós do Ano Zero traduzimos a seguir.

Somos, em muitos aspectos, herdeiros de nossos antepassados. Nossos acertos, mas também nossos problemas e muito daquilo que compromete a evolução da humanidade hoje, advém das gerações pretéritas. E eles erraram bastante, de forma que seus erros ecoam nas limitações e entraves com os quais hoje nos deparamos.

Mas quem pode culpar nossos antepassados? Um dia, a consciência deles foi despertada e olharam ao seu redor, e perceberam um mundo imenso, assustador e sublime. Como eles podiam explicar tudo o que enxergavam? Não possuíam a ciência, mas apenas a sua imaginação. Logo, se alguém lhes dissesse que na verdade aquele mundo enorme era apenas uma rocha minúscula flutuando no nada ao redor de uma bola de fogo relativamente pequena em um universo de zilhões de bolas de fogo, e que seus corpos e tudo que os rodeava era composto de pontos minúsculos que estavam separados entre si por grandes distâncias, de forma que todas as coisas eram compostas principalmente de espaços vazios, e que nada era certo e tudo podia não ter sentido nenhum, nossos passados ririam incrédulos. Mas se alguém lhes contasse que aquele lugar em que estavam era um lugar especial e o centro de tudo, e que um Grande Pai ou uma Grande Mãe ou um Grande Pássaro havia criado todas as coisas, inclusive os seres humanos, com um determinado propósito, isso sim era crível, pois os nossos antepassados conheciam pais, e mães e pássaros e coisas com propósito – e o lugar em que estavam parecia ser mesmo o centro de tudo.

Nossos antepassados, assustados com um mundo que para eles era incompreensível e ameaçador, escolheram as explicações que fossem mais reconfortantes. Afinal, precisavam caçar, e precisavam se aquecer, e precisavam fugir de predadores – viver em um mundo conceitual em que o futuro podia ser controlado através de barganhas com poderes divinos, com rituais e sacrifícios. Nossos antepassados escolheram o caminho mais reconfortante, menos assustador para eles, no qual tudo era certeza, e fé, e segurança.

Herdeiros das gerações anteriores, nos habituamos desde a infância à noção deles de que o universo é compreensível, previsível, certo e seguro. De que a vida tem um sentido e as coisas estão mais ou menos predestinadas. Ficamos bastante assustados quando nos deparamos com a ideia de que o universo pode ser incompreensível, imprevisível e cheio de incertezas. Mais ainda, ficamos apavorados e até deprimidos com a ideia de que, no final das contas e de uma maior perspectiva, não somos muito diferentes das formigas. Nosso medo afasta de nós a humildade.

Mas não há nada de inerentemente pavoroso ou deprimido nessa visão da realidade. É apenas a forma como fomos condicionados pelas tradições e legado de nossos antepassados que faz com que, por comparação, sintamos muito desconforto no momento da transição de uma realidade ilusória criada pelas tradições culturais e religiosas e a realidade tal como ela é constatada pela ciência.

E esse menino mostra exatamente isso: que podemos, com naturalidade e espírito sereno, perceber o mundo como algo incerto e gigantesco, e nossa realidade como algo equiparável à realidade das formigas, e o destino como um grande desafio imprevisível, e o sentido da vida como algo que precisamos criar e construir, e principalmente que todas as nossas opiniões sobre tudo isso talvez jamais encontrem uma certeza, e que no final de tudo sempre precisaremos acrescentar um “não sei, talvez eu esteja errado sobre tudo”, e prosseguir com a vida assim.

Somos adultos condicionados culturalmente à uma percepção da realidade na qual sentimos desconforto diante da incerteza e da verdadeira mensuração de nossa existência diante de todo o universo circundante. É natural, talvez seja um comportamento animal tentar proteger-se assim. Mas isso nos fez criar religiões intolerantes, fanatismos, sectarismos e superstições. Nem todas as expressões religiosas são intolerantes e sectárias, claro, mas há muitas formas de religiosidade que cerceiam o espírito humano. Por outro lado, não só religiões fundamentalistas são o produto dessa nossa aversão ao desconforto de perceber a realidade tal como ela é: toda tentativa de encaixar o mundo e a sociedade em um único sistema de explicação teórico, pretensamente irrefutável e que tente fornecer uma cosmovisão coesa, é no final das contas uma expressão de nosso medo mais inato, e um fator limitativo do espírito humano. Curiosamente, a ciência é sempre provisória em suas teorias, e sempre fragmentada, e sujeita à constante refutação.

Nós, seres humanos, podemos mais. E esse menino é a demonstração de que podemos criar as próximas gerações dentro de uma visão mais franca, mais realista e ao mesmo tempo mais serena, sobre nossas vidas e sobre o universo que nos cerca. É o que basta para vivermos em um mundo um pouco menos complicado.

escrito por:

Victor Lisboa