Vereadora Fernanda Melchionna segura sacolas de pão francês em discurso.

A vereadora Melchionna não entendeu o Uber

Em Consciência, Economia, Política por Alysson AugustoComentários

A exce­len­tís­sima vere­a­dora Fer­nanda Mel­chi­onna criou uma lei que imputa à empresa Uber, em Porto Ale­gre, a neces­si­dade de uma frota pro­fis­si­o­nal com no mínimo 20% de mulhe­res.

A jus­ti­fi­ca­tiva, con­forme sua emenda, é “garan­tir a inte­gri­dade física das mulhe­res e com­ba­ter o machismo exis­tente nes­sas situ­a­ções” e “ser uma demanda do direito do con­su­mi­dor”, no intuito de, por força de lei, fazer com que o Uber dê conta de uma par­cela da popu­la­ção que pre­fere usar o ser­viço con­du­zido por mulhe­res.

Fernanda Melchionna comemora vitória sobre Uber.

Duas coi­sas sobre isso me pare­cem dever ficar cla­ras, para que enten­da­mos por que a vere­a­dora em ques­tão está sendo sim­ples­mente ridi­cu­la­ri­zada por essa medida.

 

UBER NÃO É COMO TÁXI. É COMO YOUTUBE.

Sim, isso mesmo. Embora o Uber pareça ser um “táxi preto”, ele na ver­dade é uma grande pla­ta­forma de “ubers” (sim, algo como “you­tu­bers”).

Isso sig­ni­fica que há uma grande dife­rença entre a rela­ção de tra­ba­lho do taxista e do moto­rista de Uber. Afi­nal, enquanto para ser taxista você pre­cisa ser cre­den­ci­ado no órgão muni­ci­pal de trân­sito res­pon­sá­vel de sua cidade, pagando impos­tos rela­ti­vos ao seu tra­ba­lho para que ele se enqua­dre nas dire­tri­zes de trân­sito e legis­la­ção de seu muni­cí­pio, o Uber é sim­ples­mente um faci­li­ta­dor de con­tato entre público reque­rente e ser­vi­dor reque­rido.

Se ficou con­fuso, eu explico melhor: o moto­rista do Uber não é um “empre­gado”. Ele é um “par­ceiro” do Uber, que ao invés de pagar pre­vi­a­mente para uti­li­zar a pla­ta­forma ape­nas divide o que ganha, se ganhar e quando ganhar. Assim como you­tu­bers são par­cei­ros do You­Tube, e não seus empre­ga­dos.

Não cabe, por­tanto, tra­tar o Uber como Táxi, seja por­que a rela­ção empre­ga­tí­cia não é a mesma, seja por­que taxis­tas pre­ci­sam de licença/alvará e “ube­ris­tas” ape­nas pre­ci­sam que­rer ganhar dinheiro ofe­re­cendo um ser­viço sem com­pro­misso hie­rár­quico.

 

UBER NÃO PRECISA DE IMPOSIÇÃO LEGAL PARA DAR CONTA DE DEMANDA. ELE É A PRÓPRIA DEMANDA.

Falar sobre eco­no­mia cos­tuma ser um pé no saco quando não temos baga­gem sobre o assunto, mas lem­brar do mais básico é sem­pre válido: ser­vi­ços ruins só con­ti­nuam ruins por falta de con­cor­rên­cia, ou por­que a legis­la­ção os pro­tege.

O Uber não é só um sis­tema boni­ti­nho que faci­lita a vida das pes­soas — ele per­mite que você ava­lie seu moto­rista, que poderá te ava­liar tam­bém.

Sistema de avaliações do Uber

Fonte da ima­gem: site do Uber

Sabe o que isso sig­ni­fica? Que se o moto­rista é um bosta, um agres­sor, um abu­sado, ele res­pon­derá por isso. Na ver­dade, ele poderá per­der o dinheiro fácil de forma vita­lí­cia.

A “magia” nisso é que, ao per­mi­tir que os cli­en­tes dos par­cei­ros do Uber ava­liem tais par­cei­ros, estes mes­mos aca­bam sofrendo uma pres­são defi­ni­tiva, melhor mesmo do que qual­quer força de lei, para entre­gar um bom ser­viço — é como com­pa­rar con­tra­tado com con­cur­sado, pois saber que pode per­der a teta muda as pes­soas.

A con­sequên­cia é óbvia: com moto­ris­tas sendo cons­tan­te­mente ava­li­a­dos, bai­xando sua repu­ta­ção e indo para o ostra­cismo caso ofer­tem um pés­simo ser­viço, a “demanda de mulhe­res que não que­rem ser assediadas/agredidas durante a via­gem” é sim­ples­mente sanada, inde­pen­dente de o moto­rista ser homem ou mulher.

Mas o mais cômico disso nem é que Fer­nanda não tenha per­ce­bido esses pon­tos, ao pro­por essa emenda.

O mais engra­çado é ter­mos que aguen­tar sua #Equipe dizendo, quando inter­ro­gada, que a lei não pena­li­zará o Uber caso não atinja essa por­cen­ta­gem ina­tin­gí­vel.

Print Uber Fernanda Melchionna

Fer­nanda, em prol de agra­dar seu público, se uti­liza da cri­a­ção de leis total­mente inú­teis, bus­cando impor a neces­si­dade de uma cota para par­ce­rias sobre um ser­viço ili­mi­tado de par­cei­ros que vão e vêm quando e como que­rem.

Se você não quer rir, tudo bem. Sem­pre dá pra cho­rar.

Obri­gado por mais uma lei inú­til, para não dizer des­ser­viço, vere­a­dora.


Saiba mais:

Vere­a­do­res: vocês que­rem regu­lar ou banir a tec­no­lo­gia? (Uber)
Veja se as emen­das vota­das favo­re­cem os moto­ris­tas do Uber ou agra­dam mais aos taxis­tas (Zero Hora)


Observação importante:

Um lei­tor bas­tante atento me mos­trou que a aná­lise do modelo de negó­cios que fiz é insu­fi­ci­ente.

Os moto­ris­tas de Uber defi­ni­ti­va­mente não têm a mesma rela­ção de emprego que taxis­tas, mas dizer que sua rela­ção de par­ce­ria é mais pare­cida com a feita no You­tube é incom­pleta, uma vez que moto­ris­tas pagam IPVA e outros impos­tos rela­ti­vos ao seu ins­tru­mento de tra­ba­lho (carro), o que não é ver­dade para You­tu­bers.

Por isso mesmo, o ser­viço ofer­tado pelo Uber con­diz mais com a pla­ta­forma iFood: um ser­viço sob demanda que torna a rela­ção entre cli­ente e ofer­ta­dor de ser­viço (moto­rista ou loja/restaurante), devi­da­mente paga­dor de impos­tos (táxis têm des­conto), mais fácil. 

É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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