MEGAESTRUTURA ALIEN | Nunca na história a humanidade esteve tão apaixonada pelo futuro como em nossa era. Jamais antes foram elaboradas tantas narrativas explorando como seria a humanidade daqui cinquenta, cem, dez mil anos. Nossos antepassados não alimentavam o fascínio hipnótico que temos pelo futuro. É que o mundo deles mudava também, mas muito mais devagar, e a mente humana não conseguia antecipar o que poderia vir mais adiante.

É óbvio que essa paixão pelo futuro está relacionada com a percepção de que a tecnologia está avançando em aceleração crescente desde Júlio Verne, o mais célebre precursor dos autores de ficção científica, e que esses avanços impactam cada vez mais a sociedade e nossa vida cotidiana. Ao longo do século passado, a cultura popular produziu no cinema, na TV e na literatura incontáveis narrativas sobre comunicação instantânea, ciborgues, inteligência artificial, colonização de outros planetas e contato com alienígenas. Até hoje, séries como Black Mirror e Westworld conquistam legiões de fãs situando suas histórias em uma sociedade futura.

Eu mesmo sempre fui desde a infância um fã moderado de ficção científica. Era aficcionado pela obra de Arthur C. Clarke, tive uma epifania ao ver 2001 e decidi fazer Física (não terminei a faculdade) pois a ciência era uma paixão que conheci na literatura do gênero.

E embora o século XXI, depositário de todas as esperanças que o século XX acalentava pelo futuro, tenha começado sem grandes inovações, nos últimos cinco anos algo está ocorrendo. Cada vez mais cientistas e especialistas começam a falar com naturalidade sobre o impacto que a inteligência artificial trará à sociedade e até sobre o advento de uma super inteligência artificial. No Vale do Silício, as empresas consideradas mais promissoras são dedicadas a tecnologias destinadas a estender a vida humana até séculos de idade e mesmo flertar com a imortalidade, graças à cibernética e à nanotecnologia. Elon Musk, um dos homens mais ricos do planeta, produz e vende carros elétricos que se dirigem sozinhos e fala de seu projeto de transportar centenas de pessoas até Marte para colonizar o planeta.

Decididamente, o futuro começou.

 

MEGAESTRUTURA ALIEN: A Esfera de Dyson

E recentemente tivemos aquela que já pode ser registrada como a mais duradoura, mais consistente e cientificamente mais debatida suspeita de que identificamos sinais de vida alienígena inteligente no universo.

Entendam-me bem: não estou dizendo que achamos indícios de uma civilização alienígena. É possível que, dentro de uma semana, os cientistas encontrem alguma explicação para aquilo que estão observando no momento, e então ninguém mais vai falar sobre o assunto. Mas, mesmo se isso ocorrer, ainda assim essa ficará conhecida como a primeira suspeita consistente e duradoura de que identificamos sinal de uma civilização alienígena.

Quando eu era adolescente, um livro que me fascinou foi The Cosmic Connection, de Carl Sagan. Apesar do título que parece mais nome de uma banda psicodélica da década de 70 com temática erótico-licérgica, o seu conteúdo era árido e técnico. O livro era uma compilação de artigos escritos por Sagan abordando temas variados, de aspectos orçamentários de missões espaciais ao nível de inteligência dos golfinhos.

The Cosmic Connection - Carl Sagan

Mas um dos artigos mais curiosos, e que pessoalmente achei meio exagerado, tratava de engenharia planetária. Carl Sagan afirmava que no futuro, se a humanidade sobrevivesse à autodestruição nuclear e a outros desafios criados por si própria, chegaria a tal nível tecnológico que seria capaz de fazer obras de engenharia de nível planetário. Ou seja, uma civilização altamente evoluída seria capaz de fatiar planetas para construir mega estruturas úteis como, por exemplo, um sistema reticulado que captaria e armazenaria a energia de uma estrela como o sol.

Pois em setembro de 2015, pouco mais de um ano atrás, a Associação Americana de Observadores de Estrelas Variáveis – AAVSO (sim, isso existe) pediu a todos os seus membros que observassem com atenção uma estrela com o nome de KIC 8462852, que tem 50% mais massa que o sol e está a 1.500 anos-luz de distância, pois haviam identificado algo estranho nesse corpo celeste e precisavam de confirmação.

Estrelas Variáveis, para quem não sabe (e eu não sabia até escrever este texto), é como os astrônomos chamam estrelas cuja luminosidade varia em períodos mais curtos do que o padrão das estrelas de sua categoria. Essas sempre são estrelas interessantes para serem estudadas pelos astrofísicos, astrônomos e diletantes da área, pois variações de luminosidade podem indicar a existência de bichos exóticos da fauna cósmica, como Supernovas e Pulsares.

Pois o pessoal da AAVSO constatou que algo de massa considerável estava inexplicavelmente eclipsando 20% da luz da estrela KIC 8462852 em distintas regiões de sua superfície. E que essa enorme redução da luminosidade percebida pelos telescópios ocorria de modo abrupto de quatro em quatro dias, apresentando uma regularidade e padrão de eclipsamento jamais vistos em qualquer outra estrela. Há um artigo científico extenso e detalhado disponibilizando todos os dados colhidos para que a comunidade científica possa estudar e refutar.

A hipótese apresentada pelos cientistas e pesquisadores, à época, consistia na teoria de que um “enxame” de cometas estaria orbitando a estrela, causando esporadicamente essa variação de luminosidade. Mas um astrônomo da Universidade da Pelsivânia foi o primeiro a afirmar publicamente que outra hipótese seria a de que se tratava de uma gigantesca estrutura alienígena, como uma Esfera de Dyson. Essa esfera foi algo idealizado em 1960 pelo físico Freeman Dyson: uma obra de engenharia monumental, uma megaestrutura capaz de envolver uma estrela como o sol para recolher sua energia e disponibilizá-la ao uso da civilização.

As estranhas e abruptas variações de luminosidade e energia de KIC 8462852.
As estranhas e abruptas variações de luminosidade e energia de KIC 8462852.

A partir de então, essa hipótese começou a ser levada suficientemente a sério pela comunidade científica, e já em outubro de 2015 astrônomos e físicos envolvidos no estudo da estrela começaram a trabalhar junto a Andrew Siemion, diretor do SETI, para analisarem a possibilidade, principalmente tentando refutá-la e buscando algum sinal que possa sugerir uma explicação de que o fenômeno observado é algo natural.

 

O enxame de cometas

A primeira pesquisa que buscou refutar a hipótese de uma megaestrutura alienígena foi divulgada em um artigo científico publicado em novembro de 2015 no The Astrofisical Journal Letters. Basicamente, o artigo procurou confirmar a teoria de que o bizarro comportamento na luminosidade da estrela decorreria de um “enxame” de cometas. O que os pesquisadores fizeram foi analisar a quantidade de luz infravermelha emitida pela estrela, pois uma quantidade superior à usual indicaria ou a presença de algo criado por seres inteligentes ou a colisão de um asteroide.

O resultado da pesquisa não identificou nenhuma emissão anormal de luz infravermelha, o que afastava a hipótese de uma megaestrutura alienígena e de colisão de um asteroide. Para os pesquisadores, somente a existência de um “enxame” de cometas, que orbitariam a estrela com ritmo constante, permanecia como resposta plausível. Esse enxame seria, assim, o responsável por bloquear a luz da estrela quando os cometas entravam no foco dos telescópios aqui na Terra, causando as variações de luminosidade com a regularidade e a padronagem de distribuição constatadas.

Porém, em janeiro de 2016, novos dados invalidaram essa pesquisa. É que uma análise mais detida do comportamento da estrela revelou que as variações eram mais estranhas do que se imaginava, de modo que a órbita de um enxame de cometas não explicaria as novas descobertas.

Segundo novo artigo científico, publicado também no The Astrofisical Journal Letters, a estrela não apenas tinha uma redução de 20% de sua luminosidade de quatro em quatro dias. KIC 8462852 também apresentou ao longo dos últimos dois séculos outro padrão distinto, e também regular, de variação de sua luminosidade.

Diante das novas constatações, para a explicação de um “enxame” de cometas ser verdadeira, seriam necessários 600 mil cometas, cada qual coincidentemente com 200 quilômetros de diâmetro, todos orquestrados para passarem na frente da estrela ao longo de dois séculos. E isso é uma improbabilidade de proporções inimagináveis no mundo da astronomia.

Representação dramatizada da Esfera de Dyson.
Representação dramatizada da Esfera de Dyson.

De qualquer modo, a teoria de uma megaestrutura alienígena era considerada impopular entre os cientistas. Mas em agosto de 2016, novas descobertas revelaram que o comportamento da estrela era ainda muito mais bizarro do que as análises anteriores sugeriram – e não se tratava apenas da sua luminosidade aparente, mas também de sua energia.

Segundo esse novo estudo, a estrela havia perdido 17% de seu brilho em apenas um século, algo inconcebível para estrelas da categoria a que pertence nossa amiga KIC 8462852. Mas não só isso. A perda de energia, quando ocorre em estrelas, usualmente apresenta algum padrão de constância e previsibilidade. Porém, no caso da KIC 8462852, verificou-se uma lenta redução de 1% em sua energia em três anos, depois repentina redução de 2% no ano seguinte, seguida de seis anos de estranha estabilidade. Isso definitivamente afastava a hipótese dos cometas e tornava um pouco mais consistente a teoria de que se tratava de algo produzido por alguma causa não-natural.

 

Implicações

Como disse, talvez o mais provável seja que dentro de um mês ou um ano a comunidade científica apresente uma explicação sobre os padrões de luminosidade e as erráticas perdas de energia a uma causa natural. Em algum momento, a hipótese de termos encontrado o primeiro indício de uma civilização alienígena vai se mostrar infundada. Afinal, não foram identificadas emissões excepcionais de luz infravermelha, um dos indícios de atividade alienígena, o que enfraquece a hipótese de uma megaestrutura artificial.

Mas, até lá, é isso que temos. E já que a teoria de que a estrela KIC 8462852 é o primeiro sinal da existência de uma civilização alienígena mais evoluída que a nossa, vamos especular, porque neste momento fazer isso é mais divertido.

Se você leu o Paradoxo de Fermi, escrito pelo Tim Urban, sabe que matematicamente as probabilidades mais modestas indicam que há bilhões de civilizações inteligentes no universo observável. Isso, aliás, é algo que o próprio Carl Sagan afirmava em um dos artigos de The Cosmic Connection: cientificamente falando, pelos nossos atuais instrumentos de observação, já deveríamos ter identificado sinais de vida alienígena no universo observável. O que estranha, o que é espantoso é não termos percebido nada ainda.

Esse é o Paradoxo de Fermi. É praticamente impossível que alguma civilização mais evoluída já não tenha observado a nossa existência, e no entanto o universo inteiro parece estar mudo diante de nós, sem emitir nenhum sinal.

Há várias explicações plausíveis que tentam responder o Paradoxo de Fermi, como Tim Urban explica, sendo as mais populares a teoria de que há uma etapa no desenvolvimento de uma civilização que nenhuma espécie inteligente do universo observável e a teoria de que essas civilizações existem sim e estão cientes de nossa existência, mas nos observam interessados e de longe, como em um zoológico, ocultos para não atrapalhar nosso desenvolvimento natural.

Mas há uma outra teoria interessante, embora pouco popular, que parece se encaixar perfeitamente à hipótese de que acabamos de descobrir uma megaestrutura alienígena em uma estrela observável por nossos telescópios. É a de que as civilizações alienígenas não têm qualquer interesse por nós, não mais do que teriam por uma mariposa ou uma baleia aqui na Terra. Em suma, nós nos achamos especiais porque o parâmetro de comparação que temos são os chimpanzés, mas talvez para seres realmente inteligentes nós não sejamos mais interessantes que abelhas construindo colmeias ou aqueles cupins africanos que erguem cupinzeiros gigantes.

Ou seja, segundo essa teoria que tenta explicar o Paradoxo de Fermi, a vida inteligente do universo não se espantou ainda conosco, nossas ações indicam que não somos mais do que chimpanzés astutos. Basta ver, por exemplo, o tempo transcorrido entre a descoberta de como podíamos interferir no núcleo de um átomo e a criação de uma bomba atômica que matou milhares de pessoas em um holocausto nuclear (em termos evolucionários, o intervalo foi de menos de um segundo). Basta, por exemplo, observar a quantidade enorme de seres humanos que passam fome ou estão privados de outras necessidades básicas em um mundo no qual a produção de alimento supera a capacidade de consumo da população global. Basta, por fim, estudar a quantidade de outras espécies que extinguimos nos últimos dois mil anos e a catástrofe ambiental que a vida humana representou para este planeta.

Não, nossos vizinhos olham nosso planeta e lamentam que um animal em tudo mais estúpido tivesse sido agraciado com um neocórtex cerebral desenvolvido, um polegar opositor e um aparelho fonador capaz de articular palavras. Graças a isso sabemos colocar um tijolo em cima do outro e fazer alguns shows pirotécnicos, mas principalmente matamos a nós mesmos e destruímos nosso planeta. Não, nossos vizinhos tem vergonha de nós, obviamente não veem sentido para nos tirar do status também conferido ao suricato, preferem nos ignorar. E nos ignorar tanto que só os descobrimos porque jamais iriam se preocupar, por outro lado, em gastar energia e tempo criando formas de não os descobrirmos. Afinal, não representamos qualquer ameaça. Eles nos observam e concluem que não iremos muito longe – que iremos acabar com nossa própria espécie em algum momento.

Isso deveria nos ofender. Isso deveria mexer com o nosso orgulho. Se há lá fora, não muito distante de nós, uma civilização tão evoluída ao ponto de criar uma obra de engenharia que cerca uma estrela e retira sua energia, essa civilização com certeza já percebeu a nossa existência (ao menos pelas emissões de sinais de telecomunicações). Se essa civilização não se importa em entrar em contato mas também não se importa em se esconder de nós, é porque não nos leva em grande conta. Talvez a nossa inteligência não os impressione, talvez façamos coisas estúpidas demais para que deem crédito a nossa capacidade de sobreviver.

Na vida adulta, o outro é sempre um grande espelho de nós mesmos. Pelo outro, observo como sou julgado e avaliado pelo mundo. Se o “outro” no universo reflete a falta de esperança em nosso futuro, isso talvez seja um recado para mudarmos drasticamente e imediatamente o caminho que estamos seguindo.


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escrito por:

Victor Lisboa

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