Megaestrutura alien: Após mais de um ano tentando explicar um mistério estelar, cientistas começam a se perguntar se encontramos sinal de uma civilização alienígena.

Encontramos uma civilização alienígena?

Em Ciência por Victor LisboaComentário

MEGAESTRUTURA ALIEN | Nunca na his­tó­ria a huma­ni­dade esteve tão apai­xo­nada pelo futuro como em nossa era. Jamais antes foram ela­bo­ra­das tan­tas nar­ra­ti­vas explo­rando como seria a huma­ni­dade daqui cin­quenta, cem, dez mil anos. Nos­sos ante­pas­sa­dos não ali­men­ta­vam o fas­cí­nio hip­nó­tico que temos pelo futuro. É que o mundo deles mudava tam­bém, mas muito mais deva­gar, e a mente humana não con­se­guia ante­ci­par o que pode­ria vir mais adi­ante.

É óbvio que essa pai­xão pelo futuro está rela­ci­o­nada com a per­cep­ção de que a tec­no­lo­gia está avan­çando em ace­le­ra­ção cres­cente desde Júlio Verne, o mais céle­bre pre­cur­sor dos auto­res de fic­ção cien­tí­fica, e que esses avan­ços impac­tam cada vez mais a soci­e­dade e nossa vida coti­di­ana. Ao longo do século pas­sado, a cul­tura popu­lar pro­du­ziu no cinema, na TV e na lite­ra­tura incon­tá­veis nar­ra­ti­vas sobre comu­ni­ca­ção ins­tan­tâ­nea, cibor­gues, inte­li­gên­cia arti­fi­cial, colo­ni­za­ção de outros pla­ne­tas e con­tato com ali­e­ní­ge­nas. Até hoje, séries como Black Mir­ror e Westworld con­quis­tam legiões de fãs situ­ando suas his­tó­rias em uma soci­e­dade futura.

Eu mesmo sem­pre fui desde a infân­cia um fã mode­rado de fic­ção cien­tí­fica. Era afic­ci­o­nado pela obra de Arthur C. Clarke, tive uma epi­fa­nia ao ver 2001 e decidi fazer Física (não ter­mi­nei a facul­dade) pois a ciên­cia era uma pai­xão que conheci na lite­ra­tura do gênero.

E embora o século XXI, depo­si­tá­rio de todas as espe­ran­ças que o século XX aca­len­tava pelo futuro, tenha come­çado sem gran­des ino­va­ções, nos últi­mos cinco anos algo está ocor­rendo. Cada vez mais cien­tis­tas e espe­ci­a­lis­tas come­çam a falar com natu­ra­li­dade sobre o impacto que a inte­li­gên­cia arti­fi­cial trará à soci­e­dade e até sobre o advento de uma super inte­li­gên­cia arti­fi­cial. No Vale do Silí­cio, as empre­sas con­si­de­ra­das mais pro­mis­so­ras são dedi­ca­das a tec­no­lo­gias des­ti­na­das a esten­der a vida humana até sécu­los de idade e mesmo fler­tar com a imor­ta­li­dade, gra­ças à ciber­né­tica e à nano­tec­no­lo­gia. Elon Musk, um dos homens mais ricos do pla­neta, pro­duz e vende car­ros elé­tri­cos que se diri­gem sozi­nhos e fala de seu pro­jeto de trans­por­tar cen­te­nas de pes­soas até Marte para colo­ni­zar o pla­neta.

Deci­di­da­mente, o futuro come­çou.

 

MEGAESTRUTURA ALIEN: A Esfera de Dyson

E recen­te­mente tive­mos aquela que já pode ser regis­trada como a mais dura­doura, mais con­sis­tente e cien­ti­fi­ca­mente mais deba­tida sus­peita de que iden­ti­fi­ca­mos sinais de vida ali­e­ní­gena inte­li­gente no uni­verso.

Enten­dam-me bem: não estou dizendo que acha­mos indí­cios de uma civi­li­za­ção ali­e­ní­gena. É pos­sí­vel que, den­tro de uma semana, os cien­tis­tas encon­trem alguma expli­ca­ção para aquilo que estão obser­vando no momento, e então nin­guém mais vai falar sobre o assunto. Mas, mesmo se isso ocor­rer, ainda assim essa ficará conhe­cida como a pri­meira sus­peita con­sis­tente e dura­doura de que iden­ti­fi­ca­mos sinal de uma civi­li­za­ção ali­e­ní­gena.

Quando eu era ado­les­cente, um livro que me fas­ci­nou foi The Cos­mic Con­nec­tion, de Carl Sagan. Ape­sar do título que parece mais nome de uma banda psi­co­dé­lica da década de 70 com temá­tica eró­tico-licér­gica, o seu con­teúdo era árido e téc­nico. O livro era uma com­pi­la­ção de arti­gos escri­tos por Sagan abor­dando temas vari­a­dos, de aspec­tos orça­men­tá­rios de mis­sões espa­ci­ais ao nível de inte­li­gên­cia dos gol­fi­nhos.

The Cosmic Connection - Carl Sagan

Mas um dos arti­gos mais curi­o­sos, e que pes­so­al­mente achei meio exa­ge­rado, tra­tava de enge­nha­ria pla­ne­tá­ria. Carl Sagan afir­mava que no futuro, se a huma­ni­dade sobre­vi­vesse à auto­des­trui­ção nuclear e a outros desa­fios cri­a­dos por si pró­pria, che­ga­ria a tal nível tec­no­ló­gico que seria capaz de fazer obras de enge­nha­ria de nível pla­ne­tá­rio. Ou seja, uma civi­li­za­ção alta­mente evo­luída seria capaz de fatiar pla­ne­tas para cons­truir mega estru­tu­ras úteis como, por exem­plo, um sis­tema reti­cu­lado que cap­ta­ria e arma­ze­na­ria a ener­gia de uma estrela como o sol.

Pois em setem­bro de 2015, pouco mais de um ano atrás, a Asso­ci­a­ção Ame­ri­cana de Obser­va­do­res de Estre­las Variá­veis — AAVSO (sim, isso existe) pediu a todos os seus mem­bros que obser­vas­sem com aten­ção uma estrela com o nome de KIC 8462852, que tem 50% mais massa que o sol e está a 1.500 anos-luz de dis­tân­cia, pois haviam iden­ti­fi­cado algo estra­nho nesse corpo celeste e pre­ci­sa­vam de con­fir­ma­ção.

Estre­las Variá­veis, para quem não sabe (e eu não sabia até escre­ver este texto), é como os astrô­no­mos cha­mam estre­las cuja lumi­no­si­dade varia em perío­dos mais cur­tos do que o padrão das estre­las de sua cate­go­ria. Essas sem­pre são estre­las inte­res­san­tes para serem estu­da­das pelos astro­fí­si­cos, astrô­no­mos e dile­tan­tes da área, pois vari­a­ções de lumi­no­si­dade podem indi­car a exis­tên­cia de bichos exó­ti­cos da fauna cós­mica, como Super­no­vas e Pul­sa­res.

Pois o pes­soal da AAVSO cons­ta­tou que algo de massa con­si­de­rá­vel estava inex­pli­ca­vel­mente eclip­sando 20% da luz da estrela KIC 8462852 em dis­tin­tas regiões de sua super­fí­cie. E que essa enorme redu­ção da lumi­no­si­dade per­ce­bida pelos teles­có­pios ocor­ria de modo abrupto de qua­tro em qua­tro dias, apre­sen­tando uma regu­la­ri­dade e padrão de eclip­sa­mento jamais vis­tos em qual­quer outra estrela. Há um artigo cien­tí­fico extenso e deta­lhado dis­po­ni­bi­li­zando todos os dados colhi­dos para que a comu­ni­dade cien­tí­fica possa estu­dar e refu­tar.

A hipó­tese apre­sen­tada pelos cien­tis­tas e pes­qui­sa­do­res, à época, con­sis­tia na teo­ria de que um “enxame” de come­tas esta­ria orbi­tando a estrela, cau­sando espo­ra­di­ca­mente essa vari­a­ção de lumi­no­si­dade. Mas um astrô­nomo da Uni­ver­si­dade da Pel­si­vâ­nia foi o pri­meiro a afir­mar publi­ca­mente que outra hipó­tese seria a de que se tra­tava de uma gigan­tesca estru­tura ali­e­ní­gena, como uma Esfera de Dyson. Essa esfera foi algo ide­a­li­zado em 1960 pelo físico Fre­e­man Dyson: uma obra de enge­nha­ria monu­men­tal, uma mega­es­tru­tura capaz de envol­ver uma estrela como o sol para reco­lher sua ener­gia e dis­po­ni­bi­lizá-la ao uso da civi­li­za­ção.

As estranhas e abruptas variações de luminosidade e energia de KIC 8462852.

As estra­nhas e abrup­tas vari­a­ções de lumi­no­si­dade e ener­gia de KIC 8462852.

A par­tir de então, essa hipó­tese come­çou a ser levada sufi­ci­en­te­mente a sério pela comu­ni­dade cien­tí­fica, e já em outu­bro de 2015 astrô­no­mos e físi­cos envol­vi­dos no estudo da estrela come­ça­ram a tra­ba­lhar junto a Andrew Sie­mion, dire­tor do SETI, para ana­li­sa­rem a pos­si­bi­li­dade, prin­ci­pal­mente ten­tando refutá-la e bus­cando algum sinal que possa suge­rir uma expli­ca­ção de que o fenô­meno obser­vado é algo natu­ral.

 

O enxame de cometas

A pri­meira pes­quisa que bus­cou refu­tar a hipó­tese de uma mega­es­tru­tura ali­e­ní­gena foi divul­gada em um artigo cien­tí­fico publi­cado em novem­bro de 2015 no The Astro­fi­si­cal Jour­nal Let­ters. Basi­ca­mente, o artigo pro­cu­rou con­fir­mar a teo­ria de que o bizarro com­por­ta­mento na lumi­no­si­dade da estrela decor­re­ria de um “enxame” de come­tas. O que os pes­qui­sa­do­res fize­ram foi ana­li­sar a quan­ti­dade de luz infra­ver­me­lha emi­tida pela estrela, pois uma quan­ti­dade supe­rior à usual indi­ca­ria ou a pre­sença de algo cri­ado por seres inte­li­gen­tes ou a coli­são de um aste­roide.

O resul­tado da pes­quisa não iden­ti­fi­cou nenhuma emis­são anor­mal de luz infra­ver­me­lha, o que afas­tava a hipó­tese de uma mega­es­tru­tura ali­e­ní­gena e de coli­são de um aste­roide. Para os pes­qui­sa­do­res, somente a exis­tên­cia de um “enxame” de come­tas, que orbi­ta­riam a estrela com ritmo cons­tante, per­ma­ne­cia como res­posta plau­sí­vel. Esse enxame seria, assim, o res­pon­sá­vel por blo­quear a luz da estrela quando os come­tas entra­vam no foco dos teles­có­pios aqui na Terra, cau­sando as vari­a­ções de lumi­no­si­dade com a regu­la­ri­dade e a padro­na­gem de dis­tri­bui­ção cons­ta­ta­das.

Porém, em janeiro de 2016, novos dados inva­li­da­ram essa pes­quisa. É que uma aná­lise mais detida do com­por­ta­mento da estrela reve­lou que as vari­a­ções eram mais estra­nhas do que se ima­gi­nava, de modo que a órbita de um enxame de come­tas não expli­ca­ria as novas des­co­ber­tas.

Segundo novo artigo cien­tí­fico, publi­cado tam­bém no The Astro­fi­si­cal Jour­nal Let­ters, a estrela não ape­nas tinha uma redu­ção de 20% de sua lumi­no­si­dade de qua­tro em qua­tro dias. KIC 8462852 tam­bém apre­sen­tou ao longo dos últi­mos dois sécu­los outro padrão dis­tinto, e tam­bém regu­lar, de vari­a­ção de sua lumi­no­si­dade.

Diante das novas cons­ta­ta­ções, para a expli­ca­ção de um “enxame” de come­tas ser ver­da­deira, seriam neces­sá­rios 600 mil come­tas, cada qual coin­ci­den­te­mente com 200 quilô­me­tros de diâ­me­tro, todos orques­tra­dos para pas­sa­rem na frente da estrela ao longo de dois sécu­los. E isso é uma impro­ba­bi­li­dade de pro­por­ções ini­ma­gi­ná­veis no mundo da astro­no­mia.

Representação dramatizada da Esfera de Dyson.

Repre­sen­ta­ção dra­ma­ti­zada da Esfera de Dyson.

De qual­quer modo, a teo­ria de uma mega­es­tru­tura ali­e­ní­gena era con­si­de­rada impo­pu­lar entre os cien­tis­tas. Mas em agosto de 2016, novas des­co­ber­tas reve­la­ram que o com­por­ta­mento da estrela era ainda muito mais bizarro do que as aná­li­ses ante­ri­o­res suge­ri­ram — e não se tra­tava ape­nas da sua lumi­no­si­dade apa­rente, mas tam­bém de sua ener­gia.

Segundo esse novo estudo, a estrela havia per­dido 17% de seu bri­lho em ape­nas um século, algo incon­ce­bí­vel para estre­las da cate­go­ria a que per­tence nossa amiga KIC 8462852. Mas não só isso. A perda de ener­gia, quando ocorre em estre­las, usu­al­mente apre­senta algum padrão de cons­tân­cia e pre­vi­si­bi­li­dade. Porém, no caso da KIC 8462852, veri­fi­cou-se uma lenta redu­ção de 1% em sua ener­gia em três anos, depois repen­tina redu­ção de 2% no ano seguinte, seguida de seis anos de estra­nha esta­bi­li­dade. Isso defi­ni­ti­va­mente afas­tava a hipó­tese dos come­tas e tor­nava um pouco mais con­sis­tente a teo­ria de que se tra­tava de algo pro­du­zido por alguma causa não-natu­ral.

 

Implicações

Como disse, tal­vez o mais pro­vá­vel seja que den­tro de um mês ou um ano a comu­ni­dade cien­tí­fica apre­sente uma expli­ca­ção sobre os padrões de lumi­no­si­dade e as errá­ti­cas per­das de ener­gia a uma causa natu­ral. Em algum momento, a hipó­tese de ter­mos encon­trado o pri­meiro indí­cio de uma civi­li­za­ção ali­e­ní­gena vai se mos­trar infun­dada. Afi­nal, não foram iden­ti­fi­ca­das emis­sões excep­ci­o­nais de luz infra­ver­me­lha, um dos indí­cios de ati­vi­dade ali­e­ní­gena, o que enfra­quece a hipó­tese de uma mega­es­tru­tura arti­fi­cial.

Mas, até lá, é isso que temos. E já que a teo­ria de que a estrela KIC 8462852 é o pri­meiro sinal da exis­tên­cia de uma civi­li­za­ção ali­e­ní­gena mais evo­luída que a nossa, vamos espe­cu­lar, por­que neste momento fazer isso é mais diver­tido.

Se você leu o Para­doxo de Fermi, escrito pelo Tim Urban, sabe que mate­ma­ti­ca­mente as pro­ba­bi­li­da­des mais modes­tas indi­cam que há bilhões de civi­li­za­ções inte­li­gen­tes no uni­verso obser­vá­vel. Isso, aliás, é algo que o pró­prio Carl Sagan afir­mava em um dos arti­gos de The Cos­mic Con­nec­tion: cien­ti­fi­ca­mente falando, pelos nos­sos atu­ais ins­tru­men­tos de obser­va­ção, já deve­ría­mos ter iden­ti­fi­cado sinais de vida ali­e­ní­gena no uni­verso obser­vá­vel. O que estra­nha, o que é espan­toso é não ter­mos per­ce­bido nada ainda.

Esse é o Para­doxo de Fermi. É pra­ti­ca­mente impos­sí­vel que alguma civi­li­za­ção mais evo­luída já não tenha obser­vado a nossa exis­tên­cia, e no entanto o uni­verso inteiro parece estar mudo diante de nós, sem emi­tir nenhum sinal.

Há várias expli­ca­ções plau­sí­veis que ten­tam res­pon­der o Para­doxo de Fermi, como Tim Urban explica, sendo as mais popu­la­res a teo­ria de que há uma etapa no desen­vol­vi­mento de uma civi­li­za­ção que nenhuma espé­cie inte­li­gente do uni­verso obser­vá­vel e a teo­ria de que essas civi­li­za­ções exis­tem sim e estão cien­tes de nossa exis­tên­cia, mas nos obser­vam inte­res­sa­dos e de longe, como em um zoo­ló­gico, ocul­tos para não atra­pa­lhar nosso desen­vol­vi­mento natu­ral.

Mas há uma outra teo­ria inte­res­sante, embora pouco popu­lar, que parece se encai­xar per­fei­ta­mente à hipó­tese de que aca­ba­mos de des­co­brir uma mega­es­tru­tura ali­e­ní­gena em uma estrela obser­vá­vel por nos­sos teles­có­pios. É a de que as civi­li­za­ções ali­e­ní­ge­nas não têm qual­quer inte­resse por nós, não mais do que teriam por uma mari­posa ou uma baleia aqui na Terra. Em suma, nós nos acha­mos espe­ci­ais por­que o parâ­me­tro de com­pa­ra­ção que temos são os chim­pan­zés, mas tal­vez para seres real­mente inte­li­gen­tes nós não seja­mos mais inte­res­san­tes que abe­lhas cons­truindo col­meias ou aque­les cupins afri­ca­nos que erguem cupin­zei­ros gigan­tes.

Ou seja, segundo essa teo­ria que tenta expli­car o Para­doxo de Fermi, a vida inte­li­gente do uni­verso não se espan­tou ainda conosco, nos­sas ações indi­cam que não somos mais do que chim­pan­zés astu­tos. Basta ver, por exem­plo, o tempo trans­cor­rido entre a des­co­berta de como podía­mos inter­fe­rir no núcleo de um átomo e a cri­a­ção de uma bomba atô­mica que matou milha­res de pes­soas em um holo­causto nuclear (em ter­mos evo­lu­ci­o­ná­rios, o inter­valo foi de menos de um segundo). Basta, por exem­plo, obser­var a quan­ti­dade enorme de seres huma­nos que pas­sam fome ou estão pri­va­dos de outras neces­si­da­des bási­cas em um mundo no qual a pro­du­ção de ali­mento supera a capa­ci­dade de con­sumo da popu­la­ção glo­bal. Basta, por fim, estu­dar a quan­ti­dade de outras espé­cies que extin­gui­mos nos últi­mos dois mil anos e a catás­trofe ambi­en­tal que a vida humana repre­sen­tou para este pla­neta.

Não, nos­sos vizi­nhos olham nosso pla­neta e lamen­tam que um ani­mal em tudo mais estú­pido tivesse sido agra­ci­ado com um neo­cór­tex cere­bral desen­vol­vido, um pole­gar opo­si­tor e um apa­re­lho fona­dor capaz de arti­cu­lar pala­vras. Gra­ças a isso sabe­mos colo­car um tijolo em cima do outro e fazer alguns shows piro­téc­ni­cos, mas prin­ci­pal­mente mata­mos a nós mes­mos e des­truí­mos nosso pla­neta. Não, nos­sos vizi­nhos tem ver­go­nha de nós, obvi­a­mente não veem sen­tido para nos tirar do sta­tus tam­bém con­fe­rido ao suri­cato, pre­fe­rem nos igno­rar. E nos igno­rar tanto que só os des­co­bri­mos por­que jamais iriam se pre­o­cu­par, por outro lado, em gas­tar ener­gia e tempo cri­ando for­mas de não os des­co­brir­mos. Afi­nal, não repre­sen­ta­mos qual­quer ame­aça. Eles nos obser­vam e con­cluem que não ire­mos muito longe — que ire­mos aca­bar com nossa pró­pria espé­cie em algum momento.

Isso deve­ria nos ofen­der. Isso deve­ria mexer com o nosso orgu­lho. Se há lá fora, não muito dis­tante de nós, uma civi­li­za­ção tão evo­luída ao ponto de criar uma obra de enge­nha­ria que cerca uma estrela e retira sua ener­gia, essa civi­li­za­ção com cer­teza já per­ce­beu a nossa exis­tên­cia (ao menos pelas emis­sões de sinais de tele­co­mu­ni­ca­ções). Se essa civi­li­za­ção não se importa em entrar em con­tato mas tam­bém não se importa em se escon­der de nós, é por­que não nos leva em grande conta. Tal­vez a nossa inte­li­gên­cia não os impres­si­one, tal­vez faça­mos coi­sas estú­pi­das demais para que deem cré­dito a nossa capa­ci­dade de sobre­vi­ver.

Na vida adulta, o outro é sem­pre um grande espe­lho de nós mes­mos. Pelo outro, observo como sou jul­gado e ava­li­ado pelo mundo. Se o “outro” no uni­verso reflete a falta de espe­rança em nosso futuro, isso tal­vez seja um recado para mudar­mos dras­ti­ca­mente e ime­di­a­ta­mente o cami­nho que esta­mos seguindo.


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Você pode que­rer ler tam­bém:

A ciên­cia não é sua ini­miga | Ste­ven Pin­ker
Cien­tis­tas afir­mam que é pos­sí­vel haver vida em Marte

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe