medo de assédio

5 coisas que mulheres hesitam em fazer por medo de assédio

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Lara VascoutoComentário

Em março do ano pas­sado uma mulher sofreu uma ten­ta­tiva de estu­pro den­tro de um metrô lotado na cidade de São Paulo. Com a bar­ba­ri­dade da notí­cia, veio à tona final­mente todo o assé­dio (velado ou não) que as mulhe­res enfren­tam dia­ri­a­mente no trans­porte público por parte de homens imun­dos que tiram fotos de deco­tes, bun­das e cal­ci­nhas, enco­chando, apal­pando e roçando suas par­tes ínti­mas em mulhe­res desa­vi­sa­das.

Além do ato abu­sivo em si, os asse­di­a­do­res ainda criam sites e pági­nas em redes soci­ais para pos­tar as fotos e con­tar os “fei­tos do dia”. Algu­mas des­sas pági­nas con­tam com milha­res de segui­do­res.

Revol­tada, me peguei refle­tindo sobre essa situ­a­ção absurda e sobre todas as peque­nas coi­sas das quais nós, mulhe­res, somos pri­va­das de fazer no nosso coti­di­ano por medo de sofrer algum tipo de abuso – como ficar tran­quila den­tro de uma droga de trem, por exem­plo.

O pro­blema é que todas as mulhe­res já ouvi­ram his­tó­rias o sufi­ci­ente para saber que qual­quer assé­dio, por menor que seja, além de ofen­der e agre­dir, pode aca­bar se tor­nando um estu­pro. Por isso nós ten­ta­mos evi­tar ao máximo qual­quer com­por­ta­mento que possa dar mar­gem às liber­da­des por parte de homens na rua.

Isso acaba, por sua vez, nos pri­vando de algu­mas liber­da­des peque­nas e sim­ples. Entenda, não é que nós não pos­sa­mos fazer essas coi­sas. O grande pro­blema é o medo do que pode acon­te­cer. E é por isso que, na mai­o­ria dos casos, uma mulher pensa duas, três, qua­tro vezes antes fazer coi­sas sim­ples como…

Ser simpática com homens desconhecidos na rua

Na mai­o­ria das vezes, nada de mais vai acon­te­cer se você cum­pri­men­tar aquele homem que sem­pre encon­tra durante sua cami­nhada diá­ria com o cachorro, ou o gari que está sem­pre var­rendo a ave­nida perto da sua casa.

Na mai­o­ria das vezes, eles vão só res­pon­der bom dia de volta e vol­tar às suas ati­vi­da­des. No entanto, vez ou outra, em res­posta à sua boa edu­ca­ção, você vai rece­ber um olhar las­civo de volta, ou um sor­ri­si­nho safado, ou um bom dia cheio de ener­gia sexual con­tida. E por mais ino­fen­si­vas e abs­tra­tas que sejam essas rea­ções, elas sem­pre assus­tam e fazem com que a gente ace­lere o passo.

Quando isso passa a acon­te­cer mui­tas vezes, você começa a se per­gun­tar se vale mesmo a pena ser sim­pá­tica. Eu não con­se­gui dei­xar de ten­tar ser sim­pá­tica com estra­nhos que sem­pre encon­tro na rua, mas sem­pre rola uma certa apre­en­são e, mui­tas vezes, após uma breve ava­li­a­ção do indi­ví­duo, eu sim­ples­mente o ignoro.

Eu já che­guei a pas­sar qua­tro anos morando em um lugar sem nunca ter cum­pri­men­tado um gru­pi­nho de taxis­tas pelo qual pas­sava todos os dias, por­que um dia vi um deles dando um olhar las­civo para uma mulher que pas­sava de minis­saia e comen­tando gros­sei­ra­mente com o colega do lado. Meu namo­rado da época sem­pre os cum­pri­men­tava com fami­li­a­ri­dade. Mas eu perdi a prá­tica e as van­ta­gens da boa vizi­nhança por medo (e nojo). Parece pouco, mas é uma pequena liber­dade que se vai e a gente nem per­cebe.

Sair de casa vestindo o que quiser, independente do destino e do meio de transporte escolhido

Nós luta­mos pelo direito de ves­tir o que qui­ser­mos há tanto tempo, mas parece que sem­pre per­de­mos a bata­lha. É sem­pre o velho dis­curso: “oras, claro que o cara pas­sou a mão em você! Ves­tida desse jeito!”.

Esse dis­curso dói e cons­trange, mas dói mais ainda ter de acei­tar que apa­ren­te­mente homens são ani­mais des­con­tro­la­dos – e o são com aval da soci­e­dade. Claro que nós temos que lutar pelos nos­sos direi­tos e claro que uma saia curta nunca pode­ria jus­ti­fi­car um estu­pro. Mas estu­pros acon­te­cem mesmo assim.

Quando eu estava na facul­dade, eu usava as rou­pas que que­ria para ir ao lugar que bem enten­desse. Um dia, no entanto, enquanto espe­rava o ôni­bus em um ponto super movi­men­tado da ave­nida Pau­lista usando uma minis­saia em pleno sábado no auge do verão, eis que sinto que tem alguém me obser­vando. Quando pro­curo ins­tin­ti­va­mente o dono do olhar, qual não é o meu cho­que ao cons­ta­tar um homem sen­tado em uma mure­ti­nha atrás do ponto, olhando fixa­mente para mim e batendo uma punheta em minha home­na­gem.

Aquilo me dei­xou tão ofen­dida e tão eno­jada que nunca mais vol­tei a usar saia ou short no ôni­bus ou no metrô. Era mais um peda­ci­nho da minha liber­dade que eu estava per­dendo sem mesmo per­ce­ber. Não é que eu ache que eu pro­vo­quei aquilo com a minha minis­saia. É só que eu não quero pas­sar por isso de novo.

Mandar algum mala grosseiro na balada ir pastar

… por mais gros­seira que a can­tada dele tenha sido. É muito comum em bala­das uma mulher ser encur­ra­lada por algum cara mala, ou ter de lidar com algum nojento que decide que você deve­ria agra­de­cer o fato de ele ter esco­lhido a sua bunda para pas­sar a mão.

É mais comum ainda ver o indi­ví­duo ficar repen­ti­na­mente sur­preso, ofen­dido e agres­sivo quando você não fica agra­de­cida pela aten­ção que ele está lhe dando. Basi­ca­mente, o cara se trans­forma de safado-rei-do-xaveco a machão-injus­ti­çado.

Medo de assédio: seu tipo

Quando ado­les­cente, tive a infe­li­ci­dade de ser per­se­guida a noite inteira na balada por um mala peguento que não acei­tava minhas nega­ti­vas edu­ca­das. Quando me irri­tei de ver­dade e man­dei o cara me dei­xar em paz, fui brin­dada com uma série de xin­ga­men­tos agres­si­vos e obs­ce­nos, tanto por parte dele como de seus ami­gos, que se jun­ta­ram em defesa do “injus­ti­çado”. Vai então, sua vaca, frí­gida!, entre outras fra­ses ofen­si­vas e um empur­rão.

Em outras oca­siões, obser­vei o mesmo tipo de palha­çada acon­te­cendo com as minhas ami­gas. E con­forme fui cres­cendo, per­cebi que esse era o tipo de coisa que inva­ri­a­vel­mente acon­te­cia com todas as mulhe­res e até tomava tons real­mente vio­len­tos em alguns casos — como no caso da garota que teve o braço que­brado por um cara que não acei­tou bem a rejei­ção.

Aos pou­cos, eu e minhas ami­gas fomos enten­dendo a dinâ­mica das inte­ra­ções na balada e apren­dendo a não aca­bar a noite se sen­tindo como um monte de merda. Apren­de­mos a nunca andar sozi­nhas. Inven­ta­mos ges­tos que deve­riam ser­vir como sinais para pedir refor­ços umas às outras, caso a impor­tu­na­ção de algum cara não fosse bem-vinda. Inven­ta­mos nomes e núme­ros de tele­fone fal­sos para dar aos malas, para que eles fos­sem embora sen­tindo que ganha­ram alguma coisa. Basi­ca­mente, para que não nos agre­dis­sem, física ou ver­bal­mente.

Hoje em dia, faço tudo isso sem nem pen­sar. Ao invés de man­dar o cara que me encur­ra­lou na saída do banheiro e pegou na minha bunda tomar bem no meio do cu dele, que é o que eu real­mente tenho von­tade de fazer…

…eu sor­rio gen­til­mente me des­ven­ci­lhando e anun­cio que estão me espe­rando para logo em seguida ser res­ga­tada por umas duas ami­gas fiéis que já esta­vam por perto de plan­tão. Tal­vez ele bai­xasse a bola se eu fosse mais inci­siva. Tal­vez. Mas eu não quero cor­rer o risco de ser xin­gada ou agre­dida ou for­çada a fazer alguma coisa.

Eu não quero pas­sar por isso de novo. Por isso eu uso estra­té­gias e sou obri­gada a sor­rir lison­je­ada e me esqui­var quando na ver­dade estou irri­tada e ame­dron­tada. Eu e mais um bata­lhão de outras mulhe­res. E é mais uma pequena liber­dade que se vai.

Olhar quando alguém chama na rua

Parece real­mente idi­ota, mas recen­te­mente meu marido comen­tou comigo que eu devo andar real­mente dis­traída pela rua, por­que a tia dele já tinha pas­sado por mim duas vezes naquela semana e buzi­nado e eu não tinha nem olhado. No começo eu fiquei pen­sando que eu devia estar real­mente dis­traída e me senti meio mal por ter sido tão anti­pá­tica. Mas aí come­cei a pen­sar sobre isso e che­guei à con­clu­são que nunca olho quando alguém asso­via para mim, chama sem ser pelo meu nome ou buzina. E vas­cu­lhando minha memó­ria desde os meus 12 anos até agora con­se­gui enten­der por que isso acon­te­cia.

Sim­ples­mente por­que, quando alguém chama na rua, as chan­ces de ser alguém real­mente conhe­cido são ínfi­mas com­pa­ra­das às chan­ces de ser um per­ver­tido qual­quer com alguma can­tada obs­cena na ponta da lín­gua.

Medo de assédio: E essa cara.

E essa cara.

Então eu nunca olho, cor­rendo o risco de pare­cer extre­ma­mente anti­pá­tica para algum conhe­cido. Eu e mais um bata­lhão de mulhe­res. E é mais uma pequena liber­dade que se vai e a gente nem per­cebe.

Conversar com trabalhadores de construção civil na rua

Ok, esse item é bizarro, mas vou expli­car. Sem­pre me intri­gou muito o fato de o meu marido saber tanta coisa em rela­ção a fer­ra­men­tas, cons­tru­ção, enca­na­men­tos, fia­ção elé­trica, mecâ­nica — enfim, tudo que é tipi­ca­mente con­si­de­rado como “coi­sas de homens”. Ele tem mais ou menos a mesma idade que eu, for­ma­ção e inte­res­ses muito pare­ci­dos, mas por algum motivo sabe muito mais do que eu como todas essas coi­sas fun­ci­o­nam.

Um dia des­ses, depois de ele demons­trar algum conhe­ci­mento par­ti­cu­lar­mente absurdo sobre o con­serto de alguns canos aqui de casa eu explodi: mas como é pos­sí­vel que você saiba uma coisa des­sas? Onde raios você apren­deu isso?! Ele parou para pen­sar um pouco e disse: ah… eu sem­pre per­gun­tei muito. Sabe, para caras tra­ba­lhando em obras na rua. Para o faz-tudo do pré­dio… Tinha uma obra do lado do escri­tó­rio durante muito tempo e eu ia lá fuçar de vez em quando…

Medo de assédio: Pois é, eu também fiz essa cara.

Pois é, eu tam­bém fiz essa cara.

Claro, eu sei que esse não é o caso de todos os homens, e eu sei muito bem que eu não sei quase nada des­sas coi­sas por falta de inte­resse mesmo ou até por­que essas coi­sas sem­pre foram con­si­de­ra­das de inte­resse mas­cu­lino e eu sou menina (da mesma forma que eu sei mui­tas coi­sas sobre como tra­tar as unhas, enquanto meu marido não sabe nada — mas essa é outra dis­cus­são).

Mas a res­posta dele me intri­gou. Por­que se eu tivesse inte­resse em como se faz a fun­da­ção de um pré­dio eu pro­cu­ra­ria saber mais atra­vés da inter­net ou de livros. Nunca que eu iria futri­car na obra que está rolando do lado da minha casa.

Isso por­que nós, mulhe­res, temos um medo pato­ló­gico de ope­rá­rios de obras. E isso se explica por anos de assé­dio ver­bais dessa classe de tra­ba­lha­do­res que todas nós tive­mos que ouvir desde o momento que nos­sos seios come­ça­ram a apa­re­cer por baixo do uni­forme da escola (é fato que homens em grupo se sen­tem mais cora­jo­sos para falar merda para mulhe­res na rua — sejam eles ope­rá­rios de obras, sejam exe­cu­ti­vos de escri­tó­rio).

Mulhe­res não deci­dem sim­ples­mente parar na rua para tro­car uma idéia com um mes­tre de obras sobre o melhor tipo de telha para aquela cons­tru­ção. Não que eu ache que uma con­versa assim seria impos­sí­vel. Mas eu não con­sigo dei­xar de pen­sar: E se ele achar que você tem outras inten­ções? E se os cole­gas dele fize­rem algum comen­tá­rio desa­gra­dá­vel? E se depois a des­culpa dele for “mas ela estava dando bola, poxa!”.

Melhor não arris­car. E mais uma pequena liber­dade, a de falar com quem qui­ser sem medo, de bus­car infor­ma­ção, de fazer ami­za­des com pes­soas dife­ren­tes — tudo isso se perde, entre tan­tas outras peque­nas liber­dade que se vão todos os dias sem que a gente se dê conta.


(artigo publi­cado ori­gi­nal­mente no site Nó de Oito

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