capa-matriz-procrastinador

A Matriz do Procrastinador

Em Consciência, Série Procrastinação por Tim UrbanComentários

(Tra­du­ção auto­ri­zada por Tim Urban, autor do texto ori­gi­nal em inglês, publi­cado no site Wait But Why)

Nota: para enten­der este texto, você deve­ria ler pri­meiro a Parte 1 do texto sobre pro­cras­ti­na­ção.


Nos tem­pos da escola, se você me per­gun­tasse se eu era um pro­cas­ti­na­dor, eu res­pon­de­ria que sim. Os estu­dante escu­tam todos esses ser­mões sobre come­çar a fazer com ante­ci­pa­ção os tra­ba­lhos mais lon­gos, e eu orgu­lho­sa­mente me ante­ci­pei menos do que quase todo mundo que conhe­cia. Nunca perdi uma data de entrega, mas ape­nas por­que eu fazia tudo na noite ante­rior a essa data-limite. Eu sera um pro­cras­ti­na­dor.

Só que não. A escola é repleta de datas-limite e de tra­ba­lhos de curto prazo, e mesmo os tra­ba­lhos de longo prazo tinham datas-limite par­ci­ais que for­ça­vam você a ante­ci­par a rea­li­za­ção do tra­ba­lho. Houve alguns pou­cos momen­tos ter­rí­veis, mas na maior parte do tempo eu estava sim­ples­mente fazendo tudo no último minuto por­que eu sabia que podia fazer desse jeito — então, afi­nal, por­que não fazer?

Havia um Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea na minha cabeça, mas ele era mais engra­ça­di­nho do que qual­quer outra coisa. Com datas-limite sendo fixa­das cons­tan­te­mente, meu Mons­tro do Pânico nunca esteve total­mente ador­me­cido, e o macaco sabia que embora pudesse estar segu­rando o leme por algum tempo a cada dia, não era ele quem estava no comando.

001

002 003 004 005 006

E certo dia a escola ter­mi­nou, e levei minha vida agindo como uma pes­soa mais ou menos nor­mal. A uni­ver­si­dade não era como a escola. Os tra­ba­lhos eram gran­des, com um bocado de tempo entre as datas-limi­tes, e como você já não era mais uma cri­ança, os pro­fes­so­res não lhe tra­ta­vam como uma — nin­guém lhe for­çava a fazer o tra­ba­lho com ante­ci­pa­ção. Como o man­dato de um pre­feito, a maior parte das minhas aulas envol­viam uma pape­lada, um prazo inter­me­diá­rio e um exame final no prazo de qua­tro meses, o que sig­ni­fi­cava que na maior parte do tempo não havia árduas datas-limite no meu hori­zonte.

Sem datas-limite para mantê-lo ocu­pado, meu Mons­tro do Pânico, que não con­se­gue pen­sar a longo prazo, come­çou a pas­sar mais tempo em hiber­na­ção. Meu Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, que nunca per­ce­beu o quanto depen­dia do Mons­tro do Pânico, come­çou a ter difi­cul­da­des em con­du­zir seus pla­nos.

007 008

Quando mais meu Mons­tro do Pânico dor­mia, mais con­fi­ança o macaco ganhava. O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, o único no meu cére­bro que via as coi­sas cla­ra­mente, estava pre­o­cu­pado — ele sabia que os tra­ba­lhos da facul­dade eram bem mai­o­res do que os da escola, e que ante­cipá-los não era algo a ser des­pre­zado, mas algo deci­sivo a ser feito. Ele se pri­vava de com­pro­mis­sos soci­ais quando uma data-limte come­çava a se apro­xi­mar, mas isso não resol­via o pro­blema.

009 010 011

O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais podia se afun­dar ainda mais no deses­pero, e ape­nas nos momen­tos em que as coisa atin­giam seu nível mais ter­rí­vel é que have­ria alguma mudança.

012 013 014 015

Não impor­tava o quão óbvia uma deci­são pare­cia ao Toma­dor de Deci­sões, ficava claro que ele era total­mente inca­paz de con­tro­lar o macaco sem a ajuda do Mons­tro do Pânico.

016 017

018 019 020

Enquanto para meu Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais a uni­ver­si­dade foi fre­quen­te­mente uma expe­ri­ên­cia decep­ci­o­nante, para meu Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea foi plena Renas­cença, pois ele explo­rou uma ampla gama de ati­vi­da­des, em um esforço de encon­trar a si mesmo. Com um teclado Yamaha pró­ximo a minha mesa, o macaco tor­nou-se pro­gres­si­va­mente apai­xo­nado pela ideia de tocar piano. Quase pare­cia que os momen­tos em que meu Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais mais insis­tia dura­mente em come­çar a tra­ba­lhar eram os exa­tos momen­tos em que meu macaco sen­tia-se mais ins­pi­rado em colo­car os fones de ouvido e per­der-se por horas no teclado.

Quando a facul­dade ter­mi­nou, ani­mado por ter ter­mi­nado a edu­ca­ção forma, que cla­ra­mente não era algo para mim, eu me joguei no mundo com 1.000 ambi­ções sobre fazer 1.000 coi­sas. Só espere até o mundo me des­co­brir. Eu tinha tudo o que fosse ima­gi­ná­vel para ofe­re­cer, exceto conhe­ci­mento, habi­li­da­des e ética de tra­ba­lho.

Meu Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais pen­sou um bocado sobre isso, e ele com­pre­en­deu que o macaco havia pas­sado a facul­dade ten­tando lhe dizer algo impor­tante — que ele que­ria ser um com­po­si­tor. Essa era cla­ra­mente a coisa pela qual mais me sen­tia atraído e, final­mente, essa se tor­nou a coisa que eu supos­ta­mente deve­ria fazer todos os dias. Não mais lutar con­tra o macaco — ele teria exa­ta­mente o que dese­java. Eu havia des­co­berto o segredo da minha vida, e me mudei para Los Ange­les para com­por músi­cas.

Para pagar as con­tas, come­cei a dar aulas par­ti­cu­la­res a estu­dan­tes que que­riam melho­rar na escola ou se pre­pa­rar para o ves­ti­bu­lar, um tra­ba­lho tem­po­rá­rio que esco­lhi por­que não me dis­trai­ria do pro­jeto de me tor­nar o pró­ximo John Wil­li­ams. Era o ajuste per­feito, eu estava cheio de entu­si­amo pela música, e as coi­sas esta­vam evo­luind — até a coisa mais estra­nha acon­te­cer. Justo quando eu estava certo de que havia encon­trado o cami­nho, o macaco come­çou sua pro­cura por si mesmo. Quando o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais e eu sen­tá­va­mos para tocar piano e com­por algo — a exata ati­vi­dade com a qual o macaco ficou obse­cado na facul­dade — o macaco tinha um ata­que e se recu­sava a se unir a nós. O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais come­çou a ficar deses­pe­rado, da mesma forma que na uni­ver­si­dade.

Enquanto isso, o macaco havia encon­trado um novo inte­resse — ele tor­nou-se fixado no meu tra­ba­lho tem­po­rá­rio. Ensi­nar estava indo bem, a cli­en­tela estava aumen­tando, e enquanto o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais insis­tia que já está­va­mos aten­dendo estu­dan­tes demais, o macaco acei­tava cada novo cli­ente que sur­gia em nosso cami­nho. Logo o macaco come­çou a pen­sar grande, e sem con­sul­tar o resto de nós pas­sou a con­tra­tar meus ami­gos para dar aulas no meu lugar. O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais podia estar ansi­oso para mer­gu­lhar em com­po­si­ções, mas o dia inteiro havia sido usado em liga­ções telefô­ni­cas e enter­rado em pla­ni­lhas. O macaco tinha come­çado um empre­en­di­mento.

Meu cére­bro e eu aca­ba­mos parando em uma desa­gra­dá­vel terra-de-nin­guém. O macaco se recu­sava a per­mi­tir que nos devo­tás­se­mos à nossa car­reira musi­cal, e o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais se recu­sava a per­mi­tir que desen­vol­vês­se­mos a nova car­reira de empre­en­de­dor do macaco. Eu estava fazendo um monte de coi­sas e não.

021

Foi por essa época que meu melhor amigo Andrew se mudou para Los Ange­les. Andrew não é como eu. Ele vive e res­pira negó­cios, com nenhum inte­resse em bus­car coisa alguma nas artes, e desde que eu o conheci quando tínha­mos cinco anos, seu macaco era um saca­ni­nha domes­ti­cado que fazia o que lhe man­da­vam. Depois de Andrew se mudar, come­ça­mos a falar sobre tal­vez fazer­mos negó­cio jun­tos de alguma forma. Meu Toma­dor de Deci­sões raci­o­nais havia se recu­sado a levar o mundo dos negó­cios a sério até então, mas a pers­pec­tiva de come­çar uma empresa com Andrew e colo­car real­mente toda minha ener­gia nisso era sedu­tora — e o macaco estava cla­ra­mente a fim disso, então tal­vez essa fosse a coisa que eu devia estar fazendo desde o iní­cio. Decidi mer­gu­lhar nessa e cons­truir algo a par­tir do que eu havia come­çado, de modo que fun­da­mos uma empresa de ensino jun­tos.

O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais ainda lutava com essa deci­são de pau­sar o lado da música, mas a empresa estava cres­cendo rapi­da­mente, ter negó­cios com o Andrew era ótimo — como jogar um com­plexo jogo de estra­té­gia com um amigo — e o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais final­mente come­çou a se sen­tir con­for­tá­vel com a ideia de se envol­ver total­mente com negó­cios.

E isso foi a per­feita opor­tu­ni­dade para o macaco se tor­nar um ávido blo­gueiro.

022

Eu estava escre­vendo casu­al­mente em um blog por alguns anos naquele momento, mas ini­ciar uma empresa era exa­ta­mente o que o macaco pre­ci­sava para come­çar a ala­van­car com força total o hobby de escre­ver, e nos anos seguin­tes eu escrevi cen­te­nas de posts no meu blog durante minhas horas de folga. Eu ia para o tra­ba­lho todos os dias, e eu estava envol­vido enquanto estava lá — mas ao invés de fazer o que um empre­en­de­dor supos­ta­mente deve fazer fora do tra­ba­lho para man­ter a loco­mo­tiva andando (pen­sar sobre a estra­té­gia e per­mi­tir que o sub­cons­ci­ente con­ceda lam­pe­jos de epi­fa­nia de tem­pos em tempo), eu ficava pen­sando sobre o que escre­ve­ria a seguir no meu blog.

Em 2013, quando Andrew e eu deci­di­mos come­çar algo novo, nós olha­mos para meu macaco, vimos como ele estava envol­vido com seu blog, e pen­sa­mos que tal­ves essa fosse a coisa que eu deve­ria estar fazendo o tempo inteiro — então ini­ci­a­mos o Wait But Why. Andrew con­ti­nu­a­ria a desen­vol­ver nossa empresa enquanto eu fica­ria total­mente devo­tado a esse novo pro­jeto, dar ao macaco exa­ta­mente o que ele que­ria tanto.

___________

O que era típica pro­cras­ti­na­ção na facul­dade trans­for­mou-se em uma bizarra forma de insa­ni­dade assim que caí no mundo real. No coti­di­ano, no nível micro, sem­pre havia um ele­mento do nor­mal esquema “Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais tenta fazer algo e o macaco tenta tor­nar isso difí­cil”, mas em um nível macro, mais amplo, era quase como se esti­vés­se­mos per­se­guindo o macaco. Após ele me der­ro­tar tão cla­ra­mente na uni­ver­si­dade, pon­de­rei se lutar con­tra ele não teria sido meu pri­meiro erro. Ele nas­ceu de uma pro­funda, pri­mi­tiva parte de mim, então não fazia mais sen­tido pres­tar aten­ção em suas incli­na­ções e usá-las como meu guia?

Então é isso que ten­tei fazer — quando ele estava insis­ten­te­mente atraído por algo, eu even­tu­al­mente seguia sua lide­rança e cons­truía minha vida ao redor disso. Mas o pro­blema é que ele era quase uma mira­gem — uma vez que eu des­co­bria onde o  macaco estava, ele já não estava mais lá. Ele tinha ido para outro lugar. Isso era con­fuso — ele havia estado lá antes por­que real­mente que­ria estar, ou ele só estava lá por­que era onde o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais não estava? Ele real­mente tinha alguma voca­ção pró­pria, ou ele era ape­nas algum indes­cri­tí­vel adver­sá­rio malé­fico com a mis­são de me impe­dir de rea­li­zar qual­quer coisa gran­di­osa com meus talen­tos e ener­gia?

No ano pas­sado, eu me depa­rei com um pequeno dia­grama que, acre­dito, con­tém a chave para essas ques­tões. É cha­mado de Matriz Eise­nhower:

 

023

A Matriz Eise­nhower Matrix posi­ci­ona qual­quer coisa em que você pode gas­tar seu tempo em dois eixos: um que vai da tarefa mais urgente para a menos urgente, o outro que vai do que é deci­si­va­mente impor­tante para o que não tem nenhuma con­sequên­cia — e usando esses dois eixos a Matriz divide o mundo em qua­tro qua­dran­tes:

Qua­drante 1: Urgente e Impor­tante

Qua­drante 2: Não Urgente, mas Impor­tante

Qua­drante 3: Urgente, mas Não Impor­tante

Qua­drante 4: Não Urgente e Não Impor­tante

A matriz foi popu­la­ri­zada pelo famoso livro de Stephen Covey, Os Sete Hábi­tos das Pes­soas Alta­mente Efi­ca­zes, e rece­beu seu nome gra­ças ao Pre­si­dente ame­ri­cano Dwight Eise­nhower. Eise­nhower era famoso por ser tre­men­da­mente pro­du­tivo, a quem Corey atri­buía a filo­so­fia de “as pri­mei­ras coi­sas pri­meiro” em rela­ção a como gas­tar seu tempo. E para Eise­nhower, as “pri­mei­ras coi­sas” eram sem­pre as mais impor­tan­tes. Ele acre­di­tava que você deve­ria gas­tar quase todo o seu tempo nos Qua­dran­tes 1 e 2, ele fazia isso com uma sim­ples pala­vra ini­ci­ando com “D” em cada qua­drante:

024

E esse era o fan­tás­tico Dwight Eise­nhower. Mas você sabe o que ele cla­ra­mente não tinha em sua cabeça calva? Um todo-pode­roso Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâne. Se tivesse, ele sabe­ria que a matriz de um pro­cras­ti­na­dor pare­ce­ria com isso:

025

Se você qui­ser qual­quer reco­men­da­ção a res­peito do Qua­drante 4 (como che­gar, melho­res res­tau­ran­tes do Q4, etc.) basta per­gun­tar a um pro­cras­ti­na­dor. Eles moram lá. Para um não-pro­cras­ti­na­dor, o Q4 é um lugar legal para se pas­sar o tempo. Depois de um dia de tra­ba­lho pro­du­tivo em tare­fas impor­tan­tes, eles acham ótimo retor­nar ao Q4 — e nes­sas cir­cuns­tân­cias, há um nome para o Q4: O Play­ground Feliz. Mas os pro­cras­ti­na­do­res não se incli­nam a cir­cu­lar pelo Q4 após um efi­ci­ente dia de tra­ba­lho pro­du­tivo — eles ficam por lá com muito mais frequên­cia, con­tra sua von­tade, pois o macaco os arras­tou até lá, enquanto o tempo todo o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais está implo­rando para sair desse lugar. E eles têm um nome dife­rente para o Q4: o Play­ground das Tre­vas.

Quanto aos Qua­dran­tes 1 e 3 — os qua­dran­tes urgen­tes — a mai­o­ria dos pro­cras­ti­na­do­res vão aca­bar neles de vez em quando, em geral suando frio, com o Mons­tro do Pânico no seu can­gote, gri­tando. Q1 e Q3 man­tém o pro­cras­ti­na­dor longe das ruas.

E então temos o Qua­drante 2. Para um pro­cras­ti­na­dor, o Qua­drante 2 é um país estra­nho e estran­geiro, que fica muito muito longe. Tipo uma Atlân­tida ou Nár­nia. Ele sabe que é um lugar impor­tante, e ele ten­tou várias vezes che­gar lá, mas h;a um grande pro­blema — o macaco sente repulsa dessa terra, e o Mons­tro do Pânico não se pre­o­cupa com ela. E essa é a com­bi­na­ção mor­tal que toda vez der­rota o pro­cras­ti­na­dor.

O motivo pelo qual isso é um desas­tre é que a estrada que leva aos sonhos do pro­cras­ti­na­dor (a estrada para a expan­são de seus hori­zon­tes, a explo­ra­ção de seu ver­da­deiro poten­cial e a rea­li­za­ção de coi­sas que lhe dariam genuíno orgu­lho) passa dire­ta­mente pelo Qua­drante 2. Q1 e Q3 podem ser os luga­res em que as pes­soas vão para sobre­vi­ver, mas Q2 é onde as pes­soas cres­cem, pros­pe­ram e flo­res­cem.

Mas se você é um pro­cras­ti­na­dor, você tem sorte. Você tem um ás na manga — alguém ousado e sem medos, com abun­dante ener­gia e talento dinâ­mico, que pode der­ro­tar o macaco como quem pisa numa for­miga: o Eu do Futuro.

O Eu do Futuro é o ali­ado mais impor­tante de um pro­cras­ti­na­dor — alguém que sem­pre estará lá e que apoia você não importa o que ocorra. Sei disso em pri­meira mão. O Tim do Futuro é um cara incrí­vel.

Quando o des­per­ta­dor toca e não quero acor­dar, é só aper­tar o botão soneca e jogar o tra­ba­lho de sair da cama nas cos­tas do Tim do Futuro. Minha lista de tare­fas tem duas par­tes — uma curta e fácil para mim e uma longa e cheia de coi­sas que nem cogito em fazer, pois elas são muito obs­cu­ras. O Tim do Futuro sem­pre se encar­rega dessa lista sem recla­mar. O Tim do Futuro tam­bém não tem pro­blema nenhum até mesmo com as mais vis obri­ga­ções soci­ais. Fui recen­te­mente con­vi­dado para assis­tir o ensaio de uma peça com três horas de dura­ção escrita por alguém que mal conheço — e cer­ta­mente eu não tenho inten­ção alguma de fazer isso, mas eu tam­bém me sen­ti­ria cul­pado de dizer não, então expli­quei que esta­rei muito ocu­pa­dos nos pró­xi­mos meses, mas que fica­ria mais do que feliz de assis­tir quando ela estrear no verão, quando então será um pro­blema do Futuro Tim, e não meu.

O Tim do Futuro tam­bém tem uma dis­ci­plina e um equi­lí­brio em sua vida que eu pode­ria ter só nos meus sonhos. Eu nunca fui um atleta — mas o Tim do Futuro está numa aca­de­mia e faz as cor­ri­das na esteira por nós dois, e eu adoro como ele pre­para refei­ções sau­dá­veis, pois eu pes­so­al­mente não tenho tempo. O Tim do Futuro é o tipo de cara que nós gos­ta­ría­mos de ser — eu sugiro que o conheça você mesmo, o que pode fazer com­prando seus livros, pois ele é um escri­tor pro­lí­fico.

Mas o papel mais impor­tante que o Tim do Futuro desem­pe­nha na minha vida nos faz retor­nar a Matriz de Eise­nhower. Por um con­ve­ni­ente golpe do des­tino, o Tim do Futuro passa quase todo o seu tempo em um lugar onde apa­ran­te­mente eu não con­sigo che­gar: o impor­tan­tís­simo Qua­drante 2. O Tim do Futuro é o pre­feito do Qua­drante 2, e quando faço uma lista de tare­fas impor­tan­tes e noto que a mai­o­ria está situ­ada no Q2, eu não pre­ciso me deses­pe­rar, pois sei que o Tim do Futuro está cui­dando delas. E isso é legal, con­si­de­rando quan­tas vezes o Pre­té­rito Tim, esse idi­ota inú­til, me dei­xou numa situ­a­ção mise­rá­vel:

026

Mas ape­sar de todas as vir­tu­des do Tim do Futuro, ele tem um defeito fatal que pra­ti­ca­mente arruina tudo: ele não existe.

Ocorre que o Eu do Futuro é tão ilu­só­rio quanto a pai­xão do macaco por um hobby. Eu con­tava com a real exis­tên­cia do Tim do Futuro para rea­li­zar meus mais impor­tan­tes pla­nos, mas cada vez que che­gava o momento no qual eu acre­di­tava que iria encon­trar o Futuro Tim, ele não estava em lugar nenhum — a única pes­soa ali era o idi­ota do Tim do Pre­sente. Esse era real­mente o pro­blema com o Eu do Futuro — sem­pre que chega a sua hora, já não é mais o Eu do Futuro que está ali, e sim o Você do Pre­sente, e o Você do Pre­sente não pode fazer todas as tare­fas que você atri­buiu ao Eu do Futuro por­que elas só podem ser fei­tas por alguém sem um macaco den­tro de si. Você as desig­nou para o Eu do Futuro prin­ci­pal­mente por­que ele não tem um macaco — essa é toda a ques­tão. Então você faz o que sem­pre faz — você delega para o Você do Futuro, espe­rando que da pró­xima vez em que pre­ci­sar dele, ele real­mente venha a exis­tir.

Foi isso que me dei­xou inca­paz, por anos, de colo­car na minha vida todas as ener­gias. As tare­fas impor­tan­tes em geral habi­tam o Q2, um lugar em que tinha difi­cul­da­des de che­gar, de forma que eu dire­ci­o­nava essa ener­gia exce­dente para um hobby. O macaco ficava super envol­vido com esses hob­bies, pois hob­bies estão, por defi­ni­ção, no Q4 — um lugar em que o macaco adora estar.

Então isso é o que acon­te­ceu enquanto eu ten­tava seguir a car­reira de com­po­si­tor:

027

E quando eu deci­dia “seguir as ordens do macaco” e me envol­ver com um empre­en­di­mento, eu estava igno­rando o ponto prin­ci­pal: “me envol­ver” com um empre­en­di­mento sig­ni­fi­cava tor­nar o empre­en­di­mento a coisa que eu tinha de fazer, o que fazia com que uma tarefa não impor­tante se trans­for­masse em uma tarefa impor­tante - movia “empre­en­di­mento” do Q4, o lugar favo­rito do macaco, para o Q2, seu lugar menos favo­rito.

028

 

O fato de que eu espe­rava que o macaco per­ma­ne­cesse obse­cado com o empre­en­di­mento depois de colo­car isso no Q2 mos­tra o quão pouco eu com­pre­en­dia esse pri­mata. A pai­xão do  macaco nunca era a música, ou os negó­cios, ou escre­ver num blog — a pai­xão do macaco sem­pre foi o Q4.

E a coisa que o macaco real­mente adora sobre o Q4 não é algo em espe­cí­fico rela­ci­o­nado a esse qua­drante — o que ele adora é que o Qua­drante 4 não é o Qua­drante 1 nem o 2. O macaco, cuja prin­ci­pal moti­va­ção é fazer aquilo que for mais fácil, não suporta os qua­dran­tes do eixo “impor­tante”, pois é neles onde que há pres­são — é neles que há algo impor­tante a ser pro­vado, onde suas ações têm con­sequên­cias, onde as apos­tas são altas, e onde você está mirando nas estre­las, o que sig­ni­fica que você pode falhar em alcançá-las. Não mesmo muito obri­gado, diz o macaco. Escre­ver 300 posts num blog quando eu deve­ria estar bolando bri­lhan­tes estra­té­gias para meu negó­cio não era “fácil” no sen­tido de que eu não pre­ci­sava tra­ba­lhar duro para escrevê-los — era “fácil” no sen­tido de que nada estava em jogo. Enfren­tar ris­cos é algo real­mente difí­cil para um ser humano.

___________

Quando come­cei a escre­ver posts no site Wait But Why, eu que­ria escre­ver sobre pro­cras­ti­na­ção. Eu pre­ci­sava ten­tar arti­cu­lar a lou­cura que havia na minha cabeça. Depois de atri­buir essa mis­são assus­ta­dora ao Tim do Futuro por algum tempo, eu final­mente mordi a bala e fiz o que tinha de fazer.

A recep­ti­vi­dade foi gigan­tesca. Em com­ple­mento a mais de 1.300 comen­tá­rios nos dois posts, houve uma enxur­rada de emails que recebi de lei­to­res:

029Foram milha­res de emails. Apa­ren­te­mente, todo esse pro­blema não era só meu.

E os emails não eram cur­tos, “Oi gos­tei dos posts sobre pro­cras­ti­na­ção tchau” — eles eram enor­mes. E como­ven­tes. Um bom número dos lei­to­res dizia que os posts os fize­ram cho­rar. E eles não cho­ra­vam por­que fica­ram como­vi­dos com meus dese­nhos de vare­ti­nhas — eles cho­ra­vam por­que esta­vam lendo sobre o maior pro­blema de suas vidas.

O per­fil daque­les que me escre­ve­ram é abran­gente, incluindo todas as ida­des, todos os tipos de pro­fis­são, e sendo envi­a­dos de pra­ti­ca­mente cada país do mundo. Eu li emails de um menino de 13 anos do Paquis­tão, um pro­fes­sor de meia idade da Argen­tina, uma enfer­meira apo­sen­tada de 80 anos do Mis­sis­sipi, um desig­ner grá­fico da Ale­ma­nha, um autor da Aus­tra­lia, um pro­du­tor de cinema de Gana e de um empre­sá­rio core­ano. E de estu­dan­tes de mes­trado — hor­das de estu­dan­tes de mes­trado — rea­li­zando a deci­siva tarefa do Q2.

De certa forma, todas essas pes­soas tem o mesmo e exato pro­blema, e o mesmo pro­blema que tenho — um Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ins­tan­tâ­nea que não con­se­guem con­tro­lar. Mas notei, depois de ler uma de suas his­tó­rias, que a exten­são do quanto esse pro­blema estava arrui­nando suas vidas vari­ava dras­ti­ca­mente, depen­dendo de alguns fato­res-chave sobre suas cir­cuns­tân­cias par­ti­cu­la­res. Esta dis­tin­ção posi­ci­o­nou os lei­to­res que me escre­vera emails em três cate­go­rias:

1) O Desobs­ti­na­dor

030

De todos os pro­cras­ti­na­do­res, os Desobs­ti­na­do­res estão em pior forma. Um Desobs­ti­na­dor é per­ma­nente acam­pado no Qua­drante 4, e a pro­cras­ti­na­ção está des­truindo com­ple­ta­mente sua vida. Um pro­cras­ti­na­dor em geral se torna um Desobs­ti­na­dor por uma de duas razões:

  1. A) Seu macaco parou de ter medo do Mons­tro do Pânico e se tor­nou todo-pode­roso;
  2. B) Eles são pro­cras­ti­na­do­res nor­mais mas estão em uma fase da vida em que não há pra­zos nem pres­são

A situ­a­ção A é tre­vas total, e como aprendi com os emails dos lei­to­res, não tão inco­mum. Essas pes­soas per­de­ram a habi­li­dade de fazer qual­quer coisa que seja impor­tante para elas e ou estão em uma espi­ral des­cen­dente ou se entre­ga­ram com­ple­ta­mente.

Na situ­a­ção B, o Desobs­ti­na­dor não é um pro­cras­ti­na­dor pior do que os outros, é só que as cir­cuns­tân­cias se com­bi­na­ram de uma forma catas­tró­fica para sua per­so­na­li­dade. Seu tipo de vida e de tra­ba­lho não dão ao Mos­tro do Pânico nenhuma razão para acor­dar afina, e infe­liz­mente o macaco não está apa­vo­rado pelo mons­tro da auto-recri­mi­na­ção.

031

O resul­tado é que o Desobs­ti­na­dor não faz coisa nenhuma, nunca. Mui­tos dos can­di­da­tos ao mes­trado que me envi­a­ram email esta­vam nessa cate­go­ria.

2) O Impos­ti­na­dor

Não fala­mos muito sobre o Qua­drante 3, mas pode ser o qua­drante mais peri­goso de todos, e é onde o Impos­ti­na­dor impera. A vida do Impos­ti­na­dor se parece com isto:

032O Impos­ti­na­dor parece pro­du­tivo, mas ele é na ver­dade um fal­sá­rio — um pro­cras­ti­na­dor usando a más­cara de uma pes­soa pro­du­tiva. Pas­sando todo seu tempo de tra­ba­lho no Q3, ele parece ocu­pado — ele está ocu­pado — mas jamais con­se­gue fazer qual­quer pro­gresso em suas metas ver­da­dei­ras.

Os Impos­ti­na­do­res têm um macaco sagaz, e o Q3 é o tru­que mais sagaz do macaco. O macaco sabe que o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, que pode ser cré­dulo, pode ser apa­zi­guado se pas­sar muito tempo fora do Play­ground das Tre­vas que há no Q4. Então o macaco do Impos­ti­na­dor cria uma bata­lha tran­sita entre Q4 e Q3, e isso fun­ci­ona por­que Q3 parece pro­du­tivo ao Impos­ti­na­dor. Isso se baseia em uma das prin­ci­pais ilu­sões do Impos­ti­na­dor — que estar ocu­pado é o mesmo que ser pro­du­tivo.

Assim o Impos­ti­na­dor pas­sará o dia inteiro res­pon­dendo emails, envi­ando men­sa­gens, fazendo cha­ma­das, orga­ni­zando lis­tas e agen­da­men­tos, par­ti­ci­pando de reu­niões, etc. E se ele ava­lia a si mesmo con­forme o tempo em que fica fora do Play­ground das Tre­vas, ele então é um sucesso esma­ga­dor. Mas no fim do dia, a satis­fa­ção que sente tem algo de vazio, e o Play­ground Feliz nunca é total­mente feliz. Ele pode ter ilu­dido a si mesmo a pen­sar que está vivendo uma vida pro­du­tiva, mas no seu sub­cons­ci­ente ele sabe que não está fazendo o que deve­ria fazer. Sua sen­sa­ção de rea­li­za­ção vem acom­pa­nhada de um deses­pero sub­ja­cente.

Na ver­dade, ele está viven­ci­ando uma enorme e abran­gente pro­cras­ti­na­ção, bri­lhan­te­mente ela­bo­rada por seu macaco. Ao invés de ten­tar ven­cer o cabo-de-guerra entre fazer o que importa (as coi­sas que estão em Q2) e o Play­ground das Tre­vas, o macaco do impos­ti­na­dor engana o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais fazendo-o lutar no campo de bata­lha errado, e então deixa-o “ven­cer” neste campo de bata­lha, o que o faz crer que está fazendo um bom tra­ba­lho.

A outra difi­cul­dade que o Impos­ti­na­dor enfrenta é que às vezes o Q3 se fan­ta­sia de Q1. Um Impos­ti­na­dor ocu­pado fre­quen­te­mente acre­dita que o tra­ba­lho urgente no qual está absor­vido é impor­tante, mas o pro­blema é aquilo que Eise­nhower disse melhor do que nin­guém:

O que é impor­tante rara­mente é urgente, e o que é urgente rara­mente é impor­tante.”

Em outras pala­vras, o Qua­drante 1 fre­quen­te­mente não existe. Não é sem­pre o caso, mas é espe­ci­al­mente pro­vá­vel que isso seja ver­dade para pes­soas que ainda tem que impul­si­o­nar sua car­reira, por­que usu­al­mente quando algo real­mente impor­tante é tam­bém urgente, isso sig­ni­fica que você tem algo bom acon­te­cendo. Isso cria uma cilada, na qual a pes­soa que pre­cisa fazer algo urgente para ser efi­ci­ente (pro­cras­ti­na­do­res no iní­cio de sua car­reira) são fre­quen­te­mente aque­les com o Qua­drante 1 vazio.

Quanto mais o tempo passa, mais eu penso que estar super ocu­pado sig­ni­fica estar preso no Q3 (usu­al­mente mis­tu­rado com muito tempo pas­sado no Q4). Sei que quando me vejo numa des­sas situ­a­ções em que digo a todas as pes­soas o quanto ocu­pado estou e quão pouco tempo tenho para elas, isso quase sem­pre ocorre por­que estou sobre­car­re­gado com por­ca­rias do Q3. Pes­soas que real­mente estão no ápice da sua vida — real­mente no con­trole das coi­sas — ten­dem a ter muito espaço em suas agen­das. Mas a soci­e­dade sorri para as pes­soas ocu­pa­das, e a frase “acho que você tem tempo de sobra” é um insulto, e isso deixa o Impos­ti­na­dor com a apa­rên­cia — e fre­quen­te­mente com a sen­sa­ção — de estar fazendo a coisa certa. E ape­sar de o Impos­ti­na­dor sem­pre se achar supe­rior ao Desobs­ti­na­dor, a ver­dade é que em ter­mos de real pro­du­ti­vi­da­des nas coi­sas que impor­tam, ambos são seme­lhan­tes.

A prin­ci­pal lição aqui é que você pre­cisa tomar cui­dado com o Qua­drante 3. Esse qua­drante pega você pelo pes­coço e joga em um cami­nho no qual você reage às coi­sas. Não é um lugar de auto-con­trole. E se você não for cui­da­doso, Q3 vai sugar toda sua vida. Eu sei disso, por­que pas­sei um bom tempo da minha vida sendo um Impos­ti­na­dor.

Dos vários Impos­ti­na­do­res que me envi­a­ram email, as pro­fis­sões mais comuns são a de artis­tas de alguma espé­cie ou de empre­en­de­do­res. Em ambas as situ­a­ções, você é seu pró­prio chefe, e o tra­ba­lho impor­tante a fazer — apri­mo­rar sua téc­nica, apro­fun­dar suas redes de con­ta­tos, cum­prir uma mis­são cri­a­tiva — são rara­mente urgen­tes.=

3) Os Suces­ti­na­do­res

Após des­per­di­çar a maior parte da minha vida me sen­tindo inca­paz de apro­vei­tar meu poten­cial, desde que ini­ciei o Wait But Why há um ano e meio atrás, escrevi mais de 250 mil pala­vras — o equi­va­lente a um livro de mil pági­nas — e o que faço real­mente é impor­tante para mim. Pela pri­meira vez, a satis­fa­ção de rea­li­zar algo não vem acom­pa­nhada de um pouco de culpa ou vazio ou deses­pero. Eu con­se­gui! Eu sou um rea­li­za­dor.

Só que não.

A ver­dade é que eu não resolvi os pro­ble­mas do meu macaco nem um pouco mais do que os Impos­ti­na­do­res e Desobs­ti­na­do­res que me envi­a­ram email — a grande dife­rença é que eu me colo­quei em uma situ­a­ção na qual há um grande e gordo Qua­drante 1 na minha vida. O rela­ci­o­na­mento íntimo que um blog tem com pes­soas reais e vivas (e a pres­são que isso gera) torna as tare­fas impor­tan­tes de um blo­gueiro em tare­fas urgen­tes assim que há lei­to­res o sufi­ci­ente para o Mons­tro do Pânico come­çar a se inte­res­sar pela coisa.

Para um pro­cras­ti­na­dor, isso é o posto de uma situ­a­ção de mes­trado, a qual des­crevi como uma com­bi­na­ção catas­tró­fica para um pro­cras­ti­na­dor. Escre­ver regu­lar­mente para uma audi­ên­cia ime­di­ata é um exem­plo de ter­rí­vel com­bi­na­ção para a per­so­na­li­dade de um pro­cras­ti­na­dor, por­que isso coloca o Mons­tro do Pânico em uma loca­li­za­ção per­feita — isso ali­nha o Mons­tro do Pânico com sua mais impor­tante atri­bui­ção.

Claro, meu macaco ainda está fazendo bagunça por toda minha vida de todas as manei­ras que con­se­gue. Mas há uma dis­tin­ção deci­siva entre o que ele está fazendo agora e o que ele está fazendo durante meus pro­je­tos ante­ri­o­res. Com aque­les outros pro­je­tos, ele pas­sava seu tempo no Q4 bus­cando pro­je­tos reais e ambi­ci­o­sos — e ele era auto­ri­zado a fazer isso por­que o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais não estava intei­ra­mente certo sobre o que que­ria, e ele se ques­ti­o­nava se o macaco estava se envol­vendo em algo impor­tante durante suas dis­tra­ções. Mas ao menos até agora, tra­ba­lhar no Wait But Why é a coisa certa para o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, pois real­mente passa muito tempo no eixo das coi­sas impor­tan­tes da Matriz de Eise­nhower, então ele tem uma con­vic­ção a res­peito des­sas tare­fas que não tinha ante­ri­or­mente. Por causa disso, ele deixa o macaco ir dan­çando entre o Q4 e o Q3, prin­ci­pal­mente por­que ele não tem nenhum poder de impedi-lo, mas ele não per­mite que o macaco se dedi­que a algo sério durante seu tempo.

Eu não supe­rei a pro­cras­ti­na­ção, mas pelo menos por enquanto, final­mente estou no menos pior dos tipos de situ­a­ções em que pode se achar um pro­cras­ti­na­dor — sou um Suces­ti­na­dor.

033

A Suces­ti­na­dor des­co­briu um tipo de pali­a­tivo para seu pro­blema, mas não é bonito, fre­quen­te­mente não é sau­dá­vel e em geral não é sus­ten­tá­vel. É uma solu­ção pro­vi­só­ria para uma máquina pro­ble­má­tica con­ti­nuar fun­ci­o­nando por algum tempo.

Recebi um bocado de emails de Suces­ti­na­do­res, e o padrão é con­sis­tente e seme­lhante a minha situ­a­ção atual. Um Suces­ti­na­dor pode estar feliz com sua vida, mas ele em geral não está feliz na sua vida. E isso ocorre por­que ser um Suces­ti­na­dor não faz de você um sucesso. Alguém que faz alguma coisa pro­fis­si­o­nal­mente bem ao custo do seu equi­lí­brio, rela­ci­o­na­men­tos e saúde não é um sucesso. O sucesso ver­da­deiro sig­ni­fica ter tanto a vida pes­soal quanto a pro­fis­si­o­nal fun­ci­o­nando bem e em hamo­nia — e os Suces­ti­na­do­res estão estres­sa­dos demais, indis­po­ní­veis demais, e fre­quen­te­mente se veem pri­va­dos com­ple­ta­mente do Play­ground Feliz, o que é um com­po­nente crí­tico para uma vida feliz. Um Suces­ti­na­dor é tam­bém em geral algém limi­tado em suas pos­si­bi­li­da­des pro­fis­si­o­nais — tra­ba­lhos impor­tan­tes podem ser fei­tos no Q1, mas nesse qua­drante em geral ficam as tare­fas de manu­ten­ção do estado das coi­sas. Q2 ainda é onde a maior parte do cres­ci­mento pro­fis­si­o­nal e pen­sa­men­tos fora da cai­xi­nha acon­te­cem, e como todo os pro­cras­ti­na­do­res, os Suces­ti­na­do­res rara­mente colo­cam os pés no Q2.

___________

Há pro­ble­mas mai­o­res no mundo do que a pro­cras­ti­na­ção. Coi­sas como pobreza, doença, enfer­mi­dade men­tal e vícios fazem a pro­cras­ti­na­ção ter a fisi­o­no­mia de um pro­blema para pri­vi­le­gi­a­dos — algo com que pos­sam sofrer aque­les cujas vidas não têm nenhum real sofri­mento.

Mas se um cético gas­tasse algu­mas horas lendo a mon­ta­nha de emails de pro­cras­ti­na­do­res que recebi, acho que eles con­cor­da­riam que esse é um sério pro­blema para mui­tas, mui­tas vidas. E isso não pre­ju­dica ape­nas ao pro­cras­ti­na­dor — isso pre­ju­dica as pes­soas pró­xi­mas ao pro­cras­ti­na­dor, espa­lhando seu efeito.

Há tam­bém uma perda para o mundo. Para cada Steve Jobs ou John Len­non ou Hil­lary Clin­ton ou J. K. Rowling ou qual­quer outro cujo talento tenha melho­rado nos­sas vidas, há milha­res de outras pes­soas com idên­tico poten­cial mas que nunca o reve­la­rão para o mundo por­que des­per­di­çam seu tempo nos qua­dran­tes erra­dos.

Uma forma de enxer­gar isso é que cada vida humana tem certo número de “pon­tos de tempo” e depende de você como os gas­tará. Con­si­dere a dife­rença entre alguém que passa 30 horas por semana no Q2 e alguém que ape­nas con­se­gue ficar 2 horas por semana no Q2. Con­si­de­rando que o Q2, para mui­tos, é onde o ver­da­deiro pro­gresso ocorre, ao longo das suas vidas as pes­soas que con­so­mem 30 horas por semana no Q2 terão pro­gre­dido 15 vezes mais em suas vidas do que aquela outra que gasta só 2 horas. E na ver­dade, a soma total é pro­va­vel­mente muito maior do que 15, desde que o pro­gresso chama mais pro­gresso e a taxa de mul­ti­pli­ca­ção deve ser ace­le­rada (por exem­plo, Steve Jobs não teria rea­li­zado 1/15 do que rea­li­zou se ele tivesse gasto só 1/15 de seu tempo em tare­fas pro­du­ti­vas — ele pro­va­vel­mente não teria rea­li­zado nada). A dife­rença entre uma pes­soa comum e uma pes­soa extra­or­di­ná­ria pode sim­ples­mente vir da dife­rença em como eles alo­cam seus pon­tos de tempo.

Afastando a Ilusão

Se que­re­mos apri­mo­rar nosso uso dos pon­tos de tempo, o pri­meiro passo é apren­der a ver o mundo atra­vés de uma Matrix de Eise­nhower trans­lú­cida — o que sig­ni­fica afas­tar todas as ilu­sões. Nós pre­ci­sa­mos desen­vol­ver defi­ni­ções pre­ci­sas sobre o que é urgente e o que é impor­tante, o que vai ser dife­rente para cada pes­soa e requer um mer­gu­lho pro­fundo na ques­tão mais íntima de todas: o que mais importa para mim?

Brett McKay define “tare­fas impor­tan­tes” como sendo aque­las que con­tri­buiem para nossa mis­são de longo prazo, nos­sos valo­res e nos­sos obje­ti­vos. É uma defi­ni­ção direta, abran­gente e básica, a qual deve­mos retor­nar quando ava­li­a­mos a impor­tân­cia de algo durante nossa cami­nhada.

O pro­cesso de clas­si­fi­car o que é e o que não é urgente deve girar em torno da dis­cus­são pes­soal sobre o que é mais impor­tante. Ide­al­mente, a urgên­cia não deve sig­ni­fi­car “a tarefa que está agar­rando mais forte o meu pes­coço”, mas sim ser defi­nida pelo que, entre todas as tare­fas impor­tan­tes da sua lista, tra­ria a você mais bene­fí­cio se fosse rea­li­zado mais cedo do que mais tarde. Usando essa defi­ni­ção, cer­ta­mente pas­sar um tempo com seus filhos cer­ta­mente será qua­li­fi­cado como urgente, o que não seria se usás­se­mos a típica defi­ni­ção de urgên­cia como algo tipi­ca­mente rela­ci­o­nado com o cum­pri­mento de pra­zos fatais. Em outras pala­vras, a ordem de suas pri­o­ri­da­des é muito melhore esta­be­le­cida pelo seu Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais do que pelo seu Mons­tro do Pânico. A sabe­do­ria está com o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais, e quando o des­ce­re­brado Mons­tro do Pân­tano é quem dita o que é urgente ou não, você renun­cia à sabe­do­ria do Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais.

Você pode tam­bém que­rer unir algu­mas infor­ma­ções fac­tu­ais sobre como você está gas­tando seus pon­tos de tempo, regis­trando suas horas na pró­xima semana e obser­vando quan­tas delas caem em cada um dos qua­dran­tes (você pro­va­vel­mente se sur­pre­en­derá nega­ti­va­mente com os resul­ta­dos).

Tornando-se dono do seu cérebro

Uma vez que você com­pre­en­deu como fun­ci­ona a sua Matriz de Eise­nhower e onde suas diver­sas fron­tei­ras estão, você pre­ci­sará fazer a parte difí­cil e ganhar o con­trole sobre como você gasta seus pon­tos de tempo em cada qua­drante. E isso, para um pro­cras­ti­na­dor, é o grande desa­fio de sua vida.

As recom­pen­sas em ganhar o con­trole são óbvias. É incrí­vel o quanto uma pes­soa pode rea­li­zar — enquanto tam­bém man­tém um estilo de vida equi­li­brado — se está no con­trole de seu gasto de pon­tos de tempo. E aque­les que não estão no con­trole per­de­rão a maior parte de seus pon­tos de tempo no Q3 e no Q4 e sen­ti­rão como se não tives­sem tempo nem para seu tra­ba­lho nem para sua qua­li­dade de vida, tudo isso enquanto rea­li­zam muito pouco. A alo­ca­ção de pon­tos de tempo é tudo.

Um pro­cras­ti­na­dor em uma situ­a­ção deses­pe­ra­dora pode tomar um passo tímido na dire­ção certa atra­vés do método de força-bruta que seria rear­ran­jar sua vida de uma forma que o faça um Suces­ti­na­dor. É onde estou agora, e isso é um inferno bem melhor do que aquele onde eu estava antes.

Mas isso é como con­tra­tar um guarda-cos­tas ao invés de apren­der como lutar. O ver­da­deiro obje­tivo de um pro­cras­ti­na­dor deve ser des­co­brir como tor­nar-se o dono do seu cére­bro. A rea­li­dade de um pro­cras­ti­na­dor é que seu eu inte­rior — o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais — é o grande chefe de sua vida na teo­ria, mas na prá­tica ele é ape­nas um espec­ta­dor. O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais de um pro­cras­ti­na­dor vai, impo­tente, para onde as ondas o levam, pulando de ati­vi­dade em ati­vi­dade pelas for­ças pri­mais do Macaco da Gra­ti­fi­ca­ção Ime­di­ata e do Mons­tro do Pânico. Até que o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais de um pro­cras­ti­na­dor possa andar, por si mesmo e sem­pre que qui­ser, do Q4 ao Q2, ele não está curado.

___________

Se você pro­cu­rar no Goo­gle agora por “como parar a pro­cras­ti­na­ção”, encon­trará mil arti­gos, todos ofe­re­cendo óti­mos con­se­lhos sobre como fazer isso. O pro­blema é que esses arti­gos são sem­pre escri­tos por pes­soas sãs, e pro­cras­ti­na­do­res não são pes­soas sãs. Um piloto de car­ros de cor­rida pode rece­ber todo o trei­na­mento do mundo, mas se, quando começa a cor­rida, é uma outra pes­soa que está con­tro­lando o volante e os pedais, todo o trei­na­mento é inú­til.

Eis por­que a única forma de um pro­cras­ti­na­dor colo­car suas mãos no volante é se ele sua pro­fe­cia auto-rea­li­zá­vel — seu roteiro — dis­ser que ele pode. E rotei­ros ape­nas mudam no mundo real dos atos. Como o lance da gali­nha e do ovo e quem veio pri­meiro.

No nível mais pro­fundo, tudo se resume em uma bata­lha de auto­con­fi­ança. O Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais e o maca­cao tem ideias par­ti­cu­la­res sobre como gas­tar seus pon­tos de tempo, e sem­pre que um deles está mais con­fi­ante (quem quer que tenha uma forte crença de que é o alfa da rela­ção) acaba pre­va­le­cendo. A dife­rença entre um pro­cras­ti­na­dor e um não-pro­cras­ti­na­dor reside no sim­ples fato de que tanto o macaco como o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais do pro­cras­ti­na­dor acre­di­tam que o macaco é o alfa, enquanto no caso do não-pro­cras­ti­na­dor tanto seu macaco quanto o Toma­dor de Deci­sões raci­o­nais acre­di­tam que esse último é o chefe.

Mas por mais que esses níveis de con­fi­ança este­jam arrai­ga­dos, o macaco e o Toma­dor de Deci­sões Raci­o­nais com­par­ti­lham um único poço de con­fi­ança com uma quan­ti­dade fixa dela — quando a con­fi­ança de um sobe, a do outro fica redu­zida — e o equi­lí­brio pode come­çar atra­vés de peque­nas mudan­ças no seu roteiro inte­rior.

Des­ven­dar o ponto de iní­cio desse para­doxo ovo-gali­nha é uma mis­são pes­soal para cada pro­cras­ti­na­dor. Mas um ponto de iní­cio uni­ver­sal é ten­tar man­ter-se atento o tanto quanto pos­sí­vel. Atento ao que é impor­tante, atento ao que é urgente, e mais fun­da­men­tal­mente — atento ao macaco. O macaco não é seu amigo, e ele nunca será. Mas ele tam­bém é parte de sua cabeça e é impos­sí­vel se livrar dele, então adquira o hábito de notá-lo. Quando você acor­dar de manhã, ele estará lá. Quando você sen­tar para tra­ba­lhar, ele estará lá. Sem­pre que você pre­ci­sar de toda a gana e deter­mi­na­ção que puder obter, ele estará lá para eli­mi­nar sua gana e deter­mi­na­ção.

Mas ele pros­pera em nossa falta de cons­ci­ên­cia. Sim­ples­mente notando-o e dizendo para si mesmo “sim, aqui está o macaco, bem no lugar”, você pode come­çar a dese­qui­li­brar o pre­do­mí­nio atual do macaco. Então tal­vez um dia você vai se pegar des­pre­o­cu­pa­da­mente empur­rando o macaco para fora do vol­tante com um sim­ples “Não macaco, agora não”. E sua vida terá mudado para sem­pre.

___________

Adoro os e-mails que recebo sobre pro­cras­ti­na­ção, e espero que con­ti­nuem a me enviar. Mas eu sem­pre dese­jei que as pes­soas que me envi­a­ram e-mails pudes­sem com­par­ti­lhar uns com os outros as suas his­tó­rias. Eu enco­rajo qual­quer um que deseje com­par­ti­lhar sua his­tó­ria a fazer isso nos comen­tá­rios.


Wait But Why publica uma vez por semana. Nós envi­a­mos cada post por email para mais de 95.000 pes­soas – informe seu email aqui e colo­ca­re­mos você na lista (nós man­da­mos ape­nas um email por semana). Você pode tam­bém seguir Wait But Why no Face­book e  no Twit­ter.

Tim Urban
Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.

Compartilhe