Essa semana, uma conturbada semana para mim, diga-se de passagem, me deparei com um post de um rapaz sobre o vídeo daquela moça feminista que fala sobre sua experiência com a maternidade.

Eu já tinha tomado conhecimento do vídeo há um tempo através de outras mulheres. A opinião de todas que li era de respeito pela opinião dela, mesmo não partilhando do mesmo sentimento. Eu não assisti ao vídeo inteiro, aquilo que não me interessa não dou ibope, mas no pequeno trecho que vi não achei que falou alguma mentira em relação aos fatos.

No post, ele xinga a moça e generaliza ao dizer que toda feminista é retardada.
Não é a primeira vez que vejo ele se referindo ao assunto com tanto ódio.

E aí segue aquele monte de gente inflamada repetindo xingamentos e ele mandando coraçõezinhos a todas pessoas que compartilhavam da mesma opinião e botavam mais lenha na fogueira da inquisição virtual facebookiana.
Ódio contra feministas sobre maternidade.

Liberdade de expressão NÃO é liberdade para ofender.

Eis que me posicionei com educação em sua página (não é a primeira vez), pedindo que não generalizasse sobre a questão do feminismo. Além disso, argumentei sobre a questão da maternidade e disse que não era para toda mulher.

Natalia Marques fala sobre maternidade e feminismo.

Aí pipocou. Um simpatizante de Bolsonaro apareceu.

Treta entre feminista e simpatizante de Bolsonaro, sobre o assunto maternidade.

E olha, é incrível como surgem pérolas. Chega a ser hilário, algo meio inacreditável e, por mais que não seja a primeira vez que me deparo com alguém assim, sempre fico meio “sério que a pessoa falou isso?!”. Mas…

Existe gente de tudo quanto é jeito, que pensa de tudo quanto é jeito. E isso é ótimo.

Um dos nossos maiores objetivos nessa vida é aprender a lidar com o que é diferente de nós. E aprender a lidar é respeitar mesmo que não concorde. Isso é uma postura adulta e é o que se espera de indivíduos acima de 18 anos, né moços?

Aliás, para alguém que às vezes posta umas coisas de Deus, senti alguma contradição ali. Deus é amor, não é para ficar incitando o ódio entre os irmãozinhos, né? O Jesus também falou que quem não tivesse pecado que atirasse a primeira pedra na mulher que traiu. Ninguém atirou, lembram?

Gente, ninguém é santo neste mundo. Ninguém é exemplo de moral, bons costumes e ética desde que nasceu. No poço da nossa mente, esse poço fundo que ninguém escuta e vê a não ser nós mesmos, existe um lado bem escuro. Sem contar os nossos podres que muita gente sabe né?

Bota a mãozinha na consciência antes de falar do outro. Quem condena é sempre alguém no fundo muito fragilizado e que sente necessidade de colocar o outro numa posição inferior.

Não seja essa pessoa. Pense antes de condenar alguém.

Mas falemos da maternidade.

 Definição de maternidade

Eu não sou mãe, mas agora já sei um pouquinho como que é. Bem no dia do ocorrido que relato, eu estava digerindo a notícia que havia acabado de receber. Minha gestação não tinha seguido adiante, o embrião não havia se desenvolvido.

Não se tratava de uma gravidez planejada para esse ano, mas eu me acostumei rápido com a ideia e estava mais feliz que nunca. Ainda mais depois dos fatos que me ocorreram nos últimos anos.

Vou ser sincera. Há um tempinho, uma chavinha em mim ligou e apareceu a vontade de ser mãe, mas nem sempre foi assim. Apesar de adorar crianças, eu nunca me vi sendo mãe de uma.

Admirava quem tinha isso dentro de si, mas não achava que fazia parte da minha essência abandonar tudo para viver em função de outro ser humano. Não me sentia pronta pra algo desse tamanho.

Parece ruim ler isso?

Para a maioria das pessoas (todos os homens e a maioria das mulheres) que viram o vídeo e comentaram na timeline do colega, sim. Parece que as pessoas têm uma visão extremamente romântica e irreal sobre o que é ser mãe (e pai, quando é pai mesmo).

E tem as que sabem o que é, mas têm vergonha de falar a real com medo de serem atacadas como a moça do vídeo foi.

Vem cá… Vai falar que não é verdade que depois que tem filho, mal dá pra ir ao banheiro com calma? E isso é o de menos. Sejamos realistas, vai.

Maternidade é algo lindo sim, mas é doído. (E eu nem falo de dor física de parto.)
E não é pra todo mundo. Seja por motivo financeiro, profissional, por falta de gosto por criança, por não querer mesmo ou porque não pode!

Talvez seja por não falarmos a verdade que tenhamos essa geração de pais e mães que dão o celular na primeira oportunidade para a criança ficar quieta. Para mim, isso é muito pior.

Ter um filho deve partir de uma decisão consciente e fundada em diversos fatores, não apenas porque é lindo e uma benção da natureza. Ter um filho exige renúncia e nem todo mundo está pronto ou quer isso.

Educar é o trabalho mais difícil e de maior responsabilidade do mundo. Ao ter um filho, você tem a responsabilidade pelo tipo de indivíduo que habitará esse mundo. Já pensou nisso?

Doeu ler o rapaz falar que “Maternidade não é pra toda mulher? Nasceu com útero pra quê?”

Eu tenho endometriose, o que já poderia dificultar ou até impedir que eu tivesse filhos. No início do ano descobri uma mancha no colo do útero. Passei as semanas na espera pelo resultado da biópsia só pensando que poderia ser algo que me impedisse a gestação. Pensei nas mulheres que poderiam estar lendo e que por alguma razão não podem ter filhos e doeu demais.

Então colega, não basta ter útero para ser mãe. Assim como não basta ter o que você tem aí pra ser pai. Se você for fértil, a única coisa que você com certeza será é um fazedor de filhos. Mas pai é bem mais que isso.

Pai e mãe é muito mais uma coisa humana do que biológica.

Existem muitas pessoas que sofrem por não conseguirem gerar um filho. E provavelmente teve gente que sofreu em silêncio ao ler comentários tão ridículos.

(A sociedade pressiona se você não tem, se você demora pra ter e também quando você engravida, se é solteira piorou. Sempre tem um motivo, é uma maravilha, né?)

Quando recebi a notícia do médico que fez o exame e depois, a confirmação do ginecologista, a primeira coisa que eles se preocuparam em fazer foi falar e falar de novo que não tinha nada de errado comigo. Sabem por quê?

Porque essa provavelmente deve ser a primeira cobrança que vem na cabeça de uma mulher.

Cada pessoa passa por sua dor e ainda passa em silêncio. Não é por isso que tem que se revoltar com a moça do vídeo só porque ela tem um filho e um monte de gente no mundo quer e não consegue.

Cada um tem sua dor. Ela também tem. Você também tem. Por isso, não seja o algoz de ninguém.

Não seja. Não seja. Não seja. Nada no mundo te dá esse direito!

Em meio às críticas sobre o feminismo, eu vejo como as pessoas só enxergam aquilo que querem enxergar e como as pessoas tendem a maldizer aquilo que não conhecem.

(Gente, é péssimo fazer isso. Quando você perceber que faz isso, acenda a luz vermelha na sua cabeça.)

Pare, abra um pouco os olhos e sua mente e procure saber de verdade a respeito. O medo do desconhecido é o início do preconceito.

Estar aberto é estar disponível para aprender a lidar com seus medos, a entender quem é você de verdade e o que você teme. (Tem um vídeo do Leandro Karnal no link que pode ajudar muito)

“Eu estudei tudo sobre o feminismo, a primeira e segunda onda.”

(Não é a primeira vez que falam isso quando me posiciono. Algo me diz que não é verdade…)

Olha, feminismo é muito mais uma questão humana, de empatia e solidariedade entre mulheres e para com mulheres do que algo teórico. Se tentar definir demais, perde a essência.

Se não fosse por ele, talvez eu nunca despertasse a vontade de ser mãe. Foi através do feminismo que eu curei meu feminino.

Consegui mudar a forma como eu deixo que o masculino faça parte da minha vida, como eu lido com ele nas minhas relações pessoais, familiares e profissionais. Uma forma muito mais equilibrada e saudável.

Umas mais, outras menos, nós somos moldadas desde a infância pela forma como o masculino nos trata, seja em casa, na escola, nos relacionamentos, na rua, etc.

Nos inferiorizamos e nos sentimos inseguras. Sem citar traumas e episódios muito mais graves que a maioria das mulheres que vivenciaram algum tipo nem se sente à vontade de falar para a melhor amiga.

Sabe bicho quando se sente ameaçado e fica acuado? O que acontece? Quando pode, mostra as garras, não se deixa domesticar. É o que vem acontecendo com as novas gerações de mulheres que não aceitam mais permanecerem caladas.

Esse é um exemplo simples que pensei pra explicar porque existem tantas linhas de feminismo, umas mais radicais e ativistas e outras mais brandas. Mas acreditem, todas são necessárias. Se não fosse por quem faz “barulho”, ainda nem conseguiríamos votar.

Os meninos são moldados de outra forma. Crescem aprendendo que homem não pode fraquejar, que deve ser o macho alpha, que tem que suprir financeiramente, que tem que ser forte, que não pode ter dúvida, que não deve expor sentimento.

Eu não sei o que é isso, mas me ponho no lugar e imagino como deve ser difícil também. Tem homem que se mata, gente. Não vale a pena.

Agora me digam, vocês acham mesmo que está certo o que esse modelo de sociedade patriarcal faz conosco?

Se existir um pouquinho de bom senso, não tem como achar. Nenhuma bandeira, nenhuma ideologia, nenhum herói político, nada. Todos nós estamos perdendo tentando a todo custo provar que o outro é que está errado com ódio e violência nos atos e nas palavras.

Nada que percorra pelos extremos leva a algum lugar, o penhasco é logo ali e todos saem perdendo.

É muito melhor buscarmos soluções e comportamentos que façam a mediação dos lados, que se complementem, que vivamos bem uns com os outros através da compreensão e da compaixão.

Respeitar o próximo, ainda que não concorde com ele, é o primeiro passo.
O segundo, é intervir através da comunicação não-violenta quando presenciamos uma situação similar de injustiça, de discurso de ódio, de argumentos equivocados.

Na vida real, nas redes sociais, em qualquer lugar. Não se omita, se manifeste! Tenha empatia e se importe. É assim que as coisas mudam. Não faça isso por quem está falando, mas pelas pessoas que estão lendo, ouvindo, presenciando em silêncio.

Não evite de falar só porque está no espaço do outro. Se não fosse para ler e comentar, estava escrito em um diário. Como diz o ditado: Quem fala o que quer, ouve o que não quer.

Ps: Os comentários seguiram, o indivíduo vermelho foi rude com uma moça que quis entender a conversa, mas seriam muitos prints para colocar aqui. Decidi parar quando começaram a surgir umas estatísticas muito estranhas e meu dia já tinha sido chato demais.

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Se você quiser conferir o índice de criminalidade, aqui vão alguns textos:
Distribuição dos homicídios
Violência na população negra

E se quiser entender por que a castração química pode não ser a melhor opção:
Entenda como funciona.
Estupro não é só uma questão de desejo sexual, mas também uma relação de poder.
A castração química não é compatível com a constituição.


Você pode querer ler também:

A cultura do estupro existe, mas não como você imagina
Princípios para uma educação feminista

escrito por:

Natalia Marques

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