[Você não precisa ter assistido a “Perdido em Marte” para ler este artigo: não entregamos detalhes do roteiro]

Você provavelmente tem sonhos. E a sua vida, neste momento, possivelmente não corresponde a muitos desses sonhos. Na verdade, é provável que muitas coisas lhe incomodem bastante. Pois a realidade da nossa vida é como uma argila muito resistente às nossas mãos, que conseguimos moldar apenas com extrema dificuldade, após muita paciência e esforço.

Mas essa é uma metáfora equivocada. A vida não é uma argila dura e resistente a modelagem. Não é algo passivo, que apenas espera pela força de nossa determinação. A realidade tem dentes. A realidade com frequência nos morde. Embora tenha momentos maravilhosos, a vida lá fora é essencialmente hostil aos seres humanos.

(Se você não acha isso, provavelmente é porque faz parte daqueles privilegiados que nasceram em uma família de classe média ou superior, cujos pais se dedicaram a garantir boas condições de vida, e essa origem protegida moldou a sua percepção sobre a realidade. Quem nasceu fora dessa bolha criada pelo justo amor de pais zelosos, e quem é observador o suficiente mesmo tendo nascido nessa bolha, sabe que a realidade é hostil.)

Então uma metáfora mais correta seria dizer que a sua vida, na verdade, é uma fera polimorfa, indomesticável e muitas vezes hostil, que pode ser moldada com muito esforço e determinação conforme nossos sonhos e anseios, mas que com frequência morde nossa mão quando a estendemos em sua direção.

Como disse o protagonista de The Martian (“O Marciano”, que no Brasil recebeu o bobo e equivocado título de “Perdido em Marte”) a respeito do espaço, o mundo está lá fora, e ele não vai cooperar com você.

Até agora, o ser humano bolou apenas uma forma verdadeiramente eficiente de enfrentar essa situação: desenvolver a consciência necessária para identificar a natureza do mundo que nos cerca, utilizar a razão e a ciência para lidar com os desafios e a hostilidade inerente à realidade, manter uma atitude otimista mas objetiva diante das dificuldades e assumir um compromisso de compaixão para com os outros seres humanos.

Não, não tem esse tipo de marciano.
Não, não tem esse tipo de marciano.

 

E é sobre isso que fala o mais recente filme de Ridley Scott.

A primeira coisa a ser dita sobre o filme é o seguinte: não, The Martian não tem extraterrestres, e mal pode ser considerado um filme de ficção científica. O filme dirigido por Ridley Scott e baseado no romance homônimo de Andy Weir é, antes de tudo, uma lição de vida que pode ser aplicada em Marte, na Terra e aí mesmo, exatamente onde você está, nesse momento, lendo este texto. É que The Martian, infinitamente superior a Gravidade (que trata da mesma situação – alguém “abandonado” no espaço), busca, com maior rigor científico, demonstrar como um ser humano que representa o que há de melhor na herança da cultura ocidental lida com situações extremamente críticas: com (1) racionalidade, (2) espírito científico, (3) otimismo prospectivo e (4) compaixão.

 

Racionalidade

Há pouco mais de dois mil anos alguns gregos começaram a se reunir para fazer uma coisa muito estranha. Ao invés de entoar cânticos a deuses e praticar rituais supersticiosos, eles se dedicaram a analisar o mundo e discutir a natureza das coisas por meio de uma linguagem ao mesmo tempo lógica e matemática. Estamos hoje em dia tão submersos na realidade construída por essa proposta que simplesmente não conseguimos perceber o quão revolucionária e inovadora ela foi naquela época.

Aqueles sujeitos esquisitos, sem o saber, estavam aprimorando a ferramenta conceitual que é a verdadeira e legítima salvação da humanidade: o pensamento racional.

O pensamento racional não nos trouxe apenas a matemática e a ciência. É graças ao pensamento racional que deduzimos que nenhum ser humano tem motivo para acreditar-se superior aos demais e que, portanto, a única forma legítima de governo é aquele em que somos liderados por um igual, com a periódica confirmação de todos os cidadãos – cidadãos esses que utilizarão como critério de avaliação a eficiência e a presteza em satisfazer, na medida das possibilidades impostas pelo mundo real, ao bem comum de todos os indivíduos. A democracia, grande sacada da humanidade, é decorrência do uso da Razão no âmbito da política.

ironiza

 

Talvez os mais antiamericanos façam careta neste momento, mas é inegável que essa tradição mantém uma linha direta que começa na Antiga Grécia, passa pelo iluminismo europeu e é transmitida à democracia norte-americana. A Declaração da Independência dos Estados Unidos, elaborada por Thomas Jefferson e que precede a Revolução Francesa, implementa pela primeira vez no mundo contemporâneo uma concepção de sociedade na qual todos os homens são iguais e detentores de inalienável direito à vida, à liberdade e à busca pela felicidade.

Em The Martian, o protagonista interpretado por Matt Damon e a equipe que tenta ajudá-lo no planeta Terra lidam com o desafio de enfrentar a ameaça da morte e o desamparo humano da única forma possível: com racionalidade. Isso não significa que sempre ganharemos a luta contra a finitude e a solidão humana – mas essa é, de longe e até agora, a nossa melhor aposta. Quando um grupo de indivíduos sinceramente devotados ao bem comum decidem abordar as piores circunstâncias com sóbrio realismo e se dedicam a resolver uma situação com racionalidade e razoabilidade, poucas são as crises que não conseguem superar.

 

Espírito científico

Se você está lendo este texto no computador ou celular enquanto toma um chá com água aquecida no micro-ondas e não precisa se preocupar em praticar rituais diários (possivelmente envolvendo o sacrifício de algum animal e súplicas) a fim de apaziguar deuses vingativos, é graças àqueles antigos gregos que revolucionaram o pensamento humano abrindo espaço para o desenvolvimento da ciência. Tire o poster do Che Guevara ou do Osho da sua parede e coloque um do Tales de Mileto ou de Pitágoras: você deve muito mais a esses caras e a sua turma, acredite.

Aproveita que fiz esse poster do Tales Guevara e dá um print.
Aproveita que fiz esse poster do Tales Guevara e dá um print.

É que se há algo realmente mágico no mundo, não são os milagres desse ou daquele santo, tampouco as palavras de algum iluminado oriental que nos promete o nirvana. O que há de realmente mágico é a ciência. Graças ao espírito científico, já há duzentos anos Antes de Cristo os gregos não só sabiam que a Terra era redonda: um deles conseguiu calcular a circunferência da Terra utilizando apenas sombras – e errou por muito pouco! Se afundamos posteriomente e por quase mil anos na escuridão da Idade Média e na sua concepção de um mundo plano, que isso sirva de amarga lição para aprendermos que nada está garantido: a qualquer momento, o mundo pode mergulhar no obscurantismo medieval. Basta vacilarmos na defesa dos valores ocidentais.

Graças ao espírito científico, a perspectiva de vida tem aumentado progressivamente ao longo dos séculos. Há, inclusive, cientistas que começam a falar seriamente sobre a possibilidade de imortalidade para as próximas gerações – tudo a depender do desenvolvimento da nanotecnologia e da inteligência artificial.

Em The Martian, diante de uma situação absolutamente desesperadora e da perspectiva certa da morte, o protagonista tem apenas ao seu lado o conhecimento científico acumulado ao longo de gerações por pesquisas criteriosas e teorias consistentes. Não são ideologias políticas (a participação do governo chinês não é casual) ou religiões (repare no uso do crucifixo) que ele utiliza para tentar escapar de sua terrível situação: é apenas com a objetividade do espírito científico que ele pode contar.

 

Otimismo prospectivo

 

Muitos intelectuais e grandes artistas fazem careta quando se fala do otimismo. Isso não importa: raramente esses intelectuais e artistas admiradores da desconfiança amarga em relação à nossa condição são de alguma utilidade. São aqueles planejadores e empreendedores dotados de inteligência aplicável e de operosa engenhosidade que importam nas nossas vidas: os criadores de medicamentos que salvam milhões de vidas, os construtores de proezas da engenharia que facilitam a comunicação e o tráfego de pessoas e de bens, os inovadores da tecnologia. Einstein elaborou a Teoria da Relatividade para “entender como Deus pensa”, e não para “verificar que merda de universo sem sentido é esse em que estamos”.

O otimismo sempre teve uma posição de pouco prestígio na parcela mais erudita e elitista de nossa cultura, mas persistiu muitas vezes de forma marginal como uma das cores mais vivas na bandeira do espírito ocidental, através de uma literatura de “segunda categoria” que descortina um futuro mais promissor a depender de nosso esforço e determinação – que os livros populares de autoajuda o digam. Filósofos e religiosos podem se dar ao luxo, em suas bibliotecas e mosterios, de fazer careta diante do otimismo, mas o padeiro que leva pão à sua mesa e o engenheiro que ergueu o edifício no qual se protegem das intempéries da natureza sabem que, sem concretas expectativas de um amanhã mais feliz, ainda estaríamos fugindo dos tigres nas savanas africanas.

O otimismo é mais que uma escolha deliberada, é uma condição necessária à manutenção da vida humana.

Haters gonna hate, de qualquer modo.
Haters gonna hate, de qualquer modo, então que se foda.

Porém, não se trata do otimismo tolo, daquela visão ingênua que vê o momento presente como menos miserável e terrível do que ele é. Ao contrário, sempre é fundamental a capacidade de perceber a atual situação com crua e implacável objetividade. Por isso o subtítulo que escolhi não é meramente “otimismo”, mas “otimismo prospectivo”: não se trata de ver o momento presente, e por vezes miserável, de uma forma mais colorida e irrealmente positiva – trata-se de projetar no futuro condições de vida melhores e acreditar que suas ações no momento são capazes de abrir o caminho até esse sonho.

Nietzsche falava sobre o caráter essencialmente trágico da existência humana: o fato de que nossa atual condição neste planeta, enquanto criaturas mortais e “abandonadas” numa rocha pendendo ao redor de um sol, é digna das alegorias descritas nas mais terríveis tragédias gregas. Porém, Nietzsche também elogiava aqueles homens que, como crianças (um símbolo utilizado em seu principal livro), diziam sim à vida com uma vontade impulsionada por um vigor até mesmo físico, até mesmo animal, e capazes de reinventar a si mesmos como uma forma de gastar a energia excedente que seus corpos possuem.

Na cultura ocidental, o paradigma do herói não é um sujeito super poderoso como o babilônico Gilgamesh, mas um ser humano cheio de imperfeições chamado Ulisses, um grego que morava em Ítaca. Como o protagonista de The Martian, sua odisséia é voltar para casa, e ele faz isso nem que precise de uma década inteira para retornar. Ulisses é um resolvedor de problemas, e ele não volta para casa em linha reta, mas faz todas as paradas e desvios que o destino lhe impõe, resolvendo um problema, um desafio, por vez.

Em The Martian, o protagonista vê-se em uma situação desesperadora, praticamente em um beco sem saída na qual a perspectiva da morte na total solidão está logo ali adiante, inexorável, previsível graças à precisão matemática de quem calcula dias, ração e oxigênio restante. Ele não é tolo, ele admite diante da câmera a sua condição terrível, e com a seriedade que as circunstâncias exigem. Ele terá, literalmente, que comer o produto da sua merda para sobreviver. Porém, isso não o impede de, com bom humor e ânimo, agarrar-se nas menores possibilidades de sobrevivência e resgate – com a irreverência de quem faz troça das músicas que é obrigado a ouvir e que fala palavrões para que o planeta Terra inteiro saiba como é boca suja.

Talvez não seja sem motivo que os criadores do roteiro (e, possivelmente, do romance) tenham colocado o protagonista numa condição em que seja obrigado a escutar apenas disco music. Esse estilo musical, excessivamente colorido e dançante, talvez esteja ali para representar o otimismo pueril (palavra que vem de puer, relativo à criança) do qual dependemos se desejamos sobreviver e evoluir.

 

Compaixão

 

A racionalidade, o espírito científico e o otimismo prospectivo seriam apenas cascas vazias se não estivessem preenchidos pelo calor do coração humano. Quando o protagonista de The Martian tem de passar um recado à tripulação que o deixou para trás, a primeira coisa que lhe ocorre é deixar claro a eles que não possuem qualquer responsabilidade por sua situação desesperadora. E durante todo o filme, o que vemos são seres humanos despendendo o melhor de seu intelecto e de seus esforços não para conquistar impérios, colonizar planetas ou construir grandes obras: tudo é feito para salvar uma única vida humana.

Trata-se da expressão aprimorada daquela que talvez seja a única contribuição do cristianismo para o desenvolvimento de nossa cultura: a norma que a tradição cristão definiu como a regra de ouro, e que Jesus Cristo (não entrarei no mérito da precisão histórica) teria descrito como toda a lei e o coração de todos os profetas. Ela diz o seguinte:

 

“FAÇA AOS OUTROS O QUE GOSTARIA QUE FIZESSEM A VOCÊ.”

 

Essa é base racional para a compaixão humana. O processo é simples, lógico e eficaz: em primeiro lugar, exercite a capacidade de se colocar no lugar dos outros; em segundo, faça a operação inversa, a de imaginar o outro em seu lugar; num terceiro e último passo, conduza suas ações conforme o aprendizado que tiver obtido. Essa é uma operação que depende de um elevado grau de abstração, próprio apenas de organismos vivos capazes de colocar suas emoções a serviço de um alto nível de raciocínio abstrato: como você se sente quando se imagina no lugar de outro ser humano.

Nietzsche e Jesus Cristo

 

E o exercício recíproco dessa regra de ouro, com duas pessoas colocando-se mutuamente uma no lugar da outra, imaginando cada uma o que sentiria se tivesse passado pelas mesmas experiências da outra, é o fundamento inafastável de todo diálogo humano. Somente com isso podemos virtualmente tocar o coração uns dos outros e desenvolver a compaixão.

 

A moral da história (sério, tem mesmo)

Depois das bobagens de filmes como Gravidade e Interestelar, assistir no cinema uma obra como The Martian é um refresco para a mente cansada de histórias grandiloquentes mas que não sobrevivem a uma análise mais detida. The Martian é um representação sóbria e precisa sobre a condição humana e suas melhores possibilidades.

E qual a moral da história? Bom, um monólogo do protagonista pode ser levemente adaptado para resumi-la:

“Isto é o mundo real, e ele não vai cooperar com você. Em algum ponto, tudo na sua vida pode dar errado. Tudo. E então você pensará “é isso, é assim que eu acabo”. Mas você pode aceitar isso ou pode começar a trabalhar a situação. Essa escolha é tudo o que você tem. Você simplesmente começa a trabalhar, você faz os cálculos, você resolve um problema, depois resolve outro, e depois resolve o seguinte. E se você resolver um número suficiente de problemas, você poderá voltar para casa.”

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O título deste artigo pode parecer um pouco enganador: não há respostas prontas para todos os nossos problemas e não é isso que o filme propõe. O que The Martian apresenta, na forma de uma alegoria, não é uma solução explícita, mas um instrumental para encontrar soluções, um conjunto de ferramentas com os quais podemos abordar todos os principais problemas humanos: racionalidade, espírito científico, otimismo prospectivo e compaixão. Essas são algumas das pedras preciosas do tesouro que herdamos da cultura ocidental.

Mais que isso, trata-se de um instrumental com o qual todos nós, tanto enquanto indivíduos como enquanto coletividade, podemos lidar com esse ambiente hostil chamado realidade, para que ele aos poucos se adapte aos nossos sonhos. Pois você provavelmente tem sonhos, mas se depara com uma realidade hostil e resistente a mudanças. A sua melhor aposta individual, e a nossa melhor aposta coletiva, é enfrentar um problema por vez – e se enfrentarmos um número suficiente de problemas da forma correta (ou seja, com objetividade, determinação e racionalidade), talvez consigamos chegar aonde sonhamos um dia estar.

Essa abordagem da realidade, porém, não é algo consolidado e seguro. Continuamente ondas de barbarismo e obscurantismo ameaçam afogar as melhores aspirações humanas. Embora o filme tome o cuidado de afastar a impressão de que se trata de uma apologia americanófila, ao incluir a peculiar colaboração do governo autoritário chinês ao lado da participação de cientistas e astronautas multiculturais (de origem indiana, latino-americana, alemã, etc), atualmente essa tradição racional de natureza essencialmente ocidental vem sendo desafiada pela irracionalidade do fundamentalismo islâmico e pelos desmandos das elites corruptas que conduzem nações como China e Rússia (apoiadora de regimes assassinos como o Sírio e de conflitos intestinos na Ucrânia). Mesmo no seio da nossa sociedade há contínuos focos de fundamentalismo e irracionalidade religiosa e ideológica.

A chama acesa por aqueles gregos há milênios ainda está cercada de trevas por todos os lados, e nossa missão é protegê-la para as futuras gerações.


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escrito por:

Victor Lisboa

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