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O filme que tem a resposta para todos os nossos problemas

Em Comportamento por Victor LisboaComentário

[Você não pre­cisa ter assis­tido a “Per­dido em Marte” para ler este artigo: não entre­ga­mos deta­lhes do roteiro]

Você pro­va­vel­mente tem sonhos. E a sua vida, neste momento, pos­si­vel­mente não cor­res­ponde a mui­tos des­ses sonhos. Na ver­dade, é pro­vá­vel que mui­tas coi­sas lhe inco­mo­dem bas­tante. Pois a rea­li­dade da nossa vida é como uma argila muito resis­tente às nos­sas mãos, que con­se­gui­mos mol­dar ape­nas com extrema difi­cul­dade, após muita paci­ên­cia e esforço.

Mas essa é uma metá­fora equi­vo­cada. A vida não é uma argila dura e resis­tente a mode­la­gem. Não é algo pas­sivo, que ape­nas espera pela força de nossa deter­mi­na­ção. A rea­li­dade tem den­tes. A rea­li­dade com frequên­cia nos morde. Embora tenha momen­tos mara­vi­lho­sos, a vida lá fora é essen­ci­al­mente hos­til aos seres huma­nos.

(Se você não acha isso, pro­va­vel­mente é por­que faz parte daque­les pri­vi­le­gi­a­dos que nas­ce­ram em uma famí­lia de classe média ou supe­rior, cujos pais se dedi­ca­ram a garan­tir boas con­di­ções de vida, e essa ori­gem pro­te­gida mol­dou a sua per­cep­ção sobre a rea­li­dade. Quem nas­ceu fora dessa bolha cri­ada pelo justo amor de pais zelo­sos, e quem é obser­va­dor o sufi­ci­ente mesmo tendo nas­cido nessa bolha, sabe que a rea­li­dade é hos­til.)

Então uma metá­fora mais cor­reta seria dizer que a sua vida, na ver­dade, é uma fera poli­morfa, indo­mes­ti­cá­vel e mui­tas vezes hos­til, que pode ser mol­dada com muito esforço e deter­mi­na­ção con­forme nos­sos sonhos e anseios, mas que com frequên­cia morde nossa mão quando a esten­de­mos em sua dire­ção.

Como disse o pro­ta­go­nista de The Mar­tian (“O Mar­ci­ano”, que no Bra­sil rece­beu o bobo e equi­vo­cado título de “Per­dido em Marte”) a res­peito do espaço, o mundo está lá fora, e ele não vai coo­pe­rar com você.

Até agora, o ser humano bolou ape­nas uma forma ver­da­dei­ra­mente efi­ci­ente de enfren­tar essa situ­a­ção: desen­vol­ver a cons­ci­ên­cia neces­sá­ria para iden­ti­fi­car a natu­reza do mundo que nos cerca, uti­li­zar a razão e a ciên­cia para lidar com os desa­fios e a hos­ti­li­dade ine­rente à rea­li­dade, man­ter uma ati­tude oti­mista mas obje­tiva diante das difi­cul­da­des e assu­mir um com­pro­misso de com­pai­xão para com os outros seres huma­nos.

Não, não tem esse tipo de marciano.

Não, não tem esse tipo de mar­ci­ano.

 

E é sobre isso que fala o mais recente filme de Ridley Scott.

A pri­meira coisa a ser dita sobre o filme é o seguinte: não, The Mar­tian não tem extra­ter­res­tres, e mal pode ser con­si­de­rado um filme de fic­ção cien­tí­fica. O filme diri­gido por Ridley Scott e base­ado no romance homô­nimo de Andy Weir é, antes de tudo, uma lição de vida que pode ser apli­cada em Marte, na Terra e aí mesmo, exa­ta­mente onde você está, nesse momento, lendo este texto. É que The Mar­tian, infi­ni­ta­mente supe­rior a Gra­vi­dade (que trata da mesma situ­a­ção — alguém “aban­do­nado” no espaço), busca, com maior rigor cien­tí­fico, demons­trar como um ser humano que repre­senta o que há de melhor na herança da cul­tura oci­den­tal lida com situ­a­ções extre­ma­mente crí­ti­cas: com (1) raci­o­na­li­dade, (2) espí­rito cien­tí­fico, (3) oti­mismo pros­pec­tivo e (4) com­pai­xão.

 

Racionalidade

Há pouco mais de dois mil anos alguns gre­gos come­ça­ram a se reu­nir para fazer uma coisa muito estra­nha. Ao invés de entoar cân­ti­cos a deu­ses e pra­ti­car ritu­ais supers­ti­ci­o­sos, eles se dedi­ca­ram a ana­li­sar o mundo e dis­cu­tir a natu­reza das coi­sas por meio de uma lin­gua­gem ao mesmo tempo lógica e mate­má­tica. Esta­mos hoje em dia tão sub­mer­sos na rea­li­dade cons­truída por essa pro­posta que sim­ples­mente não con­se­gui­mos per­ce­ber o quão revo­lu­ci­o­ná­ria e ino­va­dora ela foi naquela época.

Aque­les sujei­tos esqui­si­tos, sem o saber, esta­vam apri­mo­rando a fer­ra­menta con­cei­tual que é a ver­da­deira e legí­tima sal­va­ção da huma­ni­dade: o pen­sa­mento raci­o­nal.

O pen­sa­mento raci­o­nal não nos trouxe ape­nas a mate­má­tica e a ciên­cia. É gra­ças ao pen­sa­mento raci­o­nal que dedu­zi­mos que nenhum ser humano tem motivo para acre­di­tar-se supe­rior aos demais e que, por­tanto, a única forma legí­tima de governo é aquele em que somos lide­ra­dos por um igual, com a perió­dica con­fir­ma­ção de todos os cida­dãos — cida­dãos esses que uti­li­za­rão como cri­té­rio de ava­li­a­ção a efi­ci­ên­cia e a pres­teza em satis­fa­zer, na medida das pos­si­bi­li­da­des impos­tas pelo mundo real, ao bem comum de todos os indi­ví­duos. A demo­cra­cia, grande sacada da huma­ni­dade, é decor­rên­cia do uso da Razão no âmbito da polí­tica.

ironiza

 

Tal­vez os mais anti­a­me­ri­ca­nos façam careta neste momento, mas é ine­gá­vel que essa tra­di­ção man­tém uma linha direta que começa na Antiga Gré­cia, passa pelo ilu­mi­nismo euro­peu e é trans­mi­tida à demo­cra­cia norte-ame­ri­cana. A Decla­ra­ção da Inde­pen­dên­cia dos Esta­dos Uni­dos, ela­bo­rada por Tho­mas Jef­fer­son e que pre­cede a Revo­lu­ção Fran­cesa, imple­menta pela pri­meira vez no mundo con­tem­po­râ­neo uma con­cep­ção de soci­e­dade na qual todos os homens são iguais e deten­to­res de ina­li­e­ná­vel direito à vida, à liber­dade e à busca pela feli­ci­dade.

Em The Mar­tian, o pro­ta­go­nista inter­pre­tado por Matt Damon e a equipe que tenta ajudá-lo no pla­neta Terra lidam com o desa­fio de enfren­tar a ame­aça da morte e o desam­paro humano da única forma pos­sí­vel: com raci­o­na­li­dade. Isso não sig­ni­fica que sem­pre ganha­re­mos a luta con­tra a fini­tude e a soli­dão humana — mas essa é, de longe e até agora, a nossa melhor aposta. Quando um grupo de indi­ví­duos sin­ce­ra­mente devo­ta­dos ao bem comum deci­dem abor­dar as pio­res cir­cuns­tân­cias com sóbrio rea­lismo e se dedi­cam a resol­ver uma situ­a­ção com raci­o­na­li­dade e razo­a­bi­li­dade, pou­cas são as cri­ses que não con­se­guem supe­rar.

 

Espírito científico

Se você está lendo este texto no com­pu­ta­dor ou celu­lar enquanto toma um chá com água aque­cida no micro-ondas e não pre­cisa se pre­o­cu­par em pra­ti­car ritu­ais diá­rios (pos­si­vel­mente envol­vendo o sacri­fí­cio de algum ani­mal e súpli­cas) a fim de apa­zi­guar deu­ses vin­ga­ti­vos, é gra­ças àque­les anti­gos gre­gos que revo­lu­ci­o­na­ram o pen­sa­mento humano abrindo espaço para o desen­vol­vi­mento da ciên­cia. Tire o pos­ter do Che Gue­vara ou do Osho da sua parede e colo­que um do Tales de Mileto ou de Pitá­go­ras: você deve muito mais a esses caras e a sua turma, acre­dite.

Aproveita que fiz esse poster do Tales Guevara e dá um print.

Apro­veita que fiz esse pos­ter do Tales Gue­vara e dá um print.

É que se há algo real­mente mágico no mundo, não são os mila­gres desse ou daquele santo, tam­pouco as pala­vras de algum ilu­mi­nado ori­en­tal que nos pro­mete o nir­vana. O que há de real­mente mágico é a ciên­cia. Gra­ças ao espí­rito cien­tí­fico, já há duzen­tos anos Antes de Cristo os gre­gos não só sabiam que a Terra era redonda: um deles con­se­guiu cal­cu­lar a cir­cun­fe­rên­cia da Terra uti­li­zando ape­nas som­bras — e errou por muito pouco! Se afun­da­mos pos­te­ri­o­mente e por quase mil anos na escu­ri­dão da Idade Média e na sua con­cep­ção de um mundo plano, que isso sirva de amarga lição para apren­der­mos que nada está garan­tido: a qual­quer momento, o mundo pode mer­gu­lhar no obs­cu­ran­tismo medi­e­val. Basta vaci­lar­mos na defesa dos valo­res oci­den­tais.

Gra­ças ao espí­rito cien­tí­fico, a pers­pec­tiva de vida tem aumen­tado pro­gres­si­va­mente ao longo dos sécu­los. Há, inclu­sive, cien­tis­tas que come­çam a falar seri­a­mente sobre a pos­si­bi­li­dade de imor­ta­li­dade para as pró­xi­mas gera­ções — tudo a depen­der do desen­vol­vi­mento da nano­tec­no­lo­gia e da inte­li­gên­cia arti­fi­cial.

Em The Mar­tian, diante de uma situ­a­ção abso­lu­ta­mente deses­pe­ra­dora e da pers­pec­tiva certa da morte, o pro­ta­go­nista tem ape­nas ao seu lado o conhe­ci­mento cien­tí­fico acu­mu­lado ao longo de gera­ções por pes­qui­sas cri­te­ri­o­sas e teo­rias con­sis­ten­tes. Não são ide­o­lo­gias polí­ti­cas (a par­ti­ci­pa­ção do governo chi­nês não é casual) ou reli­giões (repare no uso do cru­ci­fixo) que ele uti­liza para ten­tar esca­par de sua ter­rí­vel situ­a­ção: é ape­nas com a obje­ti­vi­dade do espí­rito cien­tí­fico que ele pode con­tar.

 

Otimismo prospectivo

 

Mui­tos inte­lec­tu­ais e gran­des artis­tas fazem careta quando se fala do oti­mismo. Isso não importa: rara­mente esses inte­lec­tu­ais e artis­tas admi­ra­do­res da des­con­fi­ança amarga em rela­ção à nossa con­di­ção são de alguma uti­li­dade. São aque­les pla­ne­ja­do­res e empre­en­de­do­res dota­dos de inte­li­gên­cia apli­cá­vel e de ope­rosa enge­nho­si­dade que impor­tam nas nos­sas vidas: os cri­a­do­res de medi­ca­men­tos que sal­vam milhões de vidas, os cons­tru­to­res de pro­e­zas da enge­nha­ria que faci­li­tam a comu­ni­ca­ção e o trá­fego de pes­soas e de bens, os ino­va­do­res da tec­no­lo­gia. Eins­tein ela­bo­rou a Teo­ria da Rela­ti­vi­dade para “enten­der como Deus pensa”, e não para “veri­fi­car que merda de uni­verso sem sen­tido é esse em que esta­mos”.

O oti­mismo sem­pre teve uma posi­ção de pouco pres­tí­gio na par­cela mais eru­dita e eli­tista de nossa cul­tura, mas per­sis­tiu mui­tas vezes de forma mar­gi­nal como uma das cores mais vivas na ban­deira do espí­rito oci­den­tal, atra­vés de uma lite­ra­tura de “segunda cate­go­ria” que des­cor­tina um futuro mais pro­mis­sor a depen­der de nosso esforço e deter­mi­na­ção — que os livros popu­la­res de auto­a­juda o digam. Filó­so­fos e reli­gi­o­sos podem se dar ao luxo, em suas bibli­o­te­cas e mos­te­rios, de fazer careta diante do oti­mismo, mas o padeiro que leva pão à sua mesa e o enge­nheiro que ergueu o edi­fí­cio no qual se pro­te­gem das intem­pé­ries da natu­reza sabem que, sem con­cre­tas expec­ta­ti­vas de um ama­nhã mais feliz, ainda esta­ría­mos fugindo dos tigres nas sava­nas afri­ca­nas.

O oti­mismo é mais que uma esco­lha deli­be­rada, é uma con­di­ção neces­sá­ria à manu­ten­ção da vida humana.

Haters gonna hate, de qualquer modo.

Haters gonna hate, de qual­quer modo, então que se foda.

Porém, não se trata do oti­mismo tolo, daquela visão ingê­nua que vê o momento pre­sente como menos mise­rá­vel e ter­rí­vel do que ele é. Ao con­trá­rio, sem­pre é fun­da­men­tal a capa­ci­dade de per­ce­ber a atual situ­a­ção com crua e impla­cá­vel obje­ti­vi­dade. Por isso o sub­tí­tulo que esco­lhi não é mera­mente “oti­mismo”, mas “oti­mismo pros­pec­tivo”: não se trata de ver o momento pre­sente, e por vezes mise­rá­vel, de uma forma mais colo­rida e irre­al­mente posi­tiva — trata-se de pro­je­tar no futuro con­di­ções de vida melho­res e acre­di­tar que suas ações no momento são capa­zes de abrir o cami­nho até esse sonho.

Nietzs­che falava sobre o cará­ter essen­ci­al­mente trá­gico da exis­tên­cia humana: o fato de que nossa atual con­di­ção neste pla­neta, enquanto cri­a­tu­ras mor­tais e “aban­do­na­das” numa rocha pen­dendo ao redor de um sol, é digna das ale­go­rias des­cri­tas nas mais ter­rí­veis tra­gé­dias gre­gas. Porém, Nietzs­che tam­bém elo­gi­ava aque­les homens que, como cri­an­ças (um sím­bolo uti­li­zado em seu prin­ci­pal livro), diziam sim à vida com uma von­tade impul­si­o­nada por um vigor até mesmo físico, até mesmo ani­mal, e capa­zes de rein­ven­tar a si mes­mos como uma forma de gas­tar a ener­gia exce­dente que seus cor­pos pos­suem.

Na cul­tura oci­den­tal, o para­digma do herói não é um sujeito super pode­roso como o babilô­nico Gil­ga­mesh, mas um ser humano cheio de imper­fei­ções cha­mado Ulis­ses, um grego que morava em Ítaca. Como o pro­ta­go­nista de The Mar­tian, sua odis­séia é vol­tar para casa, e ele faz isso nem que pre­cise de uma década inteira para retor­nar. Ulis­ses é um resol­ve­dor de pro­ble­mas, e ele não volta para casa em linha reta, mas faz todas as para­das e des­vios que o des­tino lhe impõe, resol­vendo um pro­blema, um desa­fio, por vez.

Em The Mar­tian, o pro­ta­go­nista vê-se em uma situ­a­ção deses­pe­ra­dora, pra­ti­ca­mente em um beco sem saída na qual a pers­pec­tiva da morte na total soli­dão está logo ali adi­ante, ine­xo­rá­vel, pre­vi­sí­vel gra­ças à pre­ci­são mate­má­tica de quem cal­cula dias, ração e oxi­gê­nio res­tante. Ele não é tolo, ele admite diante da câmera a sua con­di­ção ter­rí­vel, e com a seri­e­dade que as cir­cuns­tân­cias exi­gem. Ele terá, lite­ral­mente, que comer o pro­duto da sua merda para sobre­vi­ver. Porém, isso não o impede de, com bom humor e ânimo, agar­rar-se nas meno­res pos­si­bi­li­da­des de sobre­vi­vên­cia e res­gate — com a irre­ve­rên­cia de quem faz troça das músi­cas que é obri­gado a ouvir e que fala pala­vrões para que o pla­neta Terra inteiro saiba como é boca suja.

Tal­vez não seja sem motivo que os cri­a­do­res do roteiro (e, pos­si­vel­mente, do romance) tenham colo­cado o pro­ta­go­nista numa con­di­ção em que seja obri­gado a escu­tar ape­nas disco music. Esse estilo musi­cal, exces­si­va­mente colo­rido e dan­çante, tal­vez esteja ali para repre­sen­tar o oti­mismo pue­ril (pala­vra que vem de puer, rela­tivo à cri­ança) do qual depen­de­mos se dese­ja­mos sobre­vi­ver e evo­luir.

 

Compaixão

 

A raci­o­na­li­dade, o espí­rito cien­tí­fico e o oti­mismo pros­pec­tivo seriam ape­nas cas­cas vazias se não esti­ves­sem pre­en­chi­dos pelo calor do cora­ção humano. Quando o pro­ta­go­nista de The Mar­tian tem de pas­sar um recado à tri­pu­la­ção que o dei­xou para trás, a pri­meira coisa que lhe ocorre é dei­xar claro a eles que não pos­suem qual­quer res­pon­sa­bi­li­dade por sua situ­a­ção deses­pe­ra­dora. E durante todo o filme, o que vemos são seres huma­nos des­pen­dendo o melhor de seu inte­lecto e de seus esfor­ços não para con­quis­tar impé­rios, colo­ni­zar pla­ne­tas ou cons­truir gran­des obras: tudo é feito para sal­var uma única vida humana.

Trata-se da expres­são apri­mo­rada daquela que tal­vez seja a única con­tri­bui­ção do cris­ti­a­nismo para o desen­vol­vi­mento de nossa cul­tura: a norma que a tra­di­ção cris­tão defi­niu como a regra de ouro, e que Jesus Cristo (não entra­rei no mérito da pre­ci­são his­tó­rica) teria des­crito como toda a lei e o cora­ção de todos os pro­fe­tas. Ela diz o seguinte:

 

FAÇA AOS OUTROS O QUE GOSTARIA QUE FIZESSEMVOCÊ.”

 

Essa é base raci­o­nal para a com­pai­xão humana. O pro­cesso é sim­ples, lógico e efi­caz: em pri­meiro lugar, exer­cite a capa­ci­dade de se colo­car no lugar dos outros; em segundo, faça a ope­ra­ção inversa, a de ima­gi­nar o outro em seu lugar; num ter­ceiro e último passo, con­duza suas ações con­forme o apren­di­zado que tiver obtido. Essa é uma ope­ra­ção que depende de um ele­vado grau de abs­tra­ção, pró­prio ape­nas de orga­nis­mos vivos capa­zes de colo­car suas emo­ções a ser­viço de um alto nível de raci­o­cí­nio abs­trato: como você se sente quando se ima­gina no lugar de outro ser humano.

Nietzsche e Jesus Cristo

 

E o exer­cí­cio recí­proco dessa regra de ouro, com duas pes­soas colo­cando-se mutu­a­mente uma no lugar da outra, ima­gi­nando cada uma o que sen­ti­ria se tivesse pas­sado pelas mes­mas expe­ri­ên­cias da outra, é o fun­da­mento ina­fas­tá­vel de todo diá­logo humano. Somente com isso pode­mos vir­tu­al­mente tocar o cora­ção uns dos outros e desen­vol­ver a com­pai­xão.

 

A moral da história (sério, tem mesmo)

Depois das boba­gens de fil­mes como Gra­vi­dade e Inte­res­te­lar, assis­tir no cinema uma obra como The Mar­tian é um refresco para a mente can­sada de his­tó­rias gran­di­lo­quen­tes mas que não sobre­vi­vem a uma aná­lise mais detida. The Mar­tian é um repre­sen­ta­ção sóbria e pre­cisa sobre a con­di­ção humana e suas melho­res pos­si­bi­li­da­des.

E qual a moral da his­tó­ria? Bom, um monó­logo do pro­ta­go­nista pode ser leve­mente adap­tado para resumi-la:

Isto é o mundo real, e ele não vai coo­pe­rar com você. Em algum ponto, tudo na sua vida pode dar errado. Tudo. E então você pen­sará “é isso, é assim que eu acabo”. Mas você pode acei­tar isso ou pode come­çar a tra­ba­lhar a situ­a­ção. Essa esco­lha é tudo o que você tem. Você sim­ples­mente começa a tra­ba­lhar, você faz os cál­cu­los, você resolve um pro­blema, depois resolve outro, e depois resolve o seguinte. E se você resol­ver um número sufi­ci­ente de pro­ble­mas, você poderá vol­tar para casa.”

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O título deste artigo pode pare­cer um pouco enga­na­dor: não há res­pos­tas pron­tas para todos os nos­sos pro­ble­mas e não é isso que o filme pro­põe. O que The Mar­tian apre­senta, na forma de uma ale­go­ria, não é uma solu­ção explí­cita, mas um ins­tru­men­tal para encon­trar solu­ções, um con­junto de fer­ra­men­tas com os quais pode­mos abor­dar todos os prin­ci­pais pro­ble­mas huma­nos: raci­o­na­li­dade, espí­rito cien­tí­fico, oti­mismo pros­pec­tivo e com­pai­xão. Essas são algu­mas das pedras pre­ci­o­sas do tesouro que her­da­mos da cul­tura oci­den­tal.

Mais que isso, trata-se de um ins­tru­men­tal com o qual todos nós, tanto enquanto indi­ví­duos como enquanto cole­ti­vi­dade, pode­mos lidar com esse ambi­ente hos­til cha­mado rea­li­dade, para que ele aos pou­cos se adapte aos nos­sos sonhos. Pois você pro­va­vel­mente tem sonhos, mas se depara com uma rea­li­dade hos­til e resis­tente a mudan­ças. A sua melhor aposta indi­vi­dual, e a nossa melhor aposta cole­tiva, é enfren­tar um pro­blema por vez — e se enfren­tar­mos um número sufi­ci­ente de pro­ble­mas da forma cor­reta (ou seja, com obje­ti­vi­dade, deter­mi­na­ção e raci­o­na­li­dade), tal­vez con­si­ga­mos che­gar aonde sonha­mos um dia estar.

Essa abor­da­gem da rea­li­dade, porém, não é algo con­so­li­dado e seguro. Con­ti­nu­a­mente ondas de bar­ba­rismo e obs­cu­ran­tismo ame­a­çam afo­gar as melho­res aspi­ra­ções huma­nas. Embora o filme tome o cui­dado de afas­tar a impres­são de que se trata de uma apo­lo­gia ame­ri­ca­nó­fila, ao incluir a pecu­liar cola­bo­ra­ção do governo auto­ri­tá­rio chi­nês ao lado da par­ti­ci­pa­ção de cien­tis­tas e astro­nau­tas mul­ti­cul­tu­rais (de ori­gem indi­ana, latino-ame­ri­cana, alemã, etc), atu­al­mente essa tra­di­ção raci­o­nal de natu­reza essen­ci­al­mente oci­den­tal vem sendo desa­fi­ada pela irra­ci­o­na­li­dade do fun­da­men­ta­lismo islâ­mico e pelos des­man­dos das eli­tes cor­rup­tas que con­du­zem nações como China e Rús­sia (apoi­a­dora de regi­mes assas­si­nos como o Sírio e de con­fli­tos intes­ti­nos na Ucrâ­nia). Mesmo no seio da nossa soci­e­dade há con­tí­nuos focos de fun­da­men­ta­lismo e irra­ci­o­na­li­dade reli­gi­osa e ide­o­ló­gica.

A chama acesa por aque­les gre­gos há milê­nios ainda está cer­cada de tre­vas por todos os lados, e nossa mis­são é pro­tegê-la para as futu­ras gera­ções.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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