Margaret Hamilton, foto de perfil.

Conheça Margaret Hamilton, a mulher que nos levou à lua

Em Ciência por Equipe Ano ZeroComentário

Há mais de dois anos, em 2014, um usuá­rio da rede social twit­ter pos­tou a seguinte foto de Mar­ga­ret Hamil­ton posando com diver­sas lis­tas de códi­gos da mis­são Apollo 11, pro­jeto que levou o ser humano a pisar na lua.

A ima­gem, natu­ral­mente, cau­sou rebo­li­ços e vira­li­zou de forma feno­me­nal, sendo um grande sucesso entre seus segui­do­res — e ele não foi o único que publi­cou a foto.

Margaret Hamilton com as listagens de códigos do Projeto Apolo 11, da NASA.

Mar­ga­ret Hamil­ton com as lis­ta­gens de códi­gos do Pro­jeto Apolo 11, da NASA.

A foto, tirada em 1969, mos­tra esta pio­neira das ciên­cias mate­má­ti­cas e com­pu­ta­ci­o­nais ao lado das lis­ta­gens de soft­ware que foram essen­ci­ais para a mis­são Apollo XI — e foi gra­ças a ela que Neil Arms­trong e Buzz Aldrin pode­riam dar um pas­seio na Lua.

Three-Fin­ge­red Fox explica no Medium que, desde o Pro­jeto Manhat­tan, que desen­vol­veu a pri­meira bomba atô­mica, a “mera pro­gra­ma­ção” esteve a cargo de mulhe­res, já que tra­ba­lhar com pun­ch­cards pare­cia “muito pare­cido com digi­ta­ção”.

No entanto, e durante os anos 60, “elas geral­mente eram requi­si­ta­das pelas pes­soas das áreas tec­no­ló­gi­cas, mas mui­tas vezes con­ce­biam as abor­da­gens e con­fi­gu­ra­vam os cál­cu­los por si mes­mas”, como foi o caso com Hamil­ton e as mis­sões Apollo em que ela tra­ba­lhou.

Como pode­mos ler em uma publi­ca­ção da Wired em agosto de 2014,

o pouso lunar foi uma das pri­mei­ras vezes em que pro­gra­mas de soft­ware esti­ve­ram encar­re­ga­dos disso, numa tarefa de mis­são crí­tica em tempo real.

E o tra­ba­lho de desen­vol­vi­mento de apli­ca­ti­vos para essa faça­nha foi colo­cado nas mãos de Mar­ga­ret Hamil­ton — que tinha apren­dido a pro­gra­mar e subiu de cargo, para se tor­nar dire­tora da Divi­são de Enge­nha­ria de Soft­ware do Labo­ra­tó­rio de Ins­tru­men­ta­ção do MIT, que desen­vol­veu o com­pu­ta­dor sob con­trato com a NASA “.

Na ver­dade, o artigo publi­cado no Medium explica que “mui­tos dos pro­gra­ma­do­res mais anti­gos e mais pio­nei­ros eram mulhe­res, apren­dendo manu­al­mente a fazer coi­sas que nunca tinham sido fei­tas antes.”

Nós todos sabe­mos sobre a incrí­vel Grace Hop­per, que escre­veu o pri­meiro com­pi­la­dor”, que tam­bém cunhou o termo “debug”, depois que alguns de seus cole­gas des­co­bri­ram que um dos com­pu­ta­do­res não fun­ci­o­nava cor­re­ta­mente por causa de uma mari­posa.

Em 1986, Hamil­ton fun­dou a Hamil­ton Tech­no­lo­gies. A revista Verne deci­diu entrar em con­tato, e quando o fize­ram, Mar­ga­ret pare­cia com­pre­en­si­vel­mente sur­presa com o fato de que um jor­nal espa­nhol tele­fo­nasse para ela, por conta de uma ima­gem de 35 anos sua que era um sucesso no Twit­ter.

Segue, abaixo, a tra­du­ção da entre­vista.

 

Uma entrevista com Margaret Hamilton

Twit­ter?” Sim, a rede social… Como o Face­book … “Oh, minha gera­ção não usa esses meios de comu­ni­ca­ção soci­ais.” Ape­sar dessa sur­presa lógica, Hamil­ton (78 anos, na época) acei­tou o pedido de entre­vista e soli­ci­tou o envio de per­gun­tas por e-mail.

Eu acho que deve ser estra­nho se tor­nar “famosa de inter­net” por causa dessa foto agora e gra­ças às redes soci­ais. Você gosta do sen­ti­mento?

Enquanto as pes­soas têm coi­sas boas a dizer!

Você disse que não usa redes soci­ais, mas você gosta desse inte­resse repen­tino em seu tra­ba­lho?

É sem­pre muito bom quando as pes­soas tomam inte­resse em seu tra­ba­lho.

A foto­gra­fia foi tirada durante o desen­vol­vi­mento do pro­jeto Apollo? Quando foi feita e quem a bateu?

Aqui está a des­cri­ção da foto extraída de um docu­mento do MIT Dra­per Lab:

Tirada pelo fotó­grafo do MIT Dra­per Lab, em 1969 (durante Apollo 11). Aqui, Mar­ga­ret é mos­trada de pé ao lado de anún­cios de soft­ware desen­vol­vi­dos pela equipe da qual ela estava encar­re­gado de, a equipe de soft­ware LM e CM de voo on-board”.

Eu acre­dito que a codi­fi­ca­ção seja muito dife­rente hoje em dia…

Sim e não. Na ver­dade, algu­mas coi­sas nesta área tor­na­ram-se mais avan­ça­das, algu­mas são menos avan­ça­das do que antes, e algu­mas per­ma­ne­cem a mesma coisa.

Como era tra­ba­lhar em um pro­jeto para o pri­meiro pouso na Lua?

Eu tra­ba­lhei em todas as mis­sões Apollo tri­pu­la­das e em um par de mis­sões não tri­pu­la­das. A Apollo 8 vem em segundo lugar, não igual, em rela­ção à Apollo 11 das minhas mis­sões mais emo­ci­o­nan­tes, momen­tos que con­si­dero memo­rá­veis no pro­jeto Apollo.

Margaret Hamilton em Apollo 11

Mar­ga­ret Hamil­ton tra­ba­lhando no pro­jeto Apollo / NASA

Li que o Apollo não teria sido capaz de pou­sar sem o seu soft­ware. O que o seu soft­ware faz?

Você está se refe­rindo, por exem­plo, à Apollo 11 e aos 1201/1202 alar­mes durante o pouso? Aqui está como o pro­blema e a solu­ção foram des­cri­tos na minha Carta ao Edi­tor “Com­pu­ter Got Loa­ded”, publi­cada em 01 de março de 1971, edi­ção da Data­ma­tion:

Devido a um erro na lista de con­trole manual, o inter­rup­tor de radar encon­trado foi colo­cado em posi­ção errada. Isto aca­bou envi­ando sinais errô­neos ao com­pu­ta­dor.

O resul­tado foi que o com­pu­ta­dor estava sendo soli­ci­tado a rea­li­zar todas as suas fun­ções nor­mais para pouso durante a recep­ção de uma carga extra de dados espú­rios que usou até 15% de seu tempo.

O com­pu­ta­dor (ou melhor, o soft­ware nele) era sufi­ci­en­te­mente inte­li­gente para reco­nhe­cer que estava sendo soli­ci­tado a rea­li­zar mais tare­fas do que deve­ria no espe­tá­culo.

Em seguida, ele enviou um alarme, que sig­ni­fi­cava para o astro­nauta “Estou sobre­car­re­gado com mais tare­fas do que deve­ria estar fazendo neste momento, e vou man­ter ape­nas as mais impor­tan­tes; isto é, aque­las neces­sá­rias para o pouso.”

Na ver­dade, o com­pu­ta­dor foi pro­gra­mado para fazer mais do que reco­nhe­cer as con­di­ções de erro. Um con­junto com­pleto de pro­gra­mas de recu­pe­ra­ção foi incor­po­rado ao soft­ware.

A ação do soft­ware, neste caso, era eli­mi­nar tare­fas de baixa pri­o­ri­dade e res­ta­be­le­cer as mais impor­tan­tes.

Se o com­pu­ta­dor não tivesse reco­nhe­cido este pro­blema e tomado medi­das de recu­pe­ra­ção, duvido que Apollo 11 teria ido à lua de forma bem suce­dida em seu desem­bar­que”.

Você cunhou o termo “enge­nha­ria de soft­ware” durante esse tempo?

O soft­ware durante os pri­mei­ros dias desse pro­jeto foi tra­tado como um ente­ado e não levado tão a sério como outras dis­ci­pli­nas de enge­nha­ria, tais como enge­nha­ria de hard­ware; e foi con­si­de­rado como uma arte e, como mágica, não uma ciên­cia.

Sem­pre acre­di­tei que arte e ciên­cia esta­vam envol­vi­das na sua cri­a­ção, mas naquela época a mai­o­ria pen­sava o con­trá­rio.

Sabendo disso, eu lutei para tra­zer a legi­ti­mi­dade do soft­ware para que a ele (e àque­les a cons­truí-lo) fosse dado o devido res­peito e, assim, come­cei a usar o termo “enge­nha­ria de soft­ware” para dis­tin­gui-lo de hard­ware e outros tipos de enge­nha­ria;

Tam­bém para tra­tar cada tipo de enge­nha­ria como parte do pro­cesso geral de enge­nha­ria de sis­te­mas.

Quando eu come­cei a usar esta frase, ela foi con­si­de­rada bas­tante diver­tida. Era uma piada con­tí­nua durante muito tempo. Eles gos­ta­vam de brin­car comigo sobre minhas ideias radi­cais.

O soft­ware even­tu­al­mente e neces­sa­ri­a­mente ganhou o mesmo res­peito que qual­quer outra dis­ci­plina.

Você acha que a impor­tân­cia do seu tra­ba­lho neste pro­jeto foi reco­nhe­cida o sufi­ci­ente?

O tempo dirá. Com sorte, as solu­ções resul­tan­tes das lições apren­di­das neste pro­jeto serão ado­ta­das em uma escala maior.

Foi difí­cil, enquanto mulher, ser uma enge­nheira e cien­tista na década de 60? A situ­a­ção mudou hoje em dia?

Depende de quem a mulher era, para quem tra­ba­lhava e como a cul­tura estava em uma deter­mi­nada orga­ni­za­ção. Em geral, algu­mas coi­sas eram mais difí­ceis, mas outras estão mais difí­ceis agora.

Em retros­pec­tiva, algu­mas coi­sas eram acei­tas naquela época, por­que nós (homens e mulhe­res) não sabía­mos de nada, e que não são acei­tas agora; coi­sas que mui­tas vezes pare­cem curi­o­sas e até mesmo sur­pre­en­den­tes quando se olha pra trás.

Nós ainda faze­mos outras coi­sas além da igno­rân­cia de hoje, tais como con­ti­nuar a pagar às mulhe­res salá­rios mais bai­xos do que aos homens.

Havia mais mulhe­res que tra­ba­lha­vam em ciên­cia da com­pu­ta­ção em com­pa­ra­ção com outros ramos de enge­nha­ria? Como seus cole­gas tra­ta­ram você? É muito dife­rente de hoje?

Mulhe­res, se esti­ves­sem no campo de ciên­cia da com­pu­ta­ção na época, eram mais fre­quen­te­mente menos afas­ta­das ou rele­ga­das para redu­zir suas posi­ções.

No caso do pro­jeto Apollo meus cole­gas (prin­ci­pal­mente do sexo mas­cu­lino) e eu éra­mos ami­gos e tra­ba­lhá­va­mos lado a lado para resol­ver pro­ble­mas desa­fi­a­do­res e cum­prir pra­zos crí­ti­cos.

Está­va­mos con­cen­tra­dos em nosso tra­ba­lho mais do que que­ría­mos saber se alguém era homem ou mulher.

Nós esta­vam mais pro­pen­sos a se refe­rir a alguém como um “pes­soa de segundo andar”, “o cara do hard­ware”, “uma pes­soa DAP”, “um guru do sis­tema ope­ra­ci­o­nal” ou uma “mãe corda (que pode ser macho ou fêmea)”.

Em que outros pro­je­tos da NASA você tra­ba­lhou?

Eu tra­ba­lhei em todas as mis­sões Apollo tri­pu­la­das e em um par de mis­sões não tri­pu­la­das. Além disso, tra­ba­lhei no soft­ware Sky­lab de voo on-board, e nos requi­si­tos de soft­ware dos sis­te­mas pre­li­mi­na­res para o soft­ware de voo Space Shut­tle, para citar alguns.

O que você mais gosta no seu tra­ba­lho?

Os desa­fios em curso e as pes­soas cri­a­ti­vas com que tra­ba­lha­mos.

Em 1986 você fun­dou sua pró­pria empresa. Por que você tomou este passo?

Para ace­le­rar a evo­lu­ção da nossa tec­no­lo­gia e para apre­sentá-la a mais usuá­rios.

Em que você está tra­ba­lhando agora?

Con­ti­nuo a evo­luir o Sis­tema de Lin­gua­gem Uni­ver­sal (USL) e seu ciclo de vida auto­ma­ti­zado (a fer­ra­menta suíte 001) e a mon­tar uma infra-estru­tura de implan­ta­ção mais auto­ma­ti­zada.


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