Marcelo Adnet em quadro do programa Tá no Ar

Marcelo Adnet mostra que o capitalismo é inabalável

Em Política por Victor LisboaComentários

Mar­celo Adnet, humo­rista e apre­sen­ta­dor de TV, tem feito algum sucesso com seu pro­grama Tá no Ar, na Globo. Mas, mais que sucesso, tem sido objeto de mui­tos comen­tá­rios nas redes soci­ais. É que muita gente está espan­tada com o fato de Adnet fazer piada da pró­pria emis­sora (como aqui) e de parte de seu público (e aqui), e ainda assim per­ma­ne­cer “impune”.

Esse espanto tem algo de engra­çado. Para come­çar, parte do pres­su­posto de que de que a emis­sora pre­ju­di­ca­ria a si mesma deli­be­ra­da­mente. Na ver­dade, com essa estra­té­gia a Globo con­se­guiu algo jamais visto: pela pri­meira vez, as pes­soas de esquerda com­par­ti­lha­ram em redes soci­ais con­teúdo da emis­sora mais odi­ada pela esquerda bra­si­leira. Até mesmo um site noto­ri­a­mente anti-Globo divul­gou uma de suas melho­res pia­das.

Mas nada há de real­mente ino­va­dor na ideia de alguém tor­nar-se um grande sucesso em um pro­grama de TV que cri­tica fran­ca­mente a pró­pria TV e o estilo de vida que a publi­ci­dade tele­vi­siva tenta nos ven­der. Em Quinze Mil Méri­tos, segundo epi­só­dio do seri­ado bri­tâ­nico Black Mir­ror, um sujeito fica famoso por sua frus­trada ten­ta­tiva de sui­cí­dio diante das câme­ras, após um dis­curso con­tra o sta­tus quo, e é con­tra­tado para fazer o mesmo todas as sema­nas, com o apoio dos patro­ci­na­do­res.

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Na ver­dade, esse epi­só­dio é uma ver­são requen­tada de um grande filme de Sid­ney Lumet, Rede de Intri­gas (Network), no qual um âncora de tele­jor­nal tem um surto ao vivo e pro­fere um infla­mado dis­curso con­tra a TV, a soci­e­dade e a polí­tica ame­ri­ca­nas. Logo a seguir, ele é con­tra­tado para vol­tar a fazer o mesmo em um pro­grama só dele. Na sequên­cia, o canal de TV per­cebe que atrairá ainda mais audi­ên­cia se fizer um segundo pro­grama no qual ati­vis­tas de esquerda pra­ti­cam atos ter­ro­ris­tas, como assal­tos a ban­cos e seques­tros, fil­mando eles pró­prios seus ata­ques fero­zes ao capi­ta­lismo.

A cena a seguir é uma das mais diver­ti­das do filme:

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Mos­tre-me uma forma de ques­ti­o­nar o sis­tema e eu arran­ja­rei uma forma de ganhar dinheiro, esse é um lema que resume um dos aspec­tos mais fun­ci­o­nais e efi­ci­en­tes do capi­ta­lismo. Uma das razões pelas quais o capi­ta­lismo, ape­sar de todos os prog­nós­ti­cos, difi­cil­mente terá um fim.

Nietzs­che havia iden­ti­fi­cado essa mesma fun­ci­o­na­li­dade de sobre­vi­vên­cia adap­ta­tiva na Igreja Cató­lica. Tanto o capi­ta­lismo quanto a Igreja são como orga­nis­mos capa­zes não só de rea­gir a algum “vírus” ou agente hos­til que ame­ace sua saúde gra­ças a um efi­ci­ente sis­tema imu­no­ló­gico — ambos são capa­zes de assi­mi­lar o agente hos­til e torná-lo parte de si, ampli­ando suas habi­li­da­des evo­lu­ti­vas e meca­nis­mos de defesa. A um só tempo, essa téc­nica per­mite que o orga­nismo cor­rija as dis­fun­ci­o­na­li­da­des que esti­mu­la­ram os ata­ques, e acres­centa novos recur­sos e carac­te­rís­ti­cas úteis a seu sis­tema mul­ti­fa­ce­tado. Veja como a Igreja Cató­lica tran­si­tou (com atrito, claro) entre o obs­cu­ran­tismo da Idade Média, a licen­ci­o­si­dade do Renas­ci­mento e os tem­pos mais puri­ta­nos da Reforma.

Vol­tando ao cinema, não é de estra­nhar a quan­ti­dade de fil­mes ado­les­cen­tes que Hollywood tem pro­du­zido após movi­men­tos como Occupy Wall Street, con­tando his­tó­rias de jovens que nas­ce­ram em dis­to­pias mas que se revol­tam con­tra o sta­tus quo? Basta lem­brar de fic­ções cien­tí­fi­cas teens como Diver­gente, Jogos Vora­zes e The Maze Run­ner, todos com a men­sa­gem “revolte-se, jovem, os mais velhos cri­a­ram um sis­tema opres­sor”. Há déca­das, a indús­tria de entre­te­ni­mento apren­deu a esti­mu­lar o natu­ral incon­for­mismo dos ado­les­cen­tes para pos­te­ri­or­mente lucrar.

Ainda na oitava arte, vemos em Matrix uma per­feita ale­go­ria dessa faceta do capi­ta­lismo: uma máquina efi­ci­ente, capaz de uti­li­zar a pró­pria revolta e o ques­ti­o­na­mento de sua estru­tura como força man­te­ne­dora e apri­mo­ra­dora dessa pró­pria estru­tura. Hoje em dia, você não con­se­gue con­gre­gar milha­res de mani­fes­tan­tes nas ruas para pro­tes­tar con­tra o capi­ta­lismo sem uti­li­zar redes soci­ais e equi­pa­men­tos ele­trô­ni­cos que são pro­pri­e­da­des de bili­o­ná­rios ame­ri­ca­nos ou de mul­ti­na­ci­o­nais asiá­ti­cas.

Não pen­sem com isso que estou cri­ti­cando o capi­ta­lismo e pro­pondo qual­quer forma neo­lu­dista de com­bate à eco­no­mia de mer­cado. Ao con­trá­rio, estou na ver­dade é apon­tando como são cômi­cas e fada­das ao fra­casso todas as atu­ais for­mas de suplan­tar esse sis­tema. E por um motivo muito sim­ples: o capi­ta­lismo não é o resul­tado de uma teo­ria abs­trata, ela­bo­rada por um filó­sofo ou eco­no­mista do século deze­nove, não é uma for­mu­la­ção inte­lec­tual e aca­dê­mica, a qual se espera que cor­res­ponda à com­ple­xi­dade dos fatos; o capi­ta­lismo é o resul­tado his­tó­rico do desen­vol­vi­mento lento e orgâ­nico das carac­te­rís­ti­cas huma­nas fun­da­men­tais que entram em jogo quando pre­ci­sa­mos nos rela­ci­o­nar com outros seres huma­nos — o egoísmo, a des­con­fi­ança, a carên­cia afe­tiva, a com­pe­ti­ti­vi­dade, o medo, a vai­dade e a inveja.

Jogos Vorazes e a rebelião dos oprimidos: a narrativa da esquerda sendo assimilada e utilizada para vender ingressos.

Jogos Vora­zes e a rebe­lião dos opri­mi­dos: a nar­ra­tiva da esquerda sendo assi­mi­lada e uti­li­zada para ven­der ingres­sos.

O capi­ta­lismo fun­ci­ona não por­que ele é a expres­são efi­ci­ente de uma forma lógica de alo­ca­ção de recur­sos. Ele fun­ci­ona pois é a expres­são econô­mica de carac­te­rís­ti­cas huma­nas fun­da­men­tais, mesmo que elas sejam incon­ve­ni­en­tes à moral de uma época (há um enorme abismo entre o que é e o que gos­ta­ría­mos que fosse), e a solu­ção de seus atu­ais pro­ble­mas difi­cil­mente virá da sua rup­tura, mas de seu desen­vol­vi­mento.

Como o filó­sofo mar­xista Sla­voj Zizek luci­da­mente obser­vou, todas as ten­ta­ti­vas de imple­men­tar o comu­nismo falha­ram fra­go­ro­sa­mente pois a teo­ria soci­a­lista pode enten­der de eco­no­mia (os libe­rais dis­cor­dam) mas jamais enten­deu de psi­co­lo­gia. É que a esquerda nunca com­pre­en­deu que dis­tri­buir um mesmo piru­lito igual­mente sabo­roso para todas as pes­soas não as tor­nará autos­sa­tis­fei­tas e rea­li­za­das, não trará a uto­pia, pois no fundo todo indi­ví­duo pre­cisa se asse­gu­rar de que seu piru­lito seja mais sabo­roso que o do vizi­nho, e só ficará satis­feito quando isso ocor­rer.

O ser humano, ins­ti­tin­tiva e ine­vi­ta­vel­mente, sem­pre pro­cura uma posi­ção de van­ta­gem em rela­ção aos outros. Como o his­to­ri­a­dor Will Durant apon­tou, é efi­ci­ente uma estru­tura social na qual, se por um lado sem­pre há alguém acima de nós, por outro sem­pre há alguém abaixo para nos con­so­lar. Disso sem­pre surge o con­flito e a ten­ta­tiva de sobre­pu­jar o outro em alguma dimen­são da vida, e ape­nas um sis­tema base­ado nessa lógica vai cor­res­pon­der à nos­sas incli­na­ções mais bási­cas e ina­fas­tá­veis. Essa é nossa natu­reza fun­da­men­tal, é a pro­gra­ma­ção que está hardwi­red em nosso cére­bro — e tem sucesso uma estru­tura social que ate­nua e sublima tais ten­dên­cias para que fun­ci­o­nem de forma cons­tru­tiva e sem exter­na­li­da­des nega­ti­vas, enquanto fra­cassa um sis­tema que tem por pres­su­posto a nega­ção des­sas carac­te­rís­ti­cas huma­nas.

O pró­prio Zizek, no vídeo abaixo, iro­niza aque­les que con­ti­nu­a­mente preê­vem que o capi­ta­lismo está na sua fase final. Como ele bem aponta, desde a Revo­lu­ção Indus­trial os pro­fe­tas da oca­sião pre­veem que o capi­ta­lismo está apo­dre­cendo e em breve irá cair — mas o curi­oso é que quanto mais “podre” fica o capi­ta­lismo, mas resis­tente, adap­tá­vel e pode­roso ele se revela.

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É que nin­guém deve se ilu­dir com qual­quer pes­soa que se enxerga como um poço de modés­tia e reca­tada bene­vo­lên­cia: no fundo, essa pes­soa está vici­ada e pri­si­o­neira de uma mas­tur­ba­ção moral com a qual com­praz a si mesma por sua grande humil­dade. E quando tal indi­ví­duo arti­cula poli­ti­ca­mente essa auto-ilu­são na busca da jus­tiça social, acre­di­tando que sabe alguma ver­dade que outros não sabem, e que está lutando feito sol­dado con­tra um sis­tema malé­volo e opres­sor, essa pes­soa sente-se numa posi­ção de van­ta­gem em rela­ção às demais (“eu sei a ver­dade desse sis­tema, e pre­ciso aju­dar a sal­var meus con­ci­da­dãos que são mani­pu­la­dos por esse sis­tema”). Ela acre­dita que de alguma forma é espe­cial, deten­tora de algum conhe­ci­mento pri­vi­le­gi­ado sobre como as coi­sas fun­ci­o­nam e que esse conhe­ci­mento lhe auto­riza à agir (“eu sei quem são nos­sos ini­mi­gos”). Ela, em suma, acha que tem um piru­lito mais sabo­roso — e assim, sem per­ce­ber, vai entrando den­tro do pró­prio esquema fun­ci­o­nal do capi­ta­lismo.

Por isso não é de se espan­tar que as auto­ri­da­des da extinta União Sovié­tica usu­fruís­sem de bens de con­sumo impor­ta­dos cujo acesso proi­biam aos seus cida­dãos, e tam­pouco que na Coreia do Norte a alta cúpula de puxa­do­res de saco do Líder Supremo vivam em grande luxo. E sur­pre­ende muito menos que a pode­rosa China Maoísta tenha, no fim, tor­nado-se um gigan­tesco campo de con­cen­tra­ção que ofe­rece à mul­ti­na­ci­o­nais ame­ri­ca­nas e euro­peias mão-de-obra extre­ma­mente barata, sem direi­tos tra­ba­lhis­tas, maxi­mi­zando assim (que iro­nia mara­vi­lhosa) a “mais-valia” que Marx tanto que­ria abo­lir.

A Globo pode não ser ina­ba­lá­vel — e cer­ta­mente um dia será ape­nas memó­ria. Mas a lógica por trás de sua estra­té­gia tímida de apos­tar em apre­sen­ta­do­res como Mar­celo Adnet revela de forma clara um dos aspec­tos prin­ci­pais do capi­ta­lismo. Para­fra­se­ando o lema citado ante­ri­or­mente, mos­tre-me uma maneira de sen­tir-se supe­rior aos outros, ainda que rindo de pia­das mais sofis­ti­ca­das ou sen­tindo-se intelectualmente/moralmente pri­vi­le­gi­ado, e mos­tra­rei uma forma de ganhar dinheiro. O final de Rede de Intri­gas (não vou con­tar), nesse sen­tido, é reve­la­dor.

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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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