Marcelo Adnet, humorista e apresentador de TV, tem feito algum sucesso com seu programa Tá no Ar, na Globo. Mas, mais que sucesso, tem sido objeto de muitos comentários nas redes sociais. É que muita gente está espantada com o fato de Adnet fazer piada da própria emissora (como aqui) e de parte de seu público (e aqui), e ainda assim permanecer “impune”.

Esse espanto tem algo de engraçado. Para começar, parte do pressuposto de que de que a emissora prejudicaria a si mesma deliberadamente. Na verdade, com essa estratégia a Globo conseguiu algo jamais visto: pela primeira vez, as pessoas de esquerda compartilharam em redes sociais conteúdo da emissora mais odiada pela esquerda brasileira. Até mesmo um site notoriamente anti-Globo divulgou uma de suas melhores piadas.

Mas nada há de realmente inovador na ideia de alguém tornar-se um grande sucesso em um programa de TV que critica francamente a própria TV e o estilo de vida que a publicidade televisiva tenta nos vender. Em Quinze Mil Méritos, segundo episódio do seriado britânico Black Mirror, um sujeito fica famoso por sua frustrada tentativa de suicídio diante das câmeras, após um discurso contra o status quo, e é contratado para fazer o mesmo todas as semanas, com o apoio dos patrocinadores.

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Na verdade, esse episódio é uma versão requentada de um grande filme de Sidney Lumet, Rede de Intrigas (Network), no qual um âncora de telejornal tem um surto ao vivo e profere um inflamado discurso contra a TV, a sociedade e a política americanas. Logo a seguir, ele é contratado para voltar a fazer o mesmo em um programa só dele. Na sequência, o canal de TV percebe que atrairá ainda mais audiência se fizer um segundo programa no qual ativistas de esquerda praticam atos terroristas, como assaltos a bancos e sequestros, filmando eles próprios seus ataques ferozes ao capitalismo.

A cena a seguir é uma das mais divertidas do filme:

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Mostre-me uma forma de questionar o sistema e eu arranjarei uma forma de ganhar dinheiro, esse é um lema que resume um dos aspectos mais funcionais e eficientes do capitalismo. Uma das razões pelas quais o capitalismo, apesar de todos os prognósticos, dificilmente terá um fim.

Nietzsche havia identificado essa mesma funcionalidade de sobrevivência adaptativa na Igreja Católica. Tanto o capitalismo quanto a Igreja são como organismos capazes não só de reagir a algum “vírus” ou agente hostil que ameace sua saúde graças a um eficiente sistema imunológico – ambos são capazes de assimilar o agente hostil e torná-lo parte de si, ampliando suas habilidades evolutivas e mecanismos de defesa. A um só tempo, essa técnica permite que o organismo corrija as disfuncionalidades que estimularam os ataques, e acrescenta novos recursos e características úteis a seu sistema multifacetado. Veja como a Igreja Católica transitou (com atrito, claro) entre o obscurantismo da Idade Média, a licenciosidade do Renascimento e os tempos mais puritanos da Reforma.

Voltando ao cinema, não é de estranhar a quantidade de filmes adolescentes que Hollywood tem produzido após movimentos como Occupy Wall Street, contando histórias de jovens que nasceram em distopias mas que se revoltam contra o status quo? Basta lembrar de ficções científicas teens como Divergente, Jogos Vorazes e The Maze Runner, todos com a mensagem “revolte-se, jovem, os mais velhos criaram um sistema opressor”. Há décadas, a indústria de entretenimento aprendeu a estimular o natural inconformismo dos adolescentes para posteriormente lucrar.

Ainda na oitava arte, vemos em Matrix uma perfeita alegoria dessa faceta do capitalismo: uma máquina eficiente, capaz de utilizar a própria revolta e o questionamento de sua estrutura como força mantenedora e aprimoradora dessa própria estrutura. Hoje em dia, você não consegue congregar milhares de manifestantes nas ruas para protestar contra o capitalismo sem utilizar redes sociais e equipamentos eletrônicos que são propriedades de bilionários americanos ou de multinacionais asiáticas.

Não pensem com isso que estou criticando o capitalismo e propondo qualquer forma neoludista de combate à economia de mercado. Ao contrário, estou na verdade é apontando como são cômicas e fadadas ao fracasso todas as atuais formas de suplantar esse sistema. E por um motivo muito simples: o capitalismo não é o resultado de uma teoria abstrata, elaborada por um filósofo ou economista do século dezenove, não é uma formulação intelectual e acadêmica, a qual se espera que corresponda à complexidade dos fatos; o capitalismo é o resultado histórico do desenvolvimento lento e orgânico das características humanas fundamentais que entram em jogo quando precisamos nos relacionar com outros seres humanos – o egoísmo, a desconfiança, a carência afetiva, a competitividade, o medo, a vaidade e a inveja.

Jogos Vorazes e a rebelião dos oprimidos: a narrativa da esquerda sendo assimilada e utilizada para vender ingressos.
Jogos Vorazes e a rebelião dos oprimidos: a narrativa da esquerda sendo assimilada e utilizada para vender ingressos.

O capitalismo funciona não porque ele é a expressão eficiente de uma forma lógica de alocação de recursos. Ele funciona pois é a expressão econômica de características humanas fundamentais, mesmo que elas sejam inconvenientes à moral de uma época (há um enorme abismo entre o que é e o que gostaríamos que fosse), e a solução de seus atuais problemas dificilmente virá da sua ruptura, mas de seu desenvolvimento.

Como o filósofo marxista Slavoj Zizek lucidamente observou, todas as tentativas de implementar o comunismo falharam fragorosamente pois a teoria socialista pode entender de economia (os liberais discordam) mas jamais entendeu de psicologia. É que a esquerda nunca compreendeu que distribuir um mesmo pirulito igualmente saboroso para todas as pessoas não as tornará autossatisfeitas e realizadas, não trará a utopia, pois no fundo todo indivíduo precisa se assegurar de que seu pirulito seja mais saboroso que o do vizinho, e só ficará satisfeito quando isso ocorrer.

O ser humano, institintiva e inevitavelmente, sempre procura uma posição de vantagem em relação aos outros. Como o historiador Will Durant apontou, é eficiente uma estrutura social na qual, se por um lado sempre há alguém acima de nós, por outro sempre há alguém abaixo para nos consolar. Disso sempre surge o conflito e a tentativa de sobrepujar o outro em alguma dimensão da vida, e apenas um sistema baseado nessa lógica vai corresponder à nossas inclinações mais básicas e inafastáveis. Essa é nossa natureza fundamental, é a programação que está hardwired em nosso cérebro – e tem sucesso uma estrutura social que atenua e sublima tais tendências para que funcionem de forma construtiva e sem externalidades negativas, enquanto fracassa um sistema que tem por pressuposto a negação dessas características humanas.

O próprio Zizek, no vídeo abaixo, ironiza aqueles que continuamente preêvem que o capitalismo está na sua fase final. Como ele bem aponta, desde a Revolução Industrial os profetas da ocasião preveem que o capitalismo está apodrecendo e em breve irá cair – mas o curioso é que quanto mais “podre” fica o capitalismo, mas resistente, adaptável e poderoso ele se revela.

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É que ninguém deve se iludir com qualquer pessoa que se enxerga como um poço de modéstia e recatada benevolência: no fundo, essa pessoa está viciada e prisioneira de uma masturbação moral com a qual compraz a si mesma por sua grande humildade. E quando tal indivíduo articula politicamente essa auto-ilusão na busca da justiça social, acreditando que sabe alguma verdade que outros não sabem, e que está lutando feito soldado contra um sistema malévolo e opressor, essa pessoa sente-se numa posição de vantagem em relação às demais (“eu sei a verdade desse sistema, e preciso ajudar a salvar meus concidadãos que são manipulados por esse sistema”). Ela acredita que de alguma forma é especial, detentora de algum conhecimento privilegiado sobre como as coisas funcionam e que esse conhecimento lhe autoriza à agir (“eu sei quem são nossos inimigos”). Ela, em suma, acha que tem um pirulito mais saboroso – e assim, sem perceber, vai entrando dentro do próprio esquema funcional do capitalismo.

Por isso não é de se espantar que as autoridades da extinta União Soviética usufruíssem de bens de consumo importados cujo acesso proibiam aos seus cidadãos, e tampouco que na Coreia do Norte a alta cúpula de puxadores de saco do Líder Supremo vivam em grande luxo. E surpreende muito menos que a poderosa China Maoísta tenha, no fim, tornado-se um gigantesco campo de concentração que oferece à multinacionais americanas e europeias mão-de-obra extremamente barata, sem direitos trabalhistas, maximizando assim (que ironia maravilhosa) a “mais-valia” que Marx tanto queria abolir.

A Globo pode não ser inabalável – e certamente um dia será apenas memória. Mas a lógica por trás de sua estratégia tímida de apostar em apresentadores como Marcelo Adnet revela de forma clara um dos aspectos principais do capitalismo. Parafraseando o lema citado anteriormente, mostre-me uma maneira de sentir-se superior aos outros, ainda que rindo de piadas mais sofisticadas ou sentindo-se intelectualmente/moralmente privilegiado, e mostrarei uma forma de ganhar dinheiro. O final de Rede de Intrigas (não vou contar), nesse sentido, é revelador.

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escrito por:

Victor Lisboa