maxresdefault_1

As máquinas estão roubando nossos empregos?

Em Sociedade por Rodrigo ZottisComentário

Se você colo­car água no fogão para aque­cer, pri­mei­ra­mente ela só ficará mais e mais quente. Con­tudo, em algum momento tudo muda: a água come­çar a fer­ver, pas­sando de líquido quente para vapor. Os físi­cos cha­mam isso de “tran­si­ção de fase”.

A auto­ma­ti­za­ção impul­si­o­nada pelo pro­gresso tec­no­ló­gico tem aumen­tado ine­vi­ta­vel­mente durante as últi­mas déca­das. Duas esco­las de pen­sa­mento econô­mico têm por mui­tos anos se empe­nhado num debate sobre os efei­tos poten­ci­ais de auto­ma­ção de diver­sas ati­vi­da­des, prin­ci­pal­mente envol­vendo a ques­tão do emprego e a atu­a­ção humana: será que as novas tec­no­lo­gias cau­sa­rão um desem­prego em massa, enquanto os robôs assu­mem pos­tos de tra­ba­lho de seres huma­nos? Ou será que os empre­gos que os robôs toma­rem cri­a­rão uma nova demanda de empre­gos huma­nos?

O debate esquen­tou mais ainda recen­te­mente, por causa de avan­ços tec­no­ló­gi­cos em rela­ção à inte­li­gên­cia arti­fi­cial. Recen­te­mente, um pro­grama de soft­ware da Goo­gle cha­mado AlphaGo ven­ceu o cam­peão do mundo de Go, Lee Sedol, em uma tarefa que era con­si­de­rada mais difí­cil do que ven­cer cam­peões de xadrez mun­di­ais — o que já acon­te­ceu.

Ino­va­ções na área médica, com o uso de máqui­nas para rea­li­zar cirur­gias de alta pre­ci­são, já estão ocor­rendo em dife­ren­tes locais do mundo. Seria só ques­tão de tempo até essas máqui­nas serem com­ple­ta­mente auto­ma­ti­za­das?

Em última aná­lise, a ques­tão resume-se a isto: seriam as ino­va­ções tec­no­ló­gi­cas simi­la­res às do pas­sado, que se, por um lado, tor­na­ram obso­leto o tra­ba­lho do fabri­cante de car­ru­a­gens, por outro cri­a­ram o tra­ba­lho do fabri­cante de auto­mó­veis? Ou o avanço tec­no­ló­gico de hoje é com­ple­ta­mente dife­rente?

O livro do jor­na­lista bri­tâ­nico Mal­colm GladwellThe Tip­ping Point des­taca o que ele cha­mou de “o momento cru­cial quando uma ideia, ten­dên­cia ou com­por­ta­mento social cruza um limite e se espa­lha como fogo”. Será que pode­mos real­mente ter cer­teza de que não esta­mos che­gando a uma fase de tran­si­ção — que não esta­mos con­fun­dindo a ten­dên­cia da tec­no­lo­gia em des­truir e criar novos empre­gos, quando na ver­dade ire­mos cami­nhar mais e mais para auto­ma­ção, tor­nando o tra­ba­lho manual dis­pen­sá­vel?

PREOCUPAÇÕES ANTIGAS 

Essa não é uma pre­o­cu­pa­ção nova, claro. Remonta pelo menos tanto quanto aos ludi­tas do iní­cio do século XIX na Grã-Bre­ta­nha. As novas tec­no­lo­gias cau­sam medo quando nos impõem mudan­ças ine­vi­tá­veis.

Pode pare­cer fácil des­car­tar pre­o­cu­pa­ções que pare­cem tão longe de se con­cre­ti­zar. O tra­ba­lho manual e infor­mal é o que mais existe no mundo. Mas os eco­no­mis­tas Jef­frey Sachs, da Uni­ver­si­dade de Colum­bia, e Lau­rence Kotli­koff, da Uni­ver­si­dade de Bos­ton, argu­men­tam: “se as máqui­nas estão ficando tão inte­li­gen­tes, gra­ças aos seus cére­bros de micro­pro­ces­sa­do­res, por que pre­ci­sa­riam de tra­ba­lho humano para as cons­truir e pro­gra­mar?” Afi­nal de con­tas, eles ale­gam:

As máqui­nas agora podem ope­rar auto­ma­ti­ca­mente, elas podem escre­ver arti­gos, medir a pres­são arte­rial, nos dar mas­sa­gem nas cos­tas, impri­mir os nos­sos docu­men­tos, trans­mi­tir as nos­sas men­sa­gens, ler os nos­sos livros, voar nos­sos aviões, matar nos­sos ini­mi­gos… É ape­nas uma ques­tão de tempo até que elas pos­sam cons­truir a si pró­prias.”

O jor­nal bri­tâ­nico The Guar­dian fez uma ani­ma­ção muito inte­res­sante, ins­pi­rada em um futuro dis­tó­pico, onde o tra­ba­lho manual não existe.

Olhando para os dados econô­mi­cos, há evi­dên­cias con­si­de­rá­veis ​​de que essa pre­o­cu­pa­ção pode ser jus­ti­fi­cada. Eric Bryn­jolfs­son e Andrew McA­fee, do MIT, recen­te­mente escre­ve­ram:

Durante várias déca­das após a Segunda Guerra Mun­dial, as esta­tís­ti­cas econô­mi­cas de tra­ba­lho subi­ram prin­ci­pal­mente na Amé­rica do Norte. O PIB cres­ceu, assim como a pro­du­ti­vi­dade — a nossa capa­ci­dade de obter maior pro­du­ção de cada tra­ba­lha­dor. Ao mesmo tempo, cri­a­mos milhões de pos­tos de tra­ba­lho, e mui­tos deles eram os tipos de tra­ba­lhos que per­mi­ti­ram ao tra­ba­lha­dor ame­ri­cano de classe média, que não tem um diploma uni­ver­si­tá­rio, des­fru­tar de um padrão de vida mais alto. Con­tudo, o cres­ci­mento da pro­du­ti­vi­dade e o cres­ci­mento da oferta de emprego come­ça­ram a se dis­so­ciar um do outro.

Imagem 1 do artigo "As máquinas estão roubando nossos empregos?", de Rodrigo Zottis para Ano Zero.

Mais pro­du­ti­vi­dade, menos salá­rio, U.S. Depart­ment of Labor Sta­tis­tics

Como mos­tram os dados acima, a eco­no­mia dos EUA vem dando maus fru­tos para os 90% da base popu­la­ci­o­nal norte-ame­ri­cana durante os últi­mos 35 anos. A tec­no­lo­gia pro­move o aumento de pro­du­ti­vi­dade, o que con­tri­bui com o cres­ci­mento da eco­no­mia. Mas a maré não está levando todos os bar­cos com ela, e a mai­o­ria das pes­soas não está vendo qual­quer bene­fí­cio a par­tir desse cres­ci­mento. Embora a eco­no­mia dos EUA esteja cri­ando pos­tos de tra­ba­lho, parece que não o faz em ritmo e escala sufi­ci­en­tes. A taxa de par­ti­ci­pa­ção da força de tra­ba­lho, que mede a parte ativa da força de tra­ba­lho, vem caindo desde o final dos anos 1990.

Enquanto a pro­du­ção indus­trial está em um ponto mais alto, o emprego indus­trial é hoje menor do que era na década de 1940. Os salá­rios para os fun­ci­o­ná­rios pri­va­dos estag­na­ram desde o final da década de 1960, e os salá­rios em rela­ção ao PIB con­ti­nuam a dimi­nuir desde 1970. O desem­prego estru­tu­ral está cres­cendo e a desi­gual­dade tor­nou-se um tópico de dis­cus­são glo­bal, prin­ci­pal­mente após a publi­ca­ção de “O Capi­tal no Século XXI” de Tho­mas Piketty em 2014.

Um perigo iminente?

Eco­no­mis­tas como Angus Dea­ton, ven­ce­dor de 2015 do Prê­mio Nobel, des­co­bri­ram que a mor­ta­li­dade para os ame­ri­ca­nos bran­cos de meia-idade tem aumen­tado ao longo dos últi­mos 25 anos devido a uma epi­de­mia de sui­cí­dios e afli­ções decor­ren­tes de abuso de medi­ca­men­tos. Teria isso alguma rela­ção com a falta de empre­gos?

Con­tudo, mui­tos outros fato­res rela­ti­vos à falta de vagas de empre­gos podem estar em jogo, tais como glo­ba­li­za­ção, des­re­gu­la­men­ta­ção, reces­são econô­mica, infla­ção, gover­nos deca­den­tes e coi­sas do tipo. No entanto, numa pes­quisa sobre o impacto da tec­no­lo­gia nos empre­gos e ren­di­men­tos rea­li­zada em 2014, 43% dos entre­vis­ta­dos con­cor­da­ram com a afir­ma­ção de que “a tec­no­lo­gia da infor­ma­ção e auto­ma­ção são uma razão cen­tral pela qual os salá­rios médios têm estag­nado ao longo da década, ape­sar do aumento da pro­du­ti­vi­dade”, enquanto ape­nas 28% dis­cor­da­ram. Da mesma forma, um estudo de 2015 do Fundo Mone­tá­rio Inter­na­ci­o­nal (FMI) con­cluiu que o pro­gresso tec­no­ló­gico é um fator impor­tante no aumento da desi­gual­dade ao longo das últi­mas déca­das.

A linha infe­rior do grá­fico mos­tra que, embora a auto­ma­ção esteja eli­mi­nando mui­tos pos­tos de tra­ba­lho que antes eram ocu­pa­dos por pes­soas, não há evi­dên­cia de que a intro­du­ção de tec­no­lo­gias nos últi­mos anos tenha acom­pa­nhado a cri­a­ção de um número igual de empre­gos bem remu­ne­ra­dos para com­pen­sar as per­das cau­sa­das pela auto­ma­ção. Em 2014, um estudo da Oxford des­co­briu que o número de tra­ba­lha­do­res mudando para novas indús­trias tem sido sur­pre­en­den­te­mente pequeno: em 2010, ape­nas 0,5% da força de tra­ba­lho foi empre­gada em indús­trias que não exis­tiam em 2000.

A dis­cus­são sobre os seres huma­nos, máqui­nas e tra­ba­lho tende a ser uma dis­cus­são sobre algum ponto inde­ter­mi­nado no futuro dis­tante. Mas é hora de enca­rar a rea­li­dade: o futuro é agora, e depen­dendo da forma como lida­re­mos com ele, esta­re­mos no olho da rua num pis­car de olhos.


Seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

A Revo­lu­ção da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial
No futuro, sere­mos todos neo­ple­beus?

Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

Compartilhe