(Tradução autorizada por Tim Urban, autor do texto original em inglês, publicado no site Wait But Why)

Esta é a Parte 2. Você não entenderá a Parte 2 se não leu a Parte 1 ainda. Aqui está a Parte 1.


Algumas pessoas nasceram com mamutes razoavelmente domesticáveis, ou foram criadas por pais que lhe ajudaram a manter seu mamute sobre controle. Outras morrem sem jamais terem domado seu mamute, desperdiçando toda a vida sujeitando-se ao seus caprichos. A maioria de nós está no meio – nós temos o controle do mamute em determinadas áreas de nossas vidas, enquanto em outras ele faz um enorme estrago. Ser comandado por seu mamute não faz de você uma pessoa fraca ou má – só significa que você ainda não descobriu como obter controle sobre ele. No final das contas, você pode nem mesmo estar ciente de que tem um mamute ou do quanto em decorrência disso sua Voz Autêntica tem sido silenciada.

Seja qual for sua situação, há três passos para colocar seu mamute sob o seu controle: 

Passo 1: Examine você mesmo

O primeiro passo para melhorar as coisas é uma avaliação clara e honesta sobre o que está acontecendo em sua cabeça, e isso pode ser dividido em três partes:

1) Conheça sua Voz Autêntica

 

img01Isso não parece muito difícil, mas é. É preciso uma séria reflexão para eliminar as teias formadas por pensamentos e opiniões de outras pessoas e descobrir quem o verdadeiro você realmente é. Você gasta parte de seu tempo com um monte de pessoas – de quais delas você gosta mais? Como você aproveita seu tempo de lazer, e você realmente gosta de tudo o que faz? Há algo em que regularmente você gasta dinheiro e isso não lhe deixa muito confortável? Como você realmente se sente no seu íntimo a respeito do seu trabalho, relacionamento e status social? Qual é sua verdadeira opinião política, e você realmente se importa com isso? Você finge se importar com coisas sobre as quais você nem mesmo tem uma opinião formada? Você secretamente tem uma opinião sobre um tema político ou moral que você jamais expressou porque pessoas que você conhece iriam se sentir ofendidas?

Há frases clichês para esse processo – “busca da alma”, “descobrir a si mesmo” – mas isso é exatamente o que é preciso ser feito. Talvez você possa fazer essa reflexão agora mesmo na cadeira em que está sentado em outro momento da sua vida cotidiana – ou talvez você precise ir para algum lugar distante, sozinho, e dar uma pausa em sua vida cotidiana para efetivamente fazer essa análise. De um jeito ou de outro, você precisa descobrir o que realmente importa para você, e começar a sentir-se orgulhoso da sua Voz Autêntica, seja ela o que for.

2) Descubra onde o Mamute está se escondendo

 

img03Na maioria das vezes em que um mamute está controlando alguém, essa pessoa não está realmente ciente disso. Mas você não conseguirá fazer nenhum progresso se não for totalmente sincero sobre onde estão as áreas mais problemáticas na sua vida.

A maneira mais óbvia de encontrar o mamute é descobrir onde está seu medo – em que circunstâncias você está mais suscetível de vergonha ou embaraço? Que aspectos da sua vida despertam uma sensação ruim e sufocante quando você pensa a respeito? Em que situações a possibilidade de falhar parece um pesadelo? Que atividades você é tímido demais para mostrar em público apesar de saber que é muito bom nelas? Se você desse um conselho a si mesmo, quais aspectos da sua vida claramente precisariam de uma mudança que você está evitando realizar exatamente agora?

O segundo lugar em que o mamute se esconde é nas sensações prazerosas que você tem quando se sente aceito ou em um pedestal acima das outras pessoas. Você está muito preocupado em agradar os outros no seu trabalho ou em seu relacionamento? Você está aterrorizado com a ideia de desapontar seus pais e prefere deixá-los orgulhosos ao invés de focar naquilo que gratificaria a você mesmo? Você fica entusiasmado demais com a ideia de estar associado a coisas de prestígio ou se importa demais com seu status? Você se gaba mais do que deveria?

Uma terceira área em que o mamute está presente é qualquer assunto em que você não se sente confortável em tomar uma decisão sem a “permissão” ou a aprovação dos outros.

Você tem opiniões que apenas ecoam a voz de outra pessoa e que você se sente confortável em possuir agora que você sabe que aquela pessoa também as tem? Quando você apresenta seu namorado ou namorada para sua família pela primeira vez, pode a reação de seus parentes a essa nova pessoa modificar fundamentalmente os sentimentos que você tem por ele/ela? Há um Mestre dos Fantoches em sua vida? Se existe, quem é e por quê?

3) Decida de onde o mamute precisa ser expulso

 

img04Não é muito realista chutar o mamute totalmente para fora de sua cabeça – você é um ser humano e seres humanos têm mamutes em suas cabeças, ponto final. O que todos nós precisamos é estabelecer certas áreas de nossas vidas que precisam estar nas mãos da Voz Autêntica e livres da influência do mamute. Há áreas óbvias que precisam fazer parte dos domínios da sua Voz Autêntica, como a escolha de seu parceiro, a sua carreira profissional e o modo como você cria seus filhos. Outras dependem de suas escolhas pessoais – e então vem a questão: “Em quais partes da sua vida você precisa ser totalmente verdadeiro consigo próprio?”

Passo 2: Tenha coragem de internalizar que o mamute tem um baixo QI.

 

Os verdadeiros mamutes peludos eram desimportantes o suficiente para serem extintos, e o Mamute da Sobrevivência Social não é melhor que eles. Apesar do fato de que nos assombram, nossos mamutes são criaturas primitivas e idiotas que não têm qualquer compreensão do mundo moderno. Compreender isso profundamente – e internalizar isso – é a chave para domar o seu mamute. Há duas razões principais para não levar o seu mamute muito a sério:

1) Os medos do mamute são totalmente irracionais.

Há cinco coisas sobre as quais o mamute está errado:

Todo mundo está falando de mim e da minha vida e preciso refletir bem sobre o que todo mundo vai dizer se eu fizer essa coisa arriscada e estranha em que estou pensando.

Aqui está como o mamute pensa que as coisas são:

img06Aqui está como elas são realmente:

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Ninguém realmente se importa tanto assim sobre o que você está fazendo. As pessoas são altamente auto-centradas.

Se eu me esforçar bastante, posso agradar todo mundo.

Sim, talvez em uma tribo com 40 pessoas em uma cultura unificada. Mas no mundo de hoje, não importa quem você seja, um monte de pessoas vai gostar de você e um monte de outras pessoas não vai. Ser aprovado por um tipo de pessoa significa ser desaprovado pelo tipo de pessoa oposto. Então ficar obcecado com a ideia de ajustar-se a cada um dos grupos sociais é ilógico, especialmente se um desses grupos não tem realmente nada a ver com quem você é. Você vai ter todo esse trabalho e, enquanto isso, as pessoas de quem você realmente gosta estarão em outro lugar fazendo amizades umas com as outras.

Ser desaprovado ou desconsiderado ou difamado tem consequências reais na minha vida.

Qualquer um que desaprove quem você é ou o que você está fazendo não vai ficar na mesma sala que você 99,7% das vezes. É um clássico erro do mamute construir uma projeção futura das consequências sociais que é muito pior do que aquilo que vai realmente acabar acontecendo – e de regra nada vai acontecer no final das contas.

A opinião de pessoas que vivem julgando os outros importa.

As pessoas que vivem julgando os outros funcionam assim: elas são intensamente controladas por seus mamutes e se tornam boas amigas deles e acabam encontrando outras pessoas que também vivem julgando os outros e que também são altamente controladas por seus mamutes. Uma das principais atividades que elas fazem juntas é falar merda sobre qualquer pessoa que não esteja presente – talvez elas sintam inveja, e o girar de olhos em desaprovação as ajude a prosseguir no roteiro e assim sentirem menos inveja, ou talvez elas não tenham inveja e usem alguma pessoa como recurso para se deleitarem no schadenfreude – mas seja qual for o sentimento subjacente, o julgamento serve para alimentar seus mamutes famintos.

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Quando pessoas falam merda, elas dividem o mundo em duas categorias de modo que elas sempre estejam do lado certo. Elas fazem isso para se manter em um pedestal no qual seus mamutes podem abocanhar tudo ao redor.

Ser usado por uma pessoa que vive julgando os outros para que ela possa sentir-se bem a respeito de si própria é uma ideia realmente irritante, mas que na verdade não tem consequência alguma e claramente é muito mais um problema daquela pessoa e de seu mamute do que um problema seu. Se você se percebe tomando decisões parcialmente baseadas no desejo de não ser objeto de críticas de pessoas que vivem julgando os outros, pense muito sobre o que está realmente acontecendo e pare com isso.

Sou uma má pessoa se eu desapontar ou ofender aqueles que me amam e que investiram tanto em mim.

Não. Você não é uma má pessoa por ser quem quer que sua Voz Autêntica diz que você é. Essa é uma daquelas coisas simples: se eles amam você com real desprendimento, eles com certeza ficarão ao seu lado e aceitarão qualquer coisa se perceberem que você está feliz. Se você está feliz e ainda assim eles não ficam ao seu lado, isso é o que está acontecendo: a opinião deles sobre quem você deveria ser e o que você deveria fazer são as opiniões do seus mamutes internos, e sua principal motivação é preocupar-se com o que as pessoas que eles conhecem vão pensar a respeito da situação. Eles estão permitindo que seus mamutes sobrepujem o amor que sentem por você, e eles devem ser totalmente ignorados.

Duas outras razões pelas quais a acovardada obsessão do mamute pela aprovação social não tem nenhum sentido são as seguintes:

A) Você vive aqui:

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Então quem se importa com merda alguma?

B) Você e qualquer pessoa que você conhece vão morrer. E meio que em breve.

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Então…

Os fato de os medos do mamute serem irracionais é uma das razões de seu QI ser tão baixo. Aqui está a outra razão:

2) Os esforços do mamute são contraprodutivos.

A ironia da coisa toda é que o pesado mamute obsessivo nem é bom em seu trabalho. Seus métodos de ganhar aprovação podem ter sido eficazes em tempos mais simples, mas hoje eles são transparentes e desatualizados. O mundo moderno é o mundo da Voz Autêntica, e se o mamute quiser prosperar socialmente, ele deve fazer aquilo que mais lhe apavora – deixar que a Voz Autêntica assuma o controle. Aqui está o porquê:

Vozes Autênticas são interessantes. Mamutes são chatos. Cara, a V.A. é única e complexa, o que é algo inerentemente interessante. Mamutes são todos iguais – eles copiam e se conformam, e suas motivações não são inspiradas em nada autêntico ou real, mas apenas em fazer aquilo que pensam que se espera que façam. Isso é imensamente chato.

Vozes Autênticas lideram. Mamutes seguem. Liderança é algo natural para a maioria das Vozes Autênticas, pois elas tiram seus pensamentos e opiniões de um lugar original, o que lhes dá um ponto de vista original. E se elas forem espertas e inovadoras o bastante, elas podem mudar coisas no mundo e inventar outras coisas que desestruturam o status quo. Se você dá a uma Voz Autêntica um pincel e uma tela vazia, ela pode não pintar algo bom, mas mudará a tela de uma ou de outra maneira.

Mamutes, por outro lado, são seguidores – por definição. É para isso que eles foram feitos – misturar-se e seguir o líder. A última coisa que um mamute vai fazer é mudar o status quo porque ele está tentando com todas as suas forças pertencer ao status quo. Quando você dá a alguém um pincel e uma tela, mas a tinta é da mesma cor que a tela, a pessoa pode pintar do jeito que quiser que não vai conseguir mudar coisa nenhuma.

As pessoas gravitam em torno de Vozes Autênticas, e não de mamutes. A única vez em que uma pessoa obcecada por seu mamute parece atraente num primeiro encontro é quando esse encontro é com outra pessoa obcecada por seu mamute. Pessoas com uma Voz Autêntica forte enxergam através das pessoas controladas por seus mamutes e não se sentem atraídas por elas.

Uma amiga minha estava saindo com um cara em tese ótimo, mas terminou o envolvimento porque ela não conseguia se apaixonar por ele. Ela tentou explicar o porquê, dizendo que ele não era esquisito ou especial o suficiente – ele parecia “só mais um dos caras”. Em outras palavras, ele estava sendo controlado demais por um mamute.

Isso também vale entre amigos e colegas, em que pessoas controladas por sua Voz Autêntica são mais respeitadas e mais atraentes – não porque necessariamente haja qualquer coisa interessante sobre eles, mas porque as pessoas respeitam alguém com a força de caráter necessária para domar seu mamute.

Passo 3: Comece a ser você mesmo 

Este artigo era só diversão e festa até “comece a ser você mesmo” entrar em cena. Até agora, este texto foi uma interessante reflexão sobre por que humanos se importam tanto com o que outras pessoas pensam, porque isso é ruim, de que modo isso é um problema na sua vida e por que não há nenhuma razão para isso continuar a atormentar você. Mas realmente fazer alguma coisa após você terminar de ler este artigo é uma coisa totalmente diferente. Isso exige mais do que reflexões – isso exige coragem.

img11Mas coragem contra o que, exatamente? Como já dissemos, não há nenhum risco verdadeiro em ser você mesmo – mais do que tudo, basta apenas ter uma epifania do tipo O Rei está nu, que é tão simples quanto isto:

Praticamente nada do que você socialmente teme é realmente digno de se temer.

Introjetar esse pensamento vai diminuir o medo que você sente, e sem medo o mamute perde um pouco de seu poder.

img12Com um mamute enfraquecido, torna-se possível começar a dar apoio a quem você realmente é e até mesmo fazer algumas mudanças ousadas – quando você perceber que essas mudanças acabaram bem e com poucas consequências negativas e sem arrependimentos, isso vai reforçar a epifania e uma Voz Autêntica empoderada torna-se a regra. Seu mamute agora perdeu sua habilidade de puxar suas cordas, e está domado.

img13O mamute ainda estará com você – ele sempre estará com você -, mas você terá tempos mais fáceis ao ignorá-lo e superá-lo quando ele falar ou agir, porque a Voz Autêntica é quem manda agora. Você pode começar a saborear a sensação de estar sendo visto como estranho, inadequado ou confuso para as pessoas, e a sociedade torna-se seu playground e sua tela em branco, e não algo diante do qual você rasteja esperando por aceitação.

Fazer essa mudança não é fácil pra ninguém, mas vale a pena ficar obcecado por ela. Sua Voz Autêntica tem uma só vida para viver – e é seu trabalho assegurar que ela tenha a oportunidade de vivê-la.

 


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escrito por:

Tim Urban

Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.


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