(Tradução autorizada por Tim Urban, autor do texto original em inglês, publicado no site Wait But Why)


 

Parte 1: descubra seu mamute 

No primeiro dia na segunda série, fui para a escola e notei que havia uma nova e linda menina na classe – alguém que eu não havia visto no ano anterior. Seu nome era Alessandra e uma hora depois ela já era tudo para mim.

Quando você tem sete anos, não há realmente nenhum passo lógico que você possa tomar quando ama alguém. Você nem mesmo sabe o que deseja nessa situação. Existe apenas esse desejo amorfo que agora é parte da sua vida, e nada mais.

Mas para mim isso se tornou subitamente relevante alguns meses depois, quando durante o recreio uma das meninas da classe começou a perguntar para os meninos: “com quem voceeeê quer casar?” Quando ela fez essa pergunta pra mim, nem pensei duas vezes. “Alessandra”.

Desastre.

Eu ainda era um novato nessa coisa de ser um humano e não tinha ainda percebido que a única resposta socialmente aceitável era: “com ninguém”.

Assim que respondi, aquela menina detestável correu até os outros alunos e disse a cada um deles “Tim disse que quer casar com a Alessandra!”. E cada um para quem ela contava minha resposta tapava a boca para sufocar uma gargalhada incontrolável. Fiquei arrasado. Minha vida tinha acabado.

A notícia rapidamente chegou aos ouvidos da Alessandra, que por dias ficou o mais distante de mim possível. Se ela soubesse o que era um boletim de ocorrência, ela teria feito um para se garantir.

Essa experiência horrível me ensinou uma lição fundamental – pode ser fatalmente perigoso ser você mesmo, e você precisa continuamente exercitar a extrema cautela social.

Claro que isso parece algo que apenas um menino traumatizado na segunda série pensaria, mas o estranho (e que é o tema deste artigo) é que essa lição não diz respeito apenas a mim e a minha infância desastrosa – é uma definição da paranoia da espécie humana. Nós todos compartilhamos uma insanidade coletiva que está presente em todas as culturas ao redor do planeta:

Uma obsessão irracional e contraprodutiva  com o que os outros pensam de nós.

A evolução fez tudo por uma razão, e para compreender a origem dessa insanidade precisamos por um minuto retroceder cinquenta mil anos na Etiópia, onde seu tara2000avô vivia, como membro de uma pequena tribo.

Naquele tempo, ser membro de uma tribo era crítico para a sobrevivência. Uma tribo significava comida e proteção numa época em que nenhuma dessas duas coisas era fácil de conseguir. Então, para seu tara2000avô quase nada no mundo era tão importante quanto ser aceito por seus companheiros de tribo, especialmente por aqueles em posição de autoridade. Adequar-se àqueles que estavam ao seu lado e agradar àqueles que estavam acima dele significava que ele podia permanecer na tribo, e um dos maiores pesadelos que ele podia conceber seria o de as pessoas da tribo começarem a murmurar sobre como ele era aborrecido ou pouco produtivo ou esquisito – porque caso um número suficiente de pessoas antipatizassem com ele, seu status dentro da tribo cairia, e se a coisa realmente ficasse feia, ele seria chutado para fora da tribo e abandonado para morrer sozinho. Ele também sabia que se em algum momento envergonhasse a si mesmo perseguindo uma garota da tribo e sendo por ela rejeitado, ela contaria às outras garotas a respeito disso – e ele não apenas acabaria com todas as suas chances com aquela garota, mas possivelmente jamais teria uma parceira, pois qualquer outra mulher que cruzasse seu caminho saberia de sua tentativa ridícula e fracassada. Ser socialmente aceito era tudo.

Por causa disso, os seres humanos desenvolveram uma obsessão excessiva com o que os outros pensam deles – um anseio social por aprovação e admiração, e um medo paralisante de ser desaprovado. Vamos então chamar essa obsessão humana de Mamute da Sobrevivência Social. Ele se parece mais ou menos assim:

000

O Mamute da Sobrevivência Social do seu tara2000avô era essencial para sua habilidade de sobreviver e evoluir. Era algo simples: mantenha o Mamute bem alimentado com aprovação social, preste muita atenção em seu enorme medo da não-aceitação e você estará bem.

E isso tudo era muito legal e importante no ano 50.000 A.C. E em 30.000 A.C. E em 10.000 A.C. Mas algo engraçado aconteceu aos humanos nos últimos 10 mil anos – a civilização mudou dramaticamente. De repente, mudanças rápidas são algo que a civilização é capaz de fazer, e o motivo pelo qual isso parece estranho é que nossa biologia evolucionária não pode mudar assim tão rápido. Então, enquanto para a maior parte da História tanto a estrutura social quanto nossa biologia evoluíram e ajustaram-se no mesmo ritmo de uma lesma, recentemente a civilização desenvolveu a velocidade de um cavalo, enquanto nossa biologia continuou rastejando como uma lesma.

Nossos corpos e mentes são feitos para viver em uma tribo do ano 50.000 A.C., o que deixa os humanos modernos com uma série de características infelizes, e uma das quais é sua obsessão com um estilo tribal de sobrevivência social em um mundo em que a sobrevivência social não é mais um conceito real. Nós todos estamos aqui em 2015, acompanhados por um enorme, faminto e facilmente surtável mamute peludo que ainda acha que o ano é 50.000 A.C.

Por qual outra razão você experimentaria quatro roupas e ainda assim não teria certeza do que vestir antes de ir a uma festa?

001

002 003 004

O pesadelo que o Mamute tem com a rejeição afetiva fez nossos ancestrais serem cautelosos e experientes. Mas no mundo de hoje, isso só faz de você um maricas:

005 006 007 008 009

E nem vamos a falar do terror que o Mamute tem dos riscos artísticos:

010 011O furacão de medo que o Mamute sente com a reprovação social é um fator determinante na vida da maioria das pessoas. É o que faz você sentir-se esquisito a respeito da ideia de ir ao cinema ou a um restaurante sozinho; é o que faz os pais se preocuparem um pouco demais sobre em qual universidade seus filhos estudarão; é o que faz você desistir da carreira que ama em favor de uma carreira mais lucrativa e de que você apenas gosta; é o que faz você se casar precocemente com alguém que você não está amando.

E se por um lado é preciso muito trabalho para manter seu altamente inseguro Mamute da Sobrevivência Social calmo e a salvo, por outro isso é apenas metade de sua responsabilidade. O Mamute também precisa ser alimentado regularmente e fartamente – com elogios, aprovação e o sentimento de estar do lado certo de qualquer dicotomia social ou moral.

Por que outro motivo você seria um maníaco da elaboração da autoimagem no Facebook?

E por que motivo você se gaba quando sai com os seus amigos, embora sempre se arrependa depois?

012A sociedade evoluiu de modo a tranquilizar a ansiedade desse Mamute, inventando coisas como elogios e títulos e o conceito de prestígio, a fim de manter nossos mamutes satisfeitos – e frequentemente a fim de incentivar as pessoas a trabalharem em empregos sem sentido e viver vidas insatisfatórias que elas não viveriam se não considerassem que estão desse modo se ajustando à sociedade.

Acima de tudo, mamutes querem ajustar-se – isso era o que os membros de uma tribo sempre precisaram fazer, então é como os mamutes são programados. Mamutes observam a sociedade para descobrir o que se espera que eles façam, e quando isso fica claro eles mergulham de cabeça. Simplesmente olhe para fotos tiradas na formatura de duas turma da faculdade separadas por uma década:

013

Ou observe todas as subculturas sociais em que cada indivíduo tem pelo menos um dos três graus educacionais de aceitação social:

014a

015 

Às vezes, a atenção do Mamute não está na sociedade como um todo, mas em ganhar a aprovação do Mestre Fantocheiro de sua vida. Um Mestre Fantocheiro é uma pessoa ou grupo de pessoas cuja opinião importa tanto para você que essencialmente eles estão controlando sua vida. Um Mestre Fantocheiro é em geral um parente, ou talvez seu companheiro, ou às vezes o membro alfa do seu grupo de amigos. Um Mestre Fantocheiro pode ser aquela pessoa que você procura quando não se sente bem – talvez uma celebridade que você jamais encontrou – ou um grupo de pessoas que você tem em alta consideração.

Nós ansiamos pela aprovação do Mestre Fantocheiro mais do que a de qualquer outra pessoa, e ficamos tão aterrorizados com a ideia de irritar o Mestre Fantocheiro ou experimentar sua rejeição ou desprezo que fazemos qualquer coisa para evitar essas situações. Quando atingimos um nível tóxico no relacionamento com o Mestre Fantocheiro, a presença dessa pessoa domina totalmente nosso processo de decisão e puxa as cordas de nossas opiniões e controla nossa voz moral.

016 

Com tantos pensamentos e energia dedicado às necessidades do Mamute, você frequentemente negligencia outro ser que existe no seu cérebro, alguém que deveria estar no centro de tudo – sua Voz Autêntica.

017

Sua Voz Autêntica está em algum lugar no seu cérebro e sabe tudo sobre você. Em contraste com a simplicidade preto-e-branco do Mamute da Sobrevivência Social, sua Voz Autêntica tem nuances, às vezes é obscura, está em constante evolução e é corajosa. Sua V.A. tem seu próprio código moral cheio de nuances, criado pela experiência, pela reflexão, e tem também sua própria concepção pessoal de compaixão e integridade. Ela sabe exatamente como você se sente a respeito de coisas como dinheiro, família e casamento, e ela sabe de que tipo de pessoas, assuntos ou interesses, e de que tipo de atividades você realmente gosta, e quais você não gosta. Sua V.A. está ciente de que não sabe como sua vida será ou deveria ser vivida, mas ela possui uma forte intuição sobre qual deve ser o próximo passo a ser dado.

E enquanto o mamute olha apenas para o mundo exterior durante seu processo de tomada de decisão, sua Voz Autêntica usa o mundo exterior para aprender e colher informações. Mas quando chega a hora de tomar uma decisão, ela tem todo o instrumental de que necessita bem ali mesmo, no centro do seu cérebro.

Sua V.A. é também alguém que o Mamute tende a ignorar totalmente. A opinião veemente de uma pessoa cheia de auto-confiança no mundo exterior? O Mamute presta toda a atenção a ela. Mas uma súplica apaixonada de sua V.A. é totalmente desconsiderada até que alguém lá fora a endosse.

E como nosso cérebro, programado há 50.000 anos, está condicionado a dar ao Mamute um grande poder de influência sobre as coisas, sua Voz Autêntica começa a sentir que é irrelevante. O que a faz se encolher, desaparecer de cena e perder motivação.

018Eventualmente, uma pessoa influenciada pelo Mamute pode perder totalmente o contato com sua Voz Autêntica.

No período tribal, as Vozes Autênticas frequentemente passavam sua vida na silenciosa obscuridade, o que estava ok. A vida era simples e a conformidade era o objetivo – e o Mamute tinha a conformidade sob controle.

Mas no enorme e complexo mundo atual, cheio de culturas, personalidades, oportunidades e opiniões diversificadas, perder contato com a sua Voz Autêntica é perigoso. Quando você não sabe quem você é, o único mecanismo para tomar decisões que você tem são as emoções e necessidades cruas e arcaicas do seu Mamute. E quando chegar a hora de enfrentar suas questões mais pessoais, ao invés de mergulhar profundamente no nebuloso centro das suas convicções íntimas para encontrar claridade, você irá procurar a resposta nas outras pessoas. E quem você é se tornará um tipo de mistura das opiniões das pessoas ao seu redor.

Perder contato com a sua Voz Autêntica também torna você frágil, pois quando sua identidade está fundamentada na opinião dos outros, ser criticado ou rejeitado pelos outros realmente machuca. O fim de um relacionamento é doloroso para qualquer um, mas uma pessoa guiada por seu Mamute, nessa experiência, machuca-se em um nível muito mais profundo do que uma pessoa com uma forte Voz Autêntica. Uma forte Voz Autêntica cria uma base estável, e após um término de relacionamento essa base ainda está inabalada – mas como a aceitação dos outros é tudo o que a pessoa guiada por seu Mamute tem, levar um chute na bunda de alguém que lhe conhece bem é uma experiência muito mais devastadora.

Além disso, sabe aquelas pessoas que reagem ao serem criticadas baixando o nível? Elas tendem a ser pessoas fortemente guiadas pelo seu Mamute, e o criticismo as deixa tão loucas porque seu Mamute é incapaz de lidar com críticas.

019 020 021 022Nesse ponto de nosso papo, a missão deve estar evidente: nós precisamos descobrir um modo de superar a programação de nosso cérebro e domar o Mamute. Essa é a única forma de ganharmos controle de nossas vidas.


[LEIA A SEGUNDA PARTE: DOMANDO O SEU MAMUTE]


Wait But Why publica uma vez por semana. Nós enviamos cada post por email para mais de 140.000 pessoas – informe seu email aqui e colocaremos você na lista (nós mandamos apenas um email por semana). Você pode também seguir Wait But Why no Facebook e no Twitter.

escrito por:

Tim Urban

Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.