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O que feministas e machistas não perceberam sobre Mad Max

Em Comportamento por Victor LisboaComentários

(ei, você não pre­cisa ter assis­tido o filme para ler este artigo, ok?)

Se o dire­tor e visi­o­ná­rio Ale­jan­dro Jodo­roswky fosse con­tra­tado para criar um vide­o­clipe de duas horas ao som da banda alemã Ramms­tein, e ao final você tirasse o som pau­leira do Ramms­tein e colo­casse uma tri­lha sonora apo­teó­tica cri­ada por um Carl Orff res­sus­ci­tado, bem você teria o mais recente filme da fran­quia Mad Max. O filme é um sen­sa­ci­o­nal coice de 120 minu­tos em nos­sos sen­ti­dos. Você sai do cinema ator­do­ado e sedu­zido.

Mad Max — Estrada da Fúria é uma expe­ri­ên­cia audi­o­vi­sual insana, é exa­ta­mente o que espe­ra­mos de um típico block­bus­ter moderno: ritmo alu­ci­nado, pou­cos diá­lo­gos, muita vio­lên­cia explí­cita e quase nenhuma pausa para a refle­xão. Isso não é uma crí­tica, é um elo­gio. George Mil­ler, dire­tor e cri­a­dor da fran­quia, conhece muito bem a nós, o seu público. Que­re­mos ape­nas diver­são, e se há alguma refle­xão sobre o futuro da huma­ni­dade, ela é rasa, e tem a mesma uti­li­dade da tri­lha sonora gran­di­lo­quente e do figu­rino extra­va­gante: pro­du­zir um efeito bacana. Só isso — e é bem legal.

Mesmo assim, um bando de malu­cos ame­ri­ca­nos con­se­guiu achar pelo em casca de ovo, e des­co­briu no filme uma suposta pro­pa­ganda femi­nista. Segundo esses caras, no roteiro a per­so­na­gem Impe­ra­triz Furi­osa, desem­pe­nhada pela atriz Char­lize The­ron, usur­pa­ria o pro­ta­go­nismo que deve­ria per­ten­cer a Mad Max, per­so­na­gem encar­nado pelo ator Tom Hardy, pois ela teria mais diá­lo­gos e pre­sença mais deci­siva no desen­ro­lar da trama que ele.

Como se isso não fosse ridí­culo o bas­tante, na esteira dessa palha­çada sur­gi­ram teo­rias elo­gi­ando Mad Max por ser um filme de ação femi­nista, que des­creve a queda do mundo patri­ar­cal que tira­niza a sexu­a­li­dade femi­nina.

Ambas as teo­rias, de machis­tas e femi­nis­tas, são cômi­cas. E a comi­ci­dade con­siste justo no fato de que caí­ram em uma arma­di­lha deli­be­ra­da­mente cri­ada ape­nas para que fosse con­quis­tado o obje­tivo de toda e qual­quer super­pro­du­ção hollywo­o­di­ana que cus­tou milhões de dóla­res para ser pro­du­zida: lucrar outros milhões de dóla­res (nada con­tra isso, muito pelo con­trá­rio: são as regras de um belís­simo e justo jogo comer­cial).

Fil­mes block­bus­ters não são machis­tas e nem femi­nis­tas. Pro­du­ções que com­pro­me­tem milhões de dóla­res são negó­cios (nada con­tra tam­bém, estou longe de ser detra­tor da eco­no­mia de mer­cado), e por­tanto não ade­rem a nenhuma polí­tica ou ban­deira espe­cí­fica — ainda que pos­sam arvo­rar apa­ren­te­mente alguma ban­deira ape­nas para pro­du­zir certo efeito de mar­ke­ting. Como qual­quer empre­en­di­mento, seu único com­pro­me­ti­mento é com o retorno finan­ceiro.

E a prova disso é aquilo que nem femi­nis­tas e nem machis­tas não per­ce­be­ram: o filme has­teia a ban­deira do femi­nismo sim, mas pen­du­rada e balan­çada no mas­tro (qual­quer duplo sen­tido, senho­res, é inten­ci­o­nal) do machismo.

Isso por­que o roteiro só podia apre­sen­tar para o público um per­so­na­gem que rou­basse  o pro­ta­go­nismo do anti-herói Mad Max se tal per­so­na­gem fosse mulher. A Impe­ra­triz Furi­osa, desem­pe­nhada por Char­lize The­ron, só pode figu­rar nos car­ta­zes com seu rosto na frente do rosto per­so­na­gem desem­pe­nhado por Tom Hardy, só pode ter mais diá­lo­gos sig­ni­fi­ca­ti­vos que Mad Max, só pode tomar todas as ações deci­si­vas da trama e só pode enfim ser auxi­li­ada em seu plano pelo pro­ta­go­nista Mad Max por­que ela é mulher. Se fosse homem, Hollywood não acei­ta­ria  — afi­nal, ape­nas uma mulher pode fazer isso tudo e ainda assim figu­rar como per­so­na­gem coad­ju­vante.

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Se o filme real­mente fosse femi­nista, seu título seria Impe­ra­triz Furi­osa. A for­mu­la­ção daquele roteiro só foi pos­sí­vel por­que se fun­da­men­tou no con­ceito patri­ar­cal de que só uma mulher pode ser aju­dada pelo herói e só uma mulher pode ter os diá­lo­gos mais sig­ni­fi­ca­ti­vos e os atos mais deci­si­vos da trama e ainda assim não usur­par a posi­ção do per­so­na­gem mas­cu­lino.

Peço ao lei­tor que faça o exer­cí­cio de ima­gi­na­ção sim­ples: ima­gine que fosse pro­du­zido um filme em que Mad Max cola­bo­rasse com um sujeito cha­mado Impe­ra­dor Furi­oso, um cara ágil, pode­roso, com per­so­na­li­dade forte, cujos diá­lo­gos sobre­pu­jas­sem os de Mad Max, cujos atos deter­mi­nas­sem o des­tino ime­di­ato de Mad Max, e que até mesmo uti­li­zasse o ombro de Mad Max para apoiar sua mira, orde­nando que “nem mesmo res­pi­rasse”. Mais ainda, ima­gine que esse per­so­na­gem, o Impe­ra­dor Furi­oso, apa­re­cesse no prin­ci­pal car­taz pro­mo­ci­o­nal em pri­meiro plano, à frente de Mad Max.

É muito fácil ima­gi­nar que esse filme, com o Impe­ra­dor Furi­oso no lugar da Impe­ra­triz Furi­osa, jamais seria pro­du­zido por Hollywood. Seria impen­sá­vel em nossa cul­tura que um herói aju­dasse um outro cara pode­roso, que no roteiro usur­passe seu pro­ta­go­nismo, seus diá­lo­gos e os atos deci­si­vos, sem que tal sujeito no final aca­basse se tor­nando o pró­prio e real pro­ta­go­nista do filme, de modo a que o título dei­xasse de ser Mad Max - Estrada da Fúria e se tor­nasse Impe­ra­dor Furi­oso — Estrada de Mad.

Ape­nas com uma mulher na posi­ção de coad­ju­vante usur­pa­dora do pro­ta­go­nismo de Mad Max é que se cogita a pro­du­ção de tal filme, com aquele car­taz pro­mo­ci­o­nal, com aquele título e com aquele roteiro. Pois tudo parte do pres­su­posto machista de que a mulher sem­pre será secun­dá­ria, não importa o quão ela seja ativa na his­tó­ria.

E há outro motivo para que aquele roteiro, tal como foi feito, dependa de que o per­so­na­gem auxi­li­ado por Mad Max seja mulher: o medo de even­tu­ais asso­ci­a­ções homos­se­xu­ais entre dois per­so­na­gens homens que se auxi­li­as­sem mutu­a­mente.

Em 1997, o autor e edi­tor bri­tâ­nico Pat Mills publi­cou uma his­tó­ria em qua­dri­nhos polê­mica, inti­tu­lada Marshal Law. Essa obra é uma sátira ácida, que revela toda a lógica doen­tia que há por trás do mito do herói pro­pa­gan­de­ada pela indús­tria ame­ri­cana, além de ser é um manual prá­tico sobre as téc­ni­cas e os pres­su­pos­tos psi­co­ló­gi­cos decor­ren­tes dessa lógica oci­den­tal.

Marshall Law, uma sátira ácida ao mito do herói americano.

Marshall Law, uma sátira ácida ao mito do herói ame­ri­cano.

Em deter­mi­nado momento da his­tó­ria de Marshal Law, uma série de figu­ri­nhas de super-heróis ame­ri­ca­nos é objeto de cen­sura por uma edi­tora pois não se ajusta aos pres­su­pos­tos que devem ser incor­po­ra­dos pelo típico herói ame­ri­cano. E uma das figu­ras que é cen­su­rada con­siste na cena em que um super-herói simi­lar ao Super-Homem está res­ga­tando de um incên­dio um homem adulto e forte, pegando-o em seu colo e levando-o pelos ares para longe das cha­mas. A jus­ti­fi­ca­tiva da cen­sura é que quando o herói auxi­lia um homem adulto (não um menino, não um homem velho, mas um homem adulto sexu­al­mente ativo), a asso­ci­a­ção sexual fica por demais evi­dente e ela é inde­se­já­vel para um per­so­na­gem que pre­tende pro­pa­gan­dear a típica mas­cu­li­ni­dade con­ser­va­dora.

E não tenha­mos dúvida que o mesmo ocor­re­ria se no roteiro de Mad Max tudo per­ma­ne­cesse igual exceto o sexo da per­so­na­gem inter­pre­tada por Char­lize The­ron. Assim como durante a exi­bi­ção da ver­são cine­ma­to­grá­fica de Senhor dos Anéis mui­tos shows de humor e come­di­an­tes brin­ca­ram com a suposta rela­ção homos­se­xual entre Frodo e Sam (em vir­tude de sua estreita ami­zade e de se auxi­li­a­rem mutu­a­mente durante toda a trama), se Mad Max auxi­li­asse em pé de igual­dade o Impe­ra­dor Furi­oso vería­mos a mesma abor­da­gem humo­rís­tica tipi­ca­mente homo­fó­bica e para­noica, que enxerga homos­se­xu­a­li­dade em toda e qual­quer rela­ção mas­cu­lina mais íntima.

E isso os pro­du­to­res de Mad Max jamais per­mi­ti­riam, pois dife­ren­te­mente de o Senhor dos Anéis, toda a fran­quia de Mad Max se fun­da­menta no papel icô­nico de homem durão do pro­ta­go­nista.

Em resumo, o que machis­tas e femi­nis­tas não per­ce­be­ram é que a estru­tura do roteiro do mais recente filme da fran­quia Mad Max parte de um pres­su­posto tra­di­ci­o­nal, até con­ser­va­dor: ape­nas uma per­so­na­gem femi­nina pode rou­bar na prá­tica o pro­ta­go­nismo do per­so­na­gem mas­cu­lino sem que pareça estra­nho ao público médio que o filme tenha o nome desse per­so­na­gem mas­cu­lino e seja con­si­de­rado uma aven­tura desse per­so­na­gem mas­cu­lino — pois no fundo o público médio sem­pre vai con­si­de­rar a per­so­na­gem femi­nina como secun­dá­ria, não importa o que ela faça. É essa a lógica que sus­tenta o filme.

Que não me inter­pre­tem errado: eu ado­rei Mad Max — Estrada da Fúria. Como aven­tura, como filme de pura diver­são, ele é feno­me­nal. O pro­blema é ten­tar enxer­gar numa típica pro­du­ção block­bus­ter qual­quer pre­ten­são polí­tica ou moral real­mente séria, que não tenha por obje­tivo ape­nas pres­tar-se como super­fi­cial tru­que de mar­ke­ting para algo que, enquanto sim­ples pro­duto de diver­são, já é excep­ci­o­nal.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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