(ei, você não precisa ter assistido o filme para ler este artigo, ok?)

Se o diretor e visionário Alejandro Jodoroswky fosse contratado para criar um videoclipe de duas horas ao som da banda alemã Rammstein, e ao final você tirasse o som pauleira do Rammstein e colocasse uma trilha sonora apoteótica criada por um Carl Orff ressuscitado, bem você teria o mais recente filme da franquia Mad Max. O filme é um sensacional coice de 120 minutos em nossos sentidos. Você sai do cinema atordoado e seduzido.

Mad Max – Estrada da Fúria é uma experiência audiovisual insana, é exatamente o que esperamos de um típico blockbuster moderno: ritmo alucinado, poucos diálogos, muita violência explícita e quase nenhuma pausa para a reflexão. Isso não é uma crítica, é um elogio. George Miller, diretor e criador da franquia, conhece muito bem a nós, o seu público. Queremos apenas diversão, e se há alguma reflexão sobre o futuro da humanidade, ela é rasa, e tem a mesma utilidade da trilha sonora grandiloquente e do figurino extravagante: produzir um efeito bacana. Só isso – e é bem legal.

Mesmo assim, um bando de malucos americanos conseguiu achar pelo em casca de ovo, e descobriu no filme uma suposta propaganda feminista. Segundo esses caras, no roteiro a personagem Imperatriz Furiosa, desempenhada pela atriz Charlize Theron, usurparia o protagonismo que deveria pertencer a Mad Max, personagem encarnado pelo ator Tom Hardy, pois ela teria mais diálogos e presença mais decisiva no desenrolar da trama que ele.

Como se isso não fosse ridículo o bastante, na esteira dessa palhaçada surgiram teorias elogiando Mad Max por ser um filme de ação feminista, que descreve a queda do mundo patriarcal que tiraniza a sexualidade feminina.

Ambas as teorias, de machistas e feministas, são cômicas. E a comicidade consiste justo no fato de que caíram em uma armadilha deliberadamente criada apenas para que fosse conquistado o objetivo de toda e qualquer superprodução hollywoodiana que custou milhões de dólares para ser produzida: lucrar outros milhões de dólares (nada contra isso, muito pelo contrário: são as regras de um belíssimo e justo jogo comercial).

Filmes blockbusters não são machistas e nem feministas. Produções que comprometem milhões de dólares são negócios (nada contra também, estou longe de ser detrator da economia de mercado), e portanto não aderem a nenhuma política ou bandeira específica – ainda que possam arvorar aparentemente alguma bandeira apenas para produzir certo efeito de marketing. Como qualquer empreendimento, seu único comprometimento é com o retorno financeiro.

E a prova disso é aquilo que nem feministas e nem machistas não perceberam: o filme hasteia a bandeira do feminismo sim, mas pendurada e balançada no mastro (qualquer duplo sentido, senhores, é intencional) do machismo.

Isso porque o roteiro só podia apresentar para o público um personagem que roubasse  o protagonismo do anti-herói Mad Max se tal personagem fosse mulher. A Imperatriz Furiosa, desempenhada por Charlize Theron, só pode figurar nos cartazes com seu rosto na frente do rosto personagem desempenhado por Tom Hardy, só pode ter mais diálogos significativos que Mad Max, só pode tomar todas as ações decisivas da trama e só pode enfim ser auxiliada em seu plano pelo protagonista Mad Max porque ela é mulher. Se fosse homem, Hollywood não aceitaria  – afinal, apenas uma mulher pode fazer isso tudo e ainda assim figurar como personagem coadjuvante.

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Se o filme realmente fosse feminista, seu título seria Imperatriz Furiosa. A formulação daquele roteiro só foi possível porque se fundamentou no conceito patriarcal de que só uma mulher pode ser ajudada pelo herói e só uma mulher pode ter os diálogos mais significativos e os atos mais decisivos da trama e ainda assim não usurpar a posição do personagem masculino.

Peço ao leitor que faça o exercício de imaginação simples: imagine que fosse produzido um filme em que Mad Max colaborasse com um sujeito chamado Imperador Furioso, um cara ágil, poderoso, com personalidade forte, cujos diálogos sobrepujassem os de Mad Max, cujos atos determinassem o destino imediato de Mad Max, e que até mesmo utilizasse o ombro de Mad Max para apoiar sua mira, ordenando que “nem mesmo respirasse”. Mais ainda, imagine que esse personagem, o Imperador Furioso, aparecesse no principal cartaz promocional em primeiro plano, à frente de Mad Max.

É muito fácil imaginar que esse filme, com o Imperador Furioso no lugar da Imperatriz Furiosa, jamais seria produzido por Hollywood. Seria impensável em nossa cultura que um herói ajudasse um outro cara poderoso, que no roteiro usurpasse seu protagonismo, seus diálogos e os atos decisivos, sem que tal sujeito no final acabasse se tornando o próprio e real protagonista do filme, de modo a que o título deixasse de ser Mad Max – Estrada da Fúria e se tornasse Imperador Furioso – Estrada de Mad.

Apenas com uma mulher na posição de coadjuvante usurpadora do protagonismo de Mad Max é que se cogita a produção de tal filme, com aquele cartaz promocional, com aquele título e com aquele roteiro. Pois tudo parte do pressuposto machista de que a mulher sempre será secundária, não importa o quão ela seja ativa na história.

E há outro motivo para que aquele roteiro, tal como foi feito, dependa de que o personagem auxiliado por Mad Max seja mulher: o medo de eventuais associações homossexuais entre dois personagens homens que se auxiliassem mutuamente.

Em 1997, o autor e editor britânico Pat Mills publicou uma história em quadrinhos polêmica, intitulada Marshal Law. Essa obra é uma sátira ácida, que revela toda a lógica doentia que há por trás do mito do herói propagandeada pela indústria americana, além de ser é um manual prático sobre as técnicas e os pressupostos psicológicos decorrentes dessa lógica ocidental.

Marshall Law, uma sátira ácida ao mito do herói americano.
Marshall Law, uma sátira ácida ao mito do herói americano.

Em determinado momento da história de Marshal Law, uma série de figurinhas de super-heróis americanos é objeto de censura por uma editora pois não se ajusta aos pressupostos que devem ser incorporados pelo típico herói americano. E uma das figuras que é censurada consiste na cena em que um super-herói similar ao Super-Homem está resgatando de um incêndio um homem adulto e forte, pegando-o em seu colo e levando-o pelos ares para longe das chamas. A justificativa da censura é que quando o herói auxilia um homem adulto (não um menino, não um homem velho, mas um homem adulto sexualmente ativo), a associação sexual fica por demais evidente e ela é indesejável para um personagem que pretende propagandear a típica masculinidade conservadora.

E não tenhamos dúvida que o mesmo ocorreria se no roteiro de Mad Max tudo permanecesse igual exceto o sexo da personagem interpretada por Charlize Theron. Assim como durante a exibição da versão cinematográfica de Senhor dos Anéis muitos shows de humor e comediantes brincaram com a suposta relação homossexual entre Frodo e Sam (em virtude de sua estreita amizade e de se auxiliarem mutuamente durante toda a trama), se Mad Max auxiliasse em pé de igualdade o Imperador Furioso veríamos a mesma abordagem humorística tipicamente homofóbica e paranoica, que enxerga homossexualidade em toda e qualquer relação masculina mais íntima.

E isso os produtores de Mad Max jamais permitiriam, pois diferentemente de o Senhor dos Anéis, toda a franquia de Mad Max se fundamenta no papel icônico de homem durão do protagonista.

Em resumo, o que machistas e feministas não perceberam é que a estrutura do roteiro do mais recente filme da franquia Mad Max parte de um pressuposto tradicional, até conservador: apenas uma personagem feminina pode roubar na prática o protagonismo do personagem masculino sem que pareça estranho ao público médio que o filme tenha o nome desse personagem masculino e seja considerado uma aventura desse personagem masculino – pois no fundo o público médio sempre vai considerar a personagem feminina como secundária, não importa o que ela faça. É essa a lógica que sustenta o filme.

Que não me interpretem errado: eu adorei Mad Max – Estrada da Fúria. Como aventura, como filme de pura diversão, ele é fenomenal. O problema é tentar enxergar numa típica produção blockbuster qualquer pretensão política ou moral realmente séria, que não tenha por objetivo apenas prestar-se como superficial truque de marketing para algo que, enquanto simples produto de diversão, já é excepcional.

escrito por:

Victor Lisboa

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