Iniciar este texto comentando os preconceitos que envolvem a maconha ou seu legado positivo ou não na história da humanidade seria cansativo tanto para o leitor quanto para aquele que escreve. O que gostaria de abordar aqui é a maneira como se comporta o usuário e até que ponto seu comportamento prejudica a aceitação do consumo recreativo e medicinal da mesma.

Graças à associação da maconha com algumas subculturas malquistas, a credibilidade dos demais usuários se esvai em meio aos comentários consumidos pelo discurso de ódio gratuito que faz questão de se manifestar contra qualquer causa que ameace os preceitos conservadores da sociedade ocidental.

A cultura canábica buscou nas expressões artísticas uma maneira de se posicionar e fazer frente à discriminação associada ao seu uso. Mas assim como alguns entorpecentes legalizados, logo ela incorporou um comportamento estereotipado que dificulta cada vez mais a sua inserção na vida moderna. A verdade é que o ativismo que envolve a busca da legalização da cannabis está fadado ao fracasso a partir do momento que se expressa somente por meio dos mesmos estereótipos que a envolvem.

É fato que certos padrões difundidos pelos maconheiros foram importantes para a cultura pop abraçasse a planta e ela deixasse de ser um bicho de sete cabeças para as gerações mais novas. Porém, nem todos os usuários fazem questão de tornar o seu hábito público e, da mesma maneira que condenamos a hipocrisia de alguns proibicionistas, é importante compreender que, pelo fato de estar próxima a outras atividades criminosas, a maconha tem infelizmente várias facetas negativas. Por exemplo, devido ao ponto-de-venda em comum, a maconha já aproximou muitas pessoas de drogas de fato muito mais prejudiciais, visto que na maioria das vezes é vendida em um local financiado pela criminalidade e onde se encontram outras substâncias. Culpar o usuário por isso é de uma esquizofrenia que só se vê em, bem, políticas públicas de guerra às drogas.

Considerando que a aceitação da maconha pela maioria está longe de acontecer e nós usuários não pretendemos abrir mão deste hábito, o que podemos fazer para nos pouparmos do desgaste em torno da proibição? Listei abaixo pequenas atitudes a tomar e aspectos para refletirmos com o intuito de tornar essa convivência menos cansativa (e nosso barato mais louco).

EVITE FUMAR NA RUA

Assistir a um pôr do sol ou embalar aquela conversa entre amigos no boteco da esquina com um pouco de fumo sem preocupação alguma é o sonho de todo maconheiro. Mas conforme abordamos acima, a grande maioria da população, ainda que aditivada por medicações controladas, discorda da legalização. Além disso, há o constante e equivocado combate da polícia contra os usuários. Evite riscos fumando no conforto do seu lar, na companhia de boa música e claro, dos seus amigos. Mas não esqueçamos dos vizinhos: faça como os hippongas e tenha sempre um incenso por perto. E sem desculpas de que o cheiro é enjoativo: você é maconheiro, meu amigo.

ADQUIRA SUA MACONHA COM UM PEQUENO PRODUTOR E NÃO ATRAVÉS DE UM TRAFICANTE

Sim, pela lei aquele camarada que tem uns pezinhos em casa e faz a mão para o pessoal é considerado um traficante. Mas a gente sabe que ele nunca manuseou uma arma, o lance dele é a jardinagem. Não é tão dificil encontrar esse camarada por aí, então faça um esforço antes de apelar para a famigerada boca de fumo. Mesmo que você nunca seja assaltado lá (não se engane, a segurança é business, na verdade os trafis estão cagando para você), muitas pessoas inocentes sem envolvimento com o tráfico mas residentes na mesma região onde ele ocorre são prejudicadas por sua presença. Além disso, comprando de um pequeno produtor, a probabilidade de consumir maconha de melhor qualidade é bem maior.

DISCUTA O ASSUNTO APENAS COM PESSOAS ABERTAS A PONTOS DE VISTA DIFERENTE E PROPONHA UMA DISCUSSÃO ADULTA E COERENTE COM OS DEMAIS USUÁRIOS

Não vai ser no meio do almoço de domingo que você vai convencer o seu tiozão do churrasco de que a cannabis traz uma quantidade de benefícios. Saber quando e com quem abordar o assunto é fundamental para que a pauta esteja sempre em discussão.


MENOS 4:20, MAIS DIVULGAÇÃO DOS BENEFÍCIOS

Ok, Bob Marley é do caralho, Jefferson Airplane no fone de ouvido é uma experiência incrível e aqueles filmes do Cheech & Chong são engraçados de verdade. A questão aqui não é você abrir mão do seu esmurrugador de aço com um dragão medieval gravado, tampouco da sua boina com as cores da Jamaica mesmo que seja impossível você ter dreadlocks visto que a calvície já começou a dar seus primeiros sinais. O que eu proponho é que eventualmente você mude o teor da conversa com seus amigos da maconha. Ao invés de postar aquela foto do vira-lata igual ao Snoop Dogg no meio de uma plantação, que tal divulgar os benefícios que a cannabis pode trazer aos pacientes terminais de doenças crônicas? Ou mesmo compartilhar suas experiências recreativas de uma forma positiva?

ACABE COM OS ESTEREÓTIPOS DEIXANDO DE SER UM

“Maconheiro é preguiçoso”, “Maconha é a porta de entrada”, “Maconha é coisa do capeta”. Que tal rebater estas frases estúpidas que ouvimos diariamente com argumentos fundamentados e atitudes melhores, ao contrário da ignorância perpetuada através do preconceito? De nada adianta ser um defensor da legalização utilizando-se de extremismos para justificar o uso. Inclusive a partir do momento que os usuários admitirem os aspectos negativos que também vêm com a maconha — assim como com qualquer substância que altere a percepção — , o assunto ganha relevância e desta forma a defesa é fortalecida (inclusive divulgando entre os entusiastas melhores maneiras de fazer o uso alertando sobre seus efeitos negativos com a mesma maturidade com que defendemos o seu uso).



[Artigo originalmente publicado no blog do autor]

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