maconheiro

O guia definitivo do maconheiro contemporâneo

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Matias Rech de LucenaComentário

Ini­ciar este texto comen­tando os pre­con­cei­tos que envol­vem a maco­nha ou seu legado posi­tivo ou não na his­tó­ria da huma­ni­dade seria can­sa­tivo tanto para o lei­tor quanto para aquele que escreve. O que gos­ta­ria de abor­dar aqui é a maneira como se com­porta o usuá­rio e até que ponto seu com­por­ta­mento pre­ju­dica a acei­ta­ção do con­sumo recre­a­tivo e medi­ci­nal da mesma.

Gra­ças à asso­ci­a­ção da maco­nha com algu­mas sub­cul­tu­ras mal­quis­tas, a cre­di­bi­li­dade dos demais usuá­rios se esvai em meio aos comen­tá­rios con­su­mi­dos pelo dis­curso de ódio gra­tuito que faz ques­tão de se mani­fes­tar con­tra qual­quer causa que ame­ace os pre­cei­tos con­ser­va­do­res da soci­e­dade oci­den­tal.

A cul­tura caná­bica bus­cou nas expres­sões artís­ti­cas uma maneira de se posi­ci­o­nar e fazer frente à dis­cri­mi­na­ção asso­ci­ada ao seu uso. Mas assim como alguns entor­pe­cen­tes lega­li­za­dos, logo ela incor­po­rou um com­por­ta­mento este­re­o­ti­pado que difi­culta cada vez mais a sua inser­ção na vida moderna. A ver­dade é que o ati­vismo que envolve a busca da lega­li­za­ção da can­na­bis está fadado ao fra­casso a par­tir do momento que se expressa somente por meio dos mes­mos este­reó­ti­pos que a envol­vem.

É fato que cer­tos padrões difun­di­dos pelos maco­nhei­ros foram impor­tan­tes para a cul­tura pop abra­çasse a planta e ela dei­xasse de ser um bicho de sete cabe­ças para as gera­ções mais novas. Porém, nem todos os usuá­rios fazem ques­tão de tor­nar o seu hábito público e, da mesma maneira que con­de­na­mos a hipo­cri­sia de alguns proi­bi­ci­o­nis­tas, é impor­tante com­pre­en­der que, pelo fato de estar pró­xima a outras ati­vi­da­des cri­mi­no­sas, a maco­nha tem infe­liz­mente várias face­tas nega­ti­vas. Por exem­plo, devido ao ponto-de-venda em comum, a maco­nha já apro­xi­mou mui­tas pes­soas de dro­gas de fato muito mais pre­ju­di­ci­ais, visto que na mai­o­ria das vezes é ven­dida em um local finan­ci­ado pela cri­mi­na­li­dade e onde se encon­tram outras subs­tân­cias. Cul­par o usuá­rio por isso é de uma esqui­zo­fre­nia que só se vê em, bem, polí­ti­cas públi­cas de guerra às dro­gas.

Con­si­de­rando que a acei­ta­ção da maco­nha pela mai­o­ria está longe de acon­te­cer e nós usuá­rios não pre­ten­de­mos abrir mão deste hábito, o que pode­mos fazer para nos pou­par­mos do des­gaste em torno da proi­bi­ção? Lis­tei abaixo peque­nas ati­tu­des a tomar e aspec­tos para refle­tir­mos com o intuito de tor­nar essa con­vi­vên­cia menos can­sa­tiva (e nosso barato mais louco).

EVITE FUMAR NA RUA

Assis­tir a um pôr do sol ou emba­lar aquela con­versa entre ami­gos no boteco da esquina com um pouco de fumo sem pre­o­cu­pa­ção alguma é o sonho de todo maco­nheiro. Mas con­forme abor­da­mos acima, a grande mai­o­ria da popu­la­ção, ainda que adi­ti­vada por medi­ca­ções con­tro­la­das, dis­corda da lega­li­za­ção. Além disso, há o cons­tante e equi­vo­cado com­bate da polí­cia con­tra os usuá­rios. Evite ris­cos fumando no con­forto do seu lar, na com­pa­nhia de boa música e claro, dos seus ami­gos. Mas não esque­ça­mos dos vizi­nhos: faça como os hip­pon­gas e tenha sem­pre um incenso por perto. E sem des­cul­pas de que o cheiro é enjo­a­tivo: você é maco­nheiro, meu amigo.

ADQUIRA SUA MACONHA COM UM PEQUENO PRODUTOR E NÃO ATRAVÉS DE UM TRAFICANTE

Sim, pela lei aquele cama­rada que tem uns pezi­nhos em casa e faz a mão para o pes­soal é con­si­de­rado um tra­fi­cante. Mas a gente sabe que ele nunca manu­seou uma arma, o lance dele é a jar­di­na­gem. Não é tão difi­cil encon­trar esse cama­rada por aí, então faça um esforço antes de ape­lar para a fami­ge­rada boca de fumo. Mesmo que você nunca seja assal­tado lá (não se engane, a segu­rança é busi­ness, na ver­dade os tra­fis estão cagando para você), mui­tas pes­soas ino­cen­tes sem envol­vi­mento com o trá­fico mas resi­den­tes na mesma região onde ele ocorre são pre­ju­di­ca­das por sua pre­sença. Além disso, com­prando de um pequeno pro­du­tor, a pro­ba­bi­li­dade de con­su­mir maco­nha de melhor qua­li­dade é bem maior.

DISCUTA O ASSUNTO APENAS COM PESSOAS ABERTAS A PONTOS DE VISTA DIFERENTE E PROPONHA UMA DISCUSSÃO ADULTA E COERENTE COM OS DEMAIS USUÁRIOS

Não vai ser no meio do almoço de domingo que você vai con­ven­cer o seu tio­zão do chur­rasco de que a can­na­bis traz uma quan­ti­dade de bene­fí­cios. Saber quando e com quem abor­dar o assunto é fun­da­men­tal para que a pauta esteja sem­pre em dis­cus­são.


MENOS 4:20, MAIS DIVULGAÇÃO DOS BENEFÍCIOS

Ok, Bob Mar­ley é do cara­lho, Jef­fer­son Air­plane no fone de ouvido é uma expe­ri­ên­cia incrí­vel e aque­les fil­mes do Che­ech & Chong são engra­ça­dos de ver­dade. A ques­tão aqui não é você abrir mão do seu esmur­ru­ga­dor de aço com um dra­gão medi­e­val gra­vado, tam­pouco da sua boina com as cores da Jamaica mesmo que seja impos­sí­vel você ter dre­a­dlocks visto que a cal­ví­cie já come­çou a dar seus pri­mei­ros sinais. O que eu pro­po­nho é que even­tu­al­mente você mude o teor da con­versa com seus ami­gos da maco­nha. Ao invés de pos­tar aquela foto do vira-lata igual ao Snoop Dogg no meio de uma plan­ta­ção, que tal divul­gar os bene­fí­cios que a can­na­bis pode tra­zer aos paci­en­tes ter­mi­nais de doen­ças crô­ni­cas? Ou mesmo com­par­ti­lhar suas expe­ri­ên­cias recre­a­ti­vas de uma forma posi­tiva?

ACABE COM OS ESTEREÓTIPOS DEIXANDO DE SER UM

Maco­nheiro é pre­gui­çoso”, “Maco­nha é a porta de entrada”, “Maco­nha é coisa do capeta”. Que tal reba­ter estas fra­ses estú­pi­das que ouvi­mos dia­ri­a­mente com argu­men­tos fun­da­men­ta­dos e ati­tu­des melho­res, ao con­trá­rio da igno­rân­cia per­pe­tu­ada atra­vés do pre­con­ceito? De nada adi­anta ser um defen­sor da lega­li­za­ção uti­li­zando-se de extre­mis­mos para jus­ti­fi­car o uso. Inclu­sive a par­tir do momento que os usuá­rios admi­ti­rem os aspec­tos nega­ti­vos que tam­bém vêm com a maco­nha — assim como com qual­quer subs­tân­cia que altere a per­cep­ção — , o assunto ganha rele­vân­cia e desta forma a defesa é for­ta­le­cida (inclu­sive divul­gando entre os entu­si­as­tas melho­res manei­ras de fazer o uso aler­tando sobre seus efei­tos nega­ti­vos com a mesma matu­ri­dade com que defen­de­mos o seu uso).



[Artigo ori­gi­nal­mente publi­cado no blog do autor]

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