maconha porta de entrada

Maconha: a porta de entrada para o que?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruno BrazComentário

Você já deve ter ouvido falar naque­les estu­dos sobre vícios fei­tos em ratos de labo­ra­tó­rio, não? Os tais ratos pres­si­o­na­vam com­pul­si­va­mente uma ala­vanca que libe­rava heroína, che­gando ao ponto de optar pela droga ao invés de comida até que, enfim, mor­riam de fome. Esses estu­dos pare­cem suge­rir coi­sas bem desa­ni­ma­do­ras sobre a natu­reza humana: nossa natu­reza não é con­fiá­vel; a busca pelo pra­zer leva ao desas­tre; deve-se domi­nar os dese­jos natu­rais por meio da razão, edu­ca­ção e impo­si­ção de morais; os que pos­suem moral fraca, ou pouca força de von­tade, devem ser con­tro­la­dos e cor­ri­gi­dos.

Os estu­dos sobre o vício, mesmo que rea­li­za­dos em ratos, tam­bém pare­cem vali­dar as prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas da Guerra Con­tra as Dro­gas. A pri­meira é a proi­bi­ção: impe­dir que os ratos sequer pro­vem as dro­gas. A segunda é a “edu­ca­ção”: con­di­ci­o­nar os ratos para que não pres­si­o­nem a ala­vanca. A ter­ceira é a puni­ção: fazer com que as con­sequên­cias do uso de dro­gas sejam tão assus­ta­do­ras e desa­gra­dá­veis quanto for neces­sá­rio para que os ratos domi­nem seus dese­jos de “pres­si­o­nar a ala­vanca”. Afi­nal, alguns ratos têm uma moral mais sólida que outros. Para aque­les de moral firme, basta a edu­ca­ção. O mais fra­cos pre­ci­sam ser cas­ti­ga­dos até se ali­nha­rem.

Todas essas carac­te­rís­ti­cas da Guerra Con­tra as Dro­gas são for­mas de con­trole e, por­tanto, per­ma­ne­cem den­tro da nar­ra­tiva da civi­li­za­ção tec­no­ló­gica: a domi­na­ção da natu­reza, a ascen­são sobre o estado pri­mi­tivo, a con­quista dos dese­jos ani­mais atra­vés da mente e dos impul­sos bási­cos atra­vés da moral. Tal­vez seja por isso que a enorme obje­ção de Bruce Ale­xan­der aos expe­ri­men­tos em ratos engai­o­la­dos foi igno­rada e repri­mida por tan­tos anos. Seus estu­dos não ques­ti­o­na­ram ape­nas a Guerra Con­tra as Dro­gas, mas tam­bém os para­dig­mas mais pro­fun­dos sobre a natu­reza humana e nossa rela­ção com o mundo.

Ao mover os ratos das peque­nas gai­o­las iso­la­das e colocá-los em uma enorme “Rato­lân­dia” com mui­tos exer­cí­cios, comida e inte­ra­ções soci­ais, Ale­xan­der des­co­briu que eles dei­xa­vam de optar pelas dro­gas. Na ver­dade, até os ratos já vici­a­dos se afas­ta­vam das dro­gas logo após a trans­fe­rên­cia das gai­o­las para o par­que.

Isso implica que o vício em dro­gas não é nenhuma falha de cará­ter ou dis­fun­ção psi­co­ló­gica, mas uma res­posta adap­ta­tiva às cir­cuns­tân­cias. Seria de extrema cru­el­dade colo­car ratos em gai­o­las para então, quando ape­las­sem para o uso de dro­gas, puni-los por isso. Seria como repri­mir os sin­to­mas de uma doença e, ao mesmo tempo, man­ter as con­di­ções neces­sá­rias para que a pró­pria doença pro­li­fe­rasse. Os estu­dos de Ale­xan­der, se não um fator que con­tri­bui para a lenta extin­ção da Guerra Con­tra as Dro­gas, cer­ta­mente vai de acordo com esse pro­cesso — mesmo que por metá­fora.

Pode­mos nos com­pa­rar aos ratos na gai­ola? Será que não esta­mos colo­cando seres huma­nos em con­di­ções into­le­rá­veis para, então, puni-los por seus esfor­ços para ali­viar a angús­tia? Se for assim, então a dita “Guerra Con­tra as Dro­gas” é uma falá­cia base­ada em fal­sas pre­mis­sas e, por­tanto, nunca che­gará ao fim. Se esti­vés­se­mos vivendo como “ratos engai­o­la­dos”, como seria nossa gai­ola? Como seria uma soci­e­dade ins­pi­rada naquela “Rato­lân­dia”?

Veja como colo­car um ser humano numa gai­ola:

  • Afaste ao máximo todas as opor­tu­ni­da­des rele­van­tes de expres­são pes­soal e auxí­lio mútuo. Ao invés disso, impo­nha um tra­ba­lho sem futuro às pes­soas, algo que ofe­reça ape­nas o sufi­ci­ente para que paguem suas con­tas e sanem suas dívi­das. Não esqueça de ins­ti­gar outros a explo­rar esse tipo de tra­ba­lho alheio.
  • Dis­tan­cie as pes­soas da natu­reza e de sua terra. Per­mita que a natu­reza seja, no máximo, um espe­tá­culo ou local de recre­a­ção, mas remova qual­quer inti­mi­dade real com o meio. Adquira ali­men­tos e remé­dios vin­dos de milha­res de quilô­me­tros de dis­tân­cia.
  • Trans­fira a vida — espe­ci­al­mente a das cri­an­ças — para ambi­en­tes inter­nos. Deixe que todos os sons pos­sí­veis sejam sin­te­ti­za­dos, e as pai­sa­gens, vir­tu­ais.
  • Des­trua os laços entre a comu­ni­dade, lan­çando as pes­soas numa soci­e­dade de estra­nhos, na qual você não depende e nem mesmo pre­cisa saber o nome dos seus vizi­nhos.
  • Esti­mule uma ansi­e­dade cons­tante pela sobre­vi­vên­cia, de modo que seja depen­dente do dinheiro, e então crie meca­nis­mos para torná-lo arti­fi­ci­al­mente escasso. Man­te­nha um sis­tema mone­tá­rio no qual há sem­pre mais dívida que recur­sos.
  • Divida o mundo em linhas ima­gi­ná­rias e pro­pri­e­da­des pri­va­das. Con­fine as pes­soas aos res­pec­ti­vos espa­ços que pos­suem ou pagam pra ocu­par.
  • Subs­ti­tua a infi­nita diver­si­dade do mundo natu­ral e arte­sa­nal, onde cada objeto é único, pela mes­mice dos bens de con­sumo.
  • Reduza o reino íntimo das inte­ra­ções soci­ais à famí­lia nuclear e colo­que-a numa caixa. Des­trua a tribo, a vila, o clã e a famí­lia expan­dida enquanto uni­da­des soci­ais fun­ci­o­nais.
  • Obri­gue cri­an­ças a fica­rem pre­sas em salas de aula orga­ni­za­das por idade, num ambi­ente com­pe­ti­tivo no qual são con­di­ci­o­na­das, atra­vés de recom­pen­sas exter­nas, a rea­li­zar tare­fas que não que­rem e nem se impor­tam.
  • Des­trua o fol­clore local e as rela­ções que aju­dam a com­por nossa iden­ti­dade, subs­ti­tuindo-as por fofo­cas de cele­bri­da­des, fana­tismo pelo esporte, iden­ti­fi­ca­ção por gri­fes e opi­niões impos­tas pela mídia.
  • Rene­gue as tra­di­ções locais de cura e cui­da­dos, subs­ti­tuindo-as pelo para­digma de que o “paci­ente” depende de auto­ri­da­des médi­cas para sua saúde.

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Não se admira que tanta gente acaba pres­si­o­nando com­pul­si­va­mente a ala­vanca, seja das dro­gas, do con­su­mismo, da por­no­gra­fia, das apos­tas ou da gula. Res­pon­de­mos com milhões de pali­a­ti­vos às cir­cuns­tân­cias da vida, mas as reais neces­si­da­des que temos por inti­mi­dade, cone­xão, comu­ni­dade, beleza, rea­li­za­ção e pro­pó­sito, seguem igno­ra­das. Uma vez reco­nhe­ci­das, as gai­o­las pas­sam a depen­der, em grande parte, do nosso con­sen­ti­mento indi­vi­dual, mas isso não sig­ni­fica que ape­nas um momento de cla­reza, ou mesmo uma vida inteira de esfor­ços, pos­sam nos liber­tar com­ple­ta­mente. Os hábi­tos desta pri­são já estão pro­fun­da­mente enrai­za­dos. Não pode­mos esca­par nem mesmo des­truindo nos­sos car­ce­rei­ros: dife­rente dos expe­ri­men­tos em ratos, e ao con­trá­rio das Teo­rias da Cons­pi­ra­ção, nossa elite é tão pri­si­o­neira quanto nós. Suas insa­tis­fa­ções, assim como as nos­sas, são pre­en­chi­das por pra­ze­res vazios e vici­an­tes, que os sedu­zem a agir de acordo com seu sta­tus social pela manu­ten­ção do sta­tus quo.

Se liber­tar do sofri­mento dessa gai­ola não é fácil. O con­fi­na­mento não é mera coin­ci­dên­cia na soci­e­dade moderna, uma vez que faz parte de seus meca­nis­mos, suas ide­o­lo­gias e até de nós mes­mos. No fundo, é uma faceta das pro­fun­das nar­ra­ti­vas de sepa­ra­ção, domi­na­ção e con­trole. Porém, ao nos apro­xi­mar­mos de uma grande tran­si­ção, uma mudança de cons­ci­ên­cia, sen­ti­mos que essas nar­ra­ti­vas vão se des­fa­zendo, ainda que suas mani­fes­ta­ções — a inse­gu­rança, os muros e cer­cas, a devas­ta­ção eco­ló­gica — tenham alcan­çado extre­mos sem pre­ce­den­tes. Ainda assim, seu núcleo ide­o­ló­gico torna-se cada vez mais oco, e seus ali­cer­ces, cada vez mais frá­geis. Ao meu ver, a extin­ção (tal­vez longe de se con­fir­mar) da Guerra Con­tra as Dro­gas é um pres­sá­gio de que as estru­tu­ras que a sus­ten­tam tam­bém come­ça­ram a ruir.

Algum cético pode­ria dizer que o fim da Guerra Con­tra as Dro­gas tem, na ver­dade, outro sig­ni­fi­cado: as dro­gas tor­nam a vida na gai­ola mais tole­rá­vel, às cus­tas de uma ener­gia que, de outra maneira, pode­ria ser con­ver­tida em trans­for­ma­ções soci­ais. O ópio do povo, em outras pala­vras, é o pró­prio ópio! O cético des­me­rece, em par­ti­cu­lar, a lega­li­za­ção da maco­nha por con­si­derá-la irre­le­vante, uma opo­si­ção sem impor­tân­cia frente a uma onda de impe­ri­a­lismo e eco­cí­dio, uma vitó­ria ino­fen­siva que não fará nada para retar­dar o avanço do “capi­ta­lismo voraz”.

Essa visão cética está equi­vo­cada. De modo geral, as dro­gas nos tor­nam “engai­o­la­dos” menos pro­du­ti­vos, ao con­trá­rio do que se deseja: tra­ba­lha­do­res árduos e con­su­mi­do­res ávi­dos. A exce­ção mais notá­vel é a cafeína — curi­o­sa­mente, não regu­la­men­tada — que nos ajuda a acor­dar para uma rotina que não que­re­mos ter, e man­ter o foco em tare­fas que não nos inte­res­sam. (Não estou dizendo que a cafeína se resume à isso, e de forma alguma quero depre­ciar plan­tas sagra­das, tais como o chá e o café, que estão entre as úni­cas infu­sões ainda con­su­mi­das na soci­e­dade moderna.) Outra exce­ção é o álcool, que age como uma vál­vula de escape e faz com que a vida na soci­e­dade atual se torne mais tole­rá­vel. Cer­tas dro­gas — esti­mu­lan­tes e entor­pe­cen­tes — tam­bém pode­riam assu­mir essas fun­ções, mas são tão debi­li­tan­tes que os defen­so­res do capi­ta­lismo as enxer­gam como ame­a­ças.

Outras dro­gas, porém, como a maco­nha e os psi­co­dé­li­cos, podem indu­zir dire­ta­mente à não-con­for­mi­dade, enfra­que­cendo os valo­res con­su­mis­tas e tor­nando nos­sos “mode­los de vida padrão” menos tole­rá­veis, não mais. Con­si­dere, por exem­plo, o tipo de com­por­ta­mento asso­ci­ado ao uso da maco­nha: o maco­nheiro perde a hora pro tra­ba­lho, se aco­moda em qual­quer lugar pra tocar seu vio­lão e não é com­pe­ti­tivo. Mas isso não quer dizer que maco­nhei­ros não con­tri­buam com a soci­e­dade, pois alguns dos mai­o­res empre­en­de­do­res da Era da Infor­ma­ção são, supos­ta­mente, fuman­tes. Ainda assim, a repu­ta­ção que a maco­nha e os psi­co­dé­li­cos têm de per­tur­bar a ordem esta­be­le­cida não sur­giu do nada, sem fun­da­mento.

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Os pas­sos hesi­tan­tes, mas impor­tan­tes, de diver­sos esta­dos e paí­ses em prol da lega­li­za­ção da maco­nha são sig­ni­fi­can­tes por diver­sas razões, além dos já conhe­ci­dos bene­fí­cios rela­ci­o­na­dos ao crime, deten­ção, medi­cina e insu­mos indus­tri­ais. Pri­meiro, implica em um aban­dono da men­ta­li­dade de con­trole: proi­bi­ção, puni­ção e con­di­ci­o­na­mento psi­co­ló­gico. Segundo, como já men­ci­o­nei, o objeto de con­trole — a maco­nha — é cor­ro­sivo para as gai­o­las em que vive­mos. Ter­ceiro, é parte de uma pro­funda que­bra de para­digma, longe da sepa­ra­ção, em dire­ção à com­pai­xão.

A men­ta­li­dade de con­trole é base­ada no ques­ti­o­na­mento sobre quem, ou o quê, deve ser con­tro­lado. A lógica da Guerra Con­tra as Dro­gas culpa, indi­vi­du­al­mente, os usuá­rios por suas esco­lhas, base­ando-se numa teo­ria que os psi­có­lo­gos soci­ais cha­mam de “dis­po­si­ci­o­nal” — seres huma­nos fazem suas esco­lhas, por livre e espon­tâ­nea von­tade, base­a­das em valo­res e pre­fe­rên­cias imu­tá­veis. Ape­sar de reco­nhe­cer a influên­cia do ambi­ente, a teo­ria dis­po­si­ci­o­nal afirma que as pes­soas fazem boas esco­lhas por­que são boas, más esco­lhas por­que são más. Ini­bi­ção, edu­ca­ção e proi­bi­ção sur­gem natu­ral­mente dessa linha de pen­sa­mento, assim como grande parte do nosso sis­tema judi­ciá­rio. O jul­ga­mento e o pater­na­lismo, ine­ren­tes ao con­ceito de “ações cor­re­ti­vas”, tam­bém fazem parte disso, pois acre­di­tam que “se eu esti­vesse no seu lugar, teria feito algo dife­rente.” Em outras pala­vras, é a decla­ra­ção da sepa­ra­ção: eu sou dife­rente de (e se você for um vici­ado, melhor que) você.

Per­ceba que esse mesmo sen­ti­mento tam­bém motiva a Guerra Con­tra o Ter­ro­rismo e, enfim, a guerra con­tra qual­quer coisa. Mas há uma filo­so­fia oposta, cha­mada “situ­a­ci­o­nista”, na qual faze­mos esco­lhas de acordo com a tota­li­dade da nossa situ­a­ção, interna e externa. Em outras pala­vras, se eu esti­vesse no seu lugar, incluindo todo seu pas­sado e suas expe­ri­ên­cias, faria exa­ta­mente o mesmo que você. Essa é uma decla­ra­ção de não-sepa­ra­ção, de com­pai­xão. Ela entende, assim como Bruce Ale­xan­der demons­trou, que o com­por­ta­mento auto­des­tru­tivo ou antis­so­cial é uma res­posta às cir­cuns­tân­cias, e não uma fra­queza con­di­ci­o­nal ou falha moral. A men­ta­li­dade situ­a­ci­o­nal esti­mula a res­tau­ra­ção em vez da guerra, pois busca enten­der e repa­rar as cir­cuns­tân­cias que dão ori­gem ao ter­ro­rismo, vício em dro­gas, ger­mes, ervas dani­nhas, ganân­cia, mal ou qual­quer outro sin­toma ao qual “decla­ra­mos guerra”. Em vez de punir o uso de dro­gas, pon­dera-se: quais cir­cuns­tân­cias estão gerando esse uso? Em vez de exter­mi­nar as ervas dani­nhas com pes­ti­ci­das, pon­dera-se: quais con­di­ções do solo ou do meio estão cau­sando esse cres­ci­mento? Em vez de ape­lar à uma extrema higi­ene antis­sép­tica e um arse­nal de anti­bió­ti­cos, pon­dera-se: em qual estado o corpo tor­nou-se recep­tivo aos ger­mes? Isso não quer dizer que nunca deve­mos usar anti­bió­ti­cos ou pren­der um cri­mi­noso vio­lento que está pre­ju­di­cando outros. Porém, ao tomar essas medi­das, não pode­mos afir­mar: “pro­blema resol­vido! Aca­ba­mos com o mal.”

Dessa forma, enxer­ga­mos o quanto a lega­li­za­ção das dro­gas vai de acordo com a inver­são de um para­digma mile­nar que chamo de “Guerra Con­tra o Mal”. Tão antigo quanto a pró­pria civi­li­za­ção, esse para­digma foi ori­gi­nal­mente asso­ci­ado à con­quista do caos e à domes­ti­ca­ção do sel­va­gem. Ao longo da his­tó­ria, che­gou a dizi­mar popu­la­ções intei­ras e, por pouco, até o pró­prio pla­neta. Agora, tal­vez, esta­mos na dire­ção certa, rumo a uma era mais har­mo­ni­osa. Não parece bem apro­pri­ado que algo da natu­reza, uma planta, possa se tor­nar um ins­tru­mento dessa tran­si­ção?

Tal­vez o cres­cente movi­mento que visa o fim da Guerra Con­tra as Dro­gas retrate uma mudança de para­digma que se afasta do jul­ga­mento, da culpa, da guerra e do con­trole, em dire­ção à com­pai­xão e res­tau­ra­ção. A maco­nha é um ponto de par­tida natu­ral, pois seu uso gene­ra­li­zado torna a cari­ca­tura do “abuso devido à fra­queza moral” insus­ten­tá­vel. “Se eu esti­vesse no seu lugar, de acordo com o seu pas­sado e sua rea­li­dade, eu tam­bém fuma­ria — e, na ver­dade, fumei!”

A maco­nha tem sido, há muito tempo, taxada de vilã por ser “porta de entrada para outras dro­gas”, sob o argu­mento de que, mesmo não sendo tão peri­gosa, intro­duz a pes­soa aos hábi­tos e cos­tu­mes do uso de dro­gas. Essa men­tira é facil­mente des­mas­ca­rada, mas tal­vez a maco­nha seja mesmo porta de entrada para outras coi­sas: porta de entrada para uma des­cri­mi­na­li­za­ção das dro­gas mais abran­gente e, além disso, para um sis­tema judi­ciá­rio com­pas­sivo e humilde, que não se baseie em puni­ções. Mais ainda, nos ofe­rece uma porta de entrada que nos afasta de valo­res arti­fi­ci­ais, em dire­ção à valo­res orgâ­ni­cos, um mundo sim­bió­tico, um mundo eco­ló­gico, e não uma arena onde outros, sepa­ra­dos entre si, com­pe­tem e devem se pro­te­ger, con­quis­tar e con­tro­lar. Tal­vez os con­ser­va­do­res este­jam cer­tos. Tal­vez a lega­li­za­ção das dro­gas sig­ni­fi­que o fim da soci­e­dade que conhe­ce­mos.

Texto ori­gi­nal escrito por Char­les Eisens­tein: http://charleseisenstein.net/gatewaydrugtowhat/

Estu­dos rea­li­za­dos por Bruce Ale­xan­der: http://www.stuartmcmillen.com/comics_pt/ratolandia/

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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