Não comemoro a prisão nem a morte de pessoas. Posso até achar que a remoção de fulano do cenário causa efeitos positivos (alguém vai negar que a queda de Mussolini foi algo bom), mas a coisa em si – comemorar a morte, o sofrimento, a prisão, a tortura – não me atrai. Não vou censurar quem comemora, mas não é a minha.

Isso posto, a condenação de um ex presidente tem diversos aspectos positivos e negativos. De negativo, antes de tudo o óbvio: somos governados por gangsters, a ação da justiça penal sendo usada pra lidar com as ações de um ex-presidente indica no mínimo uma grande podridão na nossa política.

Menos intuitivamente, a criação de mártires: o discurso político conservador petista está buscando incessantemente a imagem de que é “perseguido” e “rebelde”, mesmo que continue agindo como sempre. A condenação do Lula é ótima (assim como o impeachment de Dilma o foi, aliás) para alimentar essa noção, para reforçar a imagem “mítica” do ex-presidente. Isso costuma dar merda – independente de gostar do sujeito ou não, o peso de figuras mágicas intocáveis do tipo costuma enlouquecer o cenário político. Só olhar pro lado e ver o exemplo do peronismo, que é uma praga absurda e perene na Argentina.

De positivo, antes de tudo, um combate à sensação de impunidade. Se até o ex-presidente mais popular da história do país, um dos políticos mais poderosos e influentes por aqui, pode ser condenado, isso é ao menos um indício de que a justiça está tocando também o andar de cima. Os alvos clássicos continuam sendo os pobres e excluídos, mas há algum esforço no sentido contrário.

A minha parte positiva preferida é cínica: o descrédito da política partidária. Contrariando alguns profetas que vêem fascismo na descrença em relação ao sistema político, prefiro ver a parte positiva: o ridículo de ver um poderoso político preso de maneira patética pode em alguma instância ajudar a desiludir mais gente. E quanto menos gente confiar na máfia violenta que é o conglomerado Estado simbiótico a grandes corporações, menor o poder do feitiço hipnótico deles. Mais abertura para buscar emancipação.

O maior efeito, porém, não é nem positivo nem negativo. Para a grande maioria do país, a prisão de Lula é irrelevante. A vida vai continuar mais ou menos igual amanhã.

Os defensores que declaram iniciado um Estado de exceção e dizem que acabou a democracia no país ignoram que esse Estado de exceção já existe há muito tempo pra todo pobre excluído da sociedade. Para os padrões brasileiros, Lula teve direito a defesa que um Rafael Braga jamais sonharia.

Os críticos de Lula que acham que essa prisão inaugura uma nova era de honestidade e paz são ingênuos ou desonestos. Em um cenário no qual virtualmente toda liderança política conhecida é corrupta e no qual a organização mais basal do país fomenta e incentiva o autoritarismo e a corrupção, como a prisão de um líder solo mudaria tanta coisa?

Lula é um político como foram outros. Popular, inteligente, corrupto, interessado em conseguir poder. Fez alguma diferença, mas não só não é um messias como também é grande e complexa e ingovernável demais essa multidão chamada Brasil pra que um homem a controle tanto assim.

A prisão de um só infeliz com sonhos de controle não é o suficiente para salvar nem condenar a todos nós. Convém desconfiar das ideologias de adoração ao poder que condicionam nosso destino e vida e morte à maré que carrega qualquer Grande Líder. A vida felizmente se rebela e é muito mais que isso.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.
  • Maria Cristina B. L.

    Concordo com o autor em absolutamente tudo: a condenação de Lula não é fruto de perseguição política, mas decorreu de aplicação do devido processo legal. De outro lado, não há grande mudança no cenário político, não haverá limpeza generalizada, pois o modo de agir de Lula é comum ao sistema político brasileiro, a nossos representantes e governantes. A engrenagem não está estruturada para atuar na retidão. No entanto, há motivo para comemoração do ponto de vista institucional. O primado do Estado de Direito (que exige a observância da Lei a todos) parece estar amadurecendo neste país. É algo reconfortante para nós confiar que um magistrado, servidor público, efetivamente cumpra seu papel, a aplicação da Lei de forma independente e imparcial, exatamente como idealizado à centena de anos pelos iluministas… Não haverá limpeza pois este não é o papel do magistrado. A justiça atua sempre após o fato, e não tem condições de mudar as regras do jogo, só cuidar para que elas sejam obsevadad. A limpeza precisa do legislador ordinário, instigado por aqueles q representa. Há um antigo preceito romano de Ulpiano o “neminem ladere”, q dá origem a ideia moderna de q não se pode lesar a ninguém, pena de sanção/reparação. É um alento ver esses princípios sendo observados pelo judiciário, seja o sujeito o Zeh das Couves, o Lula ou o Maecelo Odebrecht. Quem afirma que a aplicação destes preceitos é perseguição em face da qualidade dos sujeitos (é político, isto ou aquilo) deseja a oficialização de uma aristocracia. Só dá pra pensar em mártir se o sacrifício foi em defesa da manutenção desta aristocracia não oficial que vivemos até pouco! Parabéns pelo texto desapaixonado, é também um alento!

  • Ronnie Eder Sega

    Já é um começo, Guilherme.
    É claro que isso não significa que dê para parar.
    É como naquela série de TV, “Gotham”, que mostra Gotham antes do Batman. E a gente vê a verdade: que Gotham era ainda mais suja do que nos quadrinhos, e que tudo aquilo que a gente vê no gibi é a luta do “bem” contra o “mal” – é nesses tempos que estamos entrando agora.
    A verdadeira guerra só está começando.