As grandes ideologias rivais no mundo capitalista hoje em dia são o liberalismo e a socialdemocracia. Tal polarização, muitas vezes, gera embates vigorosos entre os defensores de um e outro lado, que parecem, ao observador mais insuspeito, irreconciliáveis.

Contudo, em última análise, percebe-se que as duas doutrinas atuam em face das falhas do modelo econômico hegemônico na maior parte dos Estados contemporâneos: o capitalismo.

Visto por muitos opositores como a ideologia que defende o capitalismo de seus “inimigos”, o liberalismo, na verdade, não prevê que os detentores de capital possam atuar a seu bel-prazer no mercado.

Pelo contrário, seu objetivo é justamente tornar a concorrência entre os competidores a mais eficiente possível, por meio de uma regulação estatal que evite abusos e monopólios por parte dos agentes econômicos (nesse ponto essa ideologia se afasta do anarcocapitalismo e do libertarianismo). Ao mesmo tempo, permite o acesso e o desenvolvimento livres de novos participantes na competição mercadológica.

Adam Smith, pai do Liberalismo Econômico, estabeleceu em seu livro “The Wealth of Nations” (1776), que

dar o monopólio do mercado interno para a produção da indústria doméstica, em qualquer espécie de arte ou manufatura, é, em certa medida, diretamente privar as pessoas de escolher em qual maneira elas desejam empregar seu capital, e será, em quase todos os casos, uma regulação tanto inútil como danosa”.

Historicamente, inclusive, a ideia de liberdade não significaria a ausência de regras, mas sim a livre concorrência, ainda que para isso fosse necessária uma regulação.

Tal ideal pode ser verificado principalmente a partir do final do século XIX, e é exemplificado por este voto do Juiz da Suprema Corte dos EUA (e que depois seria Presidente do país), William Howard Taft, no caso United States v. Addyston Pipe & Steel Co. (1898):

Quando o único objetivo de ambas as partes ao fazer um contrato é meramente o de restringir a concorrência, e aumentar ou manter preços, parece que nada haveria a justificar ou escusar a restrição, e que estaria havendo necessariamente uma tendência para monopolizar, e que, portanto, deveria ser proibido”.

Lado outro, a socialdemocracia preconiza uma atuação mais comissiva dos organismos estatais no meio econômico, seja por meio de empresas controladas pelo Estado, seja por meio de incentivos financeiros/fiscais para os concorrentes, de modo a estimular a competição (esse estímulo é o que afasta esse modelo do socialismo, em suas diversas modalidades, e do comunismo).

Assim, o Estado buscaria manter a concorrência entre os agentes econômicos sempre equilibrada e “justa”, evitando que alguns participantes do mercado criem diferenças perniciosas em relação aos demais.

Contudo, não preconizam a eliminação deste rival, chamado mercado, mas sim buscam adaptar suas distorções. Na definição de Miguel Haddad,

a social democracia entende que o livre mercado cumpre um papel importante. Que a competição é um instrumento comprovadamente eficaz na criação de riqueza e, consequentemente, de mais emprego – gerando, com isso, melhores salários, o principal agente de distribuição de renda -, além de estimular o empreendedorismo, o avanço científico e tecnológico e proporcionar continuadamente mais recursos para a melhoria dos serviços públicos”.

Portanto, percebe-se que ambas as ideologias tão conflituosas entre si têm o mesmo “vilão”: as distorções existentes no mercado capitalista.

Muitas vezes, esse modelo capitalista, tão prevalecente no mundo atual, é apontado como um mal a ser derrotado (notadamente por comunistas e socialistas) por, em tese, contribuir para a desigualdade e a miséria humanas. Na verdade, esta é uma visão míope.

Os grandes causadores dessas calamidades humanitárias são aqueles que, justamente, visam a manipular o mercado para fazê-lo atender a suas demandas individuais, por meio de monopólios, carteis, conchavos particulares etc.

Para combater esses atores econômicos maliciosos e, assim, fazer com que o capitalismo efetivamente funcione, é que o liberalismo e a socialdemocracia adotaram as linhas de pensamento acima expostas.

Dito isto, fica claro que as ideologias retratadas neste texto possuem um objetivo comum, a ser alcançado por caminhos diferentes. Desse modo, resta também evidente que a rivalidade radical muitas vezes encontrada entre os proponentes de cada um desses modelos na sociedade de hoje é algo um tanto desarrazoado, e carente de uma maior reflexão interna pelos debatedores.

De fato, Felipe González, líder socialdemocrata espanhol, disse certa vez que

Conforme nosso ponto de vista, as liberdades democráticas, tal como são entendidas na Europa Ocidental, formam parte substancial do conceito de democracia e estão indissoluvelmente unidas à alternativa socialista (Qué es el socialismo, 1976).

De minha parte, considero que o Brasil, no atual momento, é mais carente de liberalismo, visto que em praticamente toda a sua história se acostumou a ver o Estado intervindo na economia como agente principal, e precisa adquirir uma cultura diferente, até para que possa realmente fazer uma escolha entre os modelos.

Mas o ideal mesmo, em minha opinião, é que, numa sociedade mais avançada, haja rotatividade entre as ideias avençadas, com um período de maior atuação estatal seguido de uma fase com economia mais liberalizada, e vice-versa.

Afinal, um modelo econômico utilizado indefinidamente tende ao exaurimento de suas forças, conforme demonstram as diversas crises que de tempos em tempos afetam a sociedade capitalista.


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escrito por:

Frederico Malard

Bacharel em Direito pela UFMG e ativista em defesa da Liberdade e da Razão. Pode variar entre o niilismo e a utopia, mas ainda não perdeu as esperanças de deixar algum legado relevante para a sociedade. Poeta amador e aspirante a escritor.


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