Um ativista dos direitos homossexuais é agredido na Rússia.

As (des)vantagens de ser LGB-Invisível

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Fernanda PaveltchukComentário

Antes de come­çar­mos a falar sobre pre­con­ceito, ori­en­ta­ção sexual e saúde men­tal, que é o tema deste texto e o pro­pó­sito que move minha vida, pode ser bom fazer­mos algu­mas dife­ren­ci­a­ções impor­tan­tes no que con­cerne aos gru­pos mino­ri­tá­rios de gênero e sexu­a­li­dade.

Aí vai uma daque­las lis­ti­nhas ultra didá­ti­cas que pode cor­rer o risco de se repe­tir.

Sexo é um termo rela­ci­o­nado às carac­te­rís­ti­cas bio­ló­gi­cas que dife­ren­ciam machos e fêmeas. Gênero, por outro lado, é uma extra­po­la­ção abs­trata, ligada for­te­mente à cul­tura e aos papéis soci­ais mas­cu­li­nos e femi­ni­nos (hoje em dia, muito se fala tam­bém de gênero não-biná­rio, mas esse tópico merece um texto inteiro e não um só pará­grafo).

Assim, é pos­sí­vel que o sexo e o gênero de alguém este­jam ali­nha­dos em uma iden­ti­dade de gênero cis (termo ins­pi­rado pela quí­mica) ou que o sexo e o gênero não tenham nada a ver um com o outro, em uma iden­ti­dade de gênero trans.

Porém, o que está na roda para dis­cus­são hoje é a ori­en­ta­ção sexual – ou seja, a dire­ção da atra­ção sexual e/ou român­tica de alguém.

Se essa pes­soa se atrai por um gênero dife­rente do seu, damos o nome de hete­ros­se­xual. Se essa pes­soa se atrai por pes­soas do mesmo gênero, vamos chamá-la de gay ou lés­bica.

Agora, se essa pes­soa se atrai por pes­soas do mesmo gênero que o seu e tam­bém por pes­soas de outro gênero, ela é bis­se­xual.

Uma pes­soa asse­xual, por outro lado, é alguém que não sente atra­ção sexual em abso­luto.

É pre­ciso dei­xar algo bem claro a par­tir desse ponto.

Para­fra­se­ando a afir­ma­ção de Yuval Noah Harari em seu popu­lar Sapi­ens: Uma breve his­tó­ria da huma­ni­dade, o com­por­ta­mento homos­se­xual é abso­lu­ta­mente natu­ral.

"Há pouco sentido em argumentar que mulheres servem para dar à luz e que a homossexualidade não é natural. A maioria das leis, normas, direitos e obrigações que definem a masculinidade e a feminilidade reflete a imaginação humana mais que a realidade biológica." - Yuval Noah Harari

Caso não fosse, a evo­lu­ção não teria per­mi­tido sua pro­pa­ga­ção ao longo da his­tó­ria. Um com­por­ta­mento anti­na­tu­ral seria, por exem­plo, huma­nos voa­rem.

Dizer que a homos­se­xu­a­li­dade é natu­ral sig­ni­fica ape­nas que ela pode ser expli­cada pela bio­lo­gia e pela evo­lu­ção. Em outras pala­vras, não existe isso de que “é bio­lo­gi­ca­mente errado por­que não pro­cria”.

Ainda não se tem um modelo que expli­que bem por que a evo­lu­ção teria pro­pi­ci­ado o apa­re­ci­mento desse com­por­ta­mento em tan­tas espé­cies, mas as hipó­te­ses giram em torno de algum tipo de van­ta­gem rela­ci­o­nada à coo­pe­ra­ção.

Homos­se­xu­ais no grupo seriam mais coo­pe­ra­ti­vos com os filhos alheios, aju­dando no cui­dado paren­tal – que é algo vital em ambi­en­tes de adap­ta­ção evo­lu­tiva (flo­res­tas, sava­nas etc).

Pode ser tam­bém que as vari­a­ções asso­ci­a­das ao sur­gi­mento do inte­resse pelo mesmo sexo tenham sur­gido e se espa­lhado por falta de pres­são sele­tiva.

A sele­ção natu­ral fun­ci­ona assim: se aquele traço sofre uma pres­são sele­tiva nega­tiva, ele é extinto; se sofre uma pres­são posi­tiva, ele se espa­lha e aos pou­cos se sobre­põe. Se não há nenhuma pres­são, ele pode se man­ter em níveis balan­ce­a­dos na popu­la­ção.

 

LGB sem o T

Ser lés­bica, gay ou bis­se­xual (entre mui­tas outras nomen­cla­tu­ras…) pode sig­ni­fi­car ter maior pro­pen­são a desen­vol­ver trans­tor­nos psi­quiá­tri­cos como depres­são, ansi­e­dade gene­ra­li­zada, ansi­e­dade social, estresse pós-trau­má­tico etc.

Pode che­gar até a dupli­car o risco de sui­cí­dio, quando se com­para os índi­ces da popu­la­ção LGB (a par­tir daqui, a sigla uti­li­zada será LGB e não LGBT, por estar­mos falando sobre ori­en­ta­ção sexual e não sobre gênero) com pes­soas com as mes­mas carac­te­rís­ti­cas soci­o­de­mo­grá­fi­cas, só que hete­ros­se­xu­ais.

Há algum tempo, se diria que é o fato de a pes­soa não ser hétero que faz com que ela desen­volva cer­tas pato­lo­gias — até 1990, a homos­se­xu­a­li­dade era con­si­de­rada, por si só, uma doença men­tal! Ainda existe muita gente por aí pro­pa­gando esse tipo de dis­curso que, além de pro­ble­má­tico, está desa­tu­a­li­zado, e pro­mo­vendo tera­pias de con­ver­são de sexu­a­li­dade (a cha­mada ‘cura gay’).

Porém, não parece haver evi­dên­cias empí­ri­cas de que a ori­en­ta­ção sexual de uma pes­soa impacte sua saúde men­tal. Em outras pala­vras, a ciên­cia tes­tou a hipó­tese de que pos­suir uma ori­en­ta­ção sexual fora da norma gera­ria dis­túr­bios psi­co­ló­gi­cos, mas essa ideia foi facil­mente fal­se­ada quando os dados da rea­li­dade a des­men­ti­ram.

Nem todas as pes­soas LGB sofrem de alguma psi­co­pa­to­lo­gia ou tem seu bem-estar afe­tado nega­ti­va­mente. Nessa onda, em 2003, sur­giu uma nova teo­ria que expli­cava esse pro­cesso com­plexo de expe­ri­ên­cias de pre­con­ceito que afe­tam a saúde men­tal: o modelo teó­rico do Estresse de Mino­rias.

 

 O que é estresse?

Antes de explo­rar­mos mais pro­fun­da­mente o con­ceito de Estresse de Mino­rias, pode ser bom dis­cu­tir­mos um pouco mais a res­peito do que a Psi­co­lo­gia atu­al­mente entende como estresse.

O estresse nada mais é do que uma rea­ção do orga­nismo ao dese­qui­lí­brio emo­ci­o­nal — ou seja, uma rea­ção de luta para vol­tar­mos a um estado de home­os­tase.

Estresse é ten­ta­tiva de adap­ta­ção. Essa adap­ta­ção, quando crô­nica, pode acon­te­cer em qua­tro fases:

1. a fase de alerta, quando o evento dese­qui­li­bra­dor surge pela pri­meira vez e ten­ta­mos vol­tar ao equi­lí­brio;

2. a fase de resis­tên­cia, quando o dese­qui­lí­brio per­ma­nece para além das nos­sas ten­ta­ti­vas e come­ça­mos a per­der ener­gia;

3. quase-exaus­tão, quando segui­mos ten­tando nos adap­tar e nossa saúde começa a ficar com­pro­me­tida;

4. e exaus­tão, quando já lite­ral­mente nos fal­tam for­ças para lutar con­tra o evento e nossa saúde fica debi­li­tada.

Assim, estres­so­ras são todas as situ­a­ções que que­bram esse equi­lí­brio e que pro­vo­cam algum grau de ins­ta­bi­li­dade. Pode ser a morte de um ente que­rido, a saída ou a che­gada em um emprego, o nas­ci­mento de um filho, uma perna que­brada etc. Qual­quer coisa, boa ou ruim, que nos pro­vo­que dese­qui­lí­brio é visto como um estres­sor.

Outra coisa impor­tante sobre estres­so­res é que eles podem ser inter­nos ou exter­nos, sendo pro­ve­ni­en­tes de nós mes­mos ou dos outros e do mundo. Por isso, tam­bém é pos­sí­vel falar de estresse social: a soci­e­dade e a cul­tura tam­bém podem gerar ele­men­tos estres­so­res para algu­mas pes­soas. O fenô­meno do pre­con­ceito, com­posto pelos pro­ces­sos de estig­ma­ti­za­ção e dis­cri­mi­na­ção, é um bom exem­plo disso.

O pre­con­ceito acon­tece por duas vias: estig­ma­ti­za­ção e dis­cri­mi­na­ção.

Dize­mos que a dis­cri­mi­na­ção acon­tece quando se expressa o pre­con­ceito atra­vés de ati­tu­des e ações vio­len­tas, sejam elas ver­bais ou físi­cas.

O pro­cesso de estig­ma­ti­za­ção pode soar menos agres­sivo à pri­meira vista, por não envol­ver prá­ti­cas vio­len­tas dire­ci­o­na­das ao grupo alvo do pre­con­ceito, mas tem efei­tos igual­mente impac­tan­tes tanto na soci­e­dade quanto nos indi­ví­duos estig­ma­ti­za­dos: a estig­ma­ti­za­ção está mais rela­ci­o­nada com o espa­lhar de cren­ças a res­peito de um grupo de pes­soas e a cri­a­ção de este­reó­ti­pos a res­peito desse grupo.

Obvi­a­mente, é algo que pro­duz ideias arrai­ga­das na popu­la­ção em geral, e que pode rever­be­rar não ape­nas no mundo exte­rior, como tam­bém nos pró­prios indi­ví­duos que fazem parte do grupo estig­ma­ti­zado.

Além disso, a estig­ma­ti­za­ção tam­bém é o que torna a dis­cri­mi­na­ção pos­sí­vel – sem ideias pré­vias a res­peito de deter­mi­nado grupo, que motivo tería­mos para agredi-lo? Nesse sen­tido, vale lem­brar daquela céle­bre frase de Ber­tolt Bre­cht:

Porta-retrato de Bertold Brecht | “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” - Bertold Brecht | Imagem atrelada ao texto "As (des)vantagens de ser LGB-Invisível", de Fernanda Paveltchuk e publicado em Ano Zero.

Do rio que tudo arrasta se diz que é vio­lento. Mas nin­guém diz vio­len­tas as mar­gens que o com­pri­mem.”

O estresse social é uma con­sequên­cia da estig­ma­ti­za­ção e da dis­cri­mi­na­ção (e, por­tanto, do pre­con­ceito), atin­gindo as víti­mas des­tes pro­ces­sos por ambos fun­ci­o­na­rem como ele­men­tos deses­ta­bi­li­za­do­res e pro­vo­ca­rem a que­bra da home­os­tase, exi­gindo uma rea­ção de adap­ta­ção por parte dos indi­ví­duos que sofrem pre­con­ceito.

Assim, a estig­ma­ti­za­ção do homem gay, por exem­plo, pode levar a uma pro­pa­ga­ção de ideias pela cul­tura, atra­ves­sando ins­tân­cias como famí­lia, escola e emprego, que afe­tam dire­ta­mente o desen­vol­vi­mento de garo­tos que per­ce­bem sen­tir atra­ção por outros garo­tos – e fazer com que os pró­prios inter­na­li­zem esses estig­mas.

A dis­cri­mi­na­ção pode ser ver­bal, atra­vés de qual­quer tipo de comen­tá­rio depre­ci­a­tivo a res­peito da homos­se­xu­a­li­dade, mesmo que muito sutil, ou física.

É comum que um homem gay apre­sente algu­mas cren­ças nega­ti­vas dis­fun­ci­o­nais a res­peito de si mesmo, como “eu sou defei­tu­oso”, “sou uma aber­ra­ção” ou “eu não mereço ser feliz”, além de espe­rar cons­tan­tes repre­sá­lias do mundo exte­rior. Assim, cria-se um estado de ten­são e alerta crô­nico, inces­sante, que pro­duz um dese­qui­lí­brio no orga­nismo desse homem hipo­té­tico e faz com que ele bus­que se adap­tar e encon­trar outra vez a home­os­tase per­dida.

O mesmo vale para pes­soas de qual­quer outra ori­en­ta­ção sexual que fuja do padrão hétero.

O pro­blema é que, quando os estres­so­res não ces­sam, o indi­ví­duo passa a viver sem­pre nessa busca por adap­ta­ção, cro­ni­fi­cando o pro­cesso do estresse.

Uma série de estu­dos cien­tí­fi­cos aponta que o estresse crô­nico pode ter alto impacto na saúde, seja ela física ou men­tal, por­que pode desem­bo­car em des­fe­chos nega­ti­vos como depres­são e ansi­e­dade e con­tri­buir para qua­dros como hiper­ten­são arte­rial e dia­be­tes.

 

A teoria do estresse de minorias

Enten­dendo que ser uma mino­ria social é algo que acom­pa­nha a pes­soa durante toda a sua vida, fica claro que mui­tas das pes­soas LGB podem expe­ri­en­ciar o estresse crô­nico gerado pelas expe­ri­ên­cias de pre­con­ceito sofri­das.

Com­pre­en­der isso é fun­da­men­tal quando pen­sa­mos nas infor­ma­ções alar­man­tes sobre vio­lên­cia homo­fó­bica e saúde men­tal de pes­soas LGB no iní­cio do texto: agora pode ser mais fácil com­pre­en­der a liga­ção entre os dois fenô­me­nos, certo? Mas quais seriam os ele­men­tos fun­da­men­tais nesse pro­cesso? Por que algu­mas pes­soas LGB têm des­fe­chos de saúde men­tal mais afe­ta­dos nega­ti­va­mente do que outras?

Bus­cando sis­te­ma­ti­zar as variá­veis dessa dinâ­mica, Meyer defende haver três estres­so­res que ape­nas pes­soas LGB viven­ciam: a ocul­ta­ção da iden­ti­dade sexual (ou O Armá­rio), as expe­ri­ên­cias de pre­con­ceito e dis­cri­mi­na­ção sofri­das, e a homo­fo­bia (ou homo­ne­ga­ti­vi­dade) inter­na­li­zada.

Assim, é o modo como as pró­prias pes­soas LGB, seus pares e a soci­e­dade como um todo lidam com a não-hete­ros­se­xu­a­li­dade que pode rever­be­rar no bem-estar sub­je­tivo e psi­co­ló­gico de alguém que não é hétero.

Pri­meiro, é pre­ciso sair do armá­rio para si mesmo. Ocul­tar a pró­pria iden­ti­dade sexual de si pode ser bem com­pli­cado e um grande fator estres­sor. Ima­gine só a pres­são social que alguém não-hete­ros­se­xual sente ao come­çar a per­ce­ber seus afe­tos e atra­ções por pes­soas do mesmo gênero.

Admi­tir ser LGB sig­ni­fica tomar cons­ci­ên­cia de que não se é mai­o­ria. Sig­ni­fica, mui­tas vezes, um pro­cesso longo de acei­ta­ção de que uma série de difi­cul­da­des e con­fli­tos estão por vir.

Reve­lar para si a pró­pria iden­ti­dade envolve já uma que­bra de equi­lí­brio. Por outro lado, estar no armá­rio para os outros pode sig­ni­fi­car viver em cons­tante estado de alerta.

Por um lado, e se des­co­bri­rem? Pes­soas LGB que estão den­tro do armá­rio para os outros mui­tas vezes rela­tam que pre­ci­sam con­tro­lar muito bem suas con­du­tas e às vezes criar per­so­na­gens para que seus pares não per­ce­bam sua ver­da­deira ori­en­ta­ção sexual.

Além disso, tam­bém pode sur­gir certa insa­tis­fa­ção: nem todo mundo pre­cisa viver se escon­dendo. Essa rea­li­dade pode gerar revolta e forte incô­modo.

Há mais uma coisa impor­tante sobre sair do armá­rio: é um pro­cesso con­tí­nuo, que se repete mui­tas vezes, a cada nova pes­soa que um indi­ví­duo LGB conhece. BOOM! Estres­sor crô­nico.

Sair do armá­rio (ou ser alguém com carac­te­rís­ti­cas muito pró­xi­mas dos este­reó­ti­pos popu­la­res) pode fazer com que expe­ri­ên­cias de dis­cri­mi­na­ção ocor­ram: e elas podem ser sutis ou gri­tan­tes, indo desde um nariz tor­cido de uma vovo­zi­nha na fila de uma loja de con­ve­ni­ên­cia quando um casal gay se apro­xima até espan­ca­mento, assas­si­nato e estu­pro cor­re­tivo.

A dis­cri­mi­na­ção tem mui­tas faces e nuan­ces e todas elas podem fazer indi­ví­duos LGB se sen­ti­rem acu­a­dos e teme­ro­sos ao sair de casa e tam­bém – pas­mem ou não – a ficar den­tro dela.

Ao con­trá­rio de outras mino­rias soci­ais, como mino­rias étni­cas, as pes­soas LGB mui­tas vezes não encon­tram em casa refú­gio para um mundo opres­sor.

É comum ouvir rela­tos de agres­são e dis­cur­sos opres­si­vos sob o pró­prio teto des­sas pes­soas. Mui­tos des­ses indi­ví­duos são expul­sos de casa, têm pro­ble­mas fami­li­a­res e/ou são expul­sos da escola. A dis­cri­mi­na­ção pode vir dos pais, dos irmãos, dos tios e avós. Pode vir dos ami­gos. Pode vir de qual­quer um.

Por isso, sen­ti­men­tos de soli­dão são muito comuns em pes­soas que estão des­co­brindo e reve­lando suas ori­en­ta­ções sexu­ais LGB. Parece mais claro o alto índice de depres­são e sui­cí­dio dessa galera, não?

A estig­ma­ti­za­ção e a dis­cri­mi­na­ção pro­du­zem mais um estres­sor: a homo­fo­bia (ou homo­ne­ga­ti­vi­dade) inter­na­li­zada.

Além de viver com medo da rejei­ção externa, pes­soas LGB tam­bém podem desen­vol­ver uma rejei­ção interna pela pró­pria sexu­a­li­dade: ao ouvir, desde cedo, que pes­soas que sen­tem atra­ção por outras do mesmo gênero são aber­ra­ções e defei­tu­o­sas, é bas­tante lógico que algu­mas pes­soas inter­na­li­zem esse dis­curso e tenham difi­cul­da­des de se acei­tar como são, o que pode gerar um sofri­mento enorme.

Na ótica da Tera­pia Cog­ni­tivo-Com­por­ta­men­tal, que é a linha da Psi­co­lo­gia com a qual eu tra­ba­lho, a homo­fo­bia inter­na­li­zada pode estar asso­ci­ada a cren­ças dis­fun­ci­o­nais de um indi­ví­duo a res­peito de si e gerar padrões com­por­ta­men­tais tam­bém dis­fun­ci­o­nais, pro­vo­cando sofri­mento e levando a pos­sí­veis qua­dros pato­ló­gi­cos, como depres­são e ansi­e­dade.

Porém, os estres­so­res pro­pos­tos pela teo­ria não são o sufi­ci­ente para expli­car por que algu­mas pes­soas desen­vol­vem trans­tor­nos psi­quiá­tri­cos ou tem seu bem-estar aba­lado e outras não.

Claro – é pos­sí­vel argu­men­tar que algu­mas tem de se pre­o­cu­par menos com acei­ta­ção fami­liar ou tem menor homo­fo­bia inter­na­li­zada do que outras, mas será que ape­nas isso é o bas­tante?

No modelo do Estresse de Mino­rias, exis­tem fato­res que fun­ci­o­nam como mode­ra­do­res, isto é, regu­lam a inte­ra­ção dos estres­so­res com a saúde men­tal de pes­soas LGB. Estes fato­res podem ser de diver­sas ordens.

Podem ser carac­te­rís­ti­cas indi­vi­du­ais, como per­so­na­li­dade, grau e tipo de reli­gi­o­si­dade, conec­ti­vi­dade à comu­ni­dade LGB, impor­tân­cia da iden­ti­dade sexual etc. Tam­bém podem ser pro­ve­ni­en­tes do meio, como apoio fami­liar e dos ami­gos, carac­te­rís­ti­cas da soci­e­dade ou cul­tura em que vivem, grau e tipo de reli­gi­o­si­dade dos pais, entre outros.

Carac­te­rís­ti­cas mis­tas como resi­li­ên­cia, que pode ser enten­dida como a capa­ci­dade do indi­ví­duo de pas­sar por situ­a­ções difí­ceis e apren­der com elas, e nível de esco­la­ri­dade da pes­soa LGB e de seus pares tam­bém podem influ­en­ciar essa rela­ção.

Mas como isso pode ser obser­vado na prá­tica clí­nica?

É comum que, no pro­cesso de assi­mi­la­ção da pró­pria sexu­a­li­dade, pes­soas LGB se sin­tam sozi­nhas, iso­la­das e que tenham medo do afas­ta­mento da famí­lia e dos ami­gos a par­tir do momento que sua ori­en­ta­ção sexual for reve­lada.

Certa vez, atendi uma paci­ente lés­bica (caso fic­tí­cio e híbrido de diver­sas his­tó­rias que já ouvi no con­sul­tó­rio) que, ainda jovem, tinha extrema difi­cul­dade de reve­lar sua ori­en­ta­ção sexual aos ami­gos hete­ros­se­xu­ais e, em decor­rên­cia de um qua­dro de ansi­e­dade social agra­vado por homo­fo­bia inter­na­li­zada, não cogi­tava a hipó­tese de conhe­cer outras pes­soas LGB.

Ela apre­sen­tava sin­to­mas depres­si­vos em decor­rên­cia do iso­la­mento e da difi­cul­dade de acei­tar o fato de ser lés­bica, jus­ta­mente como a teo­ria do Estresse de Mino­rias pro­põe. O tra­ba­lho de mudança com­por­ta­men­tal, gra­dual e con­sen­tido por ela, de se entro­sar mais na comu­ni­dade LGBT fez a dife­rença em sua com­pre­en­são sobre a pró­pria ori­en­ta­ção sexual e per­mi­tiu que ela for­masse uma nova rede de apoio social, aumen­tando sua qua­li­dade de vida.

Por outro lado, tam­bém já tra­ba­lhei com alguns paci­en­tes na dire­ção de uma maior expres­são da sexu­a­li­dade e pos­tu­ras mais autên­ti­cas, por­que era disso que eles sen­tiam mais falta em suas vidas.

Um paci­ente bis­se­xual (tam­bém fic­tí­cio) mon­tou uma lista de pes­soas para quem gos­ta­ria de sair do armá­rio pes­so­al­mente, indo da pes­soa que ele acre­di­tava que teria a melhor rea­ção até a que pro­va­vel­mente teria a pior. Ava­li­a­mos a lista com base no risco que sair do armá­rio para cada uma des­sas pes­soas apre­sen­tava para ele, medi­mos prós e con­tras e ela­bo­ra­mos uma nova lista, mais ade­quada à rea­li­dade dele naquele momento.

Na Tera­pia Cog­ni­tivo-Com­por­ta­men­tal, tra­ba­lha­mos com a rees­tru­tu­ra­ção de pen­sa­men­tos dis­fun­ci­o­nais. Um bom exem­plo disso são as cren­ças que algu­mas pes­soas LGB desen­vol­vem em decor­rên­cia da homo­fo­bia inter­na­li­zada.

A homo­fo­bia inter­na­li­zada é um pro­ble­mão. Pode impac­tar dire­ta­mente a auto­es­tima e a auto­e­fi­cá­cia des­sas pes­soas, assim como o modo como elas veem a si mes­mas. Além disso, tam­bém pode afe­tar a qua­li­dade dos rela­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos, pois é pos­sí­vel que lés­bi­cas, gays e bis­se­xu­ais desen­vol­vam ideias a res­peito de rela­ci­o­na­men­tos com pes­soas do mesmo gênero a par­tir de estig­mas arrai­ga­dos na cul­tura.

Um paci­ente gay (sim, tam­bém fic­tí­cio) que atendi certa vez tinha cer­teza de que ter­mi­na­ria seus dias sozi­nho, pois, segundo ele, “nenhum rela­ci­o­na­mento gay dura, já que todo gay é pro­mís­cuo”. Foi feito um tra­ba­lho de iden­ti­fi­ca­ção de padrões dis­fun­ci­o­nais de pen­sa­mento e rees­tru­tu­ra­ção des­ses pen­sa­men­tos, subs­ti­tuindo-os por outros, mais raci­o­nais e menos taxa­ti­vos.

Claro que nem todas as pes­soas têm as mes­mas carac­te­rís­ti­cas de per­so­na­li­dade nem as mes­mas cren­ças a res­peito de si e dos outros, nem foram cri­a­das no mesmo meio – cada um vai lidar de uma maneira. Assim, na clí­nica cog­ni­tivo-com­por­ta­men­tal, se preza por um aten­di­mento idi­os­sin­crá­tico atra­vés de uma for­mu­la­ção de caso indi­vi­du­a­li­zada e espe­cí­fica.

Nem todas as pes­soas LGB vão apre­sen­tar alguma queixa rela­ci­o­nada à sua ori­en­ta­ção sexual.

Já atendi alguns paci­en­tes LGB cujas quei­xas prin­ci­pais não esta­vam rela­ci­o­na­das ao fato de serem LGB (embora eles apre­sen­tas­sem algum grau de estresse em decor­rên­cia do pre­con­ceito que sofriam, e fosse útil ter ouvi­dos aten­tos e sen­sí­veis a essas expe­ri­ên­cias, tam­bém).

No Bra­sil, ainda há muito o que se estu­dar no campo do Estresse de Mino­rias. Mas as pes­qui­sas na área come­çam a apa­re­cer.

No Rio de Janeiro, gru­pos como o Labo­ra­tó­rio de Psi­co­me­tria e Psi­co­lo­gia Posi­tiva (LP3), na UFRJ, e o APLab – Pes­soas e Con­tex­tos, da PUC-Rio estão envol­vi­dos em estu­dos sobre o tema.

Tam­bém se des­ta­cam o Núcleo de Pes­quisa em Sexu­a­li­dade e Rela­ções de Gênero (NUPSEX) e o Cen­tro de Refe­rên­cia em Direi­tos Huma­nos: Rela­ções de Gênero, Diver­si­dade Sexual e Raça (CRDH), do Ins­ti­tuto de Psi­co­lo­gia da UFRGS, e o Pre­con­ceito, vul­ne­ra­bi­li­dade e pro­ces­sos psi­cos­so­ci­ais (PVPP, PUC-RS), no Rio Grande do Sul.

E quanto mais for feito, melhor – o conhe­ci­mento cien­tí­fico soci­al­mente res­pon­sá­vel é fun­da­men­tal na imple­men­ta­ção de inter­ven­ções apro­pri­a­das para mudar­mos os qua­dros alar­man­tes na saúde men­tal de pes­soas não-hete­ros­se­xu­ais.

Que a gente não tenha mais que viver numa soci­e­dade como a de A Revo­lu­ção dos Bichos, de George Orwell, onde “todos os ani­mais são iguais, mas alguns ani­mais são mais iguais do que outros”.

O cami­nho para uma soci­e­dade mais igua­li­tá­ria e pro­mo­tora de direi­tos – pelo menos no fazer da Psi­co­lo­gia – é cons­truído tam­bém por pes­qui­sas sérias e prá­ti­cas base­a­das em evi­dên­cias cien­tí­fi­cas, que apon­tem para onde seguir e levem em conta as pecu­li­a­ri­da­des cul­tu­rais de cada indi­ví­duo e grupo mino­ri­tá­rio.

Sem mais cas­tra­ções quí­mi­cas, sem mais defesa da não-hete­ros­se­xu­a­li­dade como per­ver­são (no pior sen­tido da pala­vra), sem mais cura gay. Pre­con­ceito e sofri­mento matam e ado­e­cem suas víti­mas todos os dias.

Pes­soas LGB sofrem pre­con­ceito. Pes­soas LGB sofrem. É nosso tra­ba­lho – seja­mos psi­có­lo­gos ou não – fazer com que pes­soas LGB não ado­e­çam nem mor­ram. Não mais. Já chega. Que as pes­soas pos­sam viver não só as dores mas tam­bém as delí­cias de pode­rem ser quem são.

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Coisa de Mulher­zi­nha”

Fernanda Paveltchuk
Por anos dividida entre Psicologia Social, Terapia Cognitivo-Comportamental e atividades de pesquisa e Psicometria, encontrou um jeito - e um propósito - ao juntar todas essas áreas da Psicologia no estudo do Estresse de Minorias e da saúde mental de pessoas LGB. É psicoterapeuta e pesquisadora, militante das causas feminista e LGBT e chateia os amigos tocando sempre as mesmas músicas no ukulele.

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