Pensar a sociedade requer que pensemos também os indivíduos que a integram, a fim de buscar entender o que a personalidade de cada um representa para o todo. Como é evidente em todo canto, há sempre mentes geniais inovando e mentes sádicas causando algum dano em benefício próprio. Também podemos notar a ingenuidade de muitas pessoas que pensam estar fazendo o correto – mas, de longe, o tipo mais curioso de pessoa é o tipo estúpido.

O economista e historiador italiano Carlo Cipolla tentou responder, de forma abrangente, a questão sobre a natureza da estupidez. Anos de pesquisa o levaram a elaborar leis fundamentais da estupidez humana, que são válidas em qualquer sociedade. A conclusão de seu trabalho é que a estupidez em si mesma é muito mais perigosa do que geralmente pensamos.

Essas são as leis encontradas por Cipolla:

 

Primeira lei da estupidez:

Sempre e inevitavelmente qualquer um subestimará o número de idiotas ao seu redor.

Isso soa como o status no Facebook de uma garotinha mimada, mas a vida se encarregou de mostrar que é verdade. Independentemente da opinião que tenhamos sobre as pessoas, todos nós sempre nos depararemos com essas duas situações:

a) pessoas que julgamos em algum momento serem racionais e inteligentes na verdade são vergonhosamente idiotas.

b) dia após dia, com constante monotonia, somos incomodados em nossas atividades por indivíduos que aparecem repentinamente e inesperadamente nos lugares mais inconvenientes e momentos mais improváveis.

 

Segunda lei da estupidez:

A probabilidade de uma pessoa ser estúpida não depende de qualquer outro atributo dessa pessoa.

Anos de observação confirmaram que as pessoas não são iguais: algumas são estúpidas, outras não. Essa é uma característica imposta pela natureza e não por fatores culturais. A estupidez é algo que você tem ou não, tal como o tipo sanguíneo, a cor da pele ou do cabelo.

Ocorre que o nível de escolaridade nada tem a ver com a probabilidade de se encontrar mais ou menos estúpidos em um círculo social em particular. Disso decorre que descobriremos o mesmo percentual de idiotas estejamos considerando um grande número de pessoas ou um pequeno grupo. Isso foi confirmado por experimentos realizados por Cipolla e sua equipe em algumas universidades, abordando cinco grupos de pessoas: estudantes, trabalhadores de escritório, equipes de serviços gerais, executivos e professores.

Depois de analisar o grupo de trabalhadores com baixo nível de escolaridade, o número de estúpidos acabou por ser maior do que se pensava (primeira lei). A seguir os pesquisadores passaram a classificá-los de acordo com as condições sociais: a pobreza, a segregação e a educação insuficiente. Porém, independentemente de escala social, constataram poteriormente a mesma proporção de pessoas inteligentes e estúpidas entre auxiliares de serviços ou estudantes.

dumas-estupidez

O mais impressionante é que, no caso dos professores, a mesma proporção de educadores demonstrou ser estúpida. Cipolla ficou tão surpreso com essas pesquisas que decidiu realizar o experimento com uma elite de intelectuais: os ganhadores do Prêmio Nobel: o resultado foi que a mesma proporção de vencedores acabou por ser estúpido.

Para muitos, a premissa da segunda lei é difícil de aceitar, mas numerosos experimentos confirmam que é uma verdade inabalável. As feministas irão concordar com isso pois a quantidade de mulheres estúpidas não é maior que a de homens estúpidos, assim como os habitantes de um país de terceiro mundo se confortam ao dizer que os países desenvolvidos não são tão desenvolvidos assim. As conclusões da Segunda Lei assustam: esteja você com a nata da sociedade britânica, no meio de uma tribo de caçadores da Polinésia, num monastério cheio de monges estudiosos ou num casino cercado de mulheres, você terá sempre que suportar a mesma quantidade de idiotas – e a quantidade desses imbecis, como demonstra a Primeira Lei, sempre excederá as suas expectativas.

 

Terceira lei da estupidez:

Um estúpido é uma pessoa cujas ações têm conseqüências negativas sobre a vida de outros, sem que disso decorra qualquer benefício para si mesma, podendo inclusive se prejudicar.

A terceira lei propõe que todas as pessoas do mundo inevitavelmente se dividem em quatro grupos: os ingênuos (IG), os inteligentes (IN), os canalhas (C) e os estúpidos (E). Se Pedro executa uma ação que o prejudica mas que beneficia a João, então Pedro fará parte do primeiro grupo de pessoas, os ingênuos (IG). Se Pedro faz algo que beneficia a ele e também a João, então podemos considerá-lo inteligente (IN). Se Pedro faz algo que traz benefícios para si mesmo mas que prejudica a João, podemos dizer que Pedro é um canalha (M). Finalmente, Pedro seria um estúpido (E) se fizesse algo que prejudica a si mesmo, ou que não lhe traz qualquer benefício, mas que também prejudica a João.

Não é difícil imaginar a dimensão do dano que os estúpidos podem causar se, por algum motivo, vierem a ter acesso ao poder político ou à liderança social. Mas vale a pena analisar com mais atenção o que os torna tão perigosos:

As pessoas estúpidas são perigosas porque, para as pessoas racionais, é muito difícil entender a lógica do comportamento irracional.

Uma pessoa inteligente é capaz de entender a lógica de um canalha pois o mal é racional: a única intenção do canalha é conseguir mais riqueza, mas ele não é inteligente o suficiente para se beneficiar ao mesmo tempo em que beneficia outras pessoas. O malvado é previsível e, portanto, é possível defender-se dele se estivermos atentos. Prever ações estúpidas, porém, não é possível, pois um idiota ataca sem motivo, sem objetivo e sem plano, no momento menos esperado e no local menos adequado. Não podemos prever quando o estúpido dará o seu próximo golpe. Quando confrontado com uma pessoa assim, o inteligente fica quase à mercê da estupidez de seu adversário, agindo de forma errática e temerária.

Era sobre isso que o poeta alemão Schiller aludia quando disse que contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão. O ataque de um estúpido quase sempre acontece quando baixamos nossa guarda. Mas mesmo quando o ataque se torna evidente, é muito difícil defender-se devido à falta de estrutura racional nas ações de um idiota.

Quarta lei da estupidez:

Aqueles que não são estúpidos sempre subestimam o potencial destrutivo daqueles que são.

O “não-estúpido” sempre se esquece que se relacionar com um estúpido a qualquer momento, lugar e circunstância é um erro que sairá caro no futuro.

Os ingênuos (IG), por exemplo, geralmente não são capazes de reconhecer o perigo que representa o estúpido (E), o que não é surpreendente. O que acontece é que os inteligentes (IN) e os canalhas (C) também subestimam o poder de estrago da estupidez humana.  Na presença de um estúpido eles (IN e C) relaxam e se gabam de sua superioridade intelectual, ao invés de reagir imediatamente para reduzir ao mínimo o dano que, sem dúvida, causará o estúpido com algum de seus atos.

O pressuposto comum é o de que o estúpido só traz dano a si mesmo. Não, nós não devemos confundir os estúpidos com os ingênuos. Você nunca deve se envolver em qualquer tipo de aliança com um estúpido, pensando ser possível usá-lo para conseguir algum benefício. Fazer isso é tornar evidente que, para você, não está claro o funcionamento da natureza do estúpido. Como Carlos Cipolla diz: ao longo de séculos e milênios, tanto na vida privada como na pública, incontáveis indivíduos falharam ao ignorar a Quarta Lei, e algumas dessas falhas causaram à humanidade perdas incalculáveis.

Quinta lei da estupidez:

O idiota é o tipo de ser humano mais perigoso que existe.

Para Cipolla, essa quinta lei tem um corolário importante:

Um estúpido é mais perigoso do que um canalha.

O resultado das ações de um canalha típico é uma simples transição da riqueza ou posição de vantagem de uma pessoa para outra – a sociedade como um todo não se beneficia e não se prejudica. Se todos os membros de uma comunidade fossem canalhas típicos, essa comunidade tenderia a deteriorar-se lentamente, mas não haveria uma catástrofe. Todo o sistema seria baseado na transição de riquezas a favor daqueles que tomam a iniciativa e, já que todo mundo seria um canalha perfeito, em breve a situação atingiria um ponto de estabilidade. É fácil ver um exemplo disso em qualquer país cujos líderes são corruptos e cujos cidadãos constantemente ignoram as regras de convivência e as leis (já imaginou que loucura seria viver num país assim, leitor?).

Quando os estúpidos entram em cena, o cenário muda completamente. Eles causam danos sem obter qualquer lucro. A riqueza é destruída e a sociedade empobrece.

A história confirma que, independentemente do período, um país progride sempre que há pessoas suficientemente inteligentes no poder, que podem manter os estúpidos à margem, sem permitir que eles destruam o que os inteligentes alcançaram. Em um país com uma economia em declínio, há a mesma quantidade de estúpidos, mas as lideranças contam com mais estúpidos e canalhas, enquanto o resto da sociedade é composta por ingênuos. Tal configuração reforça as conseqüências destrutivas do estúpido e todo o país vai para o inferno.


Você pode querer ler também:

O ser humano é mau?
O Coringa estava certo: não somos mesmo como Spock

escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.