leis da estupidez humana

As 5 leis da estupidez humana

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ por Alysson AugustoComentários

Pen­sar a soci­e­dade requer que pen­se­mos tam­bém os indi­ví­duos que a inte­gram, a fim de bus­car enten­der o que a per­so­na­li­dade de cada um repre­senta para o todo. Como é evi­dente em todo canto, há sem­pre men­tes geni­ais ino­vando e men­tes sádi­cas cau­sando algum dano em bene­fí­cio pró­prio. Tam­bém pode­mos notar a inge­nui­dade de mui­tas pes­soas que pen­sam estar fazendo o cor­reto — mas, de longe, o tipo mais curi­oso de pes­soa é o tipo estú­pido.

O eco­no­mista e his­to­ri­a­dor ita­li­ano Carlo Cipolla ten­tou res­pon­der, de forma abran­gente, a ques­tão sobre a natu­reza da estu­pi­dez. Anos de pes­quisa o leva­ram a ela­bo­rar leis fun­da­men­tais da estu­pi­dez humana, que são váli­das em qual­quer soci­e­dade. A con­clu­são de seu tra­ba­lho é que a estu­pi­dez em si mesma é muito mais peri­gosa do que geral­mente pen­sa­mos.

Essas são as leis encon­tra­das por Cipolla:

 

Primeira lei da estupidez:

Sempre e inevitavelmente qualquer um subestimará o número de idiotas ao seu redor.

Isso soa como o sta­tus no Face­book de uma garo­ti­nha mimada, mas a vida se encar­re­gou de mos­trar que é ver­dade. Inde­pen­den­te­mente da opi­nião que tenha­mos sobre as pes­soas, todos nós sem­pre nos depa­ra­re­mos com essas duas situ­a­ções:

a) pes­soas que jul­ga­mos em algum momento serem raci­o­nais e inte­li­gen­tes na ver­dade são ver­go­nho­sa­mente idi­o­tas.

b) dia após dia, com cons­tante mono­to­nia, somos inco­mo­da­dos em nos­sas ati­vi­da­des por indi­ví­duos que apa­re­cem repen­ti­na­mente e ines­pe­ra­da­mente nos luga­res mais incon­ve­ni­en­tes e momen­tos mais impro­vá­veis.

 

Segunda lei da estupidez:

A probabilidade de uma pessoa ser estúpida não depende de qualquer outro atributo dessa pessoa.

Anos de obser­va­ção con­fir­ma­ram que as pes­soas não são iguais: algu­mas são estú­pi­das, outras não. Essa é uma carac­te­rís­tica imposta pela natu­reza e não por fato­res cul­tu­rais. A estu­pi­dez é algo que você tem ou não, tal como o tipo san­guí­neo, a cor da pele ou do cabelo.

Ocorre que o nível de esco­la­ri­dade nada tem a ver com a pro­ba­bi­li­dade de se encon­trar mais ou menos estú­pi­dos em um cír­culo social em par­ti­cu­lar. Disso decorre que des­co­bri­re­mos o mesmo per­cen­tual de idi­o­tas este­ja­mos con­si­de­rando um grande número de pes­soas ou um pequeno grupo. Isso foi con­fir­mado por expe­ri­men­tos rea­li­za­dos por Cipolla e sua equipe em algu­mas uni­ver­si­da­des, abor­dando cinco gru­pos de pes­soas: estu­dan­tes, tra­ba­lha­do­res de escri­tó­rio, equi­pes de ser­vi­ços gerais, exe­cu­ti­vos e pro­fes­so­res.

Depois de ana­li­sar o grupo de tra­ba­lha­do­res com baixo nível de esco­la­ri­dade, o número de estú­pi­dos aca­bou por ser maior do que se pen­sava (pri­meira lei). A seguir os pes­qui­sa­do­res pas­sa­ram a clas­si­ficá-los de acordo com as con­di­ções soci­ais: a pobreza, a segre­ga­ção e a edu­ca­ção insu­fi­ci­ente. Porém, inde­pen­den­te­mente de escala social, cons­ta­ta­ram pote­ri­or­mente a mesma pro­por­ção de pes­soas inte­li­gen­tes e estú­pi­das entre auxi­li­a­res de ser­vi­ços ou estu­dan­tes.

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O mais impres­si­o­nante é que, no caso dos pro­fes­so­res, a mesma pro­por­ção de edu­ca­do­res demons­trou ser estú­pida. Cipolla ficou tão sur­preso com essas pes­qui­sas que deci­diu rea­li­zar o expe­ri­mento com uma elite de inte­lec­tu­ais: os ganha­do­res do Prê­mio Nobel: o resul­tado foi que a mesma pro­por­ção de ven­ce­do­res aca­bou por ser estú­pido.

Para mui­tos, a pre­missa da segunda lei é difí­cil de acei­tar, mas nume­ro­sos expe­ri­men­tos con­fir­mam que é uma ver­dade ina­ba­lá­vel. As femi­nis­tas irão con­cor­dar com isso pois a quan­ti­dade de mulhe­res estú­pi­das não é maior que a de homens estú­pi­dos, assim como os habi­tan­tes de um país de ter­ceiro mundo se con­for­tam ao dizer que os paí­ses desen­vol­vi­dos não são tão desen­vol­vi­dos assim. As con­clu­sões da Segunda Lei assus­tam: esteja você com a nata da soci­e­dade bri­tâ­nica, no meio de uma tribo de caça­do­res da Poli­né­sia, num monas­té­rio cheio de mon­ges estu­di­o­sos ou num casino cer­cado de mulhe­res, você terá sem­pre que supor­tar a mesma quan­ti­dade de idi­o­tas — e a quan­ti­dade des­ses imbe­cis, como demons­tra a Pri­meira Lei, sem­pre exce­derá as suas expec­ta­ti­vas.

 

Terceira lei da estupidez:

Um estúpido é uma pessoa cujas ações têm conseqüências negativas sobre a vida de outros, sem que disso decorra qualquer benefício para si mesma, podendo inclusive se prejudicar.

A ter­ceira lei pro­põe que todas as pes­soas do mundo ine­vi­ta­vel­mente se divi­dem em qua­tro gru­pos: os ingê­nuos (IG), os inte­li­gen­tes (IN), os cana­lhas © e os estú­pi­dos (E). Se Pedro exe­cuta uma ação que o pre­ju­dica mas que bene­fi­cia a João, então Pedro fará parte do pri­meiro grupo de pes­soas, os ingê­nuos (IG). Se Pedro faz algo que bene­fi­cia a ele e tam­bém a João, então pode­mos con­si­derá-lo inte­li­gente (IN). Se Pedro faz algo que traz bene­fí­cios para si mesmo mas que pre­ju­dica a João, pode­mos dizer que Pedro é um cana­lha (M). Final­mente, Pedro seria um estú­pido (E) se fizesse algo que pre­ju­dica a si mesmo, ou que não lhe traz qual­quer bene­fí­cio, mas que tam­bém pre­ju­dica a João.

Não é difí­cil ima­gi­nar a dimen­são do dano que os estú­pi­dos podem cau­sar se, por algum motivo, vie­rem a ter acesso ao poder polí­tico ou à lide­rança social. Mas vale a pena ana­li­sar com mais aten­ção o que os torna tão peri­go­sos:

As pes­soas estú­pi­das são peri­go­sas por­que, para as pes­soas raci­o­nais, é muito difí­cil enten­der a lógica do com­por­ta­mento irra­ci­o­nal.

Uma pes­soa inte­li­gente é capaz de enten­der a lógica de um cana­lha pois o mal é raci­o­nal: a única inten­ção do cana­lha é con­se­guir mais riqueza, mas ele não é inte­li­gente o sufi­ci­ente para se bene­fi­ciar ao mesmo tempo em que bene­fi­cia outras pes­soas. O mal­vado é pre­vi­sí­vel e, por­tanto, é pos­sí­vel defen­der-se dele se esti­ver­mos aten­tos. Pre­ver ações estú­pi­das, porém, não é pos­sí­vel, pois um idi­ota ataca sem motivo, sem obje­tivo e sem plano, no momento menos espe­rado e no local menos ade­quado. Não pode­mos pre­ver quando o estú­pido dará o seu pró­ximo golpe. Quando con­fron­tado com uma pes­soa assim, o inte­li­gente fica quase à mercê da estu­pi­dez de seu adver­sá­rio, agindo de forma errá­tica e teme­rá­ria.

Era sobre isso que o poeta ale­mão Schil­ler alu­dia quando disse que con­tra a estu­pi­dez, os pró­prios deu­ses lutam em vão. O ata­que de um estú­pido quase sem­pre acon­tece quando bai­xa­mos nossa guarda. Mas mesmo quando o ata­que se torna evi­dente, é muito difí­cil defen­der-se devido à falta de estru­tura raci­o­nal nas ações de um idi­ota.

Quarta lei da estupidez:

Aqueles que não são estúpidos sempre subestimam o potencial destrutivo daqueles que são.

O “não-estú­pido” sem­pre se esquece que se rela­ci­o­nar com um estú­pido a qual­quer momento, lugar e cir­cuns­tân­cia é um erro que sairá caro no futuro.

Os ingê­nuos (IG), por exem­plo, geral­mente não são capa­zes de reco­nhe­cer o perigo que repre­senta o estú­pido (E), o que não é sur­pre­en­dente. O que acon­tece é que os inte­li­gen­tes (IN) e os cana­lhas © tam­bém subes­ti­mam o poder de estrago da estu­pi­dez humana.  Na pre­sença de um estú­pido eles (IN e C) rela­xam e se gabam de sua supe­ri­o­ri­dade inte­lec­tual, ao invés de rea­gir ime­di­a­ta­mente para redu­zir ao mínimo o dano que, sem dúvida, cau­sará o estú­pido com algum de seus atos.

O pres­su­posto comum é o de que o estú­pido só traz dano a si mesmo. Não, nós não deve­mos con­fun­dir os estú­pi­dos com os ingê­nuos. Você nunca deve se envol­ver em qual­quer tipo de ali­ança com um estú­pido, pen­sando ser pos­sí­vel usá-lo para con­se­guir algum bene­fí­cio. Fazer isso é tor­nar evi­dente que, para você, não está claro o fun­ci­o­na­mento da natu­reza do estú­pido. Como Car­los Cipolla diz: ao longo de sécu­los e milê­nios, tanto na vida pri­vada como na pública, incon­tá­veis indi­ví­duos falha­ram ao igno­rar a Quarta Lei, e algu­mas des­sas falhas cau­sa­ram à huma­ni­dade per­das incal­cu­lá­veis.

Quinta lei da estupidez:

O idiota é o tipo de ser humano mais perigoso que existe.

Para Cipolla, essa quinta lei tem um coro­lá­rio impor­tante:

Um estúpido é mais perigoso do que um canalha.

O resul­tado das ações de um cana­lha típico é uma sim­ples tran­si­ção da riqueza ou posi­ção de van­ta­gem de uma pes­soa para outra — a soci­e­dade como um todo não se bene­fi­cia e não se pre­ju­dica. Se todos os mem­bros de uma comu­ni­dade fos­sem cana­lhas típi­cos, essa comu­ni­dade ten­de­ria a dete­ri­o­rar-se len­ta­mente, mas não have­ria uma catás­trofe. Todo o sis­tema seria base­ado na tran­si­ção de rique­zas a favor daque­les que tomam a ini­ci­a­tiva e, já que todo mundo seria um cana­lha per­feito, em breve a situ­a­ção atin­gi­ria um ponto de esta­bi­li­dade. É fácil ver um exem­plo disso em qual­quer país cujos líde­res são cor­rup­tos e cujos cida­dãos cons­tan­te­mente igno­ram as regras de con­vi­vên­cia e as leis (já ima­gi­nou que lou­cura seria viver num país assim, lei­tor?).

Quando os estú­pi­dos entram em cena, o cená­rio muda com­ple­ta­mente. Eles cau­sam danos sem obter qual­quer lucro. A riqueza é des­truída e a soci­e­dade empo­brece.

A his­tó­ria con­firma que, inde­pen­den­te­mente do período, um país pro­gride sem­pre que há pes­soas sufi­ci­en­te­mente inte­li­gen­tes no poder, que podem man­ter os estú­pi­dos à mar­gem, sem per­mi­tir que eles des­truam o que os inte­li­gen­tes alcan­ça­ram. Em um país com uma eco­no­mia em declí­nio, há a mesma quan­ti­dade de estú­pi­dos, mas as lide­ran­ças con­tam com mais estú­pi­dos e cana­lhas, enquanto o resto da soci­e­dade é com­posta por ingê­nuos. Tal con­fi­gu­ra­ção reforça as con­seqüên­cias des­tru­ti­vas do estú­pido e todo o país vai para o inferno.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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