Outro dia eu lia o texto do Damasceno, amigo e Juiz de Direito no Rio de Janeiro, que tem uma coluna no Jornal o Dia. A coluna do dia 07 de setembro, muito oportuna, trouxe um texto intitulado “Nós cá e eles lá”.

Neste texto o Damasceno faz um paralelo entre advérbios e pronomes que colocam as pessoas próximas ou distantes de nós, seja por ignorância, preconceito ou mera conveniência. Falando sobre o decadente e inconstitucional programa da pacificação (não a classifico como política pública porque ela não tem as características básicas para tal), ele diz:

 Tal política somente se mantém porque acontece num lugar definido como ‘lá’, longe da vida da classe dominante, e subordina a vida de pessoas designadas pelo pronome ‘eles’, denotando que não fazem parte do universo de cartão-postal onde vivem aqueles que assim se expressam. Os advérbios ‘lá’ e ‘cá’ e os pronomes ‘nós’ e ‘eles’ designam a diferença entre os que elogiam a política de segurança militarizada e os que sofrem as suas consequências. A política de segurança militarizada tem garantido ganhos aos seus destinatários. A especulação imobiliária é a mais agradecida.

Estes mesmos advérbios e pronomes se aplicam não só a política de segurança (e não apenas do Rio), mas em qualquer esfera da vida em sociedade, pra manter o outro como outro. Lá e não cá.

E lá, neste lugar distante, numa realidade paralela que vivem as pessoas em situação de rua. Tais pessoas estão nesta situação por n motivos, que claro, não cabe a mim julgar, classificar ou sequer ponderar. Lá, “o filho chora e a mãe não vê”. E este chora, muitas e muitas vezes, é empírico. Lembram da Chacina da Candelária e do Índio Galdino, né?

Pois bem. O que pode nos aproximar do e traze-lo pra é a empatia. Empatia pela pessoa, por sua história, pela vida, pelo O outro. Eis que um amigo de São Paulo, Rubens Poças, me apresentou a Fan Page São Paulo Invisível. Dando uma zapeada, vi que existem outras cidades invisíveis, paralelas: Fortaleza, Curitiba, Campo Grande, por exemplo. Nestas páginas é possível conhecer historias de pessoas invisíveis para muita gente: pessoas em situação de rua e de outras quebradas.

Como o Facebook é tipo o uma porta giratória do inferno no quesito “eu cuido sim da sua vida e sei como você deve e pode viver”, infelizmente não são raros os questionamentos sobre porque decidiram levar essa vida/estão nesta situação.

Mas vamos ignorar estes demotrolls e ficar com o que realmente importa: as pessoas de cá.

Há histórias lindas, de gente como eu e você.

escrito por:

Cecília Olliveira

Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil.