Hoje o escritor argentino Julio Cortázar faria 100 anos, caso estivesse vivo, e Ano Zero não pode esquecer a data do nascimento, trazendo ao leitor duas citações daquele que foi um dos mais importantes autores latino americanos.

A primeira citação vem daquela que talvez seja sua obra mais célebre, o “romance” Rayuela, traduzido no Brasil por O Jogo da Amarelinha. Antecipando a não-linearidade da internet. A obra pode ser lida de duas formas: linearmente, começando no 1º capítulo, ou de forma não linear, seguindo a ordem indicada pelo próprio autor no final de cada tópico, de modo que nesse caso o leitor começa o livro no capítulo 73.

De O Jogo da Amarelinha, selecionamos esse belíssimo trecho:

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.”

juliocortazar

O segundo trecho vem a propósito desse seu centésimo aniversário, em tom mais confessional. Nas cartas que escreveu enquanto estava na Europa a seu amigo e pintor Eduardo Jonquières, publicadas no Brasil pela revista Piauí, há uma de 27/08/1955, na qual comenta seu aniversário no dia anterior, quando completou 41 anos:

Ontem fiz 41 anos. Je viens d’avoir trente ans, dizia Jean, o da estrela, num belo poema do qual deves se lembrar, e ele dizia isso com tanta tristeza quanto eu. Quarenta e um é um número horrível para quem acredita que o mundo é belo, mas alheio, alheio aos meus sentidos que só conhecem uma parte ínfima, à minha inteligência, incapaz de apreendê-lo em suas estruturas mais elementares. Agora começa verdadeiramente o declive, a década que nos leva aos 50. E eu, que me sinto sempre com 20 anos, tão bobo, tão crédulo, tão entusiasta, tão esperançoso como naqueles tempos! Mas os sinais físicos me trazem de volta à realidade. Fico doente mais seguidamente, me canso muito mais rápido. Até cinco anos atrás podia passar uma noite em branco e continuar perfeitamente no dia seguinte; agora, se vou me deitar depois da meia-noite, pago o preço no dia seguinte. Não posso beber tanto vinho, não posso comer tantas coisas, não posso ler tantas horas. Coisas profundamente materiais começam a minguar, a afinar sutilmente, como se o mundo iniciasse, sigiloso, sua retirada, deixando-me cada vez mais suas imagens em troca de suas matérias…”

É sempre um autor sensível, sempre um autor complexo, e se nesse ano perdemos tantos escritores, cada ano que passa sem a presença de Julio Cortázar também não deixou de ser um ano em que nós todos perdemos algo de importante.

escrito por:

Victor Lisboa

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