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Que futuro tem o jovem do ensino médio?

Em Consciência, Série Educação, Sociedade por Marco Aurélio NogueiraComentário

Quando ado­les­cente, tive de esco­lher entre Clás­sico e Cien­tí­fico, que era como se cha­mava a bifur­ca­ção que se ofe­re­cia aos estu­dan­tes que saíam do Giná­sio (5ª a 8ª séries). Os que se incli­na­vam pelas Huma­ni­da­des iam para o Clás­sico, os demais para o Cien­tí­fico.

Por cir­cuns­tân­cias que não inte­res­sam aqui, optei pelo Cien­tí­fico, com uma infle­xão radi­cal: fui fazer Escola Téc­nica no Senai. For­mei-me Téc­nico Têx­til, tra­ba­lhei 1 ano numa tece­la­gem no Alto da Lapa, em São Paulo, e aí, assim como de repente, des­co­bri que gos­tava mesmo era de ler e escre­ver.

Olhei para a uni­ver­si­dade e fiquei divi­dido entre Jor­na­lismo, His­tó­ria e Ciên­cias Soci­ais. Che­guei a ser apro­vado na ECA-USP, mas como “exce­dente” (não havia vagas sufi­ci­en­tes). Aca­bei indo para a Escola de Soci­o­lo­gia. Virei cien­tista social e nessa con­di­ção che­guei onde estou hoje.

Se você rece­ber no ensino médio um pacote bem amar­rado de dis­ci­pli­nas, que não te dê opções e te obri­gue a estu­dar coi­sas impor­tan­tes mas que não te inte­res­sam tanto, poderá dar tudo certo na tua vida.

Calma. Car­re­gará algu­mas pedras, mas não será pro­pri­a­mente mais infe­liz do que já é ou não é. O impor­tante é não desis­tir. Você será um adulto bem dife­rente do que ima­gi­nava quando come­çou o segundo ciclo, se é que ima­gi­nava alguma coisa.

Porém, se te derem a pos­si­bi­li­dade de fazer esco­lhas cur­ri­cu­la­res aos 17 anos, isso poderá te aju­dar a refle­tir sobre as coi­sas que te inte­res­sam de ver­dade e sobre tuas “voca­ções”. Poderá te aju­dar a ama­du­re­cer, mas tam­bém poderá te dei­xar mais angus­ti­ado e ansi­oso do que já esti­ver, nessa fase tão espe­cial da vida.

Ou seja, poderá dar tudo certo ou tudo errado, e você pas­sará um tem­pão se arras­tando por culpa de esco­lhas equi­vo­ca­das.

A ver­dade ver­da­deira é que tanto fará. “Tanto fez que agora tanto faz”, li outro dia numa picha­ção. É por aí. O que conta mesmo é se a tua escola te ofe­re­cerá um ensino de boa qua­li­dade, com ou sem grade opci­o­nal, com 10, 12 ou 15 dis­ci­pli­nas, com Artes ou sem, em meio período ou período inte­gral.

Se os pro­fes­so­res forem bons, meio cami­nho já estará andado. Eles te moti­va­rão, te aju­da­rão a esco­lher, te mos­tra­rão a impor­tân­cia de conhe­cer o mundo, as letras, as ciên­cias, as pro­fis­sões, o Estado e o mer­cado, de se inter­ro­gar sobre a soci­e­dade em que vive.

O arranjo sis­tê­mico (a orga­ni­za­ção esco­lar, o cur­rí­culo, as leis e bases da edu­ca­ção) é secun­dá­rio, como vem pro­vando a longa his­tó­ria da huma­ni­dade. Não é desim­por­tante, mas secun­dá­rio, veja bem.

Se você vive numa época que con­sa­gra a liber­dade de movi­mento e te dá mui­tas pos­si­bi­li­da­des de esco­lha em cada minuto do dia, tal­vez seja melhor você ter um ensino que leve isso em conta.

Mas você pode se atra­pa­lhar com essa “tira­nia das esco­lhas e pos­si­bi­li­da­des” e aí vai dar ruim. Nin­guém sabe o que poderá acon­te­cer, você terá de pagar para ver.

O risco de esco­lhas equi­vo­ca­das nos acom­pa­nha desde o momento em que nas­ce­mos. Não tem hora, classe ou idade para apa­re­cer.

Você pode fazer Escola Téc­nica e virar soció­logo, assim como pode seguir o cami­nho das Huma­ni­da­des e virar infor­mata ou tec­nó­logo.

Pode tra­ba­lhar com mar­ke­ting ou para a Uber depois de ter feito Rela­ções Inter­na­ci­o­nais, ser um barista depois de cur­sar Medi­cina e pas­sar a atuar como fisi­o­te­ra­peuta após o curso de Enge­nha­ria.

Pode ser um auto­di­data, não ter diploma uni­ver­si­tá­rio nenhum, e ser um cara muito bem resol­vido.

O que importa é você enten­der que a vida é dura e que boa parte do sucesso pes­soal depende de você, que é o único a poder deci­dir o que é “sucesso” e como con­se­gui-lo.

A vida é e sem­pre será mais forte do que você, do que nós, do que teus pais. Pre­pare-se para ela: leia e estude muito. Den­tro e fora da escola. Não dê mole, nem vacile.

A meri­to­cra­cia é um cri­té­rio dis­cu­tí­vel, você não deve se agar­rar a ela.

Mas lem­bre-se que o mundo aí fora é ter­ri­vel­mente com­pe­ti­tivo e a cada dia que passa os pode­res do Estado se reve­lam menos capa­zes de pro­mo­ver o cres­ci­mento das pes­soas ou maior igua­la­ção das opor­tu­ni­da­des.

E isso é pés­simo e soci­al­mente injusto. Lute con­tra isso, mas não deixe de focar em sua pró­pria for­ma­ção. O esforço valerá a pena.

E lem­bre-se que nem sem­pre é pre­ciso ter opi­nião for­mada sobre tudo. Uma boa dose de dúvida nos ajuda a viver melhor. Sobre­tudo nesse mundo louco que rola aí fora.

Você não pre­cisa ser uma meta­mor­fose ambu­lante, mas viverá melhor quanto mais enten­der que esco­lhas podem ser refei­tas e ideias podem ser alte­ra­das, aban­do­na­das, tro­ca­das.

Afi­nal, você sabe que cir­cuns­tân­cias, pes­soas, rela­ci­o­na­men­tos e expe­ri­ên­cias exis­ten­ci­ais – que mudam sem­pre – deter­mi­nam boa parte daquilo que acon­tece com a gente.


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Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

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