Quando adolescente, tive de escolher entre Clássico e Científico, que era como se chamava a bifurcação que se oferecia aos estudantes que saíam do Ginásio (5ª a 8ª séries). Os que se inclinavam pelas Humanidades iam para o Clássico, os demais para o Científico.

Por circunstâncias que não interessam aqui, optei pelo Científico, com uma inflexão radical: fui fazer Escola Técnica no Senai. Formei-me Técnico Têxtil, trabalhei 1 ano numa tecelagem no Alto da Lapa, em São Paulo, e aí, assim como de repente, descobri que gostava mesmo era de ler e escrever.

Olhei para a universidade e fiquei dividido entre Jornalismo, História e Ciências Sociais. Cheguei a ser aprovado na ECA-USP, mas como “excedente” (não havia vagas suficientes). Acabei indo para a Escola de Sociologia. Virei cientista social e nessa condição cheguei onde estou hoje.

Se você receber no ensino médio um pacote bem amarrado de disciplinas, que não te dê opções e te obrigue a estudar coisas importantes mas que não te interessam tanto, poderá dar tudo certo na tua vida.

Calma. Carregará algumas pedras, mas não será propriamente mais infeliz do que já é ou não é. O importante é não desistir. Você será um adulto bem diferente do que imaginava quando começou o segundo ciclo, se é que imaginava alguma coisa.

Porém, se te derem a possibilidade de fazer escolhas curriculares aos 17 anos, isso poderá te ajudar a refletir sobre as coisas que te interessam de verdade e sobre tuas “vocações”. Poderá te ajudar a amadurecer, mas também poderá te deixar mais angustiado e ansioso do que já estiver, nessa fase tão especial da vida.

Ou seja, poderá dar tudo certo ou tudo errado, e você passará um tempão se arrastando por culpa de escolhas equivocadas.

A verdade verdadeira é que tanto fará. “Tanto fez que agora tanto faz”, li outro dia numa pichação. É por aí. O que conta mesmo é se a tua escola te oferecerá um ensino de boa qualidade, com ou sem grade opcional, com 10, 12 ou 15 disciplinas, com Artes ou sem, em meio período ou período integral.

Se os professores forem bons, meio caminho já estará andado. Eles te motivarão, te ajudarão a escolher, te mostrarão a importância de conhecer o mundo, as letras, as ciências, as profissões, o Estado e o mercado, de se interrogar sobre a sociedade em que vive.

O arranjo sistêmico (a organização escolar, o currículo, as leis e bases da educação) é secundário, como vem provando a longa história da humanidade. Não é desimportante, mas secundário, veja bem.

Se você vive numa época que consagra a liberdade de movimento e te dá muitas possibilidades de escolha em cada minuto do dia, talvez seja melhor você ter um ensino que leve isso em conta.

Mas você pode se atrapalhar com essa “tirania das escolhas e possibilidades” e aí vai dar ruim. Ninguém sabe o que poderá acontecer, você terá de pagar para ver.

O risco de escolhas equivocadas nos acompanha desde o momento em que nascemos. Não tem hora, classe ou idade para aparecer.

Você pode fazer Escola Técnica e virar sociólogo, assim como pode seguir o caminho das Humanidades e virar informata ou tecnólogo.

Pode trabalhar com marketing ou para a Uber depois de ter feito Relações Internacionais, ser um barista depois de cursar Medicina e passar a atuar como fisioterapeuta após o curso de Engenharia.

Pode ser um autodidata, não ter diploma universitário nenhum, e ser um cara muito bem resolvido.

O que importa é você entender que a vida é dura e que boa parte do sucesso pessoal depende de você, que é o único a poder decidir o que é “sucesso” e como consegui-lo.

A vida é e sempre será mais forte do que você, do que nós, do que teus pais. Prepare-se para ela: leia e estude muito. Dentro e fora da escola. Não dê mole, nem vacile.

A meritocracia é um critério discutível, você não deve se agarrar a ela.

Mas lembre-se que o mundo aí fora é terrivelmente competitivo e a cada dia que passa os poderes do Estado se revelam menos capazes de promover o crescimento das pessoas ou maior igualação das oportunidades.

E isso é péssimo e socialmente injusto. Lute contra isso, mas não deixe de focar em sua própria formação. O esforço valerá a pena.

E lembre-se que nem sempre é preciso ter opinião formada sobre tudo. Uma boa dose de dúvida nos ajuda a viver melhor. Sobretudo nesse mundo louco que rola aí fora.

Você não precisa ser uma metamorfose ambulante, mas viverá melhor quanto mais entender que escolhas podem ser refeitas e ideias podem ser alteradas, abandonadas, trocadas.

Afinal, você sabe que circunstâncias, pessoas, relacionamentos e experiências existenciais – que mudam sempre – determinam boa parte daquilo que acontece com a gente.


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escrito por:

Marco Aurélio Nogueira

Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).