Vi que um bocado de gente ficou ofendida com a piada do Jorge Pontual ao comentar a morte de Carrie Fisher. Compreendo, mas não sinto o mesmo.

Não fico ofendido com essas coisas e não é apenas porque achei a piada boa (e achei), porque adoro atitudes anárquicas (e uma piada dessas naquele momento e na Globo News é anarquia para ninguém botar defeito) ou porque não sou parente da Carrie Fisher. Eu não fico ofendido porque acho que o humor é uma das melhores formas de lidar com a morte.

O animal humano é o único que tem consciência da própria finitude e, por consequência, somos os únicos que sofrem não apenas com a ausência dos que se foram, mas com o fardo de encarar nosso eventual e inevitável fim. Para alguns, as religiões surgiram justamente para apaziguar a angústia desta certeza.

Por aqui, em grande parte do Brasil e da cultura judaico-cristã, praticamos rituais sombrios e lamentosos para nossos mortos. O sofrimento, marca típica do cristianismo, é cultuado.

Assim, torturamo-nos olhando para o morto em seu caixão, velamos o seu corpo, assistimos ele ser enterrado ou levado para a cremação, nos reunimos para chorar, sofrer. E muitas vezes exacerbamos o luto, como se um lado nosso, quase inconsciente, acreditasse que temos de sofrer muito para mostrar, para nós mesmos e para o morto, o quanto ele foi importante. “Quanto mais sofro, mais mostro o quanto o amei”, parece pensar este lado masoquista.

Mas em outras culturas não é assim. Em alguns lugares, os ritos fúnebres envolvem animadas festas — uma celebração à VIDA que teve aquela pessoa especial. Isso não quer dizer que não haja um luto natural e um sofrimento pela ausência da pessoa querida, mas não são como os rituais um tanto masoquistas e tenebrosos da nossa cultura.

Espero, de coração, que quando eu morrer as pessoas não se sintam constrangidas de fazer piada a respeito, de rir e se divertir em meu funeral (se houver um). “O humor alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo”, escreveu Charles Chaplin em um de seus momentos mais inspirados.

A meu ver, não há momento melhor para usar nossa arma mais sofisticada, o humor, do que para lidar com a inevitável e persistente assombração da morte e do morrer.

PS: Usar o humor em momentos sombrios não é o mesmo que, por exemplo, o oportunismo da ATEA após o acidente com a Chapecoense. Neste caso, quando utiliza-se uma tragédia para promover suas convicções e faz pouco caso das estratégias que outras pessoas utilizam para lidar com a morte, considero sim falta de respeito.


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Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.
  • Edwin Gavilán

    Tanto a piada do jornalista quanto a postagem da atea foram infelizes…
    A piada foi totalmente sem graça. E o pessoal da atea se comportaram da mesma forma do pessoal que eles atacam… 😛

  • Cara, concordo totalmente com a parte mais generalista dá sua argumentação.

    Mas acho que discordo sobre se a piada foi apropriada ou não.

    Acho que considerando que temos uma cultura veladamente (em alguns aspectos inconscientes) cristã, seria de bom tom respeitar o sofrimento dá família.

    Achei a piada super engraçada, sério. Mas quando penso na família que pode ficar sabendo e interpretar isso como desrespeito com sua dor…

    Mas eu entendo onde esse argumento também pode parar. E se a gente simplesmente pudesse fazer o que, sob nenhuma possibilidade pudesse ofender seriamente alguém? O mundo seria, na melhor das hipóteses, mais chato.

    Mas ao mesmo tempo esse caso da morte me parece ter força suficiente pra merecer esse conservadorismo. Nesse caso, quase sem dúvida, estamos falando da dor genuína de algumas pessoas com relação a um ente querido. Pra mim essa situação possui prioridade.

  • Diego

    Os dois (jornalista e ATEA) foram infelizes. Nem sempre o “humor” é a melhor maneira de lidar com a morte. ESPECIALMENTE se estamos falando de uma pessoa em específico, e não do fenômeno da morte como um todo. Outra coisa: a liberdade dele fazer uma piada idiota deve ser defendida, mas o meu direito de criticá-lo também.