“Eu preciso dos meus bifocais”, anuncia o menino hipocondríaco. Ele está ajudando o amigo gordo que havia sido vítima de bullying. Ao redor deles, um menino judeu que usa kipá, outro com óculos enormes, uma menina abusada e, por fim, um garoto traumatizado com a morte do irmão.

A nova adaptação do romance de Stephen King fez sucesso enorme nas últimas semanas, arrecadando centenas de milhões em poucos dias. A imprensa americana atribuiu o êxito à “universalidade do medo dos palhaços”.

Esse medo pode ter atraído o público para o cinema. Porém, como a cena dos meninos ajudando o amigo agredido demonstra, o filme também é uma exortação à solidariedade entre os traumatizados diante do medo.

Um menino chamado Georgie segue seu barquinho de papel, conduzido pela água da chuva que corre no meio-fio da calçada próxima à sua casa. Quando o barco entra no esgoto, Georgie vai buscá-lo. Dois olhos resplandecem da escuridão, seguidos por um grande sorriso desagradável. Georgie não volta.

Na sequência do desaparecimento de Georgie, seu irmão triste, Bill, é assombrado por um palhaço assustador. O palhaço começa a aparecer para as outras crianças, e quando aparece é precedido por uma personificação dos maiores medos de cada personagem. Beverly, que vemos mais cedo comprando uma caixa de Tampax, vê sangue jorrar da pia do banheiro como um geyser de lixo médico. Mike viu seus pais morrerem em uma fogueira. Portanto ele vê dedos queimados agarrando sua porta.

Cada personagem é atacado e foge. Até decidirem, em grupo, que precisam unir-se para enfrentar o abominável palhaço, e que somente nessa união encontrarão o poder de fazê-lo.

Embora o palhaço Pennywise seja corpulento e bobo – ele faz uma dança estúpida com uma música infantil – a dor daquelas crianças é muito real. Adultos fizeram-lhes certas coisas, e a maioria delas guarda sua dor em segredo. Alguns membros do grupo são submetidos a abuso infantil, tanto sexual como violento, enquanto outros são estigmatizados por seus irrelevantes “desvios da norma” (gordo, judeu, preto). Personificado em Henry, o valentão local que se diverte com o bullying, esse estigma é convertido em dor física.

É o novo menino, Ben, que descobre que o palhaço é uma espécie de maldição hereditária na cidade. Infelizmente, parte do problema é o fato de que o palhaço vive no esgoto. Portanto, é onde eles têm que ir buscá-lo.

Em várias cenas, o grupo atravessa águas perigosas no esgoto local, cheias de objetos hostis e que o palhaço trata como seu ambiente natural. Simbolicamente, a água é um lugar onde o inconsciente, as memórias dos mortos e o medo de contaminação se misturam. Esse caminho da água é o ambiente que as crianças traumatizadas precisam enfrentar.

Esgotos e encanamento são um tema cinematográfico interessante. Slavoj Zizek, no documentário The Perverts’s Guide to Cinema (2006), chama a atenção ao fato de que o banheiro tem uma grande força simbólica na sociedade moderna. Quando lavamos as mãos ou, de outra maneira, enviamos pelos tubos a sujeira de nossos corpos, banimos esse material para longe, para um lugar inimaginável, que não queremos de modo algum visitar, sequer ver.

A invisibilidade desse mundo inimaginável é precisamente aquilo que define nosso conceito de higiene, de habitabilidade de nossas casas. Mas quando algo se esconde nesse mundo e ameaça voltar pelas tubulações – é um verdadeiro horror. As águas residuais, para Zizek, simbolizam a grande e aterradora escuridão: a dimensão em que as forças desconhecidas estão tramando contra nós, o lugar onde todas as coisas escuras e assustadoras que não entendemos estão vivas.

Então, um palhaço que vive nos esgotos de uma cidade alimenta-se do tamanho da escuridão real e suprimida de seus habitantes. As crianças são os receptores impotentes de gerações e gerações de trauma, violência e  perversão que assombram qualquer comunidade humana, mas que são negadas pela sociedade e, portanto, deixadas sem resposta. Quando o grupo de crianças enfrenta as profundezas dos esgotos para redimir os filhos perdidos de sua geração, eles entram em uma dimensão de desperdício humano e dor, de trauma e violência.

Na cena final do filme, os perdedores se unem enquanto grupo através da mistura de sangue. Cortam as mãos com vidro e depois pressionam-nas. O filme se passa em meados dos anos oitenta, e cenas anteriores invocaram a AIDS e o medo do contágio (o garoto com germofobia soube da lenda de uma senhora que contraiu AIDS apenas tocando em um objeto). O ponto culminante do vínculo entre o grupo de crianças é, portanto, marcar a transcendência do estigma e o enfrentamento de uma forma definitiva de medo: o medo da doença e da morte que está além da doença.

Não sou um especialista em Stephen King, e deixo a eles a análise da qualidade desse filme em relação ao cânon do autor. Mas tratar adequadamente do sofrimento de crianças sujeitas a uma sociedade de adultos confusos e abusivos é um desafio que só bons filmes cumprem, e este cumpre. Vá esperando sustos e você será recompensado suficientemente. Mas você também encontrará uma meditação bem elaborada sobre a dor que a sociedade se recusa a ver, embora deixe marcas profundas em nossas crianças.