Você é uma decepção de tantas formas

Minha prima publicou isso no meu mural do Facebook semana passada. Sempre tivemos uma boa relação, mas ela estava comentando um link que publiquei e que ela interpretou como sendo “anti-Israel”. E com Israel no meio da operação “Limite Protetor”, consistente em um ataque agressivo à população de Gaza, minha suposta afronta à autoridade moral que tem Israel para matar civis foi razão suficiente para abandonar-se a cordialidade.

Meu pai é judeu, minha mãe é católica – o que, segundo a tradição matrilinear judaica, não faz de mim um “verdadeiro judeu”, ainda que metade da minha família seja. E, como muitos judeus americanos, a maior parte desse lado de minha família – especialmente as gerações mais antigas – são ferrenhos defensores de Israel até embaixo d’água.

Na última quarta, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução condenando as “violações generalizadas, sistemáticas e flagrantes dos direitos humanos internacionais e as liberdades fundamentais” de Israel (apenas um país votou contra a resolução: os Estados Unidos). No dia seguinte, Israel bombardeou uma escola mantida pelas Nações Unidas que estava sendo usada como abrigo de refugiados para cerca de 800 palestinos que fugiram de suas casas durante mais de duas semanas de bombardeio. Pelo menos 16 civis inocentes foram mortos e 150 ficaram feridos. A maioria eram mulheres e crianças. O porta-voz da ONU afirmou que a organização enviou em diversas ocasiões as coordenadas da escola às Forças de Defesa de Israel, inclusive naquela manhã, e que não receberam nenhum aviso antes de múltiplas bombas atingirem as instalações. Esse é um crime de guerra.

E mesmo com esses crimes de guerra acontecendo diariamente, meus familiares e outras pessoas relevam. O que torna tudo tão atordoante é que a maioria dessas pessoas são em outros aspectos liberais progressistas: pessoas que apóiam os direitos dos homossexuais, acham que Bush e Cheney deveriam ser processados ​​pela Guerra do Iraque, e que há um lugar especial no inferno para o tirano sírio Bashar al Assad. No entanto, eles ensinam seus filhos a tratar Israel segundo padrões diferentes. Como minha prima admitiu em nossa briga, quando se trata de Israel: “eu não posso só falar com a minha cabeça, meu coração é mais forte.”

printscreen
“Não posso só falar com minha cabeça, meu coração é mais forte.”
BANDEIRAISRAEL
“Onde quer que eu esteja, estarei com Israel.”

No dia seguinte ao ataque à escola da ONU, ela mudou seu avatar no Facebook para uma imagem da bandeira de Israel com o texto “onde quer que eu esteja, estarei com Israel.”

Ela não está sozinha. Esse é também o lema não oficial do governo dos Estados Unidos. Desde a fundação de Israel, o governo dos EUA deu a Israel mais de US$ 121 bilhões de ajuda direta – principalmente no financiamento militar e em garantias de empréstimos. Só neste ano, o total é de mais de US $ 3 bilhões. Inflexível, o apoio de décadas dos Estados Unidos a Israel é demasiado complexo e multifacetado para analisarmos aqui, mas um dos principais pólos da barraca da política é o lobby sionista americano. Eles são os verdadeiros crentes de que Israel é o genuíno lar dos judeus pelo mundo, tanto espiritual quanto religiosamente, e criaram poderosas organizações como o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC) e o Anti -Defamation League (ADL) para discutir o seu caso. Esses grupos são extremamente influentes e bem ligado a Washington e fazem qualquer político preocupado com sua própria preservação política pensar duas vezes antes de proferir uma palavra que poderia, talvez, possivelmente, quem sabe, ser interpretada como anti-semita (um rótulo que eles costumam usar, quando “anti-sionista” ou “anti-militarista” seria mais apropriado).

pesquisa01
Fonte: Israel National News

Defensores incondicionais de Israel desferem acusações de “anti-semitismo” de forma consistente e indiscriminada contra qualquer um que se atreva a questionar a política do governo israelense – especialmente contra outros judeus. Eles empunham a memória do Holocausto como uma arma contra seus inimigos políticos e uma firme posição de “ou você está conosco ou contra nós”. Mesmo quem proclama o seu apoio a Israel, mas humildemente sussurra que as ações do governo são, talvez, contraproducentes para os interesses de longo prazo da nação, acaba surrado pelo AIPAC e seus aliados com o mesmo porrete retórico. Mas ao fazerem isso, eles estão cometendo uma falácia lógica e concretizando uma profecia auto-realizável. Como o historiador britânico Tony Judt explica:

“Quando Israel viola o direito internacional nos territórios ocupados, quando Israel humilha publicamente as populações cuja terra foi conquistada -, mas, em seguida, responde a seus críticos com gritos de “anti-semitismo” – na verdade está dizendo que esses atos não são atos do governo israelense, mas que são atos do povo judeu: a ocupação não é uma ocupação israelense, é uma ocupação judaica, e se você não gosta dessas coisas, é porque você não gosta de judeus.

Em muitas partes do mundo, esse é o risco de concretizar uma afirmação auto-realizável: o comportamento imprudente de Israel e a insistente identificação de todas as críticas com o anti-semitismo é, agora, a principal origem do sentimento anti-semita na Europa Ocidental e grande parte da Ásia (…).”

São os nacionalistas israelenses linha-dura que comandam o massacre desmedido em Gaza, mas eles estão sendo apoiados por financiamento direto, apoio logístico e cobertura diplomática internacional do governo dos Estados Unidos e determinados aliados. E tudo isso está sendo feito em meu nome, tanto enquanto (“falso”) judeu como enquanto cidadão americano. Isso faz meu sangue ferver.

pesquisa02
Fonte: New York Times

O apoio dos EUA desestimula Israel a fazer as escolhas políticas difíceis que deve eventualmente buscar. Ao contrário, desde que Israel capturou Gaza e Cisjordânia em 1967 durante a Guerra dos Seis Dias, construiu assentamentos ilegais para centenas de milhares na Cisjordânia, deslocando milhares de palestinos de suas casas, construiu enormes “muros de separação” para dividir os assentamentos palestinos de israelenses, criou um regime opressivo de segurança que restringe o movimento palestino em seu próprio território, promulgou bloqueios econômicos que estrangulam a economia palestina e intencionalmente desperdiçou soluções políticas com a Organização de Libertação da Palestina (OLP).

O resultado final dessas políticas: a ascensão ao poder de movimentos reacionários como o Hamas. Israel escolheu a terra (e a violência cíclica que vem com ela) ao invés da paz e não está comprometido com uma solução política.

jornalista

É por isso que critico a política israelense e, geralmente, dou um desconto a seus argumentos sobre a perniciosidade do Hamas. E, por sua vez, os defensores de Israel me acusam (e outros que compartilham a minha opinião) de apoiar o Hamas. Para que conste, eu não apoio. Meu chefe, um jornalista americano que é muitas vezes acusado de ser anti-americano/anti-Israel por seu trabalho, gosta de responder a estas críticas com uma citação de Noam Chomsky:

“A minha preocupação é principalmente o terror e a violência levada a cabo pelo meu próprio Estado, por duas razões. Por um lado, porque ele passa a ser o componente maior da violência internacional. Mas também por uma razão muito mais importante do que essa, qual seja, a de que posso fazer algo sobre isso. Assim, mesmo se os EUA for responsável por 2% da violência no mundo, em vez de a maior parte dela, seria de 2% a minha principal responsabilidade por ela. E isso é um julgamento ético simples. Ou seja, o valor ético de suas ações depende de suas conseqüências esperadas e previsíveis. É muito fácil denunciar as atrocidades da outra pessoa. Isso tem tanto valor ético quanto denunciar as atrocidades que tiveram lugar no século 18.”

Sem financiamento dos Estados Unidos e seu veto-chave no Conselho de Segurança da ONU, Israel nunca seria capaz de fazer o que faz em Gaza e na Cisjordânia. Como um americano, sou parcialmente responsável por cada bomba israelense que cai sobre a cabeça de uma criança palestina. E como americano tenho a capacidade e o imperativo moral de fazer alguma coisa – pelo menos para falar e interagir com meus colegas – para mudar a situação.

Fonte:
Fonte: Gallup

E as coisas estão mudando. Muito lentamente. Na semana passada, uma pesquisa Gallup saiu mostrando que parcela significativa de americanos (42%) acredita que a operação israelense “Limite Protetor” é justificada, 39% acreditam que é injustificado e 20% não têm opinião. Mas quando você investiga um pouco mais, você vê que, entre 18-29 anos, apenas 25% responderam que a operação de Israel é justificada e uma enorme parcela de 51% responderam que era injustificada. Esse é um lance importante. Estamos a beira de uma grande mudança política. Os gritos de AIPAC de anti-semitismo e “lembre-se do Holocausto” não ressoam entre uma geração para a qual o Holocausto é história antiga; para a qual multiculturalismo, não etnocentrismo, é o ideal; e para qual, em sua vida, Israel sempre foi ascendente, enquanto os palestinos sempre sofreram humilhações diárias e opressão sob ocupação militar e bloqueio econômico.

gallup02
Fonte: Gallup

Ao longo das últimas semanas, uma enxurrada de reportagens (acompanhadas de indignação, virulência, propaganda, recriminações e ataques ad hominem) inundaram os feeds dos meus perfis em redes sociais. As pessoas estão se engajando na questão. Desde 28 de junho, a hashtag #GazaUnderAttack foi utilizada mais de 5,9 milhões de vezes no Twitter enquanto #IsraelUnderFire só tem sido usado quase 300.000 vezes. Israel está sob crescente pressão para mudar seus caminhos porque está perdendo a guerra da opinião pública mais do que nunca, mesmo que domine militarmente nas ruas de Gaza.

egipcio-pt

Mas será que essa pressão levará a resultados tangíveis? Se utilizarmos a história como o nosso guia, a resposta claramente é não. Desde os dias do Mandato Britânico da Palestina, os sionistas judeus têm consistentemente e brutalmente negado humanidade básica e dignidade a seus vizinhos palestinos por quase todos os meios a sua disposição. E creio que é por isso que qualquer crítica a Israel faz pessoas como minha prima tão nervosas.A insensibilidade da operação Limite Protetor não é uma aberração; é o status quo entre Israel e Palestina.

Reconhecer as ações de Israel em 2014 como imorais equivale a admitir que seu país sempre tem estado no lado errado da história. Esse não é um caminho intelectual que maioria dos apoiadores de Israel se importa em trilhar. Eles não vão mudar, mas a cada bomba mais pessoas como eu estão se manifestando. Então, cabe a todos nós fazer tudo o que pudermos para forçar o governo dos EUA a finalmente reconsiderar sua relação trágica com Israel.


(Nota do Editor: o artigo foi escrito pelo autor para Ano Zero em inglês, e traduzido por Victor Lisboa. Clique aqui para o texto original)

escrito por:

An american journalist living in Rio de Janeiro. He works for The Intercept, an online news organization focused on adversarial national security journalism.

Um jornalista americano que mora no Rio de Janeiro. Ele trabalha para a The Intercept, agência de jornalismo investigativo independente.