israel e gaza

Israel, Gaza e uma Familia em Guerra

Em Consciência, Política, Sociedade por Andrew FishmanComentário

Você é uma decep­ção de tan­tas for­mas

Minha prima publi­cou isso no meu mural do Face­book semana pas­sada. Sem­pre tive­mos uma boa rela­ção, mas ela estava comen­tando um link que publi­quei e que ela inter­pre­tou como sendo “anti-Israel”. E com Israel no meio da ope­ra­ção “Limite Pro­te­tor”, con­sis­tente em um ata­que agres­sivo à popu­la­ção de Gaza, minha suposta afronta à auto­ri­dade moral que tem Israel para matar civis foi razão sufi­ci­ente para aban­do­nar-se a cor­di­a­li­dade.

Meu pai é judeu, minha mãe é cató­lica — o que, segundo a tra­di­ção matri­li­near judaica, não faz de mim um “ver­da­deiro judeu”, ainda que metade da minha famí­lia seja. E, como mui­tos judeus ame­ri­ca­nos, a maior parte desse lado de minha famí­lia — espe­ci­al­mente as gera­ções mais anti­gas — são fer­re­nhos defen­so­res de Israel até embaixo d’água.

Na última quarta, o Con­se­lho de Direi­tos Huma­nos da ONU apro­vou uma reso­lu­ção con­de­nando as “vio­la­ções gene­ra­li­za­das, sis­te­má­ti­cas e fla­gran­tes dos direi­tos huma­nos inter­na­ci­o­nais e as liber­da­des fun­da­men­tais” de Israel (ape­nas um país votou con­tra a reso­lu­ção: os Esta­dos Uni­dos). No dia seguinte, Israel bom­bar­deou uma escola man­tida pelas Nações Uni­das que estava sendo usada como abrigo de refu­gi­a­dos para cerca de 800 pales­ti­nos que fugi­ram de suas casas durante mais de duas sema­nas de bom­bar­deio. Pelo menos 16 civis ino­cen­tes foram mor­tos e 150 fica­ram feri­dos. A mai­o­ria eram mulhe­res e cri­an­ças. O porta-voz da ONU afir­mou que a orga­ni­za­ção enviou em diver­sas oca­siões as coor­de­na­das da escola às For­ças de Defesa de Israel, inclu­sive naquela manhã, e que não rece­be­ram nenhum aviso antes de múl­ti­plas bom­bas atin­gi­rem as ins­ta­la­ções. Esse é um crime de guerra.

E mesmo com esses cri­mes de guerra acon­te­cendo dia­ri­a­mente, meus fami­li­a­res e outras pes­soas rele­vam. O que torna tudo tão ator­do­ante é que a mai­o­ria des­sas pes­soas são em outros aspec­tos libe­rais pro­gres­sis­tas: pes­soas que apóiam os direi­tos dos homos­se­xu­ais, acham que Bush e Che­ney deve­riam ser pro­ces­sa­dos ​​pela Guerra do Ira­que, e que há um lugar espe­cial no inferno para o tirano sírio Bashar al Assad. No entanto, eles ensi­nam seus filhos a tra­tar Israel segundo padrões dife­ren­tes. Como minha prima admi­tiu em nossa briga, quando se trata de Israel: “eu não posso só falar com a minha cabeça, meu cora­ção é mais forte.”

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Não posso só falar com minha cabeça, meu cora­ção é mais forte.”

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Onde quer que eu esteja, esta­rei com Israel.”

No dia seguinte ao ata­que à escola da ONU, ela mudou seu ava­tar no Face­book para uma ima­gem da ban­deira de Israel com o texto “onde quer que eu esteja, esta­rei com Israel.”

Ela não está sozi­nha. Esse é tam­bém o lema não ofi­cial do governo dos Esta­dos Uni­dos. Desde a fun­da­ção de Israel, o governo dos EUA deu a Israel mais de US$ 121 bilhões de ajuda direta — prin­ci­pal­mente no finan­ci­a­mento mili­tar e em garan­tias de emprés­ti­mos. Só neste ano, o total é de mais de US $ 3 bilhões. Infle­xí­vel, o apoio de déca­das dos Esta­dos Uni­dos a Israel é dema­si­ado com­plexo e mul­ti­fa­ce­tado para ana­li­sar­mos aqui, mas um dos prin­ci­pais pólos da bar­raca da polí­tica é o lobby sio­nista ame­ri­cano. Eles são os ver­da­dei­ros cren­tes de que Israel é o genuíno lar dos judeus pelo mundo, tanto espi­ri­tual quanto reli­gi­o­sa­mente, e cri­a­ram pode­ro­sas orga­ni­za­ções como o Comitê Ame­ri­cano de Assun­tos Públi­cos de Israel (AIPAC) e o Anti –Defa­ma­tion Lea­gue (ADL) para dis­cu­tir o seu caso. Esses gru­pos são extre­ma­mente influ­en­tes e bem ligado a Washing­ton e fazem qual­quer polí­tico pre­o­cu­pado com sua pró­pria pre­ser­va­ção polí­tica pen­sar duas vezes antes de pro­fe­rir uma pala­vra que pode­ria, tal­vez, pos­si­vel­mente, quem sabe, ser inter­pre­tada como anti-semita (um rótulo que eles cos­tu­mam usar, quando “anti-sio­nista” ou “anti-mili­ta­rista” seria mais apro­pri­ado).

Defen­so­res incon­di­ci­o­nais de Israel des­fe­rem acu­sa­ções de “anti-semi­tismo” de forma con­sis­tente e indis­cri­mi­nada con­tra qual­quer um que se atreva a ques­ti­o­nar a polí­tica do governo isra­e­lense — espe­ci­al­mente con­tra outros judeus. Eles empu­nham a memó­ria do Holo­causto como uma arma con­tra seus ini­mi­gos polí­ti­cos e uma firme posi­ção de “ou você está conosco ou con­tra nós”. Mesmo quem pro­clama o seu apoio a Israel, mas humil­de­mente sus­surra que as ações do governo são, tal­vez, con­tra­pro­du­cen­tes para os inte­res­ses de longo prazo da nação, acaba sur­rado pelo AIPAC e seus ali­a­dos com o mesmo por­rete retó­rico. Mas ao faze­rem isso, eles estão come­tendo uma falá­cia lógica e con­cre­ti­zando uma pro­fe­cia auto-rea­li­zá­vel. Como o his­to­ri­a­dor bri­tâ­nico Tony Judt explica:

Quando Israel viola o direito inter­na­ci­o­nal nos ter­ri­tó­rios ocu­pa­dos, quando Israel humi­lha publi­ca­mente as popu­la­ções cuja terra foi con­quis­tada -, mas, em seguida, res­ponde a seus crí­ti­cos com gri­tos de “anti-semi­tismo” — na ver­dade está dizendo que esses atos não são atos do governo isra­e­lense, mas que são atos do povo judeu: a ocu­pa­ção não é uma ocu­pa­ção isra­e­lense, é uma ocu­pa­ção judaica, e se você não gosta des­sas coi­sas, é por­que você não gosta de judeus.

Em mui­tas par­tes do mundo, esse é o risco de con­cre­ti­zar uma afir­ma­ção auto-rea­li­zá­vel: o com­por­ta­mento impru­dente de Israel e a insis­tente iden­ti­fi­ca­ção de todas as crí­ti­cas com o anti-semi­tismo é, agora, a prin­ci­pal ori­gem do sen­ti­mento anti-semita na Europa Oci­den­tal e grande parte da Ásia (…).”

São os naci­o­na­lis­tas isra­e­len­ses linha-dura que coman­dam o mas­sa­cre des­me­dido em Gaza, mas eles estão sendo apoi­a­dos por finan­ci­a­mento direto, apoio logís­tico e cober­tura diplo­má­tica inter­na­ci­o­nal do governo dos Esta­dos Uni­dos e deter­mi­na­dos ali­a­dos. E tudo isso está sendo feito em meu nome, tanto enquanto (“falso”) judeu como enquanto cida­dão ame­ri­cano. Isso faz meu san­gue fer­ver.

O apoio dos EUA deses­ti­mula Israel a fazer as esco­lhas polí­ti­cas difí­ceis que deve even­tu­al­mente bus­car. Ao con­trá­rio, desde que Israel cap­tu­rou Gaza e Cis­jor­dâ­nia em 1967 durante a Guerra dos Seis Dias, cons­truiu assen­ta­men­tos ile­gais para cen­te­nas de milha­res na Cis­jor­dâ­nia, des­lo­cando milha­res de pales­ti­nos de suas casas, cons­truiu enor­mes “muros de sepa­ra­ção” para divi­dir os assen­ta­men­tos pales­ti­nos de isra­e­len­ses, criou um regime opres­sivo de segu­rança que res­tringe o movi­mento pales­tino em seu pró­prio ter­ri­tó­rio, pro­mul­gou blo­queios econô­mi­cos que estran­gu­lam a eco­no­mia pales­tina e inten­ci­o­nal­mente des­per­di­çou solu­ções polí­ti­cas com a Orga­ni­za­ção de Liber­ta­ção da Pales­tina (OLP).

O resul­tado final des­sas polí­ti­cas: a ascen­são ao poder de movi­men­tos rea­ci­o­ná­rios como o Hamas. Israel esco­lheu a terra (e a vio­lên­cia cíclica que vem com ela) ao invés da paz e não está com­pro­me­tido com uma solu­ção polí­tica.

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É por isso que cri­tico a polí­tica isra­e­lense e, geral­mente, dou um des­conto a seus argu­men­tos sobre a per­ni­ci­o­si­dade do Hamas. E, por sua vez, os defen­so­res de Israel me acu­sam (e outros que com­par­ti­lham a minha opi­nião) de apoiar o Hamas. Para que conste, eu não apoio. Meu chefe, um jor­na­lista ame­ri­cano que é mui­tas vezes acu­sado de ser anti-americano/anti-Israel por seu tra­ba­lho, gosta de res­pon­der a estas crí­ti­cas com uma cita­ção de Noam Chomsky:

A minha pre­o­cu­pa­ção é prin­ci­pal­mente o ter­ror e a vio­lên­cia levada a cabo pelo meu pró­prio Estado, por duas razões. Por um lado, por­que ele passa a ser o com­po­nente maior da vio­lên­cia inter­na­ci­o­nal. Mas tam­bém por uma razão muito mais impor­tante do que essa, qual seja, a de que posso fazer algo sobre isso. Assim, mesmo se os EUA for res­pon­sá­vel por 2% da vio­lên­cia no mundo, em vez de a maior parte dela, seria de 2% a minha prin­ci­pal res­pon­sa­bi­li­dade por ela. E isso é um jul­ga­mento ético sim­ples. Ou seja, o valor ético de suas ações depende de suas con­seqüên­cias espe­ra­das e pre­vi­sí­veis. É muito fácil denun­ciar as atro­ci­da­des da outra pes­soa. Isso tem tanto valor ético quanto denun­ciar as atro­ci­da­des que tive­ram lugar no século 18.”

Sem finan­ci­a­mento dos Esta­dos Uni­dos e seu veto-chave no Con­se­lho de Segu­rança da ONU, Israel nunca seria capaz de fazer o que faz em Gaza e na Cis­jor­dâ­nia. Como um ame­ri­cano, sou par­ci­al­mente res­pon­sá­vel por cada bomba isra­e­lense que cai sobre a cabeça de uma cri­ança pales­tina. E como ame­ri­cano tenho a capa­ci­dade e o impe­ra­tivo moral de fazer alguma coisa — pelo menos para falar e inte­ra­gir com meus cole­gas — para mudar a situ­a­ção.

Fonte:

Fonte: Gal­lup

E as coi­sas estão mudando. Muito len­ta­mente. Na semana pas­sada, uma pes­quisa Gal­lup saiu mos­trando que par­cela sig­ni­fi­ca­tiva de ame­ri­ca­nos (42%) acre­dita que a ope­ra­ção isra­e­lense “Limite Pro­te­tor” é jus­ti­fi­cada, 39% acre­di­tam que é injus­ti­fi­cado e 20% não têm opi­nião. Mas quando você inves­tiga um pouco mais, você vê que, entre 18–29 anos, ape­nas 25% res­pon­de­ram que a ope­ra­ção de Israel é jus­ti­fi­cada e uma enorme par­cela de 51% res­pon­de­ram que era injus­ti­fi­cada. Esse é um lance impor­tante. Esta­mos a beira de uma grande mudança polí­tica. Os gri­tos de AIPAC de anti-semi­tismo e “lem­bre-se do Holo­causto” não res­soam entre uma gera­ção para a qual o Holo­causto é his­tó­ria antiga; para a qual mul­ti­cul­tu­ra­lismo, não etno­cen­trismo, é o ideal; e para qual, em sua vida, Israel sem­pre foi ascen­dente, enquanto os pales­ti­nos sem­pre sofre­ram humi­lha­ções diá­rias e opres­são sob ocu­pa­ção mili­tar e blo­queio econô­mico.

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Fonte: Gal­lup

Ao longo das últi­mas sema­nas, uma enxur­rada de repor­ta­gens (acom­pa­nha­das de indig­na­ção, viru­lên­cia, pro­pa­ganda, recri­mi­na­ções e ata­ques ad homi­nem) inun­da­ram os feeds dos meus per­fis em redes soci­ais. As pes­soas estão se enga­jando na ques­tão. Desde 28 de junho, a hash­tag #GazaUn­de­rAt­tack foi uti­li­zada mais de 5,9 milhões de vezes no Twit­ter enquanto #Isra­e­lUn­der­Fire só tem sido usado quase 300.000 vezes. Israel está sob cres­cente pres­são para mudar seus cami­nhos por­que está per­dendo a guerra da opi­nião pública mais do que nunca, mesmo que domine mili­tar­mente nas ruas de Gaza.

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Mas será que essa pres­são levará a resul­ta­dos tan­gí­veis? Se uti­li­zar­mos a his­tó­ria como o nosso guia, a res­posta cla­ra­mente é não. Desde os dias do Man­dato Bri­tâ­nico da Pales­tina, os sio­nis­tas judeus têm con­sis­ten­te­mente e bru­tal­mente negado huma­ni­dade básica e dig­ni­dade a seus vizi­nhos pales­ti­nos por quase todos os meios a sua dis­po­si­ção. E creio que é por isso que qual­quer crí­tica a Israel faz pes­soas como minha prima tão ner­vo­sas.A insen­si­bi­li­dade da ope­ra­ção Limite Pro­te­tor não é uma aber­ra­ção; é o sta­tus quo entre Israel e Pales­tina.

Reco­nhe­cer as ações de Israel em 2014 como imo­rais equi­vale a admi­tir que seu país sem­pre tem estado no lado errado da his­tó­ria. Esse não é um cami­nho inte­lec­tual que mai­o­ria dos apoi­a­do­res de Israel se importa em tri­lhar. Eles não vão mudar, mas a cada bomba mais pes­soas como eu estão se mani­fes­tando. Então, cabe a todos nós fazer tudo o que puder­mos para for­çar o governo dos EUA a final­mente recon­si­de­rar sua rela­ção trá­gica com Israel.


(Nota do Edi­tor: o artigo foi escrito pelo autor para Ano Zero em inglês, e tra­du­zido por Vic­tor Lis­boa. Cli­que aqui para o texto ori­gi­nal)

An american journalist living in Rio de Janeiro. He works for The Intercept, an online news organization focused on adversarial national security journalism.

Um jornalista americano que mora no Rio de Janeiro. Ele trabalha para a The Intercept, agência de jornalismo investigativo independente.

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