Capa do texto "O isentão e a mania de tirar o governo da reta", de Alysson Augusto. Portal Ano Zero.

O “isentão” e a mania de tirar o governo da reta

Em Comportamento, Consciência, Política por Alysson AugustoComentário

No atual cená­rio polí­tico bra­si­leiro, nada mais comum que opi­niões divi­di­das. O que espe­rar de um país com uma eco­no­mia deca­dente e polí­tica caó­tica, sem qual­quer legi­ti­ma­ção pública, com uma cul­tura de pola­ri­za­ção polí­tica sim­plista base­ada na sem­pre mar­te­lada ideia de clas­ses?

Natu­ral­mente os adep­tos do governo bus­cam não ape­nas mantê-lo legí­timo, mas, de todas as manei­ras, con­ti­nuar acre­di­tando que seus votos foram os melho­res votos pos­sí­veis diante da rea­li­dade bra­si­leira. Da mesma forma, todo tipo de opo­si­ção busca pre­en­cher as lacu­nas de seu dis­curso na ten­ta­tiva de vali­dar todos os comen­tá­rios que dis­tri­buiu, ao longo dos anos, frente aos gover­nis­tas e seu par­tido.

Recla­mes como o de Cín­tia Mos­co­vich, em seu artigo “Cadê a Esquerda?” publi­cado em Zero Hora, são legí­ti­mos na medida em que bus­ca­mos dis­cer­nir bem quem é quem no qua­dro polí­tico geral — afi­nal nada mais humano do que ten­tar encai­xar tudo em bolhas fáceis de dis­tin­guir.

Mesmo assim, tal reclame acaba por esque­cer de um fato: nem tudo é preto no branco como pos­sa­mos que­rer que seja.

O que acon­tece é que, há tem­pos, o zeit­geist da huma­ni­dade fez com que o Muro de Ber­lim desse, com sua queda, espaço ao encon­tro das dife­ren­ças polí­ti­cas e, com isso, per­mi­tisse a cruza de pen­sa­men­tos antes dua­li­za­dos e agora com­ple­xos.

E foi então que, para além do gover­nista ou opo­si­ci­o­nista, nas­ceu o cida­dão isento.

O isento é aquele que, não con­tente com as fal­sas dico­to­mias de uma polí­tica suja — que faz a popu­la­ção de massa de mano­bra a cada pro­messa sim­plista, que vê em sua opo­si­ção um demô­nio a ser com­ba­tido — pre­fere o meio-termo justo e aris­to­té­lico frente à rea­li­dade.

Mas por que a insur­gên­cia de um híbrido na his­tó­ria polí­tica deste país?

O que acon­tece é que vive­mos uma crise de repre­sen­ta­ti­vi­dade polí­tica, em que difi­cil­mente alguém se iden­ti­fi­cará com a car­ti­lha ide­o­ló­gica de um par­tido, como pro­va­vel­mente Cín­tia se iden­ti­fi­cou um dia.

Não é à toa que 91% dos habi­tan­tes do país, segundo a Data­fo­lha, não acre­di­tam nos polí­ti­cos bra­si­lei­ros. É uma rea­li­dade cada vez mais evi­dente: os cida­dãos bra­si­lei­ros, em sua grande mai­o­ria, estão cada vez mais des­con­ten­tes com os rumos da nação. E isso ficou evi­dente no domingo, dia 13 de março de 2016, em que, como “nunca antes na his­tó­ria deste país”, houve a maior mani­fes­ta­ção que tal­vez pos­sa­mos pre­sen­ciar em vida.

Então, o que espe­rar de uma polí­tica divi­dida, com cida­dãos insa­tis­fei­tos e que não sen­tem-se repre­sen­ta­dos, em que os isen­tos estão sendo reco­nhe­ci­dos?

Com olhar atento a isso, e per­ce­bendo a crise de repre­sen­ta­ti­vi­dade naci­o­nal, surge um com­por­ta­mento dife­ren­ci­ado, o híbrido do híbrido: o “isento gover­nista”, ou melhor: o “isen­tão” (para abre­viar).

Jure­mir Machado, em suas “Dez per­gun­tas sobre as mani­fes­ta­ções” publi­ca­das no jor­nal Cor­reio do Povo, dá uma bela amos­tra deste ser que aqui nos refe­ren­ci­a­mos: com uma pos­tura pre­ten­sa­mente isenta, con­se­gue, nas entre­li­nhas, mos­trar para qual lado ver­da­dei­ra­mente torce.

É que, ao isen­tão, criar uma maqui­a­vé­lica opo­si­ção, um bode expi­a­tó­rio para o qual dire­ci­o­nar suas crí­ti­cas a fim de criar uma nuvem de fumaça frente aos pro­ble­mas de seu par­tido, inse­rindo tal opo­si­ção em escân­da­los é, ao seu ver, um tipo de tábua de sal­va­ção. É a sua ati­tude mais ime­di­ata frente à neces­si­dade de defen­der seu governo – dando a enten­der, sem­pre, que as ações daquele grupo de polí­ti­cos em espe­cí­fico seja total e inti­ma­mente liga­das às do governo (do qual diz ele mesmo ser ‘opo­si­ção’, mas que, no geral, sem­pre busca defen­der).

Tal inser­ção, curi­o­sa­mente, não ocorre pela via inversa — quando o isen­tão vê que os polí­ti­cos que busca com­ba­ter come­te­ram atos repu­diá­veis. Ou por acaso já se viu, por parte deste curi­oso híbrido, pedir que nos pre­o­cu­pe­mos, tam­bém, com a pos­sí­vel asso­ci­a­ção de seu par­tido à cor­rup­ção que aponta?

Polí­ti­cos como Jean Wyllys, cine­as­tas como Pablo Vil­laça e can­to­res como Tico Santa Cruz e Zeca Balero são outros exem­plos.

O fato é este: o isen­tão se apro­pria da ideia de impar­ci­a­li­dade quanto ao jul­ga­mento, mas o faz a fim de influ­en­ciar os ver­da­dei­ra­mente isen­tos. O intuito é claro: tra­zer mais peças para seu time.

Com este estra­nho de nossa época, temos um con­cor­rente à cara de pau de nosso governo: o isen­tão, como bom pelego, é a ver­go­nha naci­o­nal com sua mimada mania de tirar o governo da reta.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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