No atual cenário político brasileiro, nada mais comum que opiniões divididas. O que esperar de um país com uma economia decadente e política caótica, sem qualquer legitimação pública, com uma cultura de polarização política simplista baseada na sempre martelada ideia de classes?

Naturalmente os adeptos do governo buscam não apenas mantê-lo legítimo, mas, de todas as maneiras, continuar acreditando que seus votos foram os melhores votos possíveis diante da realidade brasileira. Da mesma forma, todo tipo de oposição busca preencher as lacunas de seu discurso na tentativa de validar todos os comentários que distribuiu, ao longo dos anos, frente aos governistas e seu partido.

Reclames como o de Cíntia Moscovich, em seu artigo “Cadê a Esquerda?” publicado em Zero Hora, são legítimos na medida em que buscamos discernir bem quem é quem no quadro político geral – afinal nada mais humano do que tentar encaixar tudo em bolhas fáceis de distinguir.

Mesmo assim, tal reclame acaba por esquecer de um fato: nem tudo é preto no branco como possamos querer que seja.

O que acontece é que, há tempos, o zeitgeist da humanidade fez com que o Muro de Berlim desse, com sua queda, espaço ao encontro das diferenças políticas e, com isso, permitisse a cruza de pensamentos antes dualizados e agora complexos.

E foi então que, para além do governista ou oposicionista, nasceu o cidadão isento.

O isento é aquele que, não contente com as falsas dicotomias de uma política suja – que faz a população de massa de manobra a cada promessa simplista, que vê em sua oposição um demônio a ser combatido – prefere o meio-termo justo e aristotélico frente à realidade.

Mas por que a insurgência de um híbrido na história política deste país?

O que acontece é que vivemos uma crise de representatividade política, em que dificilmente alguém se identificará com a cartilha ideológica de um partido, como provavelmente Cíntia se identificou um dia.

Não é à toa que 91% dos habitantes do país, segundo a Datafolha, não acreditam nos políticos brasileiros. É uma realidade cada vez mais evidente: os cidadãos brasileiros, em sua grande maioria, estão cada vez mais descontentes com os rumos da nação. E isso ficou evidente no domingo, dia 13 de março de 2016, em que, como “nunca antes na história deste país”, houve a maior manifestação que talvez possamos presenciar em vida.

Então, o que esperar de uma política dividida, com cidadãos insatisfeitos e que não sentem-se representados, em que os isentos estão sendo reconhecidos?

Com olhar atento a isso, e percebendo a crise de representatividade nacional, surge um comportamento diferenciado, o híbrido do híbrido: o “isento governista“, ou melhor: o “isentão” (para abreviar).

Juremir Machado, em suas “Dez perguntas sobre as manifestações” publicadas no jornal Correio do Povo, dá uma bela amostra deste ser que aqui nos referenciamos: com uma postura pretensamente isenta, consegue, nas entrelinhas, mostrar para qual lado verdadeiramente torce.

É que, ao isentão, criar uma maquiavélica oposição, um bode expiatório para o qual direcionar suas críticas a fim de criar uma nuvem de fumaça frente aos problemas de seu partido, inserindo tal oposição em escândalos é, ao seu ver, um tipo de tábua de salvação. É a sua atitude mais imediata frente à necessidade de defender seu governo – dando a entender, sempre, que as ações daquele grupo de políticos em específico seja total e intimamente ligadas às do governo (do qual diz ele mesmo ser ‘oposição’, mas que, no geral, sempre busca defender).

Tal inserção, curiosamente, não ocorre pela via inversa – quando o isentão vê que os políticos que busca combater cometeram atos repudiáveis. Ou por acaso já se viu, por parte deste curioso híbrido, pedir que nos preocupemos, também, com a possível associação de seu partido à corrupção que aponta?

Políticos como Jean Wyllys, cineastas como Pablo Villaça e cantores como Tico Santa Cruz e Zeca Balero são outros exemplos.

O fato é este: o isentão se apropria da ideia de imparcialidade quanto ao julgamento, mas o faz a fim de influenciar os verdadeiramente isentos. O intuito é claro: trazer mais peças para seu time.

Com este estranho de nossa época, temos um concorrente à cara de pau de nosso governo: o isentão, como bom pelego, é a vergonha nacional com sua mimada mania de tirar o governo da reta.


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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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