Já há muitos anos me interesso por Filosofia. Mesmo na Psicologia, são os temas filosóficos que mais me atraem, fazendo minha monografia da graduação sobre epistemologia, escrevendo e apresentando trabalhos de cunho filosófico. Não é tudo que faço, nem de perto tudo que me interessa e sequer ao que dedico a maior parte do meu tempo atualmente, mas me atrai e pretendo produzir cada vez mais a respeito.

E qualquer pessoa interessada por Filosofia acaba se deparando com uma perturbadora questão: pra quê serve a Filosofia? Como ela serve às pessoas? Há demanda do trabalho de filósofos? Como um problema filosófico pode ser resolvido? Pessoalizando ainda mais a questão, podemos colocá-la da seguinte forma: qual a validade social do trabalho de um psicólogo, analista do comportamento, que se dedica a estudar temas filosóficos?

O fato das respostas a esta pergunta não serem imediatamente óbvias, suscita frequentemente um desdém por questões filosóficas, tomando-as como improdutivas digressões, perda de tempo em pseudo-problemas ou simplesmente ginástica intelectual, que atende à vaidade dos que a praticam, mas não servem em nada às demais pessoas. Para um analista do comportamento essa questão é especialmente crucial, já que não apenas tem em vista a validade social do que faz (fazendo parte inclusive dos critérios para definir se o que faz é analítico-comportamental), como também por adotar como norte o pragmatismo, que entende conhecimento não como uma posse, mas como modos produtivos de agir sobre o mundo.

Um pouco de perspicácia já é suficiente para perceber que essa postura, que supostamente viabiliza uma crítica à prática filosófica, é ela mesma uma posição filosófica e fruto de uma concepção filosófica bem definida pelos seus critérios sobre o que é conhecimento, realidade, critério de verdade e outros. Mas isso por si só não resolve a questão, já que é possível partir de uma concepção filosófica, tomando-a como petição de princípio, para criticar todas as outras. No caso do pragmatismo, ainda é possível criticar quem se dedica a debates filosóficos justamente ressaltando a dificuldade de avaliá-los pragmatisticamente, ou seja, com base nos resultados (nebulosos) que produzem.

Muitos já se dedicaram a responder essa pergunta sobre o valor da Filosofia. Bertrand Russel dedicou parte de sua obra a isso, e parece não ser em vão também que Skinner tenha dedicado grande parte de sua vida às questões filosóficas. Não seria incorreto dizer que seus principais livros são tratados filosóficos.

Mencionei acima como Skinner abordava questões filosóficas ressaltando também as implicações destas questões para a prática científica e vida cotidiana. Pois eis a validade social das questões filosóficas: a mudança de uma concepção filosófica pode alterar drasticamente como cientistas conduzirão suas pesquisas, como pessoas tomarão suas decisões, como governos planejarão seus investimentos e leis, o que irá ser estudado e difundido daqui pra frente e o que será considerado ultrapassado.

Parece haver certa ilusão em parte da comunidade analítico-comportamental de que os debates filosóficos são infrutíferos e “o negócio é mostrar resultado”. Há vários problemas nesta postura. Ignora, por exemplo, que a concepção de valor baseado nos resultados já é uma concepção filosófica, como já mencionado, e que se pensam assim é justamente devido à concepção filosófica que adotam (quer saibam disso ou não), que pode não ser a mesma de muitos outros. Logo, essa é a melhor estratégia de persuasão para eles e persuadirão iguais – o que acredito que fuja do objetivo.

Psicanalistas geralmente não negam os resultados conseguidos por analistas do comportamento, mas argumentam que o que é conseguido não é desejável, pois “cala o sujeito”, “ignora a subjetividade”, “desloca o sintoma”, “é conseguido ao custo de sacrificar quem o sujeito é”, entre outros. Analistas do comportamento poderiam então argumentar, com razão, que estas críticas são improcedentes, mas para isso já estariam indo além do simplesmente “mostrar resultados” e entrando no malfadado campo filosófico, arguindo como o behaviorismo radical – a filosofia que fundamenta a ciência chamada Análise do Comportamento – cobre essas questões ou as enxerga de outra maneira, justificando, filosoficamente, como e por que. Mas parece que em parte da comunidade de analistas do comportamento há uma aversão a um embate filosófico tão direto, como se uma confrontação no “campo das ideias” (com o perdão de meus colegas para usar essa expressão platônica) fosse mais agressiva que todas as demais, como a já mencionada confrontação através dos resultados.

Isso, inclusive, talvez explique parcialmente por que, apesar de seus incontestáveis resultados, a análise do comportamento não se tornou o paradigma da Psicologia. No Brasil, na Argentina, na França e em alguns outros ela foi sobreposta pela psicanálise, que investiu justamente na oposição filosófica (com diversas consequências práticas, especialmente políticas – como explicitei acima ao falar da validade social das questões filosóficas) e foi consideravelmente bem sucedida nela.

Nos EUA, em grande parte da Europa e na Ásia cedeu lugar ao cognitivismo e, mais recentemente, à psicologia evolucionista, ambas que também não apresentam resultados melhores do que a análise do comportamento, mas que souberem investir no embate filosófico, persuadindo seu público não pelo “mostrar resultado”, mas o convencendo de que detinham uma maneira mais elegante de abordar os fenômenos e sem os supostos problemas conceituais do behaviorismo (“reducionismo”, “positivismo”, “tabula rasa”, “ignora subjetividade”, etc.). Enquanto isso, analistas do comportamento parecem repetir os passos de Skinner, que não respondeu às críticas de Chomsky (1959) por acreditar que era inócuas e que eventualmente evanesceriam diante dos resultados de sua proposta, facilitando que acontecesse o exato oposto e que ainda hoje muitos considerem que o linguista “demoliu” o behaviorismo.

Espero que esteja claro, no entanto, que a validade social das investigações filosóficas dentro da análise do comportamento nem de perto se resume a defender o front do behaviorismo radical. Seria algo importante, mas cada investigação filosófica encontra sua própria validade social.

Podemos exemplificar isso brevemente através de um debate corrente entre behavioristas radicais: a questão do determinismo x indeterminismo. A adoção deste último implica na possibilidade de que eventos não são determinados, embora possam estabelecer relações estáveis, e abre margem para fenômenos ontologicamente espontâneos, o que também implica na possibilidade de validação da doutrina sobrenaturalista. Já a adoção do determinismo torna mais improvável essa validação, por pressupor (suspendendo afirmações ontológicas ou não) que todos os eventos são determinados por causas presentes e/ou antecedentes, não abrindo margem para fenômenos sobrenaturais (o que acontecer é fruto da sequência natural de eventos, por mais extraordinário que seja seu resultado).

Já estou sendo grosseiro em minha apresentação das duas visões, mas façamos um exercício de ficção. Vamos supor que uma das visões demonstrasse ser inexoravelmente mais bem fundamentada e fosse adotada por analistas do comportamento ou até mais, pelas pessoas de um modo geral.

Se a que foi adotada fosse o determinismo, teríamos um campo infértil, por exemplo, para a legitimação do pensamento religioso, já que este usualmente pressupõe a possibilidade de milagres (suspensão das leis naturais por intervenção sobrenatural, ruptura na cadeia natural de eventos), de influências cuja variável independente não pode ser traçada (ontologicamente espontâneas ou de origem sobrenatural), entre outros incompatíveis com o determinismo. Seria uma ideia que minaria com questões práticas de proporções gigantescas, implicando na mudança em como as pessoas leem o mundo a sua volta, interagem com ele, gastam seu tempo, dinheiro, como ensinam seus filhos e todas as inumeráveis implicações disso, variáveis de pessoa a pessoa, de cada uma das bilhões que adotam um credo religioso. Já o indeterminismo, se adotado, legitimaria exatamente o oposto, criando uma justificativa para essa faceta, tão significativa na vida de bilhões e indiretamente relevante na vida de virtualmente todos os seres humanos.

Esse exemplo, por mais dramático que possa parecer, serve para ilustrar a validade social dos debates filosóficos: a única maneira de sobrepor um paradigma ao outro é através do embate filosófico. E os paradigmas, frutos da concepção e seleção de debates filosóficos, irão guiar pesquisas, justificar direcionamento de verbas, embasar intervenções e, fundamentalmente, promover às pessoas aquilo que se concluiu ser a maneira pela qual podemos fazer mais e melhor por elas e pela qual elas mesmas podem basear suas ações. [2]


Notas:

[1] – Novamente, vale lembrar que não estou abordando o tema como ele merece. Pretendo fazer isso em breve, no entanto. Dentro da Análise do Comportamento, os que defendem a tese do indeterminismo costumam também defender o pluralismo em detrimento do monismo (não como postura diante do problema mente-corpo, mas como visão de mundo, tal qual defendido por James). Alguns defensores do indeterminismo argumentam que este, por si só, não implicaria em uma validação do pensamento sobrenaturalista. Já os defensores do pluralismo terão mais dificuldade em advogar isso, sendo que o próprio James utilizou-o para defender suas convicções religiosas.

[2] Meu amigo e analista do comportamento, Junio Rezende, me apontou que omito a relevância de questões políticas e sociológicas para a escolha de paradigmas. De fato, deixei isso implícito e mencionei mais acima no texto, quando incluo dentro dos debates filosóficos todas as questões políticas e outras questões espúrias que envolvem a defesa de um paradigma. Mas vale explicitar isso: como demonstrou Thomas Khun, Bruno Latour e tantos outros, a escolha de paradigmas não se dá apenas no campo dos debates filosóficos estritos – ou seja, qual conceito parece mais bem fundamentado e por que -, mas envolve interesses pessoais de filósofos, cientistas, políticos e outros, que foge ao escopo do texto abordar e não muda o ponto levantado sobre a validade social das investigações filosóficas.

Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.