Manifestantes ocupam Câmara em 2013, e outros ocupam em 2016. | Invasão da Câmara: Há pessoas que sustentam que algumas pautas merecem invasão e ocupação de espaços públicos, e outras não. Qual o critério para isso?

Invasão da Câmara: ocupação boa é só a que defendo

Em Consciência, Política, Sociedade por Guilherme AssisComentários

Uma galera inva­diu a câmara dos depu­ta­dos, pro­tes­tando con­tra cor­rup­ção e pedindo inter­ven­ção mili­tar.

Esse é um daque­les momen­tos que dri­blam a gente e colo­cam em che­que o que (teo­ri­ca­mente) defen­de­mos. Pas­sa­mos anos e anos dizendo que mani­fes­ta­ções fechando ruas e ocu­pando espa­ços públi­cos eram méto­dos legí­ti­mos, parte do jogo demo­crá­tico, e cri­ti­ca­mos dura­mente quem defen­dia repres­são poli­cial a esses momen­tos.

Vamos defen­der agora tam­bém o direito de quem tem ideias opos­tas — abo­mi­ná­veis, para nós?

Muita gente diz que não, que a res­posta à into­le­rân­cia e a opi­niões “cri­mi­no­sas” deve ser a repres­são mesmo, que não há espaço para isso em uma soci­e­dade demo­crá­tica.

Mas se for esse o caso, então con­cluí­mos que algu­mas pau­tas mere­cem ocu­pa­ção e outras não. Qual o cri­té­rio para isso?

Falar em lega­li­dade ou into­le­rân­cia não resolve — se o corte for “sua pauta não pode des­res­pei­tar o estado de direito”, qual­quer mani­fes­ta­ção de cunho soci­a­lista está banida tam­bém. Se o corte for “crime”, mani­fes­ta­ções com “apo­lo­gia” a aborto ou dro­gas estão fora tam­bém. Fica difí­cil encon­trar uma cate­go­ri­za­ção que não soe auto­ri­tá­ria e opor­tu­nista do tipo “pode quando é do nosso lado”.

A outra opção é tole­rân­cia total — toda mani­fes­ta­ção é válida. Toda ocu­pa­ção auto­no­mista é pos­sí­vel. Espaço “público” como posse do governo não existe, e é mais inte­res­sante que pes­soas inte­res­sa­das rein­ven­tem luga­res “do poder” do que man­ter esses espa­ços sob jugo gover­na­men­tal.

Essa é a mesma ideia por trás da defesa das ocu­pa­ções estu­dan­tis — que o “direito” de gru­pos inte­res­sa­dos e poli­ti­ca­mente ati­vos se sobre­põe ao direito gené­rico e difuso de uma popu­la­ção amorfa. Que espa­ços devem ser ocu­pa­dos e dis­pu­ta­dos — que a medi­a­ção do Estado não interessa/não é legí­tima. Uma con­clu­são anar­quista, basi­ca­mente.

Eu não tenho 100% de cer­teza do que eu acho — mas é inte­res­sante notar que essa legi­ti­ma­ção se cons­trói exa­ta­mente a par­tir de um ima­gi­ná­rio cole­tivo. Uma ocu­pa­ção/manifestação que se torne potente e legi­tima para mais gente tem menos chan­ces de ser ata­cada pelo governo — que sem­pre bus­cará manei­ras de se dizer “ao lado do povo”.

Dis­pu­tar esses espa­ços e deba­ter a potên­cia de cada movi­mento e ocu­pa­ção é, de certa forma, tra­ba­lhar para que essas for­ças sobre­vi­vam ou mor­ram.

Só acho impor­tante pen­sar bem no que defen­de­mos — por­que, como disse acima, se a argu­men­ta­ção for basal no nível “quem ocupa tá certo” sem­pre, vamos ter de defen­der irre­me­di­a­vel­mente os nazis (não só sua liber­dade de expres­são, mas seu direito de tomar qual­quer espaço); mas se a argu­men­ta­ção for “ocu­par por ideias cri­mi­no­sas é absurdo”, vamos man­dar o MST pra cadeia. Sei não.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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