Uma galera invadiu a câmara dos deputados, protestando contra corrupção e pedindo intervenção militar.

Esse é um daqueles momentos que driblam a gente e colocam em cheque o que (teoricamente) defendemos. Passamos anos e anos dizendo que manifestações fechando ruas e ocupando espaços públicos eram métodos legítimos, parte do jogo democrático, e criticamos duramente quem defendia repressão policial a esses momentos.

Vamos defender agora também o direito de quem tem ideias opostas — abomináveis, para nós?

Muita gente diz que não, que a resposta à intolerância e a opiniões “criminosas” deve ser a repressão mesmo, que não há espaço para isso em uma sociedade democrática.

Mas se for esse o caso, então concluímos que algumas pautas merecem ocupação e outras não. Qual o critério para isso?

Falar em legalidade ou intolerância não resolve — se o corte for “sua pauta não pode desrespeitar o estado de direito”, qualquer manifestação de cunho socialista está banida também. Se o corte for “crime”, manifestações com “apologia” a aborto ou drogas estão fora também. Fica difícil encontrar uma categorização que não soe autoritária e oportunista do tipo “pode quando é do nosso lado”.

A outra opção é tolerância total — toda manifestação é válida. Toda ocupação autonomista é possível. Espaço “público” como posse do governo não existe, e é mais interessante que pessoas interessadas reinventem lugares “do poder” do que manter esses espaços sob jugo governamental.

Essa é a mesma ideia por trás da defesa das ocupações estudantis — que o “direito” de grupos interessados e politicamente ativos se sobrepõe ao direito genérico e difuso de uma população amorfa. Que espaços devem ser ocupados e disputados — que a mediação do Estado não interessa/não é legítima. Uma conclusão anarquista, basicamente.

Eu não tenho 100% de certeza do que eu acho — mas é interessante notar que essa legitimação se constrói exatamente a partir de um imaginário coletivo. Uma ocupação/manifestação que se torne potente e legitima para mais gente tem menos chances de ser atacada pelo governo — que sempre buscará maneiras de se dizer “ao lado do povo”.

Disputar esses espaços e debater a potência de cada movimento e ocupação é, de certa forma, trabalhar para que essas forças sobrevivam ou morram.

Só acho importante pensar bem no que defendemos — porque, como disse acima, se a argumentação for basal no nível “quem ocupa tá certo” sempre, vamos ter de defender irremediavelmente os nazis (não só sua liberdade de expressão, mas seu direito de tomar qualquer espaço); mas se a argumentação for “ocupar por ideias criminosas é absurdo”, vamos mandar o MST pra cadeia. Sei não.


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Leia mais sobre ocupações:

4 perguntas para pensar as ocupações de escolas
A lição por trás das ocupações de escolas

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.
  • Zenio Silva

    O que definitivamente não deveria valer é permitir, em nome da liberdade de expressão, manifestação que defenda ditadura!

  • Elaine Yuki Hondo

    Qualquer manifestação que defenda os direitos civis e apoie causas em favor da vida e liberdade é válida, pois assegura um futuro melhor a todos nós, agora defender morte e repressão à liberdade dos outros indivíduos, que bem traz isso?

    • TK-31

      Não acho que qualquer pessoa faça algo tendo certeza de que quer repressão e morte generalizada. Eles acham que estão lutando pelos direitos deles e pela liberdade deles. Hitler pensava da mesma forma e era repressor e assassino, com certeza.
      Mas a ideia do texto é refletir (mesmo sabendo que a ocupação deles é no mínimo questionável) e não pular para conclusões e respostas na frente do nosso cérebro sem nem querer digerir o que está acontecendo. Isso força extremismos dos dois lados.

  • Cássio Alexandre

    Manifestações que defendam uma ideia que limita os direitos civis e/ou venha a ferir os direitos humanos não deveriam ser permitidos. Esse é meu posicionamento pessoal. A Klu Klu Klanx manifesta todo seu ódio racista sobre negros e louva um processo de segregação. Isso deve ser permitido em nome da liberdade de expressão?

    Embora eu tenha certeza que a oposição de ideias é muito importante numa sociedade saudável, já que é o principal motor para as mudanças, algumas formas de expressão/manifestação são perigosas do ponto de vista dos direitos civis/direitos humanos. É uma faca de dois gumes.

  • Quem assistiu aos últimos episódios polêmicos da política, se assombrou com a invasão da Câmara dos Deputados por parte de pessoas pedindo à volta da ditadura militar enquanto que, paradoxalmente, defendiam Sérgio Moro.

    Este não é um caso isolado, na verdade. O ser humano, e especialmente o cidadão brasileiro mediano, tende não apenas a ser hipócrita, se utilizando da própria expressão, e a levantando enquanto um direito, para defender que o outro seja calado. O ser humano é, acima de tudo, curiosamente um caso de estudo.

    Isso porque as diferentes abordagens ideológicas costumam ter percepções comuns. Você não vê um velho conservador querendo liberdade para sua vida enquanto pede por falta de liberdade institucional sem ver, do outro lado, jovens adultos progressistas pedindo por liberdade, igualdade e justiça sem que façam apologia a ditaduras de esquerda.

    Mas o caso do texto não é um caso tão somente de incoerência. É um caso de direitos. Engana-se quem pensa que atitudes devam ser previamente justificadas para que sejam cometidas. Que algo não seja justificado não significa que não possa ser cometido.

    O mesmo direito que velhos conservadores têm de fazer apologia contra sua própria liberdade de expressão é o mesmo direito que garante que jovens adultos possam ficar pelados protestando pela quebra de sigilo bancário do transporte público de sua cidade. A justificação em ambos os casos é distinta, mas o direito não.